Crônicas de Hetalia: o ET, o americano e o banheiro


Disclaimer: Axis Powers Hetalia pertence a Hidekaz Himaruya até que digam o contrário.


Capítulo 3: Coisas que não se deve fazer no quarto de Ivan Braginski

E não foi apenas isto que eles ignoraram. Do lado de fora da porta alguém caminhava lentamente, mantendo os olhos atentos em tudo à sua volta. O barulho de seus passos ecoava ruidosamente no corredor de paredes douradas e suas mãos, escondidas nos bolsos do casaco de couro, se mexiam inquietamente. Procurava algo ou alguém, ou talvez a mistura de ambos. Agora que a reunião havia sido pausada e Arthur havia evaporado, nada o impediria de encontrar aquilo que procurava.

Quando Alfred caminhara uma considerável parte do corredor, ouviu ruídos que lhe soaram extraterrestremente familiares. Sim, ele podia ouvir clara e distintamente uma voz aguda, que repetia seu nome. A voz provinha de um dos quartos, cuja porta estava entreaberta. Ele aproximou-se e espichou o pescoço, para confirmar se não havia nenhum membro do G8 ali dentro. Constatando que naquele local só poderia estar o seu agonizante e solitário Tony, Alfred tomou distância da porta e respirou fundo. Em seu melhor estilo heróico e norte-americano de arrombar uma porta de hotel sem pagar pelos prejuízos, Alfred entrou no quarto. A porta bateu com força contra a parede, e rangeu em protesto.

- Tony? – ele perguntou, sussurrando, mesmo estando praticamente sozinho ali. – Tony? Alfie está aqui para te encontrar~. - e se ajoelhou perto do local no qual supunha ouvir a voz de seu alienígena. Debaixo de cama.

Frente a seus olhos, nada mais do que uma imensa escuridão. Era quase como se aquele fosse o portal para um outro mundo, ou para aquele lugar frio e assustador do qual Arthur sempre lhe falara quando criança. O bicho papão não havia sequestrado Tony, tinha...? Engolindo em seco, Alfred fez menção de engatinhar para baixo da cama quando um estrondo pode ser ouvido atrás de si seguido de passos no corredor. Com o coração quase saltando-lhe pela boca, o norte-americano enfiou-se embaixo da cama e lá esperou que os passos parassem e que seu Tony logo voltasse para seus braços.

Para seu desespero, no entanto, o som dos passos aumentava com uma freqüência indesejada. Conseguindo equilibrar os óculos sobre o nariz, Alfred viu sua sentença de morte no batente da porta, arrastando no chão. Uma manta cor de creme. E os pés de seu dono. Ivan. Alfred se forçou a conter um grito e a não começar a escrever seu testamento enquanto se encolhia cada vez mais, rezando para que o russo não o visse. Bicho papão? Um mundo assustadoramente escuro? Como se o norte-americano lembrasse da existência destes...!

Ivan aproximou-se ainda mais da cama, a manta fazendo um barulho suave ao arrastar, preenchendo o quarto, junto do tremor dos dentes do pobre coitado que se encolhia. Ele deitou-se, sem nem ao menos tirar os sapatos, caindo pesadamente sobre a cama de lençóis beges bem arrumados. Alfred viu, numa fração de segundos, toda a sua vida passar diante de seus olhos, com direito a trilha sonora de Titanic. O barulho da madeira do leito rangendo sob o peso de Ivan, contudo, o trouxe para sua desconfortável e escura realidade.

Precisava sair dali e rápido! Seu amado Tony precisava de ajuda e ele não poderia morrer sem declarar uma guerra oficial a Arthur após mais uma discussão de "Mcdonalds faz uma comida bem melhor do que a sua". Ele ainda precisava salvar o mundo e aproveitar mais um dia na companhia de Kiku. Precisava voar nos aviões que designara (retardadamente) e assistir alguns filmes de terror enquanto se enchia de pipoca e coca-cola. Era isto, viveria! Sairia das garras do vil comunismo, perdão, Ivan! Um tímido brilho de coragem atingiu seus olhos ao pensar nisto. Mas a pequena chama se apagou quando ele lembrou que estava embaixo da cama de seu assustador inimigo sem qualquer chance de salvação.

Pela respiração que ouvia da parte superior, o russo estava tendo um sono profundo. Tentou virar ligeiramente para a direita, obtendo em resposta um novo e mais alto ranger da cama. Fechou os olhos com força, pedindo mentalmente para que aquele barulho não tivesse acordado Ivan. Sua prece fora atendida visto que ele apenas fungou forte e se virou, fazendo com que as tábuas de madeira se apoiassem contra o rosto do americano. Alfred soltou um muxoxo e conformou-se com o fato de que morreria ali. Nunca mais sairia. Jamais veria a luz escaldante do sol ou sentiria o cheiro hipnotizante de um hambúger novamente.

