Outra
vida
Outra
tempo
Somos
gêmeos siameses nos contorcendo entrelaçados
Cara
a cara
Sem
dizer mentiras
Eles
tiram as máscaras para revelar um novo disfarce
Face
to Face — Siouxsie and the Banshees
3. Baile de Máscaras
Narcissa começou a sentir falta de Bellatrix. Andrômeda não ousaria aparecer numa cerimônia da família depois da desgraça que tinha causado. Há pouco tempo atrás, Narcissa ainda sentia a presença da irmã. Andrômeda radiava essa inquietação que ninguém podia realmente entender.
Ela demorou a escapar dos imbecis; suspirava por retirar-se logo e por uma xícara de chá. Camomila, como sempre fora. Enriquecera sua vida com as coisas mais finas — quando os seus circundantes são imaculados, internamente você fica chateado. Narcissa era a pessoa mais materialista que jamais existiria, mas as constantes mudanças na casa tinham sempre afligido seu pai, que de má vontade permitia as renovações, já que ela era sua filha preferida.
Bellatrix era um bom contraste; enquanto Narcissa passava os dias dando ordens a qualquer um sobre quem ela tivesse influência, Bellatrix ficava sentada no balanço de corda e madeira enquanto o vento a empurrava levemente com sua brisa. Ela ficava sentada naquele balanço o dia inteiro garatujando incoerências que Narcissa não compreendia nem queria compreender.
Bellatrix tinha uma biblioteca inteira de seus cadernos, cada um mais dissipativo com respeito a vida e existência que o anterior. Bellatrix sempre tinha sido vista como se por um caleidoscópio, fragmentos e distorções de algo de que ela provavelmente nunca teria a figura inteira. Eram como a luz e a escuridão. Nenhum dos dois prevalece, já que nenhum pode existir sem o outro, mas a diferença é tão drástica que assusta.
Narcissa tinha um orgulho próprio de tudo, Bellatrix odiava tudo e Andrômeda negava tudo. Eram todas sombras de cinza.
Ninguém odiava mais que Andrômeda. Aquela era Andrômeda para você, Narcissa pensava, sempre uma contradição. Bellatrix detestava tudo em que batia os olhos, não havia uma razão para isso e era uma parte de sua personalidade. Havia algo no modo como Bellatrix olhava para você que te fazia murchar por dentro. Era tinha um olhar muito calculista. Te destripava como um peixe com os olhos.
Narcissa lembrava algo fino e usava um sorriso verdadeiro em seu rosto sem expressão debaixo da máscara. Essa máscara metafórica era usada tão constantemente que você certamente acreditaria que era a verdadeira face dela. Se ela tivesse emoções, se tivesse expressões verdadeiras, se sentisse algo por alguma coisa, com respeito a alguma coisa...
É frustrante quando você quer uma reação de uma coisa esculpida em pedra, ou mais de uma coisa mais fria, do gelo, gelo seco, o tipo que vai ferir sua pele se você tocá-lo. Então você desiste, porque não importa o que você faça, aquela pedra nunca vai se mover, e aquele gelo nunca vai chorar ou mesmo sorrir de volta para você.
Conforme ela perspicazmente deu uma olhadela pela área de entrada, que era muito espaçosa e usada para encontros casuais e outras coisas semelhantes, Narcissa estava pronta para mover as pessoas para salão de dança adentro, de modo que chamasse sua atenção.
— Se eu pudesse dirigir vocês, damas e cavalheiros, ao salão de dança por aquele corredor ali, sim... não... sim, certo, aquele ali, terei o banquete preparado e vamos brindar à minha querida irmã... que parece ter fugido de novo! — Narcissa disse com um sarcasmo frio conforme analisava o ambiente de modo tão intricado que era como se seus olhos fossem de um vidro magnífico, o que ela não percebia.
