2.
Clark estava no loft olhando as estrelas através do telescópio. Estava pensativo depois de ouvir o relato de Lois sobre o futuro. Deveria ter havido um motivo muito forte para ele deixar de agir como o Blur e abandonar tudo, indo embora com Lana.
- Ei, Clark.
Clark olhou para trás e viu Lois. Sorriu.
- Ei. Como está sua perna?
- Melhor. Ainda mais depois que sua mãe fez bolo de sorvete. – ela contou, bem humorada.
- Ela sempre te mimou.
- Você sempre teve ciúmes disso! – ela provocou.
- Nunca tive! – mentiu.
- Teve sim! – ela riu. – Você era o filhinho único e mimado até eu chegar! Ficava enciumado quando os seus pais me davam mais atenção do que a você!
Clark bufou como um adolescente e Lois achou graça.
- Eles sempre quiseram uma filha. Te viam como uma...
- Seria engraçado sermos irmãos.
- Nós jamais seríamos irmãos, Lois. – ele afirmou.
- Bom, mas somos bons amigos. E parceiros no Planeta Diário. Aliás, foi sobre isso que vim falar com você. Precisamos ter cuidado para que a Lois dessa época não me veja.
- Seria confuso mesmo. Ela não sabe nada sobre mim.
- Na verdade, nem eu sei muito. Bruce e Hal me contaram tudo às pressas. Eu jamais imaginaria que você seria como Kara.
- Um alienígena? – ele cruzou os braços e a fitou.
- Alguém com a mesma missão de salvar o mundo. Deve ser um fardo muito grande pra você.
Clark assentiu e deu um fraco sorriso.
- Não é fácil mesmo... Lois, eu pensei no que você contou, de eu ter desistido de salvar pessoas... Talvez eu tenha tido um desentendimento muito grande com Jor-El. Eu sempre tive dificuldade de aceitar o destino que ele quer me impôr.
- Destino?
- É. Antes ele falava que eu deveria dominar a Humanidade pela força.
- Clark não te imagino dominando ninguém pela força.
- Não mesmo. Eu nunca concordei com isso. Depois Jor-El mudou e resolveu que eu deveria ser um salvador. Um herói. Eu sempre usei meus poderes para o bem. Não por Jor-El, mas por tudo que meus pais me ensinaram. Porque era o certo. – ele explicou e ela assentiu, compreendendo. – Não acredito que Lana me impediria de continuar a salvar pessoas.
- Pois é, isso me surpreendeu também. Mas por outro lado, era mais que natural que vocês dois ficassem juntos. Talvez seja o destino. – ela deu de ombros. – Embora não acredite nisso.
- Você não acredita em destino, Lois?
- Não. Que tudo está predestinado? Que não importa o que façamos, algo vai acontecer sem que possamos controlar? Não mesmo. Nós temos que ter a opção de escolher. – ela suspirou. – Eu fiz algumas escolhas erradas e a pior de todas foi Lex.
- Ainda é dificil pra mim sequer visualizar você e Lex como um casal.
- Lex pode ser bem sedutor e persuasivo quando quer.
- Ainda mais quando ele usa uma máquina para entrar na mente de alguém. – ele lembrou.
- Pois é.
Os dois ficaram calados. Clark reparou que Lois tinha um olhar triste. Vago. Ainda havia uma força nela, mas Lois parecia ter passado por muitos baques na vida, que a marcaram.
- Eu sinto muito por tudo que te aconteceu. – ele disse, sincero. – Você merecia alguém que te amasse de verdade. Lex não sabe amar ninguém.
- Ele tem uma visão distorcida de amor. Para ele, é posse. É ter e prender. Amar não é assim. – ela fez uma pausa. – Não que eu seja uma grande expert nisso. Só dei topada atrás de topada. Escolhi todos os caras errados. – ela olhou para Clark e depois desviou o olhar.
- Você parece ter sofrido muito... – Lois deu de ombros. – Se você quiser se abrir comigo e conversar.
- Não quero. – ela disse, sucinta.
Clark pensou em falar algo mas aquela Lois era diferente da que conhecia. Ela não daria abertura para uma conversa mais profunda, não tão facilmente. Ele se sentia mal por ela. Não gostava de ver Lois sofrer.
Os dois ouviram passos e viram Chloe subindo a escada do loft.
- Ei, Clark, Lois eu estavamos conversando em como fazer a festa do casamento aqui, você sabe como ela é, já está pensando em organizar tudo e... – a loirinha parou e viu a prima. – Lois? Como chegou tão rápido? Conversei agora com você pelo telefone! – ela sorriu e olhou para os dois, que estavam sérios. – O que está acontecendo?
Lois deu um abraço carinhoso em Chloe.
- É bom ver você de novo, prima.
Chloe olhou para Lois com atenção.
- Aconteceu alguma coisa com você, Lo? Me parece... não sei... diferente... seu olhar está estranho...
- Aconteceu muita coisa, mas eu não sou a Lois que você conhece.
Chloe ficou surpresa.
- Então você é a Lois Lane de um futuro pós-apocalíptico? – repetiu Chloe, ainda boquiaberta.
- Resumindo é isso mesmo. Bruce me deu o anel para que eu avisasse Clark. Para que, de alguma forma, toda a tragédia pudesse ser revertida. Se pudermos salvar Metropolis e toda aquela gente inocente...