Parou de se lamentar quando sentiu dois olhos sobre si. Estremeceu. Não queria olhar, não queria saber quem era. Tinha vontade de se virar e sair correndo, mas atrás de si só havia aquele mundo sem qualquer luz... Um mundo que se recusava a aceitá-lo ou salvá-lo. Lentamente, Alfred virou-se para aqueles olhos que continuavam focados nele. Notou um rosto conhecido com uma expressão de confusão e sono. Não sabia se gritava ou se simplesmente ficava calado, esperando o que aconteceria a seguir. Resolveu, após alguns minutos pensando, escolher a segunda opção.

O par de olhos castanhos que o encarava piscou incredulamente. Talvez aquele alguém que estivesse diante de si não fosse quem ele realmente pensava que fosse; poderia ser uma alucinação dado o cansaço da viagem, a inabilidade dele de se adaptar ao fuso-horário ou ainda poderia ser o efeito de confundir sua garrafinha de água com a de vodka do companheiro de quarto, de novo. Mas não havia engano. O olhar meio determinado, meio suplicante, a boca levemente suja com restos de alface e um molho nada saudável não deixavam dúvidas. Yao estava encarando Alfred rezando debaixo da cama de Ivan.

Já estava no final da terceira Ave Maria quando Yao finalmente conseguiu falar.

-O que está fazen... - Começou a perguntar antes de ser interrompido com um gesto desesperado de silêncio. Vários gestos imitando letras se seguiram. Yao, confuso com ambos gestos e presença inesperada, levantou a mão, gesticulando que ele parasse. - Estou acostumado com ideogramas. - Contou em um sussurro. - Não estou entendendo nada.

Alfred só não se deixou cair no chão desamparado por causa do risco que tal ato envolvia.

- Faça linguagem labial. – os lábios de Alfred formaram palavra por palavra que, graças a um milagre da Terra do Nunca, haviam sido bem interpretadas por Yao.

- Como você veio parar aí, em primeiro lugar?

- Eu estava procurando pelo Tony! – Alfred chorou.

- O Toris? O Lituânia? Se for dele que você estiver falando, saiba que Toris é, de fato, próximo do Ivan, mas não precisa procurá-lo debaixo da cama dele...- o chinês ergueu uma sobrancelha, confuso.

- Não, Tony! Meu amigo alienígena! – o norte americano especificou.

- Seu amigo o quê? - Indagou Yao sem som algum.

- Esquece, esquece. O importante é que eu tenho que sair daqui. Vivo.

-...Então por que não sai?

- Por que tenho uma arma mortífera em cima de mim, ora bolas!

- Tsc, agradeça por não fazer fronteira com ele... – Yao olhou através da janela do quarto, pesaroso.

- Yao-san, pare de recordar assuntos centenários e imutáveis, e me ajude a sair logo daqui!

- ...Centenários? Por acaso você está me chamando de velho? – os finos lábios de Yao se contraíram de modo drástico e pela primeira vez, o norte-americano compreendeu a razão pela qual boa parte dos asiáticos o respeitava e temia.

- Não...De modo algum...- ele tentou emendar. – Yao-san! Por favor. – Alfred juntou as mãos em um pedido silencioso.

Após pesar os prós e os contras, Yao fitou Alfred e acenou afirmativamente com a cabeça. Não teria nada a perder, afinal não era como se Rússia e Estados Unidos não fizessem parte da mesma aliança. Olhando para os lados e se forçando a ignorar o travesseiro que o tentava seduzir, Yao começou a pensar num plano de fuga. Era simples, só precisava fazer Ivan ter ótimos sonhos. Veria ele acordando de bom humor no dia seguinte e não haveria bomba atômica que o fizesse acordar antes que Alfred já estivesse a uns três quarteirões de distância. Mas nem sempre simples e fácil são amigos próximos. Yao não fazia ideia de como fazer tal plano funcionar.

Ivan fungou forte pela segunda vez, fazendo a manta tremer de leve. Era um sinal. Precisavam agir rapidamente e em conjunto, caso não quisessem que a ira do russo ao acordar – ou no pior pesadelo possível para qualquer criatura com o mínimo de sanidade mental, a ira da irmã mais nova do maluco do cano de ferro - recaísse sobre si. Yao suava em um ritmo queniano. Levantou-se devagar, tentando pensar em algum plano que não envolvesse sua pessoa a pelo menos um metro de distância de Ivan. Alfred aguardava o resgate e sustentava sua prece, recorrendo não apenas a santos cristãos, mas também a religiões budistas, judaicas e evangélicas.

Havia de ter algo naquele quarto que pudesse salvar Alfred! Yao foi até sua cama e começou a olhar as coisas que tinha trazido (um panda de pelúcia, um pincel, um vidrinho de tinta, um número considerável de pergaminhos, seu travesseiro favorito e macio, alguns itens de higiene pessoal e um guia intitulado "Como desenhar mangá"). Até pensou em pegar o panda e entregá-lo à Ivan, mas a simples imagem do pobre animalzinho sendo abandonado nas garras do russo fez Yao estremecer. Negou a ideia de entregar a Ivan o amado travesseiro logo que a teve. Realmente, parecia que não havia trazido nada de útil para este tipo de situação.