A multidão casquinou ao comentário amargo de Narcissa e todos eles se moveram como uma manada lenta de gado, transbordando para dentro das portas duplas e rastejando pelo saguão atapetado de vermelho através de outro conjunto de portas de carvalho e para dentro de uma sala espaçosa retangular que se esticava tão alto que não dava para ver o teto, ou então era ilusão, com o teto enfeitiçado como as estrelas salientando todas as constelações, de forma que a de Bellatrix e mesmo a de seu primo Sirius estavam marcadas. Pinturas e tapeçarias decoravam as paredes velhas e o chão de madeira brilhava belamente na luz bruxuleante do fogo que entornava sobre quase a metade do cômodo da maciça lareira decorativa, à qual um gigante estaria confortável.
Narcissa estava tão perdida em sua observação crítica de tudo que esqueceu que estava de braços dados com seu noivo. Lucius olhava para ela o tempo todo e sorria. Ele era tão possessivo, a queria toda para ele, e fez de conhecimento de todos que ela era, na mente dele, propriedade dele, que ele possuía a ela e a tudo o que ela tocava, tudo o que ela tinha de querido. Mas ela só ria quando pensava nisso. Ele nunca a possuiria; ela não estava nem lá para começar.
Bellatrix era inteiramente outro problema. Ninguém podia possuir a ela ou qualquer parte dela. Narcissa costumava passar muitas noites trançando seus dedos graciosos pelo cabelo de sua irmã, respirando em perfeito uníssono com ela e, entretanto, estando tão desligada por dentro que isso quase não tinha significado.
Ela de repente saiu de seu devaneio quando captou certo perfume. Era como se se lembrasse de estar sentada em seu quarto, dentro de uma garrafa de jade com a palavra "ilusão" em letras prateadas num rótulo espalhado pela lateral, ela emitia um cheiro de jasmim e eucalipto que, com esta estranha excentricidade, não era difícil de se qualificar. Mas ele era irritadiço, e ela nunca o tinha usado. Preferia aromas delicados e doces que atraíam pessoas a ela como crianças a doces.
Bellatrix costumava usar aquele aroma horrível. Ela tinha se embebido nele. Dizia que dava a sensação de primavera. Narcissa zombava e dizia que parecia clorofórmio. Isso sempre fez Bellatrix sorrir. Bellatrix costumava asfixiar os elfos domésticos com uma roupa embebida em clorofórmio, deixava-os inconscientes por várias horas e arrastava os corpos deles para algum lugar que provocaria o pai, de forma que eles eram despedidos ou açoitados. Bellatrix estava sempre conspirando.
Ela se lembrava de estar sentada numa bacia circular colocada no piso de mármore do seu banheiro, as paredes subindo em forma de arco, formando um teto de vidro que entornava a luz para dentro de dia e o brilho da lua de noite. Se lembrava de como ela mantinha sempre a mesma temperatura, mais quente que o normal mas não fervendo, com sais vermelhos despejados manchando a água como sangue, e as pétalas de rosa formando uma camada no topo, peneirando com o mais leve movimento da água. Narcissa amava momentos como esse, quando ela movia o braço para examinar sua mão e as pétalas de rosa grudavam em sua carne como uma segunda pele, e ainda se desfaziam em flocos ao mais leve toque. Era delicado, exatamente como ela sempre tivera as coisas. E às vezes ela cochilava lá. E, quando o fazia, só acordava ao toque de uma serpente.
Bellatrix escorregava para dentro da água sem ser notada até encontrar aquelas mãos de aranha e rastejar os dedos pontudos cuidadosamente pela bochecha dela, traçando o caminho de uma lágrima, para então falar, com uma expressão arrebatada de triunfo nos olhos, que ela era com certeza hipnotizada pela vaidosa Narcissa, que não estava surpresa com a excitação de suas pestanas pálidas para ver Bellatrix encostando o corpo flexível de frente no dela.
O corpo de Bellatrix era duro como pedra. Todos os seus músculos estavam tensos, mas ela parecia tão frágil e magra que você nunca imaginaria que fosse tão sólida. Seus cabelos negros se espelhavam mesmo pela banheira, despejando de sua cabeça como chuva e caindo na água descolorida. Seus olhos castanhos intensos se fixaram nos claros de Narcissa, que olharam de volta preguiçosamente, quase entediados.
