CAPÍTULO III: ESPERA
X.X
"O tempo é um amigo querido ou um inimigo mortal, depende somente do que se espera."
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Kiba e Shino estavam bem posicionados, longe o bastante para evitar serem vistos, mas não tão longe a ponto de atrapalhar um possível resgate ou reforço a Hinata e Kurenai, caso fosse preciso. Elas estavam disfarçadas de civis, enquanto recolhiam informações a respeito de um grupo de malfeitores que assombravam a redondeza, a Fraternity of the Justice, grupo de ninjas exilados de várias vilas que "ofereciam" sua proteção em troca de uma "pequena ajuda". Na verdade, eram mercenários que ameaçavam e extorquiam pequenos comerciantes, torturavam e, havia evidências mas não provas, estupravam e matavam pessoas inocentes.
Uma missão muito delicada se fosse levado em conta o fato de que os moradores do pequeno vilarejo não se consideravam fazendo parte de nenhuma aldeia - já que, na verdade, o povoado foi se formando lentamente com refugiados de muitos lugares diferentes -, embora estivem muito próximos de Konoha, motivo pelo qual Tsunade tinha mobilizado essa tarefa. E o que mais atrapalhava era o fato de que uma parte da população do vilarejo estava amedrontada demais para se arriscarem a falar e a outra parte ou era partidária da Fraternity of the Justice ou era composta de informantes do grupo.
Kurenai e Hinata foram escolhidas para entrarem no vilarejo uma vez que seria mais fácil para elas se infiltrarem. Kiba e Shino ficaram do lado de fora, mas prontos para qualquer eventualidade, uma vez que acompanhavam toda a ação por meio de comunicadores que estavam escondidos nas roupas das ninjas. A Fraternity of the Justice tinha uma rotina quase rígida: sempre iam ao vilarejo às terças, quintas e sábados, sendo muito raras visitas fora dessas datas. Por isso a missão foi organizada para uma quarta-feira. As kunoichis teriam mais liberdade para agir e o perigo seria menor. Hinata e sua sensei ensaiaram a história de que eram refugiadas da Vila do Som que estavam indo à Vila da Areia para encontrarem parentes distantes e que decidiram fazer uma pausa da cansativa viagem. Assumiram os nomes de Chang e Gakari, respectivamente.
Foram recebidas pelos habitantes do lugar com um misto de "boas vindas" e desconfiança. Alguns moradores foram bastante reticentes e nada disseram de relevante, mas alguns soltaram algumas pistas. Apenas uma pessoa, um jovem de cerca de treze anos chamado Ran, falou abertamente sobre as ameaças e as ações atrozes dos bandidos. Mas calou-se repentinamente e ficou muito retraído quando a dona da hospedagem aproximou-se do grupo. Motivo mais que suficiente para que Hinata e Kurenai ficassem de sobre alerta.
A senhora se apresentou às supostas forasteiras muito gentilmente, mas seu olhar não mentia, ela era uma farsante e estrategista muito boa. Por baixo se sua aparente fragilidade e inocência havia uma crueldade dissimulada e uma inteligência muito aguçada.
Logo no início da conversa ela começou a fazer perguntas pouco usuais, sondando sobre o que as forasteiras sabiam sobre a Vila do Som e disse que também, mas já fazia muito tempo, tinha saído de lá. Kurenai logo percebeu que se tratava de um "jogar verde para colher maduro" e passou a responder apenas por evasivas, mas Hinata, apesar de também perceber o artifício da velha, se atrapalhou um pouco e até chegou a gaguejar.
Kurenai rapidamente abraçou Hinata e explicou à velha que a garota tinha sofrido demais, perdera os pais e o irmão e que ainda estava se recuperando e que ela falava assim desde que a encontrara, pouco antes de decidir sair da vila. Ran, que se mantivera em silêncio até então, decidiu intervir, dizendo que estava dizendo a Chang que a vida era assim mesmo e que isso logo passaria.
A velha não se convenceu, mas também não insistiu e entrou na estalagem. Ran deu a entender que a anciã mandaria um alerta para a Fraternity of the Justice e que era melhor elas irem embora e perguntou se poderia ir junto já que não tinha família e seria alvo dos bandidos. Kurenai deu um alerta para Shino e Kiba, que se posicionaram rapidamente, interceptando a velha e prendendo-a e saiu do vilarejo com Hinata e Ran.
Ao chegarem à Konoha, Tsunade encaminhou Ran para um casal de idosos, cujos filhos já haviam casado e que ficariam muito felizes com a presença de Ran. Depois, encaminhou a velha para o interrogatório. A mulher, apesar de ser bastante durona, não demorou a falar e entregou todos os planos e pontos fracos da Fraternity of the Justice com a exigência de que receberia asilo. Tudo o que recebeu, entretanto, foi a garantia de que teria uma prisão justa até o fim de seus dias. Aceitou. Com as informações obtidas, Tsunade organizou uma força-tarefa que derrotou a Fraternity of the Justice. O vilarejo e as redondezas ficaram livres desses bandidos sanguinários, pelo menos naquele momento.