- Principalmente o tal Bruce. – disse Clark, sério. – Você fala muito nele.
- Bruce era especial. – afirmou Lois.
- Imagino. – Clark resmungou baixinho.
Chloe sentiu uma conotação de ciúme na voz de Clark, mas preferiu não comentar. Ela segurou as mãos da prima.
- É dificil acreditar que tudo isso irá acontecer daqui a alguns anos. É horrível imaginar tudo que aconteceu com você. – Chloe suspirou e olhou preocupada para Clark. – Eu pensei que você tinha detido Brainiac.
- Ele é uma inteligência artificial criada pelo meu pai. Talvez... talvez alguém o tenha trazido de volta. Nunca se sabe.
- Ele se dizia um devorador de mundos. Um colecionador. – lembrou Lois. – Não foi nada bonito assistir tudo o que ele fez.
- E tudo por culpa minha. – murmurou Clark.
- Clark, não foi culpa sua. – afirmou Lois. – Eu não entendo porque você quer ser o responsável por todos os acontecimentos ruins no universo... Você é só um homem. Um super homem, claro, mas ainda um homem. Você não é Deus. As pessoas fazem suas próprias escolhas. Não tem sentido você achar que é responsável por cada freak que saiu dos trilhos e fez alguma loucura! Você acha que é culpado pela careca de Lex, pela morte dos pais de Lana, pelo surto do Lionel que do dia pra noite resolveu virar seu protetor e terminou morrendo, por um cara que solta um arroto lá na esquina! Pelo amor de Deus, Clark! – ela se ergueu e o fitou. – Você não pode controlar tudo e muito menos as decisões de cada um! Se chegamos até aqui, foi porque qualquer caminho que escolhemos gera uma consequência! Infelizmente não se pode impedir que coisas ruins aconteçam. Eu sei bem. – ela deu um suspiro, pensando em Lara.
- Lois está certa, Clark. – concordou Chloe.
- Mas Brainiac não é uma pessoa. É uma inteligência criada pelo meu pai, Jor-El.
- Que foi corrompido. – Lois rebateu.
- E a morte dos pais de Lana é sim minha culpa, culpa da chuva de meteoros gerada por que meus pais me mandaram pra Terra!
- Foi um acidente! Você não resolveu jogar beisebol e jogou o meteoro em cima deles! Você era só um bebê! E o que os seus pais fizeram, foi pra salvar sua vida de um planeta condenado que estava explodindo! Eu teria feito o mesmo pela minha filha!
- Você tem uma filha? – Clark perguntou, surpreso.
- Quando você teve uma filha? – Chloe quis saber, também surpresa.
Lois passou a mão pelo cabelo. Havia falado demais. Aquele era um assunto que competia somente a ela.
- Uma filha hipotética... – ela tentou disfarçar.
- Seu tom não foi de quem tem uma filha hipotética e sim de uma real. – afirmou Chloe.
Lois encheu as bochechas de ar e depois soltou. Clark cruzou os braços, incomodado.
- É do tal Bruce? – perguntou e Lois o fitou. – É sua filha com ele?
- O que importa? Tudo se foi. E se vocês não se incomodam, não quero falar sobre isso. Agora, com licença. Minha perna está doendo, tenho que descansar. – ela abraçou Chloe. – Foi ótima ver você novamente, prima.
Lois saiu do loft e Clark bufou. Chloe o olhou. Clark parecia contrariado.
- Agora eu entendo porque ela fala tanto nesse Bruce...
- E isso te incomoda? – Chloe perguntou, divertida.
- Não. Lois faz da vida dela o que quiser. Só acho que... que ela poderia ter contado logo que o Bruce é o pai da filha dela.
- Não é por nada, Clark, mas no que mudaria Lois contar que teve uma filha com esse... Bruce? Isso não iria ajudar a salvar um futuro catastrófico.
- Não mas... – ele gaguejou. – Mas agora eu entendo porque ela viajou com o anel da tal Legião. Não foi minha causa e sim por Bruce!
- Por isso você está com raiva? Por que queria que ela viesse por você? – Chloe estava rindo.
- Não! Quer dizer... – ele coçou a cabeça. – Não, do jeito que Lois falou, parecia que toda tragédia tinha acontecido por minha causa, só isso!
- Não foi assim que ela falou. Lois não te culpa e nem quer que você sinta culpa. – Chloe afirmou.
- Eu sei... – ele respirou fundo. – Eu não consigo me imaginar, sentir, que eu sou esse herói que ela falou... Quer dizer, eu salvo pessoas como o Blur mas... ser o... Superman... como se fosse um grande herói... não sei se consigo ser assim, entende?
- Clark, eu já vi você fazer coisas incríveis. Eu já disse que você é mais do que um herói. É um super herói. Eu sei que você acredita ser um peso grande demais para se carregar, ainda mais porque você acha que é tudo imposição de Jor-El, que você vê mais como um tirano do que como um pai.
- Meu pai é Jonathan Kent.
- Eu sei. Por muitos anos eu também vi Jor-El como um tirano. Como uma voz no meio da imensidão gelada querendo te dar ordens. Mas e se não for assim? Se o destino que ele diz que você tem não for um fardo mas sim uma benção? Algo que mudará a sua vida e a de todos? Pense nisso.
Chloe deu um abraço no melhor amigo e saiu do celeiro. Clark ficou pensativo.
