Capítulo 2 – Primeira Estrofe

Capítulo 2 – Primeira Estrofe

No dia seguinte, após uma noite de sonhos muito agitados, eu me levantei correndo, atrasada para o curso. Mamãe estava na cozinha, preparando algo extremamente elaborado para o almoço.

- Bom dia. – dei um beijo em sua bochecha – Quem vem para o almoço hoje?

- Bom dia! – ela respondeu com um sorriso. – Gui e Fleur. E talvez Carlinhos.

- E eles merecem todos esses preparativos? – levantei a sobrancelha.

- Acordei com vontade de cozinhar algo especial hoje.

- Sorte a deles. Eu tenho trabalho a fazer. Falta apenas uma semana para o fim do curso e para a apresentação da minha tese e eu estou meio atrasada.

- Tem certeza de que não vem almoçar?

- Sim, tenho. Diga que mandei beijos para os meninos e que irei visitar Fleur quando essa confusão terminar. – eu peguei um pedaço de pão de cima da mesa e dei um sonoro beijo no alto da cabeça calva de meu pai. – Até logo, papai.

- Oh, Ginny, antes que eu esqueça. Isso chegou para você hoje cedo. – ele me estendeu um envelope estufado.

- Obrigada, papai. – dei-lhe outro beijo, agora na bochecha. – Tchauzinho, até mais. – com isso, aparatei no pátio da universidade.

Corri para a sala de aula, onde fiquei até o meio-dia. Como de costume, fui me encontrar com Harry no restaurante de sempre.

Chegando lá, avistei Harry olhando entediado para o cardápio (que ele já havia decorado).

- Olá, querido. – pousei um beijo delicado em sua boca. – Como foi sua manhã?

- Tediosa. E a sua?

- Por incrível que pareça, agradável. – sorri, lembrando da aula. Eu era uma das melhores alunas, e o curso era apaixonante. – Então, como andam as coisas no ministério?

- Do mesmo jeito de sempre. – ele parecia cansado. Seus olhos estavam levemente caídos e grandes olheiras denunciavam que não tivera uma boa noite de sono.

- Você não dormiu bem, Harry?

- Muito trabalho. – respondeu ele vagamente.

- Imagino. Por falar nisso. – fiz uma pausa para pedir o almoço. – Lembrei de uma coisa que tenho que conversar com você.

- Se for sobre a vaga como auror, eu já disse, não posso resolver. – ele adiantou.

- Eu sei, Harry. Só queria saber se foi você quem arrumou o posto de pesquisa junto ao Malfoy. – perguntei, calma por fora, muito nervosa por dentro.

- Hã? – ele me olhou confuso. – Como assim?

- Ele veio falar comigo ontem. Sobre eu fazer pesquisas com ele, ou algo do gênero. – eu falei, como se fosse muito normal conversar com Malfoys por ai.

- Ele só pode estar louco! – Harry se exaltou. – O Departamento dele nem trabalha com pesquisas!

- Não foi o que pareceu. Ele estava muito convicto de que eu iria trabalhar com ele. – eu comentei. Então, Harry começou a discursar sobre como aquilo era impossível e etc, enquanto eu comia meu almoço. Depois de alguns minutos falando sem parar, ele olhou para o relógio na parede do restaurante e se levantou.

- Hã... Ginny, eu tenho que ir. Tenho um compromisso agora. – ele parecia agitado, o que era estranho, por ter estado tão calmo até agora.

- Você não vai almoçar? – perguntei.

- Como alguma coisa depois. Até mais. – e saiu, sem nenhum beijo de despedida.

Eu voltei para minhas aulas logo depois, achando muito estranho o comportamento de Harry. Assisti às aulas da tarde e depois fui à biblioteca para tentar terminar a minha tese, que dissertava sobre diferenças entre os vírus mágicos e os não-mágicos.

Quando voltei para casa, encontrei meus irmãos. Passei o resto da noite ouvindo as novidades. Pelo jeito, Carlinhos arranjara uma nova namorada, que ele dizia ser a mulher da sua vida (como se não tivesse dito a mesma coisa das outras vezes). Fleur e Gui estavam tentando ter um bebê, já que agora os dois tinham empregos bastante estáveis.

