3.
A distância de um nariz para o outro encurtou-se. Pôde sentir a energia vinda daqueles orbes esmeraldinos brilhantes, vê-los encarando o conteúdo dos seus próprios e... Tum-tum, tum-tum. Sentiu-se queimando por dentro. O que é isso?, perguntou-se, o que está acontecendo comigo?, ficou preocupado ao sentir a respiração ficar pesada e as suas pernas ficarem bambas. Instintivamente, inclinou-se para trás e quase se desequilibrara-se, caso não tivesse pisado forte com o pé esquerdo e Albus o segurasse na lateral.
- Scorpius! - Exclamou o moreno em preocupação, tentando capturar a atenção do seu amigo. Mas, infelizmente ou não, o Malfoy não conseguira escutar, de tão entorpecido estava com a adrenalina.
O loiro inspirou um pouco de ar. Estava muito estranho!
- Hum...? - Piscou seus olhos e a imagem tornava-se clara: os olhos verdes estavam numa distância de poucos centímetros e o encaravam com uma inocente curiosidade. Sua cabeça ainda dava algumas voltas, mas sentia-se bem e... O coração deu um solavanco quando aspirou o perfume do Potter e ao se dar conta da posição em que os dois estavam. Al levantou uma sobrancelha, indiferente ao vermelho que se intensificava nas bochechas do Malfoy. - Aah... eh... eh...! - Abriu sua boca e fechou as pálpebras, pondo a face para o outro lado para diminuir o desespero... o que deu errado. Desviou-se dos braços e se recolheu.
Aquilo foi estranho! Aquilo foi estranho! Aquilo foi definitivamente estranho!
- Raios! O que te deu, Scorpie? - Interrogou o amigo, disparando um olhar intrigado ao imaginar por que Scorpius havia se distanciado. E o motivo do loiro desviar sua face. A questão é que o único filho de Astoria e Draco ainda não se acostumara com a sensação que sentia com o moreno, por isso virou-se lentamente com um sorriso nervoso.
- Apenas me senti um pouco... hum, fraco. – Al aproximou-se, confuso pela reação, pousou as suas mãos em seus joelhos e se abaixou para dar uma olhada em Scorpius. O loiro esfregava as suas pequenas mãos em seus olhos e respirava um pouco pesadamente. Estaria chorando? O Potter notou que não e ficou mais disperso em seus pensamentos. Não sabia o que acontecia com o Malfoy. E não era novo que aquilo o deixava um pouco louco.
Ao contrário do que o moreno acharia inicialmente, o outro era uma confusão.
Se um dia Albus achava que sabia algo suficiente sobre Scorpie, neste mesmo dia se provaria o contrário. E o garoto não era um daqueles que aceitariam perder num desafio, por mais complicado fosse.
- Ei, - Finalmente pronunciara-se, os seus orbes esmeraldinos preocupados com a epiderme rubra do loiro. A sua mão se estendeu para poder tocar na testa deste, mas os lábios do menor se entreabriram. - você está bem?
Scorpius meneou com a cabeça delicadamente, os seus olhos acinzentados desviando da direção de Albus e passando para uma janela não muito distante. O calor ainda permanecia queimando o seu corpo, mas era aliviante... e não aliviante. Algo entre o verde das íris, do rosa dos lábios ou o branco não-doentio da pele do outro garoto o fazia querer quebrar a sua própria razão... e o fazer vê-lo mais. Por enquanto, a singela vista do galho dum salgueiro bastante antigo com um ninho de pássaros inquietos era a melhor distração.
- Só estava pensando sobre coisas sem importância, Al. - Disse suavemente ao sorrir, com timidez, para o seu parceiro do crime. Embora o moreno não tenha acreditado nas suas palavras, pela forma como os orbes verdes continuaram a espiar Scorpie, não pôde deixar de achar absolutamente adorável a forma que o loiro sorria sem precisar forçar.
Então, começou a calcular, pensativo... Dor no estômago? Febre? Problemas familiares? ...Mulheres? O mais novo dos Potter fez uma careta interna e incrédula diante dessa possibilidade. Absolutamente não, pensou. James faria o papel que naturalmente caberia à pequena Lily ou à Rose, a de mencionar alguns fatos de outras famílias ou de pessoas que achasse interessantes (o afilhado de seu pai que o diga: Teddy Lupin perdera a conta de quantas vezes o seu nome fora mencionado no 'registro', mesmo sem saber pra quê exatamente o mais velho dos Potter guardava fotos suas no diário que Lily fazia questão de lhe mostrar sem o consentimento do irmão).
