9 a.m.
Hugh, depois de conversar com o advogado, pôs os pés na sua antiga casa.
Aquele lugar o trazia boas lembranças. Os filhos foram feitos ali, cresceram, choraram, divertiram-se por todos os cantos daquela mansão.
A filha correu e abraçou o pai, que não via a meses.
- Sua mãe?
- Na cozinha.
Ela sorriu.
Hugh caminhou até o cômodo e encontrou a esposa trabalhando com contas.
Ela abriu um sorriso mal-acostumado.
- Veio de surpresa?
Jô permanecera na mesma posição em que estava.
- Quero conversar sobre algo que devíamos ter feito há muito tempo...
Sentou.
A esposa sorriu e já imaginava o que seria. Não se importava tanto. Mas de certa forma doía ver o homem que passou décadas ao seu lado partir de uma vez.
-... Isso não vai funcionar. E não funciona há muito tempo. Eu sou muito grato pela sua paciência, seu empenho em cuidar dos nossos filhos, mas eu acho que nenhum de nós vai a frente agora. E eu... Eu... Eu...
Ele travou ao pedir. A esposa retirou os óculos e bebeu uma dose de vinho português.
- Peça.
- Eu estou pedindo...
Ela arregalou os olhos. Desafiadora.
"Eu sou tão idiota!"
Ele pensou.
- Eu quero o divórcio.
Suspirou mais leve.
- Ok.
A mulher repôs os olhos e tomou outra dose do vinho.
Hugh se levantou um tanto desconfiado e seguiu em direção a porta.
- Vagabundo.
- O quê?
Hugh voltou três passos e escutou algo cair.
A esposa tinha jogado o computador no chão.
- Idiota. Passei todos esses anos presa aqui, enquanto você transava com aquela atrizinha.
Ela pegou a aliança e jogou no lixeiro.
- Eu sinto muito. Mas eu não fi...
- VAGABUNDO! E eu vou assinar o divórcio. E você pode ficar com a sua fortuna. Sabe por quê? Eu tenho pena de você. Nos últimos anos sempre tive. Homem miserável, medíocre... Espero que seja feliz com a Lisa.
O ator abaixou os olhos, querendo evitar maior culpa.
A esposa se aproximou com urgência de Hugh e sem delicadeza apontou o dedo em sua face.
- Ver esse corpo mole, gordo e inutilizável? A culpa é sua! E essa minha cara de cachorro zangado? A culpa é sua! Todas essas rugas, tudo o que eu já me preocupei, toda essa velhice que você vê... A culpa é sua! Você não me deu valor, não me amou como deveria.
- Eu sinto muito, eu...
Hugh a agarrou e o maldito beijo aconteceu.
XX
2 p.m.
Lisa sentia o coração acelerar cada vez mais, se é que seria possível.
Estava atormentada, em busca de qualquer notícia.
Nádia, enquanto isso, divertia-se com a aflição da amiga. Ela perdera a contagem de vezes em que viu a atriz se levantar e circular nervosa pela sala, sussurrando um "tudo bem" para si mesma.
- Eu li na internet que ele traiu a esposa uma vez. Em 1998. Não sei se é verdade... Mas com você seria a segunda vez. Coitada!
- Nádia, cala a boca!
Lisa a repreendeu.
- E se ele trair você com uma mulher de 20 e poucos? Será que ele se separou da esposa mesmo? E se ele estiver transando com ela agora? E se você se tornar uma Jô mais nova?
- Vá se ferrar, Nádia!
Ela gritou, jogando um vaso na direção da figura viva do demônio.
Obviamente, Lisa pensou várias vezes em mandá-la embora, mas ela ocupava sua mente de vez em quando.
- Violenta!
Exclamava Dajani com a mão no rosto. Ela teve sorte de não ser acertada.
A verdade era que nenhum dos dois tinha culpa por se apaixonarem. Eram tantas coincidências e respeito, sobretudo, apoio nos momentos mais difíceis, que aconteceu.
E dessa proximidade, dentro e fora das telinhas, surgiu o algo mais.
Eles não queriam. Tentavam esconder e até evitar.
Mas, quem manda nas decisões do coração?
Quem pode escolher a quem amar?
Ele havia se tornado a melhor parte do seu dia.
Mas ela, às vezes, se sentia culpada.
E o que poderia fazer se não apostar?
Foram de pouco a pouco, o mais discreto possível.
Mas chegou um ponto em que a tensão era demais. Transbordava por todos os poros. Dele. Dela. Ambos.
E Hugh estava feliz. Algo que pouco sentiu em sua vida.
O ator só era culpado pela covardia. Pelo medo de encarar a separação.
Algo que deveria ter acontecido muitos anos atrás.
Em 1998 provelmente.
- Lisa, chamada.
A atriz rapidamente atendeu. Era aquela voz alta, rouca, sexy e um tanto nervosa ao telefone.
- Deu tudo certo? Como foi?
- Eu estou voltando. Preciso te contar uma coisa.
