Os olhos de Shasta ficaram quase do tamanho dos olhos do cavalo.

- Mas como é que você aprendeu a falar?

- Psiu! Mais baixo! Aprendi na minha terra, onde quase todos os cavalos sabem falar.

- Onde fica a sua terra?

Minha terra é Nárnia... Nárnia, a terra feliz das montanhas, dos rios, dos vales floridos, das grutas cheias de musgo, das florestas que vibram com as marteladas dos anões. Oh, como é leve o ar de Nárnia! Uma hora lá vale mais do que mil anos na Calormânia.

A descrição de Nárnia acabou num relincho que mais parecia um suspiro de pesar.

- Como você veio para cá?

- Seqüestro! – respondeu o cavalo. – Roubado, capturado, como você achar melhor. Não passava de um potro. Minha mãe sempre me dizia para nunca ir às encostas do Sul, à Arquelândia. Mas não lhe dei ouvidos. Pela Juba do Leão! Estou pagando pela minha loucura. Fiquei escravo dos homens esse tempo todo, ocultando a minha verdadeira natureza, fingindo que sou mudo e estúpido como os cavalos deles.

- Por que não lhes contou quem você é?

- Não faria essa loucura! Se descobrissem que sei falar, seria exibido nas feiras. Passaria a ser mais vigiado do que nunca e perderia qualquer esperança de escapar.

- Mas...

- Escute: não vamos perder tempo em conversa fiada. Você quer saber a respeito do meu dono, que se chama Anradin. É um sujeito ruim. Não para mim, pois um bom cavalo custa um bom dinheiro. Mas, quanto a você, seria mais feliz morto hoje à noite do que escravo dele amanhã.

- Ah, então vou fugir! – exclamou Shasta, empalidecendo.

- É o que tem a fazer – replicou o cavalo. – Por que não foge comigo?

- Você também está pensando em fugir?

- Se você vier comigo... É a nossa oportunidade, entende? Se fujo sem um cavaleiro, vão pensar que sou um cavalo perdido e me pegam. Com alguém em cima, há uma chance. É aí que você entra. Quanto a você, com essas perninhas (são incríveis essas pernas humanas!) não iria longe. Comigo, porém, não há cavalo neste país que nos apanhe. É aí que eu entro. A propósito, acho que você deve saber montar...

- Mas é claro – respondeu Shasta. – Pelo menos já montei o burro.

- Montou o quê? - fungou o cavalo com enorme desprezo. (Nem mesmo chegou a falar, pois os cavalos falantes ficam com o sotaque ainda mais cavalar quando sentem raiva.) E continuou: – Em outras palavras, você sabe montar coisa nenhuma. Isso é ponto contra. Tenho de ensinar-lhe pelo caminho. Já que não sabe montar, pelo menos sabe cair?

- Bem, todo mundo sabe cair.

- Estou dizendo o seguinte: sabe cair e montar de novo, sem chorar, e cair de novo e montar de novo, sem ficar com medo de voltar a cair?

- Vou tentar, posso tentar – respondeu Shasta.

- Coitado do bichinho! – falou o cavalo num tom mais bondoso. – Esqueci que você é ainda um potro. Vamos fazer de você um excelente cavaleiro. Preste atenção: como só partiremos depois que aqueles dois pegarem no sono, vamos aproveitar o tempo para traçar nossos planos. Meu tarcaã está de viagem para o Norte, para a própria Tashbaan, a grande cidade onde fica a corte do Tisroc...

- Por favor – interrompeu Shasta –, por que você não disse "que ele viva para sempre"?

- E por quê? – replicou o cavalo. – Fique sabendo que sou um narniano livre! Por que iria usar linguagem de escravo? Não quero que ele viva, e muito menos para sempre. E está na cara que você é um homem livre do Norte. Vamos acabar com esse palavreado sulista! Como ia dizendo, o meu humano está de viagem para Tashbaan, no Norte.

- Isso significa que é melhor a gente ir para o Sul?

- Não acho – respondeu o cavalo. – Ele pensa que sou mudo e burro como os outros cavalos. Se eu fosse mesmo, no momento em que ficasse solto iria correndo para o meu estábulo, para o meu pasto, lá no palácio dele, no Sul, a dois dias de viagem daqui. É onde ele irá me procurar. Mas nunca passará pela cabeça dele que fui sozinho para o Norte. Ele pode imaginar também que alguém nos seguiu até aqui e me roubou.

- Fabuloso! – exclamou Shasta. – Vamos para o Norte. É para o Norte que eu sempre quis ir a vida inteira.