Yao deu a volta ao redor da cama de Ivan, com as mãos puxando os cabelos longos. Parou quase que instantaneamente e olhou para as próprias mãos. Era isso! Ele tinha que puxar Alfred de lá! Mas não poderia fazer isso com o panda de pelúcia, muito menos com o pincel, a tinta, o guia ou os preciosos pergaminhos. Teria que improvisar uma corda. Pegou o travesseiro e tirou a fronha dele. Já era algo. O olhar desesperado repousou na manta, mas abanou a cabeça com força. Tirar a manta de Ivan não era uma opção. Fixou-se em Alfred, que tentou tirar o casaco para ajudar na corda, porém, acabou imobilizando ambos os braços. Então Yao cerrou as pálpebras, os dentes trincados. Ele não tinha escolha. Virou-se de modo que Alfred não pudesse vê-lo e tirou a Tangzhuang vermelha, fazendo o norte-americano entrar em um estado de pânico pós-apocalíptico. Yao pegou a fronha e a amarrou na ponta da roupa. Depois foi até o americano, e afixou o projeto de corda na mão direita desse.

Alfred o fitava, confuso, mas Yao ignorou-o e começou a puxá-lo para longe da cama de Ivan. Seu rosto, tomado por um rubor que tinha a mesma cor de sua vestimenta, deixava clara sua irritação. Queria terminar com aquilo de uma vez, colocar sua Tangzhuang e abraçado em seu travesseiro dormir. Mas pelo visto aquilo ia ter de esperar um pouco. Primeiro problema: Alfred era pesado. Esse devia ser o preço a se pagar por todos aqueles hamburgers e McLanches felizes. Segundo: Ivan havia por algum motivo se virado justamente para eles. Ainda estava dormindo, graças a Deus e todos os santos para quem o norte-americano havia rezado, mas nem assim deixava de ser assustador. Quer dizer, Ivan dormindo não era nem um pouco assustador. A ideia de ele poder acordar a qualquer momento que era.

Cuidadosamente, Yao apoiou um dos pés na cama de Ivan, puxando mais força ainda, seguido por mensagens encorajadoras de Alfred que envolviam recompensas em forma de qualquer produto que o Mcdonalds pudesse oferecer aos seus clientes. Não estava adiantando. O chinês, exausto, puxou com muita força, conseguindo libertar o simpatizante de extraterrestres de sua prisão escura. A força, para a desonra e tristeza do salvador sem Tangzhuang, resultara em uma queda deste sobre Alfred, que berrara alto. Houve um minuto de silêncio, o suficiente para os claros cílios do russo se mexerem. Naquele momento compreenderam que seriam torturados até cuspirem os próprios rins pela irmã mais nova do dono do par de olhos que miraram os dois sujeitos, sonolento, confuso e levemente risonho.

- O que estão fazendo? - Perguntou o russo já sentado na cama, esfregando os olhos violeta lentamente. A face corada de Yao havia dado lugar a qualquer cor mais branca do que o próprio branco e os óculos de Alfred estavam de tal forma desajeitados que ele só conseguia enxergar Ivan com o olho direito. Nenhum dos dois conseguia falar ou se mexer. Era o fim, cantava qualquer música instrumental triste que passava na mente deles no momento. Fizeram todo aquele plano para nada. Era mais fácil terem gastado aquele tempo escrevendo um belo testamento e pensando em suas últimas palavras.

- Ivan-san... – a Alfred só restava preparar a voz no melhor estilo falsete e apelar a fatos não verdadeiros sem fundo lógico e que possivelmente prejudicariam a moral de seu salvador. – YAO-SAN ESTAVA TENTANDO ABUSAR DE MIM! ME AJUDE!

- Eu o quê? - Berrou Yao, voltando a ficar da cor de um pimentão.

Ivan pegou qualquer coisa apoiada na parede e levantou-se usando-a como suporte. Era o cano prateado, agora tomado por um brilho sanguinário tão mortífero quanto o olhar de Ivan quando se irritava. Yao, tomado por tremores que mais pareciam convulsões, largou a "corda" e voltou-se para a porta do quarto, correndo logo em seguida. Quando o barulho de seus passos desapareceu, Ivan virou-se para Alfred e, segurando o cano com força, disse com ambas voz e expressão diabólicas:

- É feio mentir...

Não há necessidade de detalhar os gritos, tentativas de tortura, risadas, pedidos de socorro e banhos de sangue que se sucederam após o levantar do yandere do cano prateado. Essas devem ser as possíveis razões que motivaram Yao a correr em direção a recepção do hotel e obrigar o gerente, que o mirava pasmo, a trocar de quarto.


N/A: Esse capítulo definitivamente reflete todo o nosso amor, admiração e temor pela Rússia. E, para encerrar esse projeto de N/A, lembre-se: não deixar reviews pode fazer sua capital passar a se chamar Varsóvia.