As Estranhas Faces Do Amor

Capítulo 3

Jensen rolou na cama por algum tempo, ainda sem acreditar nos acontecimentos do dia. Tinha pensado muito naquele maldito enfermeiro nas últimas semanas e, coincidência ou não, agora ele estava ali, debaixo do mesmo teto, só que na cama do seu pai.

Pensar naquilo já era frustrante, e piorou ainda mais quando ouviu alguns gemidos vindos do quarto ao lado. Ficou imaginando se os dois estavam se segurando para não fazerem muito barulho, devido a sua presença. Então cobriu a cabeça com o travesseiro, tentando afastar a imagem do seu pai e Jared transando da sua mente.

Jared Padalecki, amante do seu pai... Aquilo era irônico demais. Jensen pensou que o destino só podia estar lhe pregando uma peça.

Não conseguia sequer decifrar o que estava sentindo a respeito daquilo. Sua relação com Jeffrey nunca foi das melhores. Seu pai sempre fora um enigma... Até podia aceitar o fato de ter um pai gay, o que por si só já era estranho, mas ele ter se envolvido com um homem vinte e dois anos mais novo, era quase uma piada.

Nunca quis saber muito a respeito daquele relacionamento, assim como nunca se interessou por quase nada que dizia respeito ao seu pai, mas no fundo, sempre achou que o tal namorado fosse somente algum aproveitador. Pelo visto, suas suspeitas haviam se confirmado.

Seu pai era um homem muito rico, não era novidade que sempre haviam homens e mulheres atrás dele por interesse. Não que Jeffrey não fosse um homem interessante, Jensen sabia que ele tinha seus atrativos, mas aquela história romântica dele e Jared estarem apaixonados, era difícil demais de engolir. Ainda mais agora, que sabia quem ele realmente era.

Na verdade, Jensen nem sabia se acreditava no amor. O casamento dos seus pais tinha sido um fracasso, e durante anos teve que aturar as lamentações da sua mãe, depois da separação. Também nunca encontrara alguém com quem quisesse dividir a cama por mais de algumas semanas. Na sua vida amorosa, tudo se baseava em sexo, nada mais.

Mas se o seu pai preferia acreditar naquele conto de fadas ridículo que estava vivendo, não era ele, Jensen, quem iria interferir. Só ficaria ali mais um ou dois dias, então voltaria a vê-lo em alguns anos, quem sabe.

- x -

Já eram cinco horas da manhã e Jared ainda rolava na cama, não tinha conseguido pregar o olho a noite inteira.

Estranhou quando seu celular vibrou àquela hora, mas sorriu ao ver que era seu amigo Brian.

- Alô! – Atendeu enquanto caminhava até a cozinha, para tomar um copo d'água.

- Eu estava esperando você ligar... Então como não ligou e eu estou chegando de uma balada, achei que era uma boa hora pra te tirar da cama.

- Me desculpe, é que as coisas estão um pouco tensas por aqui. Mas eu ia ligar! – Jared tentou justificar seu esquecimento.

- Não, você não ia! – Brian deu risadas. – O que aconteceu? O filhinho do velhote não foi com a sua cara?

- Brian!

- Desculpe! O filho do Jeffrey...

- Agora está melhor. – Jared sorriu. – Se eu te contar, você não vai acreditar... – O moreno bufou e passou a mão pelos cabelos.

- Para de drama e conta de uma vez!

- Eu não deveria... Tenho certeza que vou me arrepender se eu te contar... Porra! Você se lembra do meu último dia de trabalho?

- Você está se referindo a "mãozinha" que você deu pro paciente?

- Exatamente.

- O Jeffrey descobriu?

- Não... quero dizer, ainda não, mas... Cara, eu estou tão fodido... O tal paciente é o filho do Jeff. – Jared por fim falou, se sentindo ainda mais frustrado.

- O quê? – Brian praticamente gritou do outro lado da linha, então começou a gargalhar. – Não, você só pode estar brincando...

- Quem me dera, Bri. Desta vez eu estou mesmo ferrado.

- Caralho! Você...? Porra, mas você não fazia ideia? Não viu o nome dele no registro?

- Ele não tem o sobrenome do Jeff. Dá pra acreditar? Parece que o universo está conspirando contra mim, eu não posso ser tão azarado. Logo agora que as coisas finalmente estavam dando certo...

- Cara... Eu daria tudo pra ter visto a sua cara quando se deparou com ele... – Brian não se segurou e começou a rir novamente.

- Sabe, às vezes eu tenho dúvidas se você realmente é meu amigo ou se você só quer me sacanear. – Jared fingiu estar bravo.

