Disclaimer: CCS não me pertence e qualquer outra referência também não é de minha autoria.

Escrito por: Maghotta (Lis J.B.)

Revisão: Naure, Bruno Naure (007)

~ Espero que tenham uma boa leitura! ~


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Ela

Fazia cerca de 10 graus nas ruas movimentadas de Tóquio.

Esperou que o sinal fechasse e atravessou na faixa de pedestre. Nem sempre era tão politicamente correta, mas seus saltos 15 ainda estavam em fase de test-drive. Sakura inspirara seu figurino do dia no visual de Sandra Bullock no filme The Proposal. Muitos já diziam que ela possuía a personalidade de megera, então só lhe faltava Ryan Reynolds e poderia tacar um processo na indústria cinematográfica.

Tomou um gole do seu café expresso e direcionou seus passos para a banca de jornais. Deu um sorriso amargo para o rapazinho que cuidava da banca, ela vivia apanhando-o com olho grande para seu decote subestimado.

-Bom dia – ele lhe cumprimentou todo alegrinho.

-Bom dia – Sakura usou seu tom ácido profissional.

-Vejo que está em uma boa manhã.

Por meio segundo, ela só o olhou com incredulidade. Será que teria que ser agradável com aquele imbecil para que ele entendesse que ela estava se lixando? Rolou os olhos e iniciou sua busca. Sempre dois jornais de grande circulação e uma revista feminina. Às vezes enfiava uma palavra-cruzada no meio, mas só quando terminava a que mantinha no banheiro de casa.

Curvou-se para estudar as capas dos quadrinhos, mensalmente comprava alguns, não por gostar das historias, mas era sua forma de demonstrar o interesse pelo trabalho do irmão.

Tudo bem, ainda achava que ele levava uma vida desregrada e com desapegos. E que, se aquilo que fazia podia ser considerado profissão, esperava não vê-lo nos momentos de diversão. Ao menos agora ele estava tendo retorno financeiro e até nutria algumas olheiras fundas embaixo dos olhos.

Abruptamente ela se levantou, lembrando que eram nessas ocasiões que o ignóbil a secava.

-Só isso, obrigada – ela colocou o que selecionara sobre o balcão improvisado e pagou.

Geralmente pagava o mesmo preço. Mil e novecentos ienes. As únicas variáveis eram as de quando incluía mangás. Seu bip roubou-lhe a atenção enquanto pegava o dinheiro na bolsa. Olhou o número com desinteresse e suspirou. O prédio as suas costas parecia querer devorar-lhe. Quando olhava para cima, trinta andares de pura repressão se inclinavam cobrindo seu um e sessenta de altura. Esse era um daqueles momentos em que sentia o medo na espinha.

Desviou dos transeuntes e atravessou as portas automáticas. Kinomoto Sakura começara servindo café, mas agora executava o célebre trabalho de editora. Recebia um salário considerável e tinha a vida que pedira aos céus. Nada podia destruir o império construído a base de muito esforço e cabeças decepadas. Isso, claro, hipoteticamente falando. Afinal, alguém precisa cair para que você possa subir.

O poder é feito por brigas homéricas.

Atingiu o décimo sétimo andar e suspirou aliviada. Novamente a primeira a chegar. Correu a ponta dos dedos pelo tecido do tailleur, seus tornozelos tremeram um pouco enquanto desfilava pelo carpete. Tudo bem, isso não era um mau sinal, só estava desacostumada com saltos tão altos.

Percorreu pelo corredor tomado de guichês vazios e seguiu para a sala reclusa, perto da saída de emergência. Não era um grande lugar para se estar, mas pelo menos possuía privacidade e um espaço pessoal de verdade. Nunca mais bisbilhotariam o que estava fazendo por sobre divisórias desmontáveis.

Destrancou a sala e cumpriu o ritual matinal de abrir as persianas, ligar o computador e enumerar os originais. Seus olhos treinados pousaram sobre os títulos e teve vontade de vomitar. Se gostasse de alguma coisa dali teria que, cuidadosamente, sugerir novos títulos aos autores.