Mas aquela era a face de Narcissa, impassível. Bellatrix levantava as mãos da água como um golfinho tomando ar, e como serpentes elas deslizavam uma na outra a meio caminho de seu ápice. Suas mãos batiam gentil e lentamente no colarinho de Narcissa, onde os dedos caíam em seqüência sobre a curva dos ombros. Tirando vantagem disso, ela deslizava para frente e pressionava os corpos. Os olhos de Narcissa mostravam um sinal de surpresa, mas seu rosto permanecia imóvel.
Bellatrix dardejava a língua pelo pescoço da irmã, como uma cobra respirando em seu aroma. Narcissa fechava os olhos e se torcia sob os resistentes ângulos e ossos da figura de Bellatrix. Sua língua traçava o contorno de seus malares e parava só para protrair e se acalmar dentro dos lábios partidos.
Narcissa não pensava em mais nada. Sua língua como veneno, tão inchada, enchia sua boca e a sufocava. Bellatrix então puxava Narcissa numa posição vertical com sua mão ossuda segurando somente o queixo da mais nova; seus braços coxeado ao seu lado e seus olhos arregalados de algum sentimento indecifrável. Ela devastava sua boca e mordia seu músculo, Narcissa então hesitava e balançava os braços desamparada enquanto seu corpo tremia e balançava. Bellatrix lambia cada gotícula de sangue de seus próprios lábios e sorria com os dentes que tinha herdado de seu pai, tingidos com a substancia escarlate.
Narcissa contraia-se involuntariamente e Bellatrix descascava uma pétala do seio dela ainda mais lentamente antes de abrir a boca de Narcissa denovo e colocar a pétala sobre a ferida, e então fechar a boca manualmente antes de pressionar os lábios pintados de ruge contra os da irmã.
Bellatrix era sempre a única. Ela fazia bricolagem com Narcissa como um brinquedo novo ou algum objeto desconhecido, pressionava certas coisas e monitorava as reações, mordia e beijava e sugava algumas áreas por toda a superfície só para ver como Narcissa responderia, ou ser i se /i ela responderia. E quando Narcissa começava a gritar naquela sensação agridoce de dor e prazer, Bellatrix segurava sua boca com seu aperto quebradiço e submergia aquele rosto angelical nas pétalas de rosa e beijava aquela cabeça loira na bacia de pedra. Bellatrix montava na irmã com as pernas abertas e conforme a irmã afundava na água, debatendo-se como uma louca, afogando-se, sendo puxada para baixo, para ser eximida, para ser purificada.
Quando a boca de Narcissa soltava bolhas pelas aberturas entre os dedos de Bellatrix e seu corpo cessava todos os movimentos, Bellatrix ria e puxava sua figura para cima e embalava aquela mulher bonita em seus braços enquanto distribuía beijos suaves sobre os cabelos platinados cheios de pétalas de rosas.
E quando Narcissa acordava, Bellatrix estava deitada ao seu lado na mesma cama de penas, com as cobertas de veludo azul puxadas sobre elas, suas figuras viscosas entrelaçadas como uma trança. Narcissa recuava e se queixava sobre seu cabelo e sua qualidade. Ela sempre odiara se mesmo uma única mecha estivesse fora de lugar. Tinha que ser perfeito, ela tinha que ser perfeita, e tudo tinha que ser perfeito.
Bellatrix se levantava completamente relaxada, sem se preocupar com modesta censura. Ela correria pela casa nua o dia todo se Narcissa não empunhasse seu cabelo e arrastasse algum tipo de roupa sobre o corpo rígido. Bellatrix ria e ria e ria. Então ela pegava aquele perfume ruim e praticamente rolava nele como óleo. Ela o despejava em quantias massivas em ambas as palmas e espalhava pelo cabelo e seios, ao longo da garganta e nas costas, descia as coxas e as pernas, entre os dedos das mãos e dos pés, e ela estava tão impregnada nele que Narcissa ficava com náuseas. Mas tudo o que Bellatrix fazia era a um extremo. Nada era simples ou moderado. Era tudo ou nada.
Bellatrix flutuava para fora do quarto naqueles dias com sua risada maníaca ressoando nos ouvidos de Narcissa. Como uma maldição, ela corrompia o lugar.
