Flocos de Neve
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III – Chocolate Quente
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Eu estava muito nervosa quando bati à porta da casa dos meus pais na manhã de Natal. Por isso eu acho que ninguém ouviu. Então eu procurei bater de forma mais confiante. Ah! Se eu pudesse, eu saía correndo dali e nunca mais voltaria. Como se fosse possível fazer essa gloriosa atitude sem qualquer ressentimento por parte das minhas tias – e tinha uma em especial que iria adorar que o cheiro da minha covardia simplesmente contaminasse o ar: Tia Kazumi.
Ela era uma psicóloga aposentada e frustrada – já que se aposentou por causa do marido, que disse que ela sofria de "estresse mental". Desde que eu me lembro, ela demonstra um verdadeiro espírito (sádico) de pesquisa. Oh! Eu sempre fui como um bichinho de estimação dela que adorava fazer análises a respeito do meu comportamento (que para ela era cheio de imperfeições).
Quando a psicóloga aposentada começava a perturbar a "cobaia" dela – eu -, era de se esperar que minha mãe fizesse alguma coisa para me proteger daqueles ataques massacrantes e humilhantes. Em vez disso, ela concordava solenemente com tudo o que minha tia dizia – mesmo que ela, minha tia, fizesse duras críticas ao modo como eu fui criada – como se entendesse do assunto (mas ela não entende, considerando que ela era professora).
Ouvi que passos acompanhados de risadas se "aproximavam" da porta, que foi aberta segundos depois, revelando o rosto levemente surpreso de Aika, minha prima, filha de Tia Kazumi.
- "Pensei que você se atrasaria" – O riso no rosto dela era claramente debochado, mas era Natal e se eu começasse uma guerra de alfinetadas ali, eu seria boicotada durante todo o próximo ano. E a semana anterior já havia sido tão chata e cansativa, que não convinha arranjar problemas naquele momento.
- "Eu não faria isso no Natal." – Falei falsamente e entrei, embora eu não tivesse necessariamente mentido.
Não foi surpresa notar que havia muitas pessoas ali – familiares e amigos dos meus pais, que eram bem carismáticos com as pessoas. O barulho infernal das conversas estava me deixando com dor de cabeça. Cada um queria falar mais alto que o outro.
Indo para a cozinha – para ver se eu conseguia um refrigerante – eu esbarrei na minha querida Tia Kazumi. As rugas pareciam mais visíveis, os cabelos, mais brancos. Os olhos verdes dela me analisaram de cima a baixo e provavelmente sua boca se abriria em segundos, liberando (veneno) sua crítica a respeito de minha aparência.
- "Olá, Tia Kazumi!" – Cumprimentei.
- "Sakura... Chegou há pouco?" – os olhos dela se apertaram, como se andasse desconfiada de algo.
- "Sim." – Eu sei que a minha covardia ante a figura da minha tia é grande e completamente vergonhosa, por isso não relato como me sinto sendo esmagada pela pressão psicológica de estar sendo analisada.
- "Ah! Sua mãe queria vê-la..." – O abate ficará para depois, muito provavelmente.
Procurei por minha mãe em todos os cômodos da casa e a encontrei, sentada na varanda, com um embrulho sobre as pernas e com o olhar vago, como se estivesse tendo alguma lembrança do passado. Uma lembrança muito boa.
- "Tia Kazumi disse que queria me ver..." – Falei me aproximando.
Ela olhou pra mim com o mesmo olhar embasbacado – cheio de ternura – acompanhado de um sorriso meio bobo. Lembrei-me do dia em que eu ingressei na faculdade, ela tinha esse mesmo olhar – que me dizia o quão orgulhosa ela estava. Mas a magia daquele olhar e do momento foi logo substituída pela frustração de ter a minha escolha criticada pela querida Shidô Kazumi.
- "Algum problema?" – Perguntei sabendo que era impossível haver problema com ela, quando aquele olhar estava presente – a menos, é claro, que ela esteja sob efeito de alucinógenos. O que eu espero que não seja o caso.