Recuou até sua poltrona e tirou os sapatos. Nada bom, seus dedos estavam latejando. Por que ela ainda insistia em comprar sapatos que berravam em suas etiquetas o quanto eram desconfortáveis?

Apanhou a revista e folheou superficialmente cada matéria. Tendências, reciclagem, maquiagem, acessórios, horóscopo, câncer, estética, cirurgia plástica, solteiro mais cobiçado decide de casar. Piscou os olhos e libertou um risinho sarcástico. Essas matérias costumavam ser as mais hilárias. Deixou a revista de lado e abriu os dois jornais ao mesmo tempo. Maior circulação nacional e mundial. Manchetes sobre problemas climáticos, bolsa de valores, falência da Grécia, economia mundial e nacional. Politicagem, crimes, roubalheira. Classificados. Jogou-os de lado, queria distância de qualquer assunto referente à procura de imóveis.

Estremeceu lembrando-se da busca quase infindável por seu apartamento. Agora estava feliz e isso era só o que importava, mesmo com um aluguel tão escandaloso quanto o que se submetia a pagar. Ao menos ela tinha como pagar e um lugar para morar!

-Hm… - passou os olhos por sobre a nada modesta nota na página de assuntos desimportantes – Esse cara deve realmente ser influente.

Deslizou os olhos procurando pela mesma matéria no jornal de âmbito mundial. Havia somente uma pequena nota fazendo referência ao suposto casamento do tal solteirão. Talvez o conhecesse, afinal, quando ainda se deixava convencer a participar dos eventos aos quais sua família freqüentava, ela trocara meia dúzias de palavra com um ou outro.

Seu celular tocou a interrompendo. Franziu a testa e cogitou atender, mas esquecera o bom senso em casa. Desviou a chamada para a caixa postal e focou-se na matéria. Geralmente não começava pela revista, mas deveria estar à parte de um assunto tão em pauta na mídia.

"O solteirão Li Syaoran, herdeiro de uma das maiores fortunas mundiais e membro do clã mais respeitado de toda a China, abandona o cobiçadíssimo posto dos homens mais desejados do mundo. Deixando a 3ª posição do ranking para seu sucessor, o ator (…)."

Sakura arqueou as sobrancelhas. Terceiro lugar não era lá uma grande posição. Mais uma vez a mídia estava fazendo alarde por pouca coisa. Passou os olhos por sobre alguns fatos relacionados a família, as palavras do bonitão que jurou que nunca se casaria e sua pouca modéstia ao agradecer pelos votos, mas não se achar merecedor.

-Que esnobe! – soltou um risinho ácido.

"Estando a pouco mais de três meses do dia marcado para a cerimônia, nenhum membro do clã Li se manifestou. Aparentemente, os preparativos estão sendo mantidos às escuras, assim como a bela mulher que roubou o coração do empresário. Mas o jejum acabou e a família concedeu uma coletiva à imprensa nessa segunda-feira 19, revelando detalhes e a identidade da moça."

-Uh… - Sakura ironizou – Quem será a desmiolada?

Olhou pela divisória de vidro os primeiros funcionários chegando. Alguns eram estagiários. Ela amava torturá-los, mas tinha que admitir, pelo menos aqueles garotos conseguiam fazer o serviço que lhes era mandado.

Tomou outro gole do café expresso e fez uma caretinha. Já havia esfriado. Fitou com desprezo o copo e deixou-o cair no lixo. Depois pediria ao pessoal da limpeza para tirar o lixo de seu escritório outra vez, detestaria manchar o carpete com café. Arrumou o cordão no pescoço e pegou seus óculos de leitura dentro da bolsa. Usava pouco grau, mas a imagem de competência que exibia quando estava com eles valia o sacrifício da marquinha nas laterais de seu nariz.

-Onde mesmo que parei? – ela percorreu algumas linhas.