Quando Narcissa saiu desse estado de perplexidade, pediu desculpas a Lucius e à festa e se dirigiu à porta dos fundos, de onde sabia que Bellatrix não estaria muito longe.
Bellatrix se sentou por um tempão à beira daquela lagoa de lírios, onde os grilos cricrilavam acima dela, fazendo serenata para evitar o silêncio. Bellatrix estava preocupada demais para se importar com qualquer coisa a não ser Andrômeda. Então talvez uma parte dela pertencesse a alguém mais. Talvez ela fosse capaz de amar... e se fosse amor o que ela tinha por Andrômeda? E se luxúria e dominância fosse tudo o que ela tinha com sua outra linda contraparte em nascimento?
Narcissa se aproximou e Bellatrix sabia, mas não queria falar com ela, e ela tinha um sentimento que Narcissa conhecia, mas que mesmo assim ia perturbá-la, já que isso era o que Narcissa fazia melhor acima de todas as coisas. Ruína, a arruinadora devia ser seu nome do meio ou título; ambos pareciam encaixar, não?
— Vá embora daqui — foram as primeiras palavras que saíram da boca de Bellatrix quando ouviu os passos triturando o gramado em sua direção.
— É isso mesmo o que você quer, minha criança? — veio uma voz levemente aguda de trás dela. Ela se virou tão rápido que caiu de joelhos.
— Milorde! — sussurrou cobrindo a boca com a mão e torcendo o abdome sobre os joelhos cruzados.
— Bella, eu não te disse para me cumprimentar propriamente? — ele perguntou suavemente.
— Cl-claro que sim, eu... Eu esqueci, me desculpe. — Ela rastejou para frente e beijou a barra da capa preta dele, então levantou o olhar para aqueles olhos vermelhos brilhantes. — Milorde... posso perguntar a quê se deve a ocasião? — perguntou ela humildemente submissa.
— Eu não me importaria. Você ia inevitavelmente descobrir, não ia? — disse ele indiferente. — Eu vim para te iniciar.
— O-o quê? — ela perguntou sem entender direito. — Eu matei aquela garota para você, milorde, eu... Eu fui banhada no sangue dela e deixada para morrer naquela cela amaldiçoada e... erm... desespirituosamente violada por cada membro antes de garantir minha aliança mesmo se ela resultasse em morte. Aquilo não foi a iniciação?
— Aquilo, minha querida, foi a iniciação pública. Eu estava te testando para ver se você ficaria ao meu lado mesmo em circunstâncias torturantes. Para eu ter uma idéia de que você será mais valiosa que a maioria, de forma que eu te quereria para ser minha ajudante como você será, minha pupila e meu consorte pessoal. Rodolphus ficou honrado quando mencionei para ele sobre submeter você à minha servidão e estou certo de que você está vibrando diante deste panorama, não está?
— AH! É tudo o que eu sempre quis...
— Bom, então você vai precisar da marca. É estritamente para membros do meu círculo íntimo. Você vai carregá-la com orgulho, quando eu te chamar ela vai queimar e você irá aparatar a mim ao meu comando — disse ele lentamente. Suas instruções eram sempre vagas; seus planos eram complexos demais para simples Comensais da Morte entenderem a total perspectiva deles até que se realizassem.
— Sim, é claro, milorde — disse ela num desespero devoto insano. — A qualquer hora, não vou hesitar nem por um momento.
— Muito bem, seu antebraço, por favor. — Era mais uma ordem que um pedido, mas ela não se importou. Lançou ambos os braços para ele. Ele sorriu levemente com aquela boca sem lábios e apontou a varinha para a artéria principal dela. Depois de um segundo procurando o lugar certo, ele entoou " i Morsmordre/i " e a carne ressoante se rasgou na imagem de uma caveira com uma cobra espichando-se de sua boca. Os olhos dela se arregalaram maravilhados.
— Milorde... — disse ela espantada. — É linda! — Ela embalou o braço na mão direita, envolvendo com as mãos as torrentes de bela pureza carmesim escoando sob suas unhas e pelos lados de seus pulsos. Ela analisou mais cuidadosamente: sua carne estava se rasgando, mas também queimando, estava se restabelecendo. Fitou de olhos arregalados em silêncio por vários minutos até o braço se recuperar completamente e o sangue começar a secar e cobrir-se de flocos.
