Takashi e Kyoko formaram um dos casais mais bonitos que conheci em toda minha vida. Kyoko-san tentou por muito tempo, mas era incapaz de ter um bebê. Na sociedade da época, uma mulher que não tivesse filhos era declarada um desperdício, algo inútil e provavelmente passível de substituição. Mas Takashi-san nunca a tratou assim. Eles se amavam, e ele nunca a culparia por algo que ela não tinha controle.
Eles sempre quiseram uma filha, e eu caí do céu - na verdade, caí da beira de uma estrada. Takashi-san nunca me perguntou o que aconteceu, mesmo depois de me tornar adulta. Ele sempre foi muito compreensivo com as pessoas.
E Kyoko-san... Ela sempre me disse que não seria mais filha dela se tivesse saído de sua barriga. Eu nunca esqueci minha mãe, quem me deu meu primeiro nome, mas Kyoko deu o nome com que eu seria conhecida por toda a vida. E ela também era minha mãe - não de sangue, mas de coração.
Aliás, sobre meu nome... Na época, eu ainda não conseguia falar. E eu não sabia escrever. Então as pessoas apenas me chamavam de "Pequena" ou "Menina". Até que um dia, algumas semanas depois de minha chegada, estava ajudando Kyoko com a arrumação da casa e entrei no quarto atrás dela enquanto ela arrumava os futons. Eu tinha o hábito de andar sem fazer barulho, e logicamente, Kyoko-san levou um grande susto ao me ver atrás dela.
- Ah menina, que susto! Você nem faz barulho quando anda, de tão leve... - Kyoko-san olhou para mim sonhadoramente, com uma mão apoiando o rosto. Eu apenas pisquei, sem entender muito bem. - Só por causa disso, irei chamá-la de Miyabi-chan.
Miyabi, "a graciosa". Eu sorri, achei o nome bonito. Sempre achei que Chiharu, "mil primaveras", não combinava comigo. Era de algum modo muito distante da realidade. Talvez fosse algum desejo inconsciente de minha mãe.
- Gostou? Muito bem, venha me ajudar com o jantar, Miyabi-chan! - Ela deu um leve tapinha em minhas costas para que eu me apressasse e fosse em sua frente. E então saí correndo feliz para a cozinha.
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A família Kawaguchi não era muito rica, mas também não era nada pobre. Takashi-san trabalhava formalmente para um soldado de patente alta de Tokugawa-sama, que eu conheceria depois. Ele fazia suas armaduras.
Mas fazer armaduras não era sua atividade principal. Elas tinham uma certa exclusividade para poucos soldados de Tokugawa. Algumas eram caras e elaboradas, outras nem tanto. Dependia de quanto o cliente podia pagar. Ele não me deixava ficar muito em sua oficina, mas eu gostava de ficar olhando as belas armaduras quando podia.
Takashi-san informalmente também criava cavalos, e recebia hóspedes em sua grande casa - tínhamos alguns empregados também - e servia como um "faz tudo", realizando favores simples principalmente para os soldados de Tokugawa. Ele gostava de Tokugawa, o achava um general brilhante. Mas nem por isso ele gostava de Toyotomi. O achava um homem oportunista, que tinha apenas tinha subido na vida à sombra de Oda Nobunaga. Nunca conheci Toyotomi Hideyoshi, e tirando minhas impressões tiradas de relatos e suas ações que afetaram minha vida, nunca o conheci para realmente concordar ou não. Talvez fosse alguma implicância de Takashi-san.
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O tempo ficou mais quente e Junho chegou. Eu gostava do clima mais quente, de como a grama ficava verde e o céu azul. Adquiri o hábito - que sustentei pela vida toda - de ficar apenas deitada na grama olhando para as nuvens e imaginando como elas se parecem. Quando adulta, isso me deixava nostálgica, lembrando aqueles dias da minha infância. Eu também gostava muito de olhar para o belo castelo de Odawara, nos morros lá longe. A casa dos Kawaguchi ficava um pouco afastada da cidade.
Não tinha havido nenhum confronto no castelo até então. Provavelmente os samurais de Toyotomi iriam apenas continuar se divertindo na cidade até que os Hojo se rendessem pela fome. Já fazia quase um mês que eu estava na casa dos Kawaguchi.
Fui acordada de minha observação de nuvens por um barulho de cavalos. O rapaz empregado de meu pai, Koichi, tinha chegado com suprimentos. Ele era um rapaz com seus 20 anos, magrelo e um tanto desajeitado, mas muito gentil e engraçado. Eu gostava dele.
Levantei-me da grama e saí correndo para recebê-lo. Meu pai já estava falando com ele, que estava segurando o cavalo, e acenou um pequeno cumprimento pra mim. E então alguns pássaros saíram voando todos juntos da mata ao lado, o que assustou o cavalo.
O rapaz se descuidou com o animal, que assustado, começou a dar coices. Koichi-kun conseguiu desviar, mas então escorregou na bosta de cavalo, e caiu com o traseiro no chão!
Explodi de riso imediatamente. E então percebi que minha voz tinha saído. Todos olharam pra mim.
- Miyabi-chan... Você pode falar! - Takashi-san exibiu um sorriso de orelha a orelha. Até Koichi veio ver, ainda sujo de bosta de cavalo. - KYOKO, VENHA VER!
Kyoko-san, que estava lavando roupas, veio correndo prontamente, e chegou meio descabelada. Eu tinha consciência dos olhares de todos em mim, e sentindo calor de tanta vergonha, nem sabia o que dizer.
- ...Konnichiwa? - Eu disse, incerta, com minha voz de menininha. E então todos começaram a comemorar, e Takashi-san me pegou no colo. Koichi veio me abraçar, mas Takashi-san mandou-o tomar um banho primeiro, pois não queria uma filha com cheiro de cavalo. E eu ri, não só pela piada, mas pela felicidade de ter sido chamada de filha também. Agora eu era Kawaguchi Miyabi.