- Você me ama, Jay! Admita! Agora... Ele não contou nada pro pai? Vocês conversaram?

- Não contou, porque o Jeff continua o mesmo comigo, mas... Não, ainda não tive a oportunidade de falar a sós com ele. Eu não sei o que esperar e isso é o que me assusta.

- Será que se você pagar um boquete pra ele não resolve?

- Porra, Brian!

- Ok, eu só não podia perder a piada... Jay, com essa sua cara de filhotinho sem dono, você consegue convencer a qualquer um. Não pode ser tão difícil assim. Quero dizer, é uma puta de uma situação, mas eu tenho certeza que você vai dar um jeito. E se ele ainda não contou pro pai, provavelmente não irá contar.

- Nem é esse o meu medo. Acho que o Jeff até me perdoaria, mas... Não teria mais clima pra eu continuar aqui, entende?

- É, eu imagino. Maldita coincidência, hã? E te conhecendo do jeito que conheço, imagino que você nem sequer conseguiu dormir esta noite.

- Bom, eu vou ter que dar um jeito de resolver esta situação. Só espero que ele não fique aqui por muito tempo.

- Você sabe que se precisar de ajuda, até mesmo se quiser que eu vá até aí, pode contar comigo, não é?

- Pode deixar. Se a coisa ficar feia eu te ligo.

- Até mais brô! Se cuida e se rolar uma orgia aí, vê se não esquece de me convidar, ok? – Brian desligou antes que Jared pudesse responder alguma coisa.

O moreno resolveu não voltar para a cama. Apenas foi até o quarto onde Jeffrey ainda dormia, vestiu seu agasalho de moletom e saiu para correr, tentando esfriar a cabeça.

Mais tarde, naquela manhã de sábado, Jeffrey saiu para fazer algumas compras e Jared foi para a beira da piscina, carregando consigo os seus livros. Sentou-se em uma espreguiçadeira, aproveitando o sol fraco da manhã, vestindo uma bermuda marrom e camiseta branca.

Estava concentrado, estudando, quando percebeu Jensen vindo na sua direção. Mal conseguia se concentrar nos livros, só pensando no que dizer ao filho de Jeffrey, quando estivessem a sós.

Deu graças por Jensen não ter contado nada ao seu pai, mas estava se sentindo tão mal com aquela situação que só tinha vontade de sumir dali.

- Bom dia! – Jensen sentou-se na espreguiçadeira ao seu lado e se espreguiçou, bocejando alto.

- Bom dia! – Jared respondeu sério, sentindo seu coração prestes a sair pela boca.

- E o meu pai? Foi trabalhar em pleno sábado? – Jensen olhou Jared dos pés a cabeça, sem disfarçar sua curiosidade.

- Não. Ele só foi fazer algumas compras. Já deve estar voltando. – Jared tirou os óculos de sol e se ajeitou, colocando as pernas para fora da espreguiçadeira, ficando de frente para onde Jensen estava. – Jensen, eu... E-eu acho que... que precisamos conversar. – O moreno se odiou por ter gaguejado.

- Oh. – Jensen sorriu e tirou seus óculos também. – Eu não vou contar a ele, não precisa se preocupar. – Seu sarcasmo estava presente na voz.

- Não é isso, é que... – Jared engoliu em seco. – Eu não quero que você pense que...

- O quê? – Jensen o interrompeu. – Não se preocupe Jared. Afinal, qual é o problema em dar uma mãozinha a um paciente necessitado? – Jensen riu, deixando o moreno ainda mais constrangido.

- Aquilo foi... foi um mal entendido. Não é como se eu tivesse feito isso outras vezes... – Jared estava se enrolando, sem saber como explicar.

- Claro. – Jensen sorriu debochado.

- Era o meu último dia no hospital, e... Foi só uma brincadeira, uma espécie de aposta, e... Merda! – Jared passou as mãos pelos cabelos e suspirou, frustrado, escondendo o rosto entre as mãos. – Eu só não quero que... que você tenha a impressão errada sobre mim. Me desculpe!

- Desculpar o quê? A minha frustração talvez? Porque eu fiquei esperando um boquete no dia seguinte, e você tinha desaparecido. – Jensen encarava o moreno, o desafiando.

- Eu vou estudar lá no quarto. – Jared pegou seus livros e ia se levantando.

- Sabe Jared, quando o meu pai me falou que estava namorando um cara mais novo que eu, a primeira coisa que eu pensei foi que você deveria ser um aproveitador, que só estivesse atrás do dinheiro dele. Agora eu tenho certeza disso.

- É mesmo? – Jared voltou a se sentar, forçando um sorriso. – Você nem sequer me conhece, Jensen. – O moreno falou com amargura.