Segundo a pesquisa de exatidão duvidosa do seu irmão, atrás de si mesmo (e é por esta razão que Albus não confia nos instintos de 'paparazzi' do mais velho) e de Margaret ou Arthur Zabini (o qual tinha a mesma idade que os irmãozinhos de Scorpie e de Lily Luna), este por razões de 'aparente aura de bad boy', logo estava Scorpius.
Poderia enumerar um milhão de motivos para uma garota gostar da miniatura de Draco, mas não tinha certeza quanto à correspondência dele para as suas fãs. O loiro respondia aos chamados talvez por gentileza ou educação, no entanto, não se interessava. Permanecia com o brilho, com o sorriso que fazia vários efeitos colaterais ao Potter e com uma delicadeza que recordaria a mãe Astoria. Era amável com todos, atrapalhado, modesto e gosta de ajudar a todos.
Mas ele, Albus Severus, nunca viu Scorpius Hyperion Malfoy dizer que estava apaixonado por alguma das garotas da sala.
E o mais estranho, o moreno sentia-se grato e não sabia o porquê.
- Olha, - Houve um desconforto visível em sua hesitação ao falar. Al nunca se considerou o cara correto com palavras certas, mas algo em sua mente simplesmente gritou que precisava falar o que lhe incomodava. O loiro voltou a olhá-lo com curiosidade. O moreno, levemente irritado, pôs uma de suas mãos no topo da própria cabeça ao bagunçar os cabelos com desleixo. - não tenho nenhum sinal do que diabos está acontecendo contigo, mas se você precisar contar qualquer coisa, mesmo embaraçosa ou alegre que você tiver... - Os olhos de Scorpius se levantaram para a expressão zelosa do garoto Potter em admiração. Albus colocou uma mão na cintura e levantou uma sobrancelha. - eu estou aqui, apesar de não parecer exatamente a melhor pessoa do mundo. - declarou.
- Você não precisa ser a melhor pessoa do mundo! - Retrucou o outro, como recusasse o ponto de vista que o garoto dos belos orbes de esmeralda tinha sobre si mesmo. O menor recuou um pouco, como visse que pareceu precipitado, mas logo tomou coragem ao continuar: - Enquanto você for quem você seja e não o que você quer ser, mas lutar para o que quer proteger, você sempre será uma pessoa importante! Não há pessoas melhores, mas melhores pessoas! - disse de uma maneira determinada e sincera.
Albus manteve um olhar surpreso pelas palavras que escapavam. Talvez seja isso que eu vi nele quando apertei a sua mão quando ele me ofereceu a sua amizade? Pensou consigo mesmo, enquanto Scorpius suspirou e murmurar "É o que tenho a dizer".
No entanto, não demorou a sorrir.
- Não está tentando estufar o meu ego com as suas palavras gentis, está, Scorpie? - brincou com ele, mas era certo o quanto, de alguma forma, o loiro conseguia o alegrar sem ao menos perceber.
O jovem Malfoy sentiu o seu rosto efervescer quando a sua expressão tornou a ser de um gato que se deparou com uma situação incomum. Estufar o ego? Palavras gentis?
Cruzes, Potter!
- O quê- - O loiro pôde sentir o seu queixo ir ao chão. Al ergueu uma sobrancelha, como perguntasse "Jura pelo seu bem mais sagrado?" Scorpius fez uma careta. - Não, de forma alguma era gentileza, seu bobão!
- Bobão? - Repetiu enfaticamente o garoto de olhos esmeraldinos num tom de provocação, as extremidades de seus lábios se contraindo num sorriso maquiavélico antes duma pequena risada começar a sair entre seus dentes. Sentindo-se incômodo pela irritação, o jovem Malfoy só fez franzir a testa ao enviar-lhe um olhar envergonhado, reprimindo os seus beiços numa tentativa de não explodir mais palavras. Isso não tem graça, pensou. O moreno não pareceu afetado pela reação, girando os seus tornozelos e dando as costas ao seu companheiro, andando sob o piso áspero do laboratório. Assoprou um pouco para cima. Era isso o que o outro ouvia: um inquieto silêncio. O Potter deu alguns passos a mais, antes de parar e levantar uma de suas mãos para trás num gesto. - Vixe, Scorpie, esses momentos instáveis de sua bipolaridade estão preocupantes. Se você quer uma dica, poderia muito bem tomar um banho de água fria ou comer um chocolate, antes que isso afete a funcionalidade do seu cérebro brilhante. - Debochou sorridente, olhando por cima de seus ombros e observando seu melhor amigo soltar exclamações como "BIPOLARIDADE? FUNCIONALIDADE?" ou "Quem é o bipolar aqui, Potter esquisito? Um momento você está todo amigável e agora você vem com essa?" como um tigre mostrando suas garras. - Você vai ficar aí parado, admirando o quão bonito sou ou não vai me seguir? - após dizer isso, a série de protestos parou automaticamente e o menor desfez a careta de incrédulo.