A vida de um ninja é sempre repleta de surpresas e é preciso estar sempre disposto a se adaptar e a ser flexível. O bem da vila está acima do bem de um indivíduo em particular. Todo ninja, ao aceitar esse desafio, sabe das suas obrigações e dos sacrifícios que podem vir a fazer, e se sentem orgulhosos de fazerem tudo por sua nação e seu povo.
Naruto, Neji, Kiba, Shino e Kurenai eram assim. Todos os ninjas que conhecia o eram. Hinata não tinha medo de morrer se fosse preciso. Não temia mais o perigo, mas não conseguia se adaptar como os outros faziam tão facilmente. Sua timidez atrapalhava bastante. E ela ficava muito triste por não poder ajudar mais.
Não que lhe faltasse coragem, mas lhe sobrava timidez. O que, invariavelmente, acabava por lhe atrapalhar a iniciativa e a ousadia. Hinata estava particularmente triste neste dia. A missão do seu time quase tinha sido frustrada porque ela gaguejara e não soubera "mentir" tão bem quanto deveria.
Mas Hinata também mudara e estava mais madura e segura do que antes. Prometeu a si mesma que melhoraria seu desempenho. Decidiu procurar a ajuda das outras kunoichis. Em outra época, pedir a ajuda seria muito constrangedor para ela uma vez que estaria admitindo sua fraqueza e tinha medo do que pensariam os outros, agora ela não pensava assim. Pedir ajuda significava que ela queria melhorar.
Hinata decidiu falar logo com Ino, pois achava-a muito segura e desinibida.
_ Bom dia, Ino-chan. Como você está?
_ Estou bem, Hinata. E você?
_ Er... ahm. Estou bem, Ino-chan. Na verdade, eu estava querendo umas dicas suas.
_ Claro! Pode falar.
_ É... sobre o trabalho de uma kunoichi... sobre interpretar bem um disfarce.
Ino sorriu. Não um sorriso sarcástico ou arrogante, mas um sorriso encorajador. Ela percebeu que para uma garota tímida e inocente como a Hinata essa parte deveria ser especialmente complicada.
_ Você disse a palavra-chave, Hinata: interpretar. Não é você, é tudo uma performance. Você tem que imaginar como é o personagem que vai ser e agir de acordo. Você passa a ser o personagem. Só por um tempo, sabe. Quem você é de verdade vai estar sempre bem guardado... Veja bem, é como se fosse outra pessoa dentro do seu corpo. Você ainda vai estar lá comandando tudo, apenas agindo como se fosse outra pessoa.
_ Ah... _ Hinata disse, entendendo a essência da coisa, só que ainda achando muito complicado.
Suspirou resignada.
_ Obrigada, Ino-chan! _ disse já se afastando.
Ino acenou e sorriu.
Ao passar em frente ao Ichiraku, Hinata avistou seus colegas, Kiba e Shino e Naruto sentados, comendo ramen. Shino acenou, chamando-a.
Depois de uma eternidade tomando coragem e acalmando seu coração, Hinata se aproximou, cumprimentando-os. Seus colegas de time, cumprimentaram-na afetuosamente, Naruto sorriu timidamente.
_ Oi, Hinata.
_ O-oi, Na-naruto-kun – Seu sorriso sincero e seu olhar límpido, faziam-no ainda mais bonito e, consequentemente, Hinata mais nervosa.
_ Como você está? _ perguntou, gentilmente, o louro.
_ B-bem, Na-naruto-kun, o-obrigada. _ Hinata deu um sorriso tímido.
Seus colegas de time sorriram discretamente, o que Hinata sentia por Naruto nunca foi segredo para eles.
Antes que Naruto ou Hinata pudessem iniciar uma conversa de fato, Sakura chamou-o:
_ Naruto, para de comer e vem cá. Temos uma missão.
_ Estou indo, Sakura-chan. _ Respondeu Naruto engolindo rapidamente seu ramen e correndo atrás da garota de cabelos rosados. Já estava na estrada quando acenou um "tchau" para os colegas, tão rápido que nem, ao menos, virou-se.
_ Você vai querer comer o que, Hinata? _ perguntou, atenciosamente, Kiba.
Hinata, que estava absorta em pensamentos, virou a cabeça para o ninja com as bochechas marcadas tão caracteristicamente.
_ Obrigada, Kiba-kun, mas eu já vou indo. Espero que se divirta com Shino-kun.
Hinata se despediu dos amigos e saiu, andando apressadamente.
_ É incrível como a Hinata gagueja quando está com o Naruto. _ Comentou Kiba.
_ Agora já é bem menos. _ Respondeu Shino.
Os dois amigos ainda ficaram algum tempo no Ichiraku, depois ambos foram para suas residências.
Hinata já estava em casa, havia treinado um pouco, para poder se distrair e agora estava tomando um banho de banheira. Uma das coisas boas em pertencer à família Hyuga era não se preocupar com gastos, embora Hinata não se importasse muito com isso.