- Conheço o suficiente. – Jensen deu o assunto por encerrado, apanhou uma revista para ler e ignorou completamente a presença de Jared, que já não sabia como argumentar.

- Eu não contei a ele. – Jared falou com tristeza, quando se levantou para sair. – Não quis magoá-lo por causa de uma brincadeira estúpida. Mas se isso for te fazer feliz, fique à vontade para contar. Eu assumo minha responsabilidade.

Jared voltou para dentro de casa arrasado. Sabia que Jensen tinha toda razão de pensar as piores coisas a seu respeito. E pior, não tinha como reverter aquela situação.

Voltou para o quarto que dividia com Jeffrey e tentou se concentrar em seus livros. Teria mais uma semana de provas e precisava manter o foco, precisava se concentrar nos estudos, senão acabaria enlouquecendo.

Jeffrey voltou meia hora depois e estranhou o seu comportamento. Não costumava ser assim, por mais difíceis que fossem as coisas na faculdade ou no trabalho, sempre conseguia separar da sua vida pessoal e nada estragava o seu bom humor. Mas como ficar indiferente àquilo, tendo Jensen debaixo do mesmo teto? Tudo o que podia fazer era torcer para que o loiro fosse logo embora, era um pensamento egoísta e sentia-se mal por isso, mas era também a única solução que encontrava para voltar a ter paz dentro daquela casa.

- Você está bem? – Jeffrey se sentou ao seu lado na cama. A preocupação e o cuidado presentes em sua voz.

- Estou. – Jared forçou um sorriso e fechou o livro, colocando-o sobre o criado mudo.

- Tem certeza? Você está agindo de um jeito estranho desde ontem. É por causa do Jensen? – Jeffrey o conhecia bem demais, sabia que havia algo de errado.

- Não exatamente. Quero dizer, é só um pouco estranho, entende? Eu sei que ele não está a vontade comigo aqui, o que é perfeitamente compreensível, mas...

- O Jensen é um homem adulto, Jared. Está na hora de ele agir como tal. Não se incomode com suas atitudes infantis, ele só está querendo atenção.

- Ele não fez nada de errado Jeff, acho que eu estou me estressando à toa. Mas eu posso lidar com isso. Fique tranquilo. – Jared sorriu e beijou os lábios do seu amado.

- Eu sei que pode. – Jeffrey o beijou com mais intensidade, enfiando as mãos por dentro da camiseta do moreno, apertando sua carne...

- Jeff? – Jared falou entre o beijo.

- Hmm? – O mais velho resmungou.

- O seu filho está lá fora, esperando por você. – Jared segurou o rosto do mais velho com as duas mãos, o fazendo parar.

- Oh, é mesmo. Às vezes eu me esqueço que não estamos mais sozinhos. – Jeffrey passou a mão pela barba de dois dias por fazer. – Eu sinto falta de fazer amor com você por todos os cômodos da casa.

- Não completou nem um dia que ele está aqui, Jeff. Deixa de ser tarado! – Jared riu e jogou o travesseiro na sua direção ao se levantar da cama.

- Mas eu já sinto falta. – O mais velho riu e o seguiu para fora do quarto.

O restante do dia correu normalmente. Jared evitava ficar muito tempo na presença de Jensen, o deixando a maior parte do tempo a sós com o pai. Sabia que eles tinham muito o que conversar, mas pelo que pode observar, ambos eram teimosos ao extremo e dificilmente iriam se acertar.

- Por que você não convida o Jensen para saírem? Só vocês dois?

- E você? Já está querendo se livrar de mim?

- Eu vou ter uma semana de provas, preciso estudar. E acho que vai ser bom vocês passarem algum tempo juntos.

- É, pode ser. – Jeffrey ficou pensativo. – Aonde você sugere que eu o leve?

- Jeff, ele é seu filho, você deve saber do que ele gosta... Não sabe?

- Quando ele era criança, gostava muito de ir ao museu de arte moderna... Mas agora, eu já não sei mais do que ele gosta, Jay. – Jeffrey suspirou, frustrado.

- Então leve-o lá... Ou peça pra ele sugerir outra coisa, se não gostar.

- Certo... Meu deus, eu sou um péssimo pai. Não sou?

- Não sei, eu não sou seu filho, não posso julgar. – Jared sorriu.

- O que seria de mim sem você? – Jeffey o puxou para um abraço apertado, beijando-o em seguida.

- Como vocês dois vão ficar aí se agarrando a tarde inteira, eu vou dar uma volta por aí... – Jensen falou, sem conseguir esconder o aborrecimento.