O resto da semana passou-se tranqüilamente, com a pequena estranheza de não ter visto Harry nenhuma vez. Nem Harry, nem Malfoy, que não havia dado as caras na faculdade depois da nossa pequena conversa.

No dia da apresentação de minha tese, eu estava extremamente nervosa. Acordei duas horas mais cedo, ensaiei o que tinha que falar, não consegui comer nada no café da manhã, e ainda por cima quebrei o salto de meu sapato preferido antes de sair de casa.

Com sapatos novos, olheiras fundas e mãos tremendo, apresentei-me frente à mesa de professores que me avaliariam. O meu nervosismo fazia com que meu estômago desse voltas dentro de mim, mas, na hora em que comecei a falar, tudo passou.

Dissertei com a segurança com que dissertaria sobre que tipo de comida mais gostava. Quando acabei, os professores quase não me fizeram perguntas. Eles pediram licença e se retiraram para confabular sobre minha nota, que me informariam logo a seguir. Sentei-me em uma cadeira perto do quadro negro e esperei. Não tinham se passado vinte minutos até quando eles saíram, pedindo para que eu me levantasse.

- Senhorita Weasley, eu gostaria de lhe informar, em nome de todos os professores da mesa – falou um professor alto, de nariz reto e cabeça calva, que se assemelhava muito com uma raposa. – que a senhorita acaba de ganhar a nota máxima, devido ao excelente desempenho demonstrado hoje, e à sábia escolha do tema de sua tese.

Eu abri um sorriso de orelha a orelha, agradecendo e cumprimentando todos os componentes da mesa que me parabenizavam.

Saí da sala carregando meu material, ainda ostentando o sorriso orgulhoso no rosto. Quando cheguei à metade do corredor, o som do bater de palmas ecoou atrás de mim e eu me virei pra olhar. Dei de cara com Malfoy.

- Parabéns, Weasley. Não é muito fácil tirar a nota máxima no trabalho final. – ele sorria, aquele seu sorriso típico, que nunca chegava aos olhos.

- Obrigada, Malfoy. Agora, se me der licença. – eu não tinha idéia de como falar com ele depois do episódio anterior, que vinha à minha mente a todo o momento, agora que eu estava em sua frente. Não pude deixar de olhar para sua boca e lembrar como era incrível a sensação de tocar aqueles lábios. - Ginny, você está ficando louca.- pensei comigo mesma, mas era uma sensação difícil de resistir,

- Não se preocupe, eu não vou fazer nada com você. – E é uma pena que não faça. – disse uma voz despudorada dentro de minha mente. –Só queria informar que na próxima segunda-feira começa nosso trabalho de pesquisa. Acho que sua tese vai ser útil para nós.

- Malfoy, o departamento que você se encontra não faz muitas pesquisas, pelo que eu saiba.

- O departamento que Potter disse a você que eu me encontro, melhor dizendo. – ele comentou, com o sorrisinho irônico estampado. – O que Potter não sabe é que eu fui transferido para o Departamento de Pesquisas Contra as Artes das Trevas, onde o ministério julgou que eu seria mais necessário.

- E eu vou para esse departamento também?

- Só até o fim das pesquisas que eu sugeri. Depois você volta a ser apenas uma auror. – ele explicou.

- Obrigada pelo aviso, então. Eu vou para casa, preciso descansar. – virei-me de costas, pronta para seguir em frente, quando ele me chamou:

- Weasley, só um conselho – ele tinha uma expressão de divertimento no rosto. – Tome mais cuidado com seu namoradinho.

Eu estranhei.

- O que tem o Harry?

- Nada de mais, eu suponho. Mas achava melhor você cuidar com mais zelo do que é seu. Afinal, as pessoas podem colocar coisas na sua cabeça. – ele sorriu.

- O que você quer dizer, Malfoy? – indaguei.

- Nada. Só estou dizendo para você tomar cuidado. – ele pegou uma de minhas mãos e beijou os nós dos dedos. – Até logo, Weasley. – disse, sem tirar seus olhos dos meus.

- Até, Malfoy. – respondi. – Não sabia que você era um cavalheiro. – murmurei enquanto retomava meu caminho, para ouvir uma resposta em voz baixa:

- Você não sabe muitas coisas sobre mim.

Depois disso, segui para casa, onde minha família me esperava com um jantar de comemoração pelo final do curso. Harry ainda não havia chegado.