- Sem dúvida – comentou o cavalo. – É a voz do sangue. Você para mim só pode ser nortista. Fale baixo... Já devem estar quase dormindo.

- Acho que vou dar uma olhada – sugeriu Shasta.

- Boa idéia, mas tome muito cuidado.

Estava escuro e quieto; o barulho das ondas. Shasta nem notava, depois de ouvi-lo a vida toda, dia e noite. Não havia luz acesa na cabana. Nem ouviu ruído na frente. Na única janela escutou o ronco de sempre do velho pescador. "Engraçado", pensou, "se tudo correr bem, é a última vez que escuto esse guincho". Prendendo a respiração, sentindo um pouco de pena (uma pena que não era nada, perto da alegria), Shasta deslizou pela relva até a cocheira do burro, foi tateando até o lugar onde estava escondida a chave, abriu a porta e achou o arreio e as rédeas do cavalo. Beijou o focinho do burro: "Desculpe por não poder levá-lo".

- Até que enfim – disse o cavalo, quando Shasta voltou. – Já estava meio preocupado.

- Fui buscar suas coisas na cocheira. Como é que a gente coloca isto?

Por alguns minutos Shasta agiu cautelosamente, evitando tinidos, enquanto o cavalo ia dizendo: "Aperte um pouco mais a barrigueira." "Tem uma fivela aí mais embaixo." "Encurte um pouco mais os estribos." Por fim disse:

- Você vai usar rédeas, mas só para manter as aparências. Enrole a ponta na sela, bem frouxa, para que eu possa mexer à vontade com a cabeça. Escute: não toque nunca nestas rédeas!

- Mas, então, para que serve isso?

- Em geral, para que me dirijam. Mas, como quem vai dirigir esta viagem sou eu, por favor não mexa nisso aí. Aliás, mais um aviso: não se agarre na minha crina.

- Mas espere aí: se não posso segurar nem nas rédeas nem na crina, onde vou me agarrar?

- Em seus joelhos: é o segredo de quem sabe montar. Pode apertar o meu corpo como quiser; sente-se bem aprumado, cotovelos para dentro. Aliás, o que você fez com as esporas?

- Coloquei nos pés, é claro. Isso eu sei.

- Pois então tire essas esporas dos pés e guarde na sacola. Talvez possa vendê-las em Tashbaan. Pronto? Acho que já pode subir.

- Puxa! Você é muito alto – reclamou Shasta, depois da primeira tentativa de montar.

- Sou um cavalo, só isso – foi a resposta. – Pelo jeito que você monta, diriam que sou um monte de capim. Isso, melhorou. Aguente firme e não se esqueça dos joelhos. Engraçado! Pensar que eu, que conduzi cargas de cavalaria e venci tantas corridas, levo agora na sela uma espécie de saco de batatas! Deixe pra lá e vamos em frente.

Com grande precaução, foram inicialmente na direção oposta, por trás da cabana, onde passava um riacho a caminho do mar, tendo o cuidado de deixar na lama pegadas que apontavam para o Sul. Depois pegaram um trecho da margem coberto de seixos e seguiram para o lado do Norte. A passo, voltaram pelo caminho da cabana, passaram pela árvore e pelo estábulo do burro, deixaram o riacho e sumiram na noite quente.

Tomaram a direção das colinas e chegaram à crista que marcava o fim do mundo conhecido por Shasta; este nada via à frente, a não ser uma relva que parecia não ter fim, um campo aberto sem casa alguma.

- Que beleza de lugar para um galope! – sugeriu o cavalo.

- Não, por favor, ainda não. Por favor, cavalo. Ei, ainda não sei o seu nome.

- Meu nome é Brirri-rini-brini-ruri-rá.

- Não vou aprender isso nunca. Posso chamá-lo de Bri?

- Bem, se não consegue dizer mais do que isso... E o seu nome?

Shasta.

- Opa! Nomezinho complicado! Mas vamos ao galope. É bem mais fácil do que o trote, pois você não tem de subir e descer. Aperte os joelhos, olho firme entre as minhas orelhas. Não olhe para o chão. Se achar que vai cair, aperte mais os joelhos, empine-se mais. Pronto? Já! Para Nárnia e para o Norte!

Era quase meio-dia quando Shasta acordou, na manhã seguinte, com uma coisa cálida e macia mexendo no seu rosto. Ao abrir os olhos deu com a cara comprida de um cavalo. Lembrou-se dos acontecimentos emocionantes da véspera e sentou-se. Sentou-se e gemeu.

- Ai! Bri, estou todo dolorido. Nem dá para mexer o corpo.