- Hey! – Jeffrey quase pulou de susto, e se separou de Jared. – Pensei que você ainda estivesse no quarto. – O mais velho sorriu, um pouco sem graça.

- Podem voltar ao que estavam fazendo, eu já estou de saída. – Jensen já ia a caminho da porta.

- Espere! – Jeffrey caminhou em sua direção. – Eu vou com você, só deixe eu pegar meu casaco. – Subiu as escadas rumo ao quarto.

- É sério que vocês vão sair comigo? – Jensen olhou para Jared, incrédulo.

- Nós, não. O seu pai vai.

- E você? Vai ficar aí sozinho? – Jensen estranhou.

- Eu preciso estudar. E acho que você não iria querer mesmo a minha presença, então... – Jared deu de ombros.

Jensen apenas se virou e saiu, sem dizer mais nada, achando melhor esperar por Jeffrey na garagem.

Os dois seguiram no carro de Jeffrey, num silêncio desconfortável, até o mais velho estacionar o carro próximo ao museu.

- Você só pode estar brincando! – Jensen olhou incrédulo para Jeffrey.

- Pensei que seria um bom lugar... Como nos velhos tempos. Mas se você não quiser, podemos só ir tomar um café em algum lugar.

O loiro apenas balançou a cabeça e saiu do carro. Jeffrey o seguiu e, apesar da má vontade de Jensen, a visita ao museu foi tranquila. Conversaram um pouco, inclusive trazendo algumas lembranças de quando o loiro tinha doze anos, e foram juntos ali pela última vez.

Jeffrey sentia saudades destes momentos de descontração com o filho, não sabia como tinha deixado as coisas tomarem o rumo que tomaram. Quase não conhecia mais o seu próprio filho.

Depois da visita ao museu, foram tomar um café, onde conversaram mais um pouco. Por insistência do mais velho, Jensen acabou falando um pouco sobre o tempo que passara em Londres, estudando.

Jeffrey era muito curioso e queria saber sempre mais. Apesar de Jensen sempre se mostrar um playboyzinho arrogante, seu pai sabia o quanto ele era inteligente e o quanto ele podia ir longe quando queria.

- Você já sabe o que pretende fazer agora?

- No momento, eu só quero curtir meu tempo livre... Mais tarde eu penso no que vou fazer.

- Suponho que você não tenha se formado, feito pós graduação e mestrado em engenharia civil por nada...

- Eu não quero ter esta conversa agora. Eu sei o que você quer e preciso de um tempo pra pensar.

- Leve o tempo que precisar. Não irei pressioná-lo, fique tranquilo.

- Bom, se eu não assumir a construtora, você ainda tem o Jared pra tomar conta dos negócios. Ah, me desculpe... Quase me esqueci que ele está estudando medicina. – Jensen voltou a usar seu tom arrogante. – Ou quem sabe vocês possam adotar um filho? Hein? Vocês já cogitaram a ideia? – Seu sorriso era sarcástico.

- Se você pensa que ele está comigo pelo dinheiro, está enganado. Jared não quer nada do que é meu. Ele só aceitou vir morar comigo com estas condições.

- É mesmo? – Jensen riu.

- Olha Jensen, eu sei que fui um péssimo pai e que... Bom, eu sempre achei que fiz o que pude, mas sei que não foi o suficiente. Eu nunca deveria ter deixado a sua guarda com sua mãe, pra começar.

- Não? Então você acha que seria melhor se eu tivesse vivido com você e os seus... – Jensen não completou a frase.

- As coisas não aconteceram do jeito que ela te falou, Jensen – Jeffrey tinha os olhos marejados. – Mas você nunca me deu uma chance de me explicar.

- Eu sabia o suficiente. E depois, nada disso me importa. Eu não estou nem aí para o que você faz da sua vida. Você me pediu que viesse e eu estou aqui, não estou? Só não me peça que eu aprecie esse seu relacionamento com aquele garoto, por que isso já é demais pra mim, ok?

- Me desculpe. Vocês dois são tão importantes na minha vida, e... Eu só pensei que... O Jared estava certo, ele quis ficar em um hotel enquanto você estivesse aqui, pra nos dar privacidade. Talvez tivesse sido melhor.

- Nossa! Que generoso é o seu namoradinho! – Jensen debochou. – Mas ele não precisa sair de lá, eu só ficarei por poucos dias.

- Você pode ficar o tempo que quiser, e sabe disso. Só não quero que você desconte os nossos problemas em cima dele, ok? Jared não tem nada com isso.

- Tudo bem, papai. Prometo que serei um menino bonzinho. Agora será que nós podemos voltar? Eu ainda quero sair com meus amigos hoje, senão eu acabo enlouquecendo.

Continua...