2 - A volta do que nunca foi
"Can you picture what will be So limitless and free Desperately in need...of some...stranger's hand In a...desperate land "
Sem nenhuma outra preparação, aparatou em Hogsmeade, caminhando rapidamente em direção à velha escola, sob olhares explicitamente surpresos (ou condoídos?) dos habitantes. Para os que o acreditavam morto, sua aparência só vinha a corroborar que ele parecia renascido da morte : sua face cadavérica , sua palidez tão pronunciada, suas roupas agora rotas envolvendo-o como uma mortalha negra... para os que acreditavam em lendas, triste figura de um cavaleiro andante ele era.
Sabia que seu atual aspecto colocaria uma nova - e triste - frase nos comentários que o precediam e sucediam, mas não era essa sua finalidade : deixaria à comunidade bruxa que pensasse o que quisesse pensar. Nem uma única vez olhou para os lados, e com passos rápidos dirigiu-se a Hogwarts, deixando atrás de si medo, saudades e até vergonha. Felizes eram os mortos, pois não precisavam pensar mais.
Pelo caminho de velhas pedras ia imaginando o que iria dizer, e ao mesmo tempo que pensava que há menos de um ano tinha feito o mesmo trajeto, melhor acompanhado. Acreditava então na vida, em ganhos, em poesias... agora só seguia as pedras - antigas e gastas - que o levassem ao início de tudo. E talvez a seu fim.
Voltou seu olhar mortiço para o que havia sido um belo campo, e só via horror e tristeza ali também...mas, por mais que quisesse apenas enxergar o negro do que a destruição havia deixado, algumas tímidas flores insistiam em estar ali, e ferirem seus olhos baços com suas cores vibrantes, e seus talos repletos de vigor da vida. Mas ele não as via. Não queria vê-las. Não tinha mais forças para enxergar a beleza.
Ergueu os olhos para um sol morno, de final de tarde : rubro. Devia se apressar, antes que começasse a pensar novamente com seu cérebro. Já se maldizia internamente por ter seguido esse presságio - que ele mesmo rogara ao jogar seu sangue no chão e exigir um desenho - com o coração, e não com a cabeça. Mas os portões de Hogwarts - que se abriram sozinhos - não lhe deixaram alternativa de voltar à pocilga que chamava de lar, e ao arremedo de vida que tinha se obrigado a ter no último ano. Mais uma vez, Dumbledore o aguardava. Mas será que era ele mesmo que Dumbledore queria ?
"Lost in a Roman...wilderness of pain And all the children are insane All the children are insane Waiting for the summer rain, yeah"
Apenas ali pensou que poderia ao menos ter se trocado para ir à velha escola, e sem mais delongas entrou no lago para se limpar, mergulhando rapidamente e sem remorsos para sentir, logo abaixo da superfície - agradavelmente aquecida pelo sol diurno - o gelo do lago de Hogwarts. A mão deu uma fisgada em contato com a água gelada, onde o corte estivera, demonstrando que ainda não estava totalmente curado. O lago sempre o atraíra, sempre o comovera : era, como ele, frio e profundo... e cheio de perigos. E mortalmente gelado. Ficou alguns segundos dentro da água, tentando pensar, muito além do normal... e lentamente começou a subir à tona, com a água de Hogwarts - e de suas dores - descendo lenta e livremente pelo seu rosto ... Magia pura, esse lugar que arranca lágrimas de um coração de pedra, pensava ele enquanto subia e devagar abria os olhos.
- A Lula Gigante está bastante interessada em saber o que está alterando o sabor sempre suave e doce da água do lago, disse Dumbledore segurando uma grande toalha de banho logo à margem.
- Diga a ela que onde eu passo nada suave e doce perdura.
- Eu não teria tanta certeza... mas, saia daí e venha se secar. O jantar logo será servido, e temos de achar roupas que sirvam em você. Você cresceu mais ainda, sabia ?
- Achei que tinha diminuído, para falar a verdade.
- Você enxerga o que quer ver, mas será que isso é o real ? Vamos... está esfriando.
- O frio não me incomoda. Nada mais me incomoda.
- Incomoda a mim, que sou um velho que já viveu demais... vamos. E bem vindo de volta.
Devia ter se virado e partido. Devia. Mas o último raio de sol brincando em uma folha soprada pelo vento (sinalizando insistentemente a direção das grandes portas do castelo ) o fez seguir o velho professor... Loucura.