- "Eu só estive pensando um pouco..." – Ela abaixou o olhar para o embrulho que ela tinha sobre as pernas – "Aqui, seu presente!" – Mãe é sempre mãe. Eu sorri ao vê-la estender um pequeno embrulho com as mãos já envelhecidas pelos anos que ela viveu. Sorrindo e fazendo uma mesura, eu aceitei de bom grado, embora eu não tivesse um presente para ela exatamente naquele momento.
- "Desculpe por não ter trazido o seu presente..." – Falei enquanto encarava o chão, como costumava fazer quando eu tinha por volta dos doze anos e fazia algo errado.
- "Não se preocupe com isso... Você sabia que para os ocidentais cristãos, o Natal é uma época de... Perdão e de coisas boas... Bom, acho que era isso o que eu li naquela revista..." – Ela fez uma pausa enquanto tentava, provavelmente, lembrar o que tinha lido. – "Mas, me diga, faz algumas semanas que não nos visita. O que tem feito?"
Isso! Vamos quebrar aquele clima bonito de Natal e começar o abate do animal rosa!
- "Trabalhando, mãe. Nada que seja realmente interessante."
Ela fez um sinal com a cabeça como quem concorda. Talvez minha mãe esteja mesmo sob efeito de algum alucinógeno.
Durante o resto do dia – pelo menos enquanto eu estive na casa dos meus pais -, eu fiquei sentada, comendo e bebendo alguma coisa, tentando me esconder dos olhares curiosos de alguns membros da família que se mostravam um pouco surpresos com a minha presença ali. Acho que alguns comentários de Tia Kazumi podem ter chegados até outros membros.
Mas acho que o que importa é que eu estive lá, apesar da covardia. O que interessa é que eu estava me sentindo bem. Mesmo com os comentários um tanto quanto irônicos da minha tia.
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Quando voltei para o meu apartamento, no meio da tarde, eu não me senti bem por lembrar os presentes que eu deveria ter levado e que ficaram no fundo do meu armário, esperando até que eu os levasse qualquer dia desses.
Pelos menos, depois de um banho quente eu me senti melhor. E quase deu pra esquecer que era inverno. Quase, porque o meu aquecedor infeliz quebrou! Yes! De volta à vida de horrores de Haruno Sakura.
Eu senti que a minha paciência se esvaía aos poucos enquanto a temperatura começava a cair lentamente. Eu passei a não prestar mais atenção no que eu estava tentando fazer – um chocolate quente – e, do mesmo modo que a paciência se esvaía, o meu pânico aumentava.
Por que era Natal e pouquíssimas pessoas trabalhavam naquele dia. Muitos preferiam passar esse dia com suas famílias ou namoradas, sei lá, em vez de considerar aquele um dia normal.
Prendi meu cabelo em um coque mal feito e vesti três casacos por cima da calça de moletom preta e da camiseta branca. Eu comecei a sentir que minhas mãos esfriavam e as luvas foram necessárias. Não acredito que a temperatura tivesse caído tão rápido. Talvez fosse problema psicológico, mas eu não tinha tempo para isso! Eu precisava de alguém que pudesse consertar meu aquecedor.
Então eu desci pelas escadas do prédio, tentando forçar o meu sangue a se espalhar pelo meu corpo com algum tipo de exercício, para não terminar de congelar. Eu me dirigi à portaria do prédio, para ver se o porteiro saberia me indicar alguém que pudesse dar uma olhada nele.
Ouch! Meu pânico crescia só de imaginar a temperatura que aquele apartamento chegaria à noite. E aumentou ainda mais – se é que era possível – quando o porteiro disse que não sabia quem poderia dar uma olhada nele.
Como estávamos no fim do mês, meu salário havia diminuído (havia sido gasto) e não era muita coisa, não daria para comprar um novo, nem se eu quisesse. E isso era tudo no que eu conseguia pensar em meio à neve que me cercava como uma praga que se espalhava por todos os lados de forma insistente.