Ela não tinha reparado no quão próxima estava dele até que olhou para cima. Seus olhos estavam completamente abertos de espanto e sua boca estava aberta de leve inconscientemente. A luz da Lua brilhava cruzando sua face, dando a impressão de uma palidez prateada, não-rivalizada pela do próprio Lorde das Trevas.
Bella tremeu involuntariamente conforme dardejou os olhos até os determinados, porém trêmulos de hesitação, dele. Mordeu o lábio de leve enquanto seus olhos reluziram... se moveu lentamente para perto dele. Lord Voldemort a fitou de volta com olhos vermelhos sem pena na face bonita e estreita do garoto que uma vez foi, mas que desde então morreu e cresceu distorcido. Ele estava completamente imóvel, mas ela podia jurar que vira algo se movendo por trás de seus olhos.
Ela ainda estava segurando o braço direito enquanto este doía, e ficou na ponta dos pés para depositar um beijo leve como uma pena no canto da boca dele. Desceu denovo e olhou para ele temerosa, como que esperando ser punida, mas em vez disso ele levantou os dedos quebradiços e colocou a mão sobre a testa dela de um jeito quase paterno. Quando ele se afastou, um sorriso sinistro estava brincando por aquela boca progressivamente sem lábios. Ela ficou lá apertando o antebraço enquanto ele desaparecia.
— Bellatrix! Saia daí, Bellatrix!
Bella estava vestida em vinho, com um braço queimando e frieza hesitando em seus lábios.
— Olá, Narcissa — cumprimentou com desdém.
— Bem? — Narcissa perguntou brava. — Não acha que é melhor você aparecer na sua própria festa em alguma hora?
— Eu apareci — Bella afirmou plenamente.
— Nem de longe o suficiente — Narcissa proclamou amargamente, segurando o ombro de Bellatrix. — Venha agora.
— Eu gostaria de ficar mais um pouco — disse Bella distante, olhando para o céu.
— Você já perdeu tempo o suficiente, Bella, agora venha.
— Você realmente acha que pode me obrigar a fazer alguma coisa? — Narcissa congelou. Pensou nas muitas vezes que Bella tinha feito o oposto do que ela podia fazer. Narcissa olhou para baixo sob seus cílios negros triste e, assustadora e não-caracteristicamente, encurvou os ombros e pareceu débil.
— Não. Não acho.
— Então me deixe em paz com os meus pensamentos — disse Bella virando de costas, massageando o braço.
— O que é isso no seu braço? — Narcissa foi rápida, agarrou com os próprios dedos antes que Bella pudesse protestar, mas pensando duas vezes, ela não tinha realmente certeza de que fosse se importar. Narcissa olhou para a marca que tinha visto tantas vezes. Ela pensou vagamente nela traçando a marca com os dedos no braço de Lucius, porque era a única coisa que o fazia tremer.
Houve um longo silêncio. Até Narcissa olhar para cima com olhos perfurantes.
— Você deixou sangue por todo lugar, que descuidado da sua parte. — Narcissa se agachou ao lado da lagoa de lírios e afundou as mãos em forma de concha na água, onde enxaguou o braço de Bellatrix com cuidado para não espirrar nos vestidos delas. Bella recuou um pouco, o contraste entre a dor velha e a fresca era o mais agonizante.
— Bella?
— Hmm?
— Por favor, venha comigo. — Bellatrix nunca tinha visto nenhum membro de sua família parecer tão suplicante antes de agora, especialmente não sua irmã.
— Se te agrada, querida irmã — Bellatrix disse suavemente depois de um longo silêncio. Narcissa suspirou de alívio e segurança. Ela deu braços com a irmã e as duas seguiram para a mansão com um ar de contentamento.
— Eu não sabia que era um baile de máscaras — disse Bellatrix rija quando adentrou o salão de jantar onde centenas de pessoas conversavam educadamente.