Folheou, constatando com surpresa que o assunto ocupava cerca de duas páginas e meia.

"Depois de três semanas da grande festa comemorativa dos 27 anos do empresário, Li Syaoran não parecia estar em um dos seus melhores dias. Após esbaldar-se em luxo e mulheres, mostrou-se alheio ao clamor dos jornalistas por informações, 'Minha futura mulher é um mistério até para mim'. Foi seu único comentário. Li Yelan, por outro lado, respondeu as perguntas direcionadas ao filho. 'É uma moça adorável, amiga da família há anos. ' Quando perguntada sobre a prosperidade, ela apenas sorriu e deixou no ar que a somatória das fortunas não tinha nada com o matrimônio, calando a boca dos especuladores de plantão, que alegavam tratar de uma jogada milionária que elevaria ambos os envolvidos a lista das cem pessoas mais ricas do mundo. Mas, a grande surpresa aconteceu quando, em meios a muitos rodeios, a presidente das empresas Li, deixou-se levar pelo longo discurso sobre a futura nora e soltou a informação cobiçada por todos 'Kinomoto Sakura é uma jovem bem sucedida. Sua mãe e eu éramos amigas quando jovem, o espelho disso é a ótima relação mantida com as empresas Daidouji'."

Sakura balançou a cabeça, zonza com a quantidade de informação. Alguma coisa no fundo do seu cérebro gritando para que repetisse a última parte. Apertou os dedos nas páginas e voltou sua atenção para o trecho específico.

"'Kinomoto Sakura é uma jovem bem sucedida. Sua mãe e eu éramos amigas quando jovem, o espelho disso é a ótima relação mantida com as empresas Daidouji'." "'Kinomoto Sakura…empresas Daidouji.'". "'Kinomoto Sakura… '"

-Céus! – sua garganta secou.

Ela era a tal Kinomoto Sakura. Quantas outras Kinomoto Sakura poderiam haver?

Não… impossível. Ledo engano desses jornalistas.

Arremessou a revista no chão e procurou pelo artigo no jornal nacional. Deslizou o dedo pela matéria e lá estava. Kinomoto Sakura novamente em destaque, como um chamariz ao desastre, piscando feito o luminoso dos cassinos em Las Vegas. Buscou pelo mundial, como se lá estivesse sua salvação. Kinomoto Sakura! Kinomoto Sakura!

Errado! Muito errado!

Ela não ia se casar. Não podia se casar. Como alguém se casaria sem saber que se casaria? Isso nem se quer faz sentido!

Fitou a tela do computador. Aquela porcaria demorava tanto a ligar. Moveu o mouse e clicou no ícone da internet. Era um enorme engano e ela provaria isso. Deveria haver alguma imagem da noiva desse fulano.

Alguma parte do seu cérebro latejava dolorosamente, como se tentasse se separar do resto da cabeça. Bateu as unhas freneticamente sobre o vidro da mesa. Suas pernas se moviam de modo nervoso. Seu coração estava acelerado, cada órgão do seu corpo brincando com sua capacidade de resistência.

Provaria para si.

Kinomoto Sakura, digitou após conseguir acessar o site de pesquisas. Selecionou as imagens e lá estava. Lá estava a individua que se casaria com o solteirão. Ampliou a imagem e aproximou o rosto da tela. Jesus! Só podia ser brincadeira. Será que aquele computador não pegava no tranco nem quando se travava de uma emergência?

Aos poucos foi surgindo. Primeiro o rosto avermelhado do chinês. Ele estava caído, bêbado. Abaixo, uma imagem de uma jovem mulher com um cigarro na boca, olhando desconfiada em direção a câmera. Sakura colocou as mãos sobre o peito. Mesmo sendo uma fotografia extraída de jornal, em preto e branco, ela podia se reconhecer. Estava com 16 anos em uma festa para arrecadação de dinheiro. Foi no dia em que experimentara o cigarro pela primeira vez. Provavelmente a maior burrada de sua vida!