"Can you picture what will be So limitless and free Desperately in need...of some...stranger's hand In a...desperate land "
Sem nenhuma outra preparação, aparatou em Hogsmeade, caminhando rapidamente em direção à velha escola, sob olhares explicitamente surpresos (ou condoídos?) dos habitantes. Para os que o acreditavam morto, sua aparência só vinha a corroborar que ele parecia renascido da morte : sua face cadavérica , sua palidez tão pronunciada, suas roupas agora rotas envolvendo-o como uma mortalha negra... para os que acreditavam em lendas, triste figura de um cavaleiro andante ele era.
Sabia que seu atual aspecto colocaria uma nova - e triste - frase nos comentários que o precediam e sucediam, mas não era essa sua finalidade : deixaria à comunidade bruxa que pensasse o que quisesse pensar. Nem uma única vez olhou para os lados, e com passos rápidos dirigiu-se a Hogwarts, deixando atrás de si medo, saudades e até vergonha. Felizes eram os mortos, pois não precisavam pensar mais.
Pelo caminho de velhas pedras ia imaginando o que iria dizer, e ao mesmo tempo que pensava que há menos de um ano tinha feito o mesmo trajeto, melhor acompanhado. Acreditava então na vida, em ganhos, em poesias... agora só seguia as pedras - antigas e gastas - que o levassem ao início de tudo. E talvez a seu fim.
Voltou seu olhar mortiço para o que havia sido um belo campo, e só via horror e tristeza ali também...mas, por mais que quisesse apenas enxergar o negro do que a destruição havia deixado, algumas tímidas flores insistiam em estar ali, e ferirem seus olhos baços com suas cores vibrantes, e seus talos repletos de vigor da vida. Mas ele não as via. Não queria vê-las. Não tinha mais forças para enxergar a beleza.
Ergueu os olhos para um sol morno, de final de tarde : rubro. Devia se apressar, antes que começasse a pensar novamente com seu cérebro. Já se maldizia internamente por ter seguido esse presságio - que ele mesmo rogara ao jogar seu sangue no chão e exigir um desenho - com o coração, e não com a cabeça. Mas os portões de Hogwarts - que se abriram sozinhos - não lhe deixaram alternativa de voltar à pocilga que chamava de lar, e ao arremedo de vida que tinha se obrigado a ter no último ano. Mais uma vez, Dumbledore o aguardava. Mas será que era ele mesmo que Dumbledore queria ?
"Lost in a Roman...wilderness of pain And all the children are insane All the children are insane Waiting for the summer rain, yeah"
Apenas ali pensou que poderia ao menos ter se trocado para ir à velha escola, e sem mais delongas entrou no lago para se limpar, mergulhando rapidamente e sem remorsos para sentir, logo abaixo da superfície - agradavelmente aquecida pelo sol diurno - o gelo do lago de Hogwarts. A mão deu uma fisgada em contato com a água gelada, onde o corte estivera, demonstrando que ainda não estava totalmente curado. O lago sempre o atraíra, sempre o comovera : era, como ele, frio e profundo... e cheio de perigos. E mortalmente gelado. Ficou alguns segundos dentro da água, tentando pensar, muito além do normal... e lentamente começou a subir à tona, com a água de Hogwarts - e de suas dores - descendo lenta e livremente pelo seu rosto ... Magia pura, esse lugar que arranca lágrimas de um coração de pedra, pensava ele enquanto subia e devagar abria os olhos.
- A Lula Gigante está bastante interessada em saber o que está alterando o sabor sempre suave e doce da água do lago, disse Dumbledore segurando uma grande toalha de banho logo à margem.
- Diga a ela que onde eu passo nada suave e doce perdura.
- Eu não teria tanta certeza... mas, saia daí e venha se secar. O jantar logo será servido, e temos de achar roupas que sirvam em você. Você cresceu mais ainda, sabia ?
- Achei que tinha diminuído, para falar a verdade.
- Você enxerga o que quer ver, mas será que isso é o real ? Vamos... está esfriando.
- O frio não me incomoda. Nada mais me incomoda.
- Incomoda a mim, que sou um velho que já viveu demais... vamos. E bem vindo de volta.
Devia ter se virado e partido. Devia. Mas o último raio de sol brincando em uma folha soprada pelo vento (sinalizando insistentemente a direção das grandes portas do castelo ) o fez seguir o velho professor... Loucura.