Então uma possibilidade passou pela minha cabeça: voltar para a casa dos meus pais até resolver isso, mas... Passar um tempo com eles era a minha idéia de desconto de pecados. Bom, era isso, ou ter uma hipotermia durante a madrugada e morrer congelada.
De qualquer jeito, eu tinha que fazer alguma coisa.
E eu subi as escadas – ainda tentando forçar o meu sangue a passar pela maior quantidade de células possíveis – e entrei, começando a pensar no que eu levaria para o meu cárcere privado (as metáforas são inevitáveis nesse ponto da situação). Peguei a mala e a enchi com coisas que eu provavelmente precisaria, enquanto estivesse sob a tortura dos meus pais.
Arrastei a mala até a sala e decidi que seria mais seguro se eu ligasse para um táxi – um que estivesse interessado demais em lucrar para dar atenção ao Natal.
Então eu arrastei a minha mala para fora do apartamento e peguei o meu celular na bolsa para ligar alguns minutos depois. Bom, não foi isso o que eu fiz – eu queria entender o que se passou na minha cabeça naquele instante. Um segundo depois e eu estava batendo no apartamento da frente, com uma impaciência enorme, esperando que o Sasori-san abrisse a porta – o que não demorou muito para acontecer.
- "Oh, desculpe se incomodei. Eu só queria saber se você conhece alguém que concerte aquecedores elétricos..." – Falei um pouco envergonhada, já que ele estava usando um suéter um pouco apertado, moldando os músculos do corpo dele.
- "Hm... Sem problemas. Mas o que aconteceu?" – Ele levantou uma das sobrancelhas, enquanto parecia pensar sobre o que eu perguntei.
- "Bom... eu o liguei quando cheguei da casa dos meus pais agora há pouco, e ele não funcionou." – Isso mais pareceu um lamento.
- "Eu vou falar com um amigo pra ver o que ele pode fazer... Mas se importa se eu der uma olhada?"
- "Não..." – eu falei ainda não acreditando que ele, o ruivo sup... Quer dizer, o Sasori-san, iria dar uma olhada naquele aquecedor fajuto.
Ele entrou no próprio apartamento, deixando a porta aberta, enquanto provavelmente iria ligar para o amigo dele, acho. Eu fiquei ali parada, olhando fixo para um ponto que eu não sabia exatamente qual era, feito uma boba.
Alguns minutos depois, eu estava tentando voltar a fazer o chocolate quente que ficara inacabado, enquanto Sasori olhava meu aquecedor e esperava o tal amigo dele. Bom, seria suficiente que eu tivesse só o Sasori aqui, mas eu não sei se ele vai conseguir consertar aquele treco velho – que poderia ter pertencido à minha avó antes de ser meu...
Acho que eu fiquei tempo demais exposta à completa falta de juízo da Ino e da Karin – aquelas duas quando estão juntas, não conseguem fazer nada que seja aproveitável... e fazem comentários bem mordazes. O caso é que as imagens de um ruivo vindo na minha direção sem a camisa fez com que eu errasse a receita do chocolate.
- "Acho que não foi um problema muito grave com o seu aquecedor..." – Ele comentou vindo na minha direção (com a camisa, mas o efeito foi o mesmo). Eu levei um susto, já que eu ainda estava tentando acabar de preparar o tal chocolate quente; meu coração disparou – provavelmente uma conseqüência muito forte do susto, ou na pior das hipóteses uma paixonite pelo meu vizinho.
- "Ah, ok. Obrigada!" – Sorri para ele, pois foi a única coisa na qual eu consegui pensar em meio a minha confusão. – "Quer chocolate quente?" – Ofereci meio incerta se ele iria gostar de beber algo que eu não sei como está devido a minha falha na hora de preparar.
- "Obrigado."