Todos pensariam que ela era uma fumante, mas esse foi um caso a parte.

-Merda! – ergueu os olhos da tela para o rapaz que se aproximava.

Seus olhos, como de costume, bateram nos pés dele.

-Vou precisar que me empreste seus tênis – gritou da cadeira.

-Poutzs! – ele olhou para os próprios pés – Senhorita Kinomoto, eu juro que esqueci de… como é?

-Anda logo, Shouji!

Sakura empurrou a cadeira para trás e chutou seus sapatos do caminho. Pegou a bolsa e correu até onde o rapaz estava. Ele era seu assessor pessoal, provavelmente ficaria feliz em saber que tiraria o dia de folga da mulher mais intragável do escritório.

-O que eu…?

-Vou ter que sair. Você não tem frieira ou qualquer outra coisa, não é mesmo? – ela disse enfiando o primeiro pé e constatando que ficava largo demais – Dá para segurar as pontas pra mim?

-Não senhorita, tenho pés saudáveis – ele engoliu a seco diante do olhar furioso de Sakura – Claro, mas se me perguntarem onde a senhora está, o que eu devo dizer? – ele a olhou assustado, com um misto de alegria e desconfiança.

-Diga que tive de resolver assuntos pessoais, que podem me contatar pelo celular.

Enfiou o outro pé e passou o cadarço em volta dos tornozelos, cruzando-os como fazia nas aulas de balé.

Aulas de balé… estremeceu com a recordação. Não durara um semestre naquela tortura. Nunca teve muita vocação para dança, preferia se enfiar em uma biblioteca ou livraria. Aprendia muito mais e aplicava seu tempo em coisas úteis.

-Volta até o almoço? – Shouji gritou, vendo-a pedir para segurar o elevador.

-Talvez! Mas não conte muito com isso – ela gritou de volta, a porta fechando as suas costas.

Uma gota de suor correu por seu rosto impecavelmente maquiado. Nessa altura do campeonato, ela nem se importava. Soltou o cabelo do rabo de cavalo e passou os dedos entre os fios. Seu couro cabeludo estava dolorido. As mechas modelaram seu rosto e cobriram seus ombros. Algumas pessoas desceram no andar seguinte e ela pode ver sua imagem no espelho.

Os olhos verdes apáticos e o rosto sem uma única gota de sangue. Apertou as bochechas, a ponta dos dedos geladas. Será que estava enfartando? Nunca pensou que morreria do coração.

O elevador chegou ao térreo e ela saiu, novamente correndo acelerada. Tomou o primeiro táxi, o percurso até a ferroviária demoraria cerca de 10 minutos. Tempo demais para alguém com tanta coisa na cabeça. Talvez se fosse correndo, chegaria bem mais rápido. Definharia no banco de trás antes mesmo que tivesse oportunidade de tirar satisfações sobre aquilo.

-Alô? – atendeu o celular sem prestar atenção no identificador – Eriol?

Eriol a pegara de guarda abaixada. Conseguira se esquivar dele até então, mas agora já não havia escapatória.

Merda!


N/A: Ok! eu preciso fazer esse comentário: quem pensa em um ator lindo como o Ryan Reynolds só para chegar a conclusão que poderia usar ele como desculpa para um processo? Viram o nível de romantismo da moça, não é? Mas tudo bem, vão se surpreender como isso só vai aflorar depois de algum tempinho, pq planejo fazer um casamento perfeito. Anyway… foi quando reli esse capítulo, despois de escrever o cinco, que decidi, como passe de mágica, o que aconteceria em seguida no capítulo do qual o prólogo foi retirado. Vai ser engraçado! Espero que estejam acompanhando e comentando até lá.

N/R: O que será que o Eriol quer com ela, heim? Mais um capítulo curtinho, mas bem interessante não acham? E o próximo não deve demorar já está liberado para eu revisar e vou começar a fazer isso logo.

Tenham uma boa leitura e por favor deixem reviews!