- Seguir? - A questão saiu como um sussurro. - Seguir pra onde? - quis saber, a curiosidade supervalorizada sob as suas intuições.
O dedo de Albus apontou para uma caixa de papelão na parte mais alta duma das estantes de vidro, próxima da escada de madeira que o menino utilizara momentos antes. Os olhos pequenos e adoráveis de Scorpius seguiram a direção e ele perguntou-se mentalmente sobre o quê o melhor amigo se referia. Então, observando mais atentamente, piscou as pálpebras e virou-se para o Potter, sem acreditar. Um adesivo amarelo vibrante de "CUIDADO: PERIGO!" fez a sua mente piar e o seu rosto encarou aquilo em assombro.
O que esse maluco pretende fazer? Preocupou-se, sentindo as suas palpitações ficarem mais constantes. Para deixar a situação mais tensa, o outro garoto alargou o sorriso enquanto uma faísca de eletricidade deixou-se aparecer no conteúdo de seus orbes verdes.
- Não tenha medo. - Disse ele gentilmente, andando para perto de Scorpius e tocando em seu ombro. - Tudo vai ficar bem. Você confia em mim ou não?
Os orbes cinzentos do loiro encararam os verdes de seu melhor amigo, como quem quer evidenciar alguma dúvida, antes de fazer uma careta e fazer um longo suspiro.
- Claro que sim! - Respondeu num tono sério, num olhar duro de "isso não é óbvio?", enquanto o sorriso de Al se alargava ao deleitar-se com a exclamação. - ...Mesmo você sendo o Rei em fazer alguma coisa sem pensar duas vezes... - resmungou baixinho, pretendendo guardar essa frase para si, embora Albus surgisse furtivamente atrás de si.
- Heeei! - O garoto de olhos verdes pôs as mãos na cintura ao disparar entre os dentes. Scorpius sobressaltou-se por um breve momento, fazendo uma careta, antes de encarar o seu melhor amigo. Este levantou o queixo. - Rei de não pensar duas vezes? - Estreitou os olhos. - Você está me comparando ao James? - e ergueu uma sobrancelha.
- Peraí, eu nem mencionei isso...! - Os olhos acinzentados se arregalaram e o loiro se aproximou, movido pela indignação, do moreno.
- Obviamente, você não precisa. – Albus suspirou, fingindo estar desgostoso, embora um sorriso interno crescesse quando Scorpie fez um ruído irritado com a boca. O Malfoy não parecia estar se acostumando com as reações do garoto de orbes esmeraldinos. Os que, naquele momento, tiveram um brilho de malícia e que fizeram o sorriso se deslocar para o lado. – Se bem que poderia pedir uns conselhos do meu irmão de como ele conseguiu driblar os seguranças da escola para conseguir fazer as idéias mirabolantes dele.
- Isso seria ilegal. – Desaprovou o loiro, balançando a cabeça negativamente quanto a questão. O moreno deu-se de ombros, fazendo uma careta de "Quem se importa?". O outro abaixou seus ombros, contorcendo o rosto em irritação e semi-cerrando suas pestanas alvas. – Ahhh, você não entende, não é? Não é legal gazetar aulas, Al. O professor e os nossos pais ficariam muito bravos. Sempre quando o vejo bravos, posso imaginar a bronca que vou levar do meu pai. Acredite, preferia ver um tubarão à cara dele. Ele parece um tomate em chamas.
O Potter arqueou sua sobrancelha esquerda.
- James não mostrou uma assinatura falsa do papai. – Al se virou para o seu melhor amigo, sua face adquirindo uma expressão despreocupada que se contrastava com o rosto incrédulo do loiro. Não precisava saber como seria a reação do pai de Scorpius. Imaginava, já, a fúria que todas as ruivas Weasley herdaram e a sua mãe poderia ser um ótimo exemplo disso. – A criatividade dele o salvou, o que posso dizer? – Disse, dando uma leve risada e andando até a escada. – Além disso, estamos no laboratório sem alguma permissão. Sozinhos, sem algum acompanhante... – A cada silaba, seu sorriso assemelhava-se ao de Cheshire, mostrando seus dentes.
O efeito que o moreno lhe provocava... Fez Scorpius querer enterrar sua cabeça em algum lugar.