Nós nos sentamos no sofá da sala, enquanto esperávamos e bebíamos o chocolate. Eu estava apreensiva e preferia não pensar no fato de que eu pudesse estar parecendo – mais uma vez – uma idiota. Eu escolhi me concentrar no líquido quente, e doce, e viciante, e feliz. Sim, chocolate era uma coisa feliz – embora eu não goste muito de coisas felizes. E o Sasori experimentou a minha experiência mutante. Eu estremeci quando o vi levar a xícara aos lábios, temendo que ele não gostasse, afinal, mesmo tragável, aquele chocolate ficou um pouco estranho.
- "O que achou?"
- "Está diferente... Mas está bom..." – Ele falou depois de fazer um pequeno suspense.
Suspirei de alívio e ele sorriu. Um sorriso de lado, só com o canto dos lábios, que me fez ficar como se eu tivesse bebido mais um gole do chocolate que estava em minhas mãos.
- "O que você faz?" – Perguntei de súbito, enquanto bebíamos, com aquele silêncio mórbido no local. Entretanto, eu quase me arrependi de ter feito aquilo, já que me ocorreu que eu poderia estar sendo bem inconveniente com a minha curiosidade sobre a vida alheia. Ele pareceu não se importar com isso, respondendo minha pergunta gentilmente.
- "Eu sou médico... Mas gosto mais de trabalhar com marionetes nas horas vagas..." – Ele falou gentilmente.
E confesso que fiquei realmente curiosa quanto a especialidade dele (embora eu não tenha gostado muito de saber qual era ela: ele era médico legista e costumava trabalhar com alguns mortos). Ele me pareceu bem empolgado falando sobre a própria profissão. Nós dois acabamos discutindo sobre algumas coisas idiotas sobre as nossas profissões.
Eu me senti confortável conversando com ele. Era melhor que ter uma conversa com a Tsunade-sama – que, além de ser a diretora da clínica, é minha mestra. E foi divertido. Bom, pelo menos enquanto eu não imaginava algumas coisas que ele dizia... E quando eu conseguia entender as ironias de um humor um tanto quanto negro sobre a sociedade.
E ele pareceu interessado nas besteiras que aconteciam no meu trabalho. Sabe, aquelas senhoras que acham que podem sair contando sobre a vida delas para todo mundo e não se importam com o que você possa estar pensando sobre elas.
Eu ainda vou ter problemas com a minha impaciência diante de certas ocasiões.
Mas não naquele momento. Não com o Sasori.
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Parece que as pessoas se empolgam mesmo, quando conversam sobre algo que as fascina; que o tempo passa bem depressa quando se tem uma companhia agradável que ajuda a se esquecer dos problemas; que a neve parece bem mais bonita quando cai durante o pôr do sol e que ruivos não têm problemas com frio – o que na minha cabeça quer dizer: ruivos são quentes.
No fim daquela tarde de Natal, o porteiro do prédio avisou que o amigo do Sasori – Deidara, que, aliás, eu descobri ser a tal cabeleira loira da outra vez - estava na portaria. Ele mal havia chegado e a primeira pergunta que ele fez foi: "O aquecedor explodiu?". Acho que ele é algum amante de explosões. Ele justificou o atraso depois disso, e só então eu percebi que o sol estava quase se pondo – não comentei sobre isso com ninguém, eu não queria parecer uma pessoa distraída.
Quando o meu aquecedor estava novamente funcionando, eu já podia sentir o calor me invadindo. Eu havia esquecido o quanto eu tinha problemas com frio, enquanto conversava, mas naquele momento a única coisa que eu queria era algo que me desse conforto físico – e o calor era um pouco mais confortável que o frio extremo.
Sasori olhou para mim, sem que eu pudesse decifrar o que se passava em sua mente e – como se realmente soubesse o que eu queria – ele perguntou se eu não estava achando um exagero os três casacos.
Eu tirei-os – um a um – enquanto ria nervosa e explicava que não gostava tanto de frio. Então, notando que ele não usou um casaco para ir a minha casa, eu perguntei o que ele achava do frio. Para minha total surpresa ele disse que não tinha problemas com baixas temperaturas. Eu acabei achando uma piadinha particular o fato de ele não ser tão expansivo com relação às pessoas e não ter problemas com frieza...