- Bom dia, baixinho. Achei mesmo que você podia estar meio emperrado. Não pode ser dos tombos: caiu somente umas dez vezes, e muito bem, em cima de relvas tão macias que até dava gosto. Você está sentindo é a própria cavalgada. Que tal se comesse alguma coisa? Por mim, já estou satisfeito.

- Comer coisa nenhuma, deixe isso pra lá, deixe tudo pra lá. Mal posso me mexer!

Mas o cavalo continuou a cutucá-lo bem de leve com o focinho e o casco; o jeito foi levantar-se. Shasta olhou em volta: atrás deles havia um pequeno bosque; à frente, a relva pintada de flores alvas descia até a beira de um penhasco. Lá de baixo, bem longe, chegava amortecido o barulho das ondas. Shasta nunca tinha visto o mar de tão alto e nem havia imaginado que ele pudesse ter tantas cores. A costa estendia-se de cada lado, um cabo depois do outro, e nas pontas via-se a espumarada explodir contra os rochedos, sem barulho, por causa da distância.

Gaivotas revoavam. O dia era ardente. Mas a maior diferença para Shasta estava no ar. Faltava qualquer coisa no ar. Acabou descobrindo o que era: faltava cheiro de peixe. Esse ar novo era tão delicioso, que fez de repente com que toda a sua vida passada ficasse distante. Chegou a esquecer por um momento os machucados e os músculos doloridos.

- Bri, você falou algo sobre comida?

- Falei. Deve haver alguma coisa nas sacolas que você pendurou naquela árvore, quando chegamos.

Examinaram as sacolas e o resultado foi animador: um pastel de carne, só que um pouquinho rançoso, figos secos, um pedaço de queijo, um frasco de vinho, e dinheiro – quarenta crescentes ao todo, mais do que Shasta já havia visto a vida inteira.

Enquanto o menino sentou-se com todo o cuidado, recostando-se numa árvore para comer o pastel, Bri deu algumas abocanhadas na relva, só para fazer-lhe companhia.

- Não será roubo gastar esse dinheiro? – perguntou Shasta.

- É verdade – respondeu o cavalo, com a boca cheia de capim. – Nem pensei nisso. Um cavalo livre, um cavalo falante, não rouba... Mas não vejo mal algum, francamente. Éramos prisioneiros num país inimigo. O dinheiro é a nossa presa de guerra. Além disso, de que jeito vamos arranjar comida sem dinheiro? Você é humano e não vai querer comida natural, como capim e aveia, não é?

- Capim e aveia não dá pé, Bri.

- Já experimentou?

- Já. Não desce, de jeito nenhum.

- São tão esquisitões os humanos!

Quando Shasta terminou a refeição (a melhor que já tivera), Bri disse que iria dar uma boa rolada na relva. E assim o fez, colocando-se de pernas para o ar:

- E uma delícia, uma delícia! Devia fazer o mesmo, Shasta. Refresca que é uma beleza.

Shasta caiu na risada, dizendo:

- Você fica tão engraçado de pernas para o ar!

- Engraçado coisa nenhuma – protestou Bri. E levantou-se de repente, erguendo a cabeça e fungando um pouco. – É mesmo engraçado, Shasta?

- Muito. Isso tem alguma importância?

- Você acha que um cavalo falante faz isso? Será que aprendi isso com os cavalos mudos? Vai ser muito desagradável se descobrirem em Nárnia que adquiri maus hábitos. Que acha? Pode falar com toda a franqueza. Acha que os verdadeiros cavalos, os falantes, rolam na relva?

- Como é que posso saber? Eu é que não ia ligar para isso, se fosse você. Temos primeiro é de chegar lá. Sabe o caminho?

- Sei o caminho para Tashbaan. Depois é o deserto. Mas não se assuste, a gente dá um jeito no deserto. Lá teremos a visão das montanhas do Norte. Ninguém nos segura. Imagine só! Para Nárnia e para o Norte! Mas bem que gostaria de já ter passado por Tashbaan. Nosso problema são as cidades.

- Podemos evitar Tashbaan?

- Só se percorrêssemos um longo caminho por dentro, que passa por terras cultivadas e boas estradas, mas não sei o caminho. Não, devemos ir ao longo da costa. Aqui em cima só encontraremos carneiros, coelhos, gaivotas e alguns pastores. Aliás, que tal se a gente fosse indo?

As pernas de Shasta doíam muito, mas colocou os arreios e montou. Bondosamente, Bri marchou com delicadeza a tarde inteira. Quando baixou o crepúsculo, chegaram por veredas íngremes a