Ato 3
A porta da sala de refeições desliza tranquilamente, e a figura do subcomandante surge com um olhar disperso, apenas dizendo mecanicamente que havia chegado. Todos o olhavam com alegria por vê-lo aparentemente bem após a missão que havia saído com Sannan:
- Hey Hijikata-san... Como está Sannan-san?
Perguntou Toudou, o mais atirado. Todos o olharam e o mesmo fez uma cara de interrogação, pois achava que estava correto em perguntar sobre a saúde de seu companheiro. Hijikata silenciosamente senta-se em seu lugar de sempre depositando a bandeja de comida diante de si:
- Ele está de repouso em seu quarto. Em menos de um mês já deve estar melhor.
O silêncio retorna, todos estavam muito preocupados, afinal um mês era muito tempo para uma recuperação, então o ferimento realmente teria sido feio. Após terminar sua refeição, Toudou se levanta com a bandeja e caminha até a porta:
- Vou me retirar, levar a comida para Chizuru-kun e dizer que voltaram bem da missão.
Quase instantaneamente, Hijikata pousa a mão sobre sobre seu abdômen franzindo as sobrancelhas.
- Chizuru-kun, aqui está sua comida.
Toudou entregava a bandeja no quarto enquanto a via encostada em um canto da parede pensativa. Ele abriu um sorriso e resolveu dizer tudo de uma vez, ser rápido:
- Não se preocupe tanto Chizuru-kun. Sannan-san está de repouso e logo irá se recuperar, e o subcomandante está intacto.
- É verdade?
Imediatamente seu rosto se clareou, abrindo um sorriso enquanto corria até a porta. Ele apenas afirma com a cabeça e torna a fechar a porta:
- Coma tudo, depois voltarei para recolher.
O resto da noite se segue, a comida havia sido recolhida, Chizuru já havia tomado seu banho, pensado e repensado mil vezes na saúde dos dois que voltaram da missão, algo ainda lhe perturbava a mente. Hijikata tinha o costume de visitar seu quarto pelo menos uma vez ao dia para ver se ela não havia escapado ou quando fosse necessário dizer algo como das outras vezes, porém, dessa vez ele ainda não tinha vindo, e como se não fosse o bastante, Chizuru começava a delirar, inventando mil e um pensamentos negativos:
- Ele sempre vem aqui ver se eu fugi ou não, mas dessa vez ele não veio... Será que ele... Se feriu e não quis me mostrar? Ai não, se ele se feriu ele deveria me contar! Eu... Posso ajudar, eu sei cuidar de ferimentos...
- Oh... É mesmo?
Os olhos de Chizuru se arregalam por um momento, sentindo o coração disparar, alguém havia ouvido seus devaneios e ainda mais ouvido-a falar em seu tom de voz original, aquela voz tão doce quanto qualquer coisa no mundo:
- Vou lhe dizer uma coisa... O nosso querido subcomandante aparentava bem, mas estava bem diferente do normal. Se eu estivesse em um posto tão alto como o dele e ainda tivesse me ferido feio, jamais contaria aos meus companheiros, pois todos eles contariam comigo nas batalhas e principalmente veriam em mim como alguém que sustenta coragem, determinação e glória. Agora eu lhe pergunto... Será que ele estava só preocupado com a saúde de Sannan-san? Ou ele realmente se feriu feio?
Aquela voz, aquele jeito de falar, era Souji. Mas de certa forma não parecia usar seu tom naturalmente cínico ao falar, parecia que no fundo estava preocupado com o subcomandante, mas como era de seu feitio, não permitia-lhe transparecer sua preocupação. Porém, aquelas suposições pareciam piorar as idéias negativas na mente de Chizuru, que sem pensar duas vezes se pôs de pé abrindo a porta e correndo pelo corredor. Souji estava sentado bem abaixo da janela do quarto dela olhando a lua daquela pequena varanda que formava o corredor quando teve a atenção tomada pela fuga repentina dela. Apenas abriu um sorriso:
- Chizuru-chan... O subcomandante está no quarto dele, no final do corredor.
Chizuru apenas deu uma paradinha para ouvir o que ele havia lhe dito e logo continua a correr, seguindo a indicação dele. Souji suspirou fundo enfiando os dedos entre seus cabelos enquanto a palma da mão lhe tampava um dos olhos:
- Ai, ai... O que está acontecendo com você Souji?
Chizuru estava parada diante a porta do quarto do subcomandante, as velas la dentro estavam acesas e ela podia ver um certo vulto lá dentro, não haviam dúvidas de que ele estava lá dentro mesmo. Porém, ela não encontrava coragem em apenas abrir a porta e entrar, ela sabia que se fosse se apresentar ele a mandaria retornar ou sabe se lá o que mais. O problema de Chizuru era que ela pensava demais nas conseqüências e por conta disso o subcomandante já havia notado sua presença ali:
- Quantas vezes já lhe disse para não sair de seu quarto? Retorne imediatamente!
Ela apertou suas mãos abaixando o rosto, não queria apenas obedecer aquela ordem, tentava resistir o máximo que pudesse. Hijikata notou que a mesma não o obedecia, o que lhe deixava ainda mais incomodado:
- Não vai retornar? De fato você deveria ter recebido alguma punição.
Se ele não se levantasse e fosse até lá para resolver aquele problema, nada iria acontecer. E foi o que fez. Tornou a fechar sua roupa, para tampar o ferimento e abriu a porta deslizante diante de si, encarando a figura estática de Chizuru. Descendo seus olhos por ela encara sua delicada mão segurando uma pequena maleta de primeiros socorros. Rangeu os dentes e lhe agarrou o braço a puxando para dentro e fechando a porta atrás dela. Naquele impulso, ela acaba por bater a testa no peitoral de Hijikata e por ali ficou sem reação, apenas olhando para baixo. O subcomandante manteve-se em silêncio por pouco tempo, pois precisava questioná-la:
- Droga... Alguém lhe viu com essa maleta vindo para cá?
Chizuru apenas balançou a cabeça negativamente:
- Por que trouxe isso?
- Hijikata-san costuma passar no meu quarto todos os dias, para verificar se eu ainda estou lá ou se fugi... Mas hoje ele não passou e então fiquei preocupada, muito preocupada...
O subcomandante sentiu seu coração pulsar muito rápido ao mesmo tempo que havia arregalado os olhos. Eles estavam tão próximos, que ele podia sentir o perfume que os cabelos daquela garota exalavam, e por isso relutava em querer abraçá-la por tanta preocupação que ela demonstrava.
- Eu pensei... Hijikata-san deve ter se ferido e não quer mostrar a ninguém, porque...
Chizuru desencosta sua testa do peitoral do subcomandante e ergue seu olhar até encontrar aqueles lindos olhos liláses:
- Porque o nosso querido subcomandante representa para nós coragem, determinação e glória...
Foi inevitável não relembrar de algumas palavras de Souji naquele momento. E por lembrar, abriu um sorriso tímido, sentindo seus olhos delicados encherem-se de lágrimas, ainda presos no canto dos olhos:
- O senhor... Carrega um grande peso nas costas por ser o nosso subcomandante, prefere sofrer sozinho ao invés de deixar com que todos saibam, porque você sabe que representa toda essa força e determinação àqueles que contam com você nas batalhas. Não... Não tem problema em esconder deles, mas... Assim como guarda o meu segredo dos outros, eu posso guardar este segredo seu deles também, desde que me permita cuidar de seu ferimento até que sare...
A expressão de susto que Hijikata sustentava em seu rosto desaparecia lentamente conforme ele ouvia aquelas palavras saírem do fundo do coração daquela garota. A grossa lágrima que acumulava no canto de seu olho castanho fora cuidadosamente retirada pelo dedo do subcomandante que já esboçava um sorriso calmo, sincero e tímido. Ele sentia um calor gostoso dentro de seu coração naquele momento e não queria se importar com mais nada. Demorou-se em limpar as lágrimas do rosto delicado de Chizuru, percebendo como ela ficava linda de bochechas coradas. Em um impulso, ele a toma em seus braços, abraçando e afundando seu rosto no pescoço dela, mas ao fazer aquilo solta um suave gemido, sentindo dor no local do ferimento:
- Ah, Hijikata-san... O seu ferimento...
Sem dizer nada, ele a solta e dá as costas andando até uma almofada se sentando lá, de lado para ela, com sua mão desfaz o nó da cintura retirando a parte de cima de seu kimono, revelando seu corpo forte de pele bem branquinha, e bem ao lado de seu abdômen estava um curativo mal feito, provavelmente feito por ele mesmo. Ao erguer o braço ele evita olhar nos olhos dela:
- Tudo bem... Acho que estamos quites então quanto aos "segredos". E sobre o que acabou de acontecer... Se ousar contar a alguém, a matarei.
Chizuru sorria, apesar da ameaça, ela havia descoberto um segundo Hijikata, que estava enterrado bem no fundo de seu ser. Então Hijikata-san na verdade era uma pessoa doce e maravilhosa?
- Anda logo, se notarem que está aqui comigo... Não terei explicações a dar.
- Ah, hai!