Ela estava imersa na banheira com água quente, pensando como era doloroso estar apaixonada por um rapaz que não lhe correspondia. Não tinha raiva do Naruto, nem podia culpa-lo. Ele era gentil e amável, um guerreiro persistente e um ninja poderoso. Ela era a inspiração de muita gente, dentre os quais se destacava Konohamaru e ela própria. Naruto não se deixou abater pela dor ou pelos obstáculos, ele fez seu próprio destino. Acima de tudo, Naruto era leal a sua nação e fiel à seus amigos, abandoná-los estava fora de questão. Naruto era forte e isso fez com que Hinata também buscasse ser mais forte. Mais forte, mais perseverante... enfim uma ninja e uma pessoa melhor.
Naruto... Naruto... Naruto... Naruto...
Todos os seus pensamentos giravam em torno do louro bem humorado e bonito. Suspirou longamente. Depois sorriu sem graça, por mais que doesse vê-lo, pouco a pouco, se afastando, sabia que seria impossível deixar de amá-lo. Tinha consciência de que ele poderia, um dia ou outro, namorar com Sakura ou qualquer outra garota. Mas Hinata não ia deixar de amá-lo. Nunca.
Além de tudo, amá-lo era uma coisa boa, ela tinha mudado por ele.
Agora, só lhe restava esperar. Pagar pra ver. Mas não era uma coisa tão fácil assim. Ela sabia o quanto Naruto gostava da Sakura. E pensar que um dia eles finalmente ficariam juntos e que ela teria que escolher um outro rapaz para ser seu companheiro - Hisashi jamais permitiria que ela interrompesse a linhagem da família - lhe dava calafrios. Suportaria ver o Naruto com outra pessoa, desde que ele estivesse feliz. Mas não suportaria pertencer a outra pessoa, beijar outra boca que não a do rapaz que sempre amara... O pensamento causou-lhe um embrulho no estômago. Beijar outra pessoa? Não, não seria capaz. Só seria capaz de beijar o Naruto... apesar de estar na segurança de seu quarto, não pôde deixar de ficar um pouco ruborizada.
Balançou a cabeça para afastar os pensamentos. Levantou-se da banheira e pegou uma toalha. Só então viu suas mãos. Estavam arranhadas e machucadas tanto quanto as de Neji. Engraçado, tinha sentido suas mãos doerem durante o treino, mas não imaginou que as tivesse machucado assim. Abriu a kit de primeiros socorros e tirou de lá uma faixa. Estava mesmo mudada.
Arrumou-se rapidamente e desceu para o jantar, seu pai odiava atrasos.
Hiashi, Hanabi e Neji já estavam esperando por ela quando Hinata desceu. Esperou uma represália do pai, mas este não se manifestou. Se alguém percebeu as faixas na mão de Hinata, ninguém comentou nada. Foi uma refeição, como de costume, muito silenciosa. Cada um imerso em seus próprios pensamentos e emoções. Sua família era mesmo introspectiva... depois queriam que ela falasse com desenvoltura.
Depois do jantar, Hiashi levantou-se deu um "boa noite" muito formal e se retirou. Hanabi levantou-se logo em seguida, despediu-se e foi para seu quarto, Neji levantou-se também, ao mesmo tempo que Hinata. Ela deu-lhe um "boa noite" sincero e se dirigiu para a porta.
_ Vai sair, Hinata-sama? _ perguntou suavemente.
_ Hai, Neji-nii-san. Só vou ficar um pouco na varanda. Estou sem sono.
_ Posso lhe acompanhar?
_ Hai.
E caminharam juntos para a varanda. Lá, Hinata sentou-se no parapeito e ficou olhando o luar claro e límpido. Neji ficou de pé, encostado numa pilastra.
_ O treino foi pesado hoje, não?
_ Só um descuido... _ Disse Hinata baixando os olhos.
_ Treinar é uma rotina muito importante para um bom ninja, só não exagere tanto. _ retrucou o rapaz, dando de ombros ao ver as faixas que cobriam suas próprias mãos e pernas, além das que rodeavam seu tórax, por baixo do kimono.
Hinata preferiu não falar nada. Continuou olhando a lua.
_ Igual aos nossos olhos. _ falou calmamente Hinata.
Neji demorou um pouco para acompanhar o raciocínio da prima, até que percebeu que ela olhava o céu. Neji acompanhou seu olhar: a lua estava prateada e límpida, clara e muito bonita, como os olhos do clã Hyuga. Neji nunca tinha parado pra pensar numa coisa dessas, Hinata era uma garota muito sensível. Talvez suas habilidades não dependessem tanto da sua força.
_ Sim. _ disse Neji simplesmente.
Ficaram um tempo calados cada um preso em seus próprios sentimentos e angústias, mas não era um silêncio pesado.
_ Boa noite, Hinata-sama. Não se resfrie. _ Disse Neji ao entrar.
_ Boa noite, Neji-kun. Não se preocupe.
Hinata envolveu os joelhos com as mãos, fitando a noite, encantada com o brilho que a lua cheia dava à paisagem e deu um longo suspiro.
Continua...