— Desculpem-nos pela espera, damas e cavalheiros, mas se dirigirem sua atenção para cá, localizamos nossa pequena formanda. — Houveram aplausos entusiasmados, mas sem alegria — isso era para pessoas incontidas indignas como os Weasley — alegria era uma mostra desnecessária de estupidez gritante.
— Obrigado a todos por terem vindo — disse Bellatrix educadamente.
— Porém isso está longe de tudo o que temos a oferecer — Narcissa disse pousando a mão no ombro de Bellatrix. — Também temos uma futura noiva entre nós. E quem seria o sortudo? Quem se não Rodolphus Lestrange! Venha aqui, Rodolphus — disse Narcissa educadamente com seu sorriso de gelo e uma aspereza modesta.
Conforme Narcissa deu espaço para o futuro marido de Bellatrix, Bella sentiu uma parte de si ir-se. Ela estava muito alheia nessa hora. O candelabro produziu luzes prismáticas através do cristal, refletindo a prata e o interior dos seus olhos, projetando sua silhueta no carvalho da porta, e Rodolphus deu um sorriso amplo ao pegar sua mão delicada e dar um beijo régio nela.
Palmas e sorrisos nobres se seguiram. Bellatrix estava fitando todos debaixo de suas pálpebras pesadas e enlaçou o braço no dele, se encostou a ele ainda mais levemente, ao que ele continuou em pé, alto, e ela mergulhou nas sombras.
Me tornei o que eu sempre temi ser.
Ela ressentiu-se com a mera idéia de ser tomada. Se lembrou do dia do encontro com ele todos aqueles anos atrás. Já tinha quase dez anos agora, certamente.
Ela tinha seis anos. Com longos cachos pretos puxados para trás naquele prendedor ornamental familiar, aquele de serpente que Narcissa gostava tanto, ela estava enfeitada de veludo verde, com um laço de cabelo branco e uma gargantilha. Usava uma capa de veludo preto e um cachecol de pele. Seus olhos negros inspecionaram sua mais nova vítima cheios de desdém.
— Bellatrix, esse é Rodolphus. Diga olá.
— Você parece um bruto — Bella comentou olhando-o de cima a baixo arrogantemente.
— Bellatrix! Modos!
— Agora vocês dois corram e vão brincar. A Sra. Black e eu temos algumas coisas para pôr em ordem. Veja se você gosta dela, Roddie, e depois em conte — disse a Sra. Lestrange inexpressiva. Bellatrix se sentiu comparada a um objeto e estava totalmente desgostosa à impressão de ser alguma boneca numa vitrine, que alguém poderia "possuir".
— Venha me pegar, bruto estúpido! — Bella sibilou enquanto ia para os montes além das fronteiras.
Ele a seguiu desgracioso e ela correu até pela neve mais espessa, rapidamente, como uma fada planou divinamente pelo solo como uma ninfa arrogante. Ela mergulhou atrás de uma árvore e observou atentamente os lados, enquanto ele olhava estupidamente de um lado para o outro, movendo-se com dificuldade e chamando o nome dela. Ela mordeu os dedos para suprimir uma risada.
— AHÁ! — disse ele e ela arregalou os olhos sob a perspectiva de ter sido descoberta. Levemente impressionada, ela sorriu com seus dentes muito brancos e correu denovo. Ele a seguiu. Ela subiu em árvores e ele também, ela pulou de galho a galho e ele a seguiu como uma sombra em seus calcanhares, e depois de um tempo ela se irritou.
— Ninguém nunca conseguiu me pegar! — disse brava, abandonando o cachecol, decidindo atirá-lo na cara risonha dele em vez de esquentar suas mãos. Pego de guarda aberta, ele caiu da árvore numa grande pilha de neve.
Deixou uma marca de corpo humano profunda e acusadora. Bellatrix pensou em quanto problema ela estaria metida quando ele saísse de lá.
— Seu maldito macaco idiota! — disse ela naquela vozinha. — Saia agora! Eu não posso me meter em problemas, veja bem, minha mãe vai tirar meus travesseiros.
— Travesseiros? — Rodolphus disse de trás dela.
— O quê? Eu acabei... você... aí você estava... Como você fez?
