Reticências
Capitulo 3
Os papeis de registros estavam dispostos sobre a mesa por ordem de chegada. O nome da Sra. Moliere saltou aos seus olhos e ele ignorou a ficha dela se atentando para a ficha da jovem que chegara meia hora antes dele.
_Será possível? – ele leu novamente o nome da paciente: Esme Ann Platt, idade, 16 anos, pai Oliver Platt, mãe, Heleonor Marie Platt..
Sua mente aguçada o levou até a floresta escura aos arredores de Columbus. O levou até dez anos no tempo, quando de passagem pela cidade, pela primeira vez, ele salvara uma pequena criança de ser atacada por um urso. Voltando a colocar o papel sobre a mesa, se encaminhou até o seu armário o abrindo, de lá pegou o jaleco branco com seu nome bordado sobre o bolso em azul, Dr. Cullen. Antes de sair, Carlisle ainda olhou no espelho e lamentou que tivesse se nutrido na noite passada, pois julgou que a cor dos olhos poderia salvá-lo hoje. Ele se dirigiu pelo corredor, os gemidos que saiam baixos da boca da pequena Esme agora lhe eram, tão familiares quanto ele mesmo. O aroma dela mudara sutilmente, indicando que crescera e o coração batia acelerado, apenas um reflexo do trauma pelo qual o corpo passava. Mas foi o acelerar de outro coração que lhe chamou a atenção naquele momento.
_Dr. Cullen! – a Sra. Molieri o chamou em desespero, ele fingiu não ouvir e apressou aos seus passos parando na soleira da porta do quarto 5. Um resquício de esperança pairou em sua mente, talvez ela não se lembrasse dele, talvez o trauma daquela noite, na floresta, tivesse ficado escondido em seu subconsciente. A mente humana era fraca, muito suscetível a dor. Ao longo dos anos ele vira casos em que o paciente esquecia-se de eventos tristes em sua vida como forma de defesa psiquica. Ele tomou do ar lentamente, um gesto humano para tentar aplacar a aflição e entrou no quarto sem olhar no rosto da jovem mulher. Os cheiros eram muitos, mas o dela era o mais penetrante. Com calma ele se apresentou ao surpreso Sr. Platt enquanto colocava o par de luvas.
Eram tantos os detalhes.
A borracha não iria impedir dela sentir o frio, então o contato deveria ser o mínimo possível. Sua audição e seus olhos os guiariam. A perna apresentava a cor arroxeada típica do trauma sofrido, o comparativo visual lhe dizia o que ele já saiba, mas, faltava tocar para ter a certeza dos danos. E, em meio a chuva de perguntas do surpreso Sr. Platt, ele era observado por ela e já se preparava para o inevitável. Sua mente lhe apresentava as alternativas mais viáveis e em meio a tantos, ele se concentrou nas batidas de um coração em especial, que vinham em um ritmo acelerado, diferente dos demais. Ele ergueu seu rosto para enfrentar o seu destino.
_"...Disponha!"...- assim que firmou finalmente seus olhos nela, foi inevitável não lembrar-se daquela noite na floresta, da voz infantil e doce, do sorriso encantador que era enfeitado de covinhas pequenas. Agora, ele se deparava com os olhos que combinavam nas íris uma mistura perfeita do mel com o verde dando o toque de delicadeza na tez clara. Olhos redondos e cobertos de surpresa. O coração dela falhou em uma batida, depois voltou em um ritmo calmo.
Sim, ela o reconhecera! O deixando estranhamente agitado...
Como remontar a sensação de sentir-se vitima do destino?
Ele esperou pelo primeiro alarde e viu com enorme expectativa os lábios dela se desgrudarem para somente, soltar a uma lufada de ar quente. Suspirando, Carlisle tomou para si daquele ar doce, para depois falar, procurando transmitir calma:
_Senhorita... – o coração dela retumbou com mais força –...Terei que examiná-la para sentir a extensão dos danos internos. Talvez, lhe cause algum desconforto... – ele aguardou por um instante atento ao mínimo sinal de que Esme fosse gritar, mas surpreendeu-se, pois dos lábios bem desenhados saíram apenas um pequeno sorriso.