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Era uma sábado à tarde quando eu voltei a ver o Sasori. As festividades de ano novo estavam ficando cada vez mais intensas. E eu... Bem, eu tentei falar com a minha tia educadamente – quando fiz-lhe uma visita cordial naquela manhã. Mas aquela senhora é definitivamente muito difícil de entender.
A minha frustração era tão grande que eu não senti vontade de entrar no meu apartamento e ficar lá sozinha com todas as coisas ofensivas que ela me disse antes de eu ter um pequeno acesso de fúria e de me retirar subitamente da casa dela na cabeça. Embora ela não parecesse perceber que me magoou.
Não que eu esteja me sentindo um pouco mais simpática com relação a ela, mas aquilo estava me corroendo por dentro. Tipo, eu meio que sentia remorso pelo modo como eu a havia tratado.
Então, eu fiquei sentada ao lado da porta do meu apartamento, com a cabeça apoiada sobre os meus joelhos, enquanto tentava me focar em coisas alegres. Acredito que se a Ino estivesse ali, se tudo tivesse acontecido com ela, ela já teria se esquecido daquilo.
A brisa que soprava naquele corredor me fazia estremecer e os pensamentos negativos com relação ao inverno me invadiram a mente de modo que eu mal conseguia lembrar o lado bom dos meus medos: eu poderia – enquanto parecia uma maluca sentada naquele lugar – encontrar alguém que me pudesse fazer companhia... Mesmo que seja o zelador do prédio e eu não precisaria ficar sozinha.
Os passos no corredor me alertaram da presença de alguém. Eu não quis levantar a cabeça, até perceber que a pessoa parara a minha frente. Meu coração disparou e eu engoli em seco. Para mim era bem óbvio que o meu vizinho teria a sua dúvida quanto a minha sanidade mental aumentada, graças aos meus hábitos idiotas - aquele principalmente.
Eu, então, levantei a cabeça e o olhei. Ele olhava para mim e eu me perguntei o que havia de errado comigo.
- "Você está bem?" – Ele perguntou sendo gentil.
- "Pra falar a verdade, não." – Ele pareceu me analisar por um tempo. Acho que considerando se eu precisava ir a um médico ou se meu problema era outro.
- "Quer dar uma volta? Posso não ser o melhor conselheiro, mas posso tentar ser um bom ouvinte." – Ele me perguntou de um modo que me fez rir. Então eu levantei e saímos.
Enquanto caminhávamos, eu o olhava de esguelha. Acho que naquele dia ele parecia mais bonito. Os cabelos ruivos um tanto quanto bagunçados, cobertos por alguns flocos de neve. A pele pálida se sobressaindo em contraste com o negro do casaco. Os olhos castanhos fixos em algum ponto a frente. Parecido com o dia em que o vi pela primeira vez.
- "Você deve me achar completamente louca." – Eu disse por fim. Claro, que eu realmente parecia uma louca, principalmente dizendo isso a ele, mas eu não raciocinei direito enquanto o olhava. Acho que eu tinha feito outra besteira.
- "Isso é o que você acha." – Ou o meu QI está diminuindo, ou eu realmente escutei que eu não sou tão louca quanto pareço... – "Quer um chocolate quente?"
- "Sinceramente? Eu não tenho condições de recusar..." – Falei pesadamente. Chocolate quente era a única coisa que me mantinha aquecida nos invernos – as minhas roupas também me aqueciam, mas elas eram externas e eu sentia frio externa e internamente. Eu não poderia recusar algo tão maravilhosamente bom quanto uma xícara daquilo.
- "Você é direta." - Eu ri.
Então, eu contei tudo a ele. Foi idiota e monótono fazer isso, mas eu sentia como se pudesse continuar contando tudo o que eu precisasse a ele, pois – mesmo com um ar de tédio no rosto – ele se interessava pelas coisas que eu dizia.
E eu senti como se eu não fosse conseguir parar até dizer tudo o que eu precisava quanto aos meus problemas familiares. O chocolate quente que ele pagou pra mim foi o suficiente para que eu soltasse tudo o que me atormentava. E, acredito que pela primeira vez naquele inverno, eu me senti feliz e um pouco mais tranqüila...