— Magia — disse ele dando de ombros, com um sorriso de escárnio inclinado para um lado.
— Mentiroso — ela disse entre dentes. Ela mexeu na neve, mas não achou nada. Bateu o calcanhar e um túnel foi revelado. — Eu sabia, você fez um túnel. — Então ela foi atingida por um pensamento agonizante. — Como fez um túnel tão rápido?
— M-A-G-I-A — repetiu ele devagar.
— Como?
— Você não vai mostrar sinais de magia até chegar à minha idade — disse orgulhoso puxando os suspensórios.
— Bah – fez um barulho de óbvia discordância. — Você é só seis meses mais velho que eu.
Ela sempre o fez persegui-la. Nas refeições ela jogava comida nele, o chamava de nomes horríveis, e colocava insetos na comida dele. Ela cuspia na bebida dele, e tropeçava nele quando ele se levantava da mesa. Mostrou magia pela primeira vez em suas malandragens. Amarrou os cadarços dele só com a força de vontade e ele ficou com os pés amarrados, ela o fez ser perseguido por abelhas, se enroscar num arbusto de espinhos, ficar pendurado numa árvore alta pelas calças, descontrolar a vassoura, e eles discordavam em tudo.
Mas era o espírito de fogo dela que ele adorava. E era por este tormento que ele tanto esperara, então naturalmente exigiu que ela pertencesse a ele. E a lembrava constantemente disso. Sempre requisitava voltar para vê-la nos sábados. Ele a atormentava com "minha Bella", "minha querida", "minha, minha e minha".
— Odeio você! Você me dá ânsias! — ela disse para ele num dia quando tinha treze anos. E tinha acabado de se voltar para sua cópia de Transfiguração Avançada ao seu lado no parapeito de paralelepípedo quando ele a segurou pelos ombros e lhe deu um beijo forte. Ela mordeu a boca dele e cuspiu o sangue nos olhos dele.
— Eu nunca vou ser sua — disse ferozmente. Ficando de pé e estalando os calcanhares no chão de paralelepípedo e o deixando lá com uma montanha de livros, ela desapareceu na longa escuridão do caminho no jardim. Ele esfregou a boca e ficou olhando para ela maravilhado por um longo tempo.
Outra vez ela estava escrevendo em seu diário, balançando levemente quando um agoureiro deu seu canto como se de manhã. Estava anoitecendo e Rodolphus chegou atrás dela silenciosamente. Mas ela reconheceria aquela aura irritante a um quilômetro de distância.
— Olá, noivo irritante — disse em voz baixa.
— Olá, querida — disse ele beijando-a na bochecha e ela recuou.
— O que você está fazendo?
— O que acha que eu estou fazendo, seu idiota? — ela explodiu selvagem. — Estou escrevendo!
— Posso ler? — perguntou ele, tirando o diário das mãos dela antes que ela pudesse responder.
— NÃO, NÃO PODE! — disse ela puxando de volta com violência, e uma página se rasgou no esforço e caiu no chão úmido. Por um momento os dois olharam para a letra certinha dela nas linhas do papel, então ele o agarrou para o horror dela e começou a ler:
Sem
luz, sem ar para viver num lugar chamado ódio.
A
cidade do medo.
Eu
brinco de morta.
E
paro de ser machucada.
Às
vezes é como dormir.
Me
curvando dentro de
minhas torturas privadas.
Me
aconchego na
angústia.
Abraço
o sofrimento.
Acaricio
cada dor.
Brinco
de morta.
Ele olhou para ela por um momento.
— Que sentimental. — E com isso devolveu para ela e saiu andando com um sorriso tolo. O bastardo falso, ela murmurou em sua cabeça.
E ali ela ficou, na soleira de uma nova vida. E não tinha certeza se estava agradada, brava, feliz ou irritada com a perspectiva. E então pensou em seu mestre, e um sorriso finalmente se espalhou por sua face.
N/T: Eu acho que acabou. A autora não colocou fim, mas também não disse que continuava. Tá, não é como se eu pudesse dizer "ooooh, como essa fic tem slash!", mas espero que tenham gostado.
E MANDEM REVIEWS, YOU BASTARDS! HUHUHU!