_Tentarei não me demorar...- Eles ficaram por algum tempo a olharem-se intensamente. Por precaução, Carlisle desviou seus olhos e concentrou-se na perna ferida. O coração de Esme deu um pulo indicando seu descompasso no momento em que a voz de seu pai voltou a atacar o jovem médico com suas perguntas incrédulas. Ela abriu ainda um pouco mais a boca, inalando do ar gelado e sentindo em sua língua um sabor diferente, mas, que lhe era familiar.
_Mas, deve me dizer de imediato se alguma dor mais intensa sentir...
Milagrosamente a boca do Sr. Platt fechara-se, ele acompanhava com seus olhos e ouvidos o que o jovem médico dizia. Um soluço escapou da garganta de sua esposa:_Quieta mulher, o médico esta falando!
_Gostaria que se deitasse agora.
Assim ela o fez, com o auxilio da freira que a tudo via com máxima atenção. Ele tocou primeiro a rotula do joelho que tinha em seu desenho algo de torto, para depois subir devagar e enquanto o fazia, aprofundava seus dedos na carne macia e quente. Assim que chegou na coxa bem formada ele colocou a outra mão e olhou para o rosto de Esme que estava estranhamente sereno.
_Aqui, se aperto, lhe dói?
_Sim! – finalmente Carlisle pode ouvi-la falar novamente. A voz era baixa e doce. Ornava com perfeição com a bela face.
_E deste lado...?
_Não tanto! – suave e delicada.
Era o bastante para a conclusão de sua análise. Ele se afastou com elegância e agilidade e tomou da prancheta a anotar suas conclusões.
_Vamos ministrar de imediato algo para a dor e a febre. Devo pedir que os pais por agora saiam. Enfermeira, talvez seja melhor o auxilio de uma colega. Tragam faixas, ataduras e estacas.
Com rapidez, Carlisle prescreveu suas instruções:_Aqui, nesta folha esta a medida exata das estacas, temos que imobilizá-la imediatamente. Assim que tudo estiver pronto mandem me chamar, estarei em minha sala.
Ele saiu sem esperar por alguma resposta. Enquanto se afastava pensava em suas opções de fuga imediata. Mas algo, completamente inusitado, o fez parar no meio do corredor, uma canção de ninar que Esme passou a cantarolar. Ela era surpreendente, ele não tinha como negar a este fato.
_Dr. Cullen! Espero que já tenha cuidado da menina dos Platt. Veja, que aqui estou bem antes deles chegarem, mas como sou uma dama, concordei que desse atendimento primeiro, mesmo fora de ordem, a menina. Mas agora, gostaria de ter a sua atenção, devidamente...
_Sra. Molieri! – ele indicou com a mão para que a falante Agda Molieri voltasse ao seu leito. Depois tomou de seu estetoscópio e se aproximou da esfogueada senhora, que sem haver algum pedido, já abria com rapidez os primeiros botões de seu vestido, a revelar a pele com sardas do colo branco e parte das taças dos seios.
_Como à senhora se sente?
_Oh...Dr. Cullen! – as faces tingiam-se com rapidez de vermelho, com o sangue a fluir, tão rápido nas veias – é tão jovem, julgo que tenhamos a mesma idade! Veja que este "senhora" me rende anos os quais não tenho, quanta injustiça, não é mesmo?
Agda passou a mexer nervosa em seus cabelos negros enquanto passava a outra mão sugestivamente pela extensão de seu corpo trêmulo. Sentada na cama, ela abriu suas pernas a revelar boa parte das coxas bem formadas e olhou intensamente para a face pálida e fria do belo médico parado a sua frente. A palma de sua mão coçava, sua mente se agitava com pensamentos que iam desde puxar o jovem pela lapela do jaleco e acomodá-lo no vão de suas pernas tão receptivas, ou o mais coerente, levantar-se e fechar a porta do quarto...
_Tenho que seguir ao decoro profissional, mas a educação não me permite contrariá-la. Agora vi em sua ficha que deu entrada com acesso de tosse, como está a falar tão eloquentemente, acredito que já estejas melhor, sendo assim, lhe darei alta.
A fria impessoalidade de Carlisle Cullen servia somente de incentivo para o desespero dela: _Tenha piedade de mim! Que sinto que meu coração sairá pela minha boca a qualquer instante!
Ciente de seus dotes físicos, Agda inclinou seu busto para frente. Sempre obtivera bons resultados com o sexo oposto, ao fazer este gesto. Mas seus olhos viram com decepção que o jovem médico não demonstrara qualquer reação à ela, que passou a tossir insistentemente na vã esperança de sentir os dedos dele a inspecioná-la.
_Que minhas faces queimam, algo me vai mal, não o vê? – ela passou a agitar-se com as mãos, em puro teatro, que mal engendrado, serviu apenas para que o médico guardasse no bolso o seu aparelho e se afastasse dela com rapidez.
Carlisle via uma mulher de aproximadamente trinta anos, com plena saúde e energia. Sim o coração estava disparado, mas não por motivos de saúde. Ele tinha toda a certeza que assim que se afastasse da senhora, a pulsação dela iria se regularizar.
_Pedirei a uma das enfermeiras que lhe ministrem uma dose de um eficiente xarope, composto por mel e hortelã, que irá lhe aliviar a crise de tosse.
_Mas o senhor nem tocou-me o corpo! – a indignação ainda assim, não era maior do que o desespero de causa, que a consumia feito brasa.
Alto e bem formado, Carlisle virou-se na intenção de se retirar. Os olhos febris de Agda esquadrinharam o corpo másculo, nos mínimos detalhes e a mente dela ficou a imaginar a compostura dos músculos dos braços e das coxas firmes e delgadas que se sobressaiam no formato das roupas sérias.
_Sua aparência é muito boa! Solicito que beba muita água também. Com licença, vou ter com a enfermeira.
Ele saiu rápido do quarto, ainda ouviu o protesto da senhora Molieri, mas sua atenção estava voltada por completo para o leito do quarto 5, com a pequena Esme que cantava lindamente. Já em seu consultório, ele tomou uma decisão que julgou ser sábia, partiria de imediato. Aproveitaria aquela brecha. Sua mente trabalhava rapidamente, conjecturando as possibilidades. Mesmo que a jovem não tivesse se calado e algo dissesse ao seu respeito? A isto ele poderia culpar a febre e a dor, mas e depois?
Carlisle arrumou suas coisas, deixou prescrito o tratamento a jovem e um recado sobre atender a um doente e partiu. As instruções dadas sobre a imobilização de Esme seriam seguidas a risca pela eficiente sóror Raphaela. A noite já ia alta e ele se apressou-se. Assim que chegou na pensão, arrumou seus poucos pertences e deixou a paga do mês na recepção. Ele passaria a noite na floresta, esperaria todo o dia até a próxima noite e assim viajaria na segurança da lua.
E para a jovem Esme, o tempo passou de horas para dias, de dias para semanas sucessivamente. Ela por todo este tempo guardou consigo aquele momento. Quando se via só, reclusa em seu quarto, ela tocava sua perna e fechava seus olhos para sonhar com seu lindo anjo da guarda. Nada mais lhe proporcionava a mesma emoção. Tudo o mais lhe era insipio, menos o gelo da neve, que não se poderia igualar ao gelo dos dedos longos e delicados, mas que permitia a ela sonhar...
Seus pais se entristeciam com o passar do tempo. Já em idade de se casar sua filha parecia não se interessar pelos jovens da comunidade. Eles viam que as amigas de Esme ao passar do tempo ficavam escassas. Pois se casavam e somente sua filha não se esforçava por arranjar a um bom partido. O Sr. Platt preocupado com aquela questão tomou a decisão ao seu modo e fez o arranjo, como nos tempos antigos, para horror de sua esposa.
_O jovem é de boa família. Não é rico, eles terão que trabalhar muito. Veja ela não ficara longe de nós, o filho dos Evensons tem casa aos arredores. Ela poderá lecionar na cidade e tudo fica acertado, mulher.
Charles Evenson era um homem simples, do campo. Ele tinha vinte e três anos, um bom porte físico, típico do homem fazendeiro. Sentindo-se na obrigação de agradar aos pais, Esme passou a aceitar a corte do Sr. Evenson e ao término de três meses, no final do ano de 1916 ela saiu da pequena igreja de Columbus como a Sra. Evenson. Cordada e bem educada, ela se esforçou por ser uma boa esposa. Em retribuição, ela tinha um marido jovem e trabalhador e uma boa casa.
Seus anseios foram por completo esquecidos, sendo relegados somente em seu subconsciente que se libertava a noite em sua cama, a sonhar com o jovem alto e loiro, de gestos gentis e olhar doce. Eram seus momentos de paz e alegria, pois sua vida aos poucos se transformava. Alheia a guerra que assolava o mundo, Esme em um dia de sol quente, sentada na varanda de sua casa a debulhar o milho, foi surpreendida com a notícia de que Charles partiria.
_Tem mesmo que ir, Charles?
_Não vou por gosto, fui convocado!
Do outro lado do país, com olhos tristes ele lia as noticias preocupantes sobre a guerra que assolava o mundo no jornal, o ano era 1918. Durante algum tempo Carlisle havia conseguido enganar as autoridades, forjando identidades falsas e mudando-se constantemente, após passar um período de quase cinco anos no Alasca. Junto a conhecidas de longa data.
A família Denali, era composta por três irmãs e dois agregados. Não fora assim no principio. Ele estava lá, quando foram julgadas por seus atos. Carlisle relembrou o horror daquele dia. Quando serviu de testemunha no dia do extermínio de Sasha e Vasilii. Após aquele dia, ele afastara-se completamente da corte suprema, tornando-se um nômade. Mas, por períodos de tempo, permitia-se visitar as jovens, que adotaram um modo de vida questionável para ele, mas interessante em certo aspecto.
_"Deveria experimentar, meu amigo! Saciamos a duas necessidades ao mesmo tempo..."– Carlisle lembrou-se da voz suave de Tânia, que tentou lhe convencer a adotar aquele meio de nutrição.
_"Tania, existe muito mais a aprender com eles além de lhes sugar a essência."
_"Aprender? Nada, até os dias de hoje absorvi deles, a não ser o nectar de suas vidas..."
_"Nem mesmo a arte de amar?" – a pergunta era dúbia e Carlisle viu o sorriso formar-se na bela face de Tânia. Mas como resposta recebera que eles eram muito frágeis, que não a completavam satisfatoriamente.
_"E você, meu amigo, encontrou alguma humana que o fizesse esquecer-se de seu passado triste? Que lhe rendesse a vontade de abandonar esta vida de solidão?"
Ele ficara em pura contemplação por um longo tempo.
_"Oras, diga-nos quem é a criança humana, capaz de causar-lhe a este silêncio. A curiosidade me consome, bem sabe que poucas coisas conseguem me fazer sentir assim!"
_"Não é nada."
_"Nada é o nome dela? Vai lhe conceder a eternidade?"
_"Jamais infligiria esta condição a um deles!"
_"Carlisle, é muito triste viver sozinho! Eu tenho as minhas irmãs, poderia ter você também, mas vejo que não se encantou por mim..."
Ele riu daquele gracejo.:_"Você também não se encantou por mim."
_"Mas seriamos estupendos juntos!"
_"Tânia, não temos a sintonia. Mas tenho algo a lhes oferecer, um novo conceito de vida."
Ele levou certo tempo, mas conseguiu mencionar com sucesso os benefícios de sua nutrição diferenciada, ao cabo que surtiu efeito e quando ele as deixou, elas já passaram a fazer parte de algo em sua vida, um laço estreito de algo em comum.
Atualmente na grande cidade de Chicago, Carlisle era conhecido como Peter Masterson e atuava no hospital geral da cidade. Havia conseguido o turno da noite devido a grave epidemia que assolava com a cidade, levando vários a morte. A noite não havia médicos o suficiente, pois muitos partiram para servir na guerra. Ele deixou o jornal sobre a pequena mesa do quarto que ocupava a pouco mais de um ano e tomou de sua valise. Era o inicio de mais uma noite que para ele não tinha fim. Com passos rápidos, mas contidos, Carlisle chegou ao seu destino. O cheiro da morte era pungente. Assim que ele tomou seu lugar no turno da noite, foi direto para os leitos dos seus enfermos. Com tristeza, leu a palavra óbito na ficha de Edward Masen. Ele morrera naquele dia por volta das nove horas da manhã, assim como tantos outros. Mas o senhor Masen era especial, não por ele em si, que já dera entrada no hospital sem qualquer chance de recuperação, assim como o filho. Mas Carlisle sentia-se tocado naquele caso, daquela família em especial, por ela, a mãe, Elizabeth Masen.
Olá!
Estou feliz pela quantidade de leitores e ficarei ainda mais se receber alguns reviews.
Esta fic é postada em outro site (Nyah), estou avisando para que não exista questionamentos sobre plagio.
Bjus