O silêncio ficou depois que eu terminei o meu relato. Os olhos castanhos dele olhavam fixamente para mim e eu não pude evitar ficar um pouco nervosa. Talvez eu tivesse falado mais do que deveria.
Mas quando a mão dele alcançou uma das mechas do meu cabelo, encostando de leve a ponta dos dedos sobre o meu rosto, eu suspirei um pouco mais alto do que deveria e passei a achar que eu não deveria ligar para coisas tão inúteis. No segundo seguinte, minha mente era um grande borrão. Os lábios frios dele entraram em contato com os meus lábios, recém-aquecidos pelo chocolate. Não ouso descrever as reações que tive, já que provavelmente eu não conseguiria lembrar-me delas. Acho que somente quem recebe um beijo e – conseqüentemente – beija uma outra pessoa, será capaz de saber o que sente-se em momentos como aquele.
- "Você é direto..." – Eu comentei rindo, ainda um pouco envergonhada, enquanto analisava os olhos dele, de perto.
- "Eu sei..." – A boca dele colou-se de novo com a minha.
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Aquela segunda foi um dia de trabalho estressante. A senhora do cachorrinho "Chulé" voltou para mais uma seção de fisio-psicoterapia... E eu até estava de bom humor e fingi que eu era uma boa psicóloga.
- "Sakura, como pretende passar o ano-novo?" – Ouvi a nota de curiosidade na voz da Ino quando ela perguntou isso em meio àquele fim de tarde.
- "Como em todas as vezes, Ino..." – Respondi suspirando e parando um segundo de organizar as pastas de alguns pacientes para olhá-la melhor. A expressão de surpresa ante a minha resposta estava lá. Estampada, denunciando que não era aquela a resposta que ela queria receber.
- "Ow, Haruno Sakura é um caso perdido!" – Ela falou levando as duas mãos à cabeça. – "Ok, é o seguinte: Doutora Haruno, você já tem idade o suficiente para saber o que quer. Então, você sabe onde me encontrar caso precise de companhia... E eu já estou indo, pois tenho que encontrar o Gaara..."
Olhei para o relógio no meu pulso e percebi que já estava ficando tarde. E eu só desejei, naquele momento, tomar um banho com água quente e... Um chocolate. A perspectiva de dormir pelos próximos dias era tão... Boa. E tentadora.
Bom, na quarta seria dia trinta e um de dezembro. Os preparativos para o ano novo ficariam mais intensos do que vinham sendo. As pessoas começavam a se preparar de fato para as festividades, fazendo comidas que durassem o suficiente para pelo menos três dias. As pessoas não trabalhavam nos primeiro dias do ano, então todos nós teríamos uma folga.
Quando cheguei em casa e vi a pequena rosa vermelha em frente a minha porta, eu ri.
Talvez eu não fosse passar o ano novo tão sozinha. Acho que os meus invernos fossem ser bem melhores...
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N/A: Eu sei, eu sei, o capítulo ficou bem corrido e quase não teve tanto romance assim. O caso é que a Sakura cofcof não achou tão interessante narrar mais que isso. Mas, enfim, é para isso que eu estou escrevendo o epílogo! Bom, digam-me através das reviews – por favor – que tipo de romance vocês mais gostam: do tipo meloso- sem haver uma descaracterização grande dos personagens – ou se vocês preferem algo mais bonitinho, não tão meloso... O epílogo depende de vocês – acho que isso está parecendo uma chantagem, mas não vai ser tão ruim assim =DDD
Ah, obrigada mesmo pelas reviews do capítulo anterior! Sério, amei mesmo as reviews, embora não tenha conseguido respondê-las. =3 Fica aqui então o meu agradecimento (bom, eu tinha esquecido, já que eu gosto de escrever as notas na hora de publicar e nem sempre lembro de tudo...). Adoro vocês!! =33
Bom, acho que é isso. Até breve!
=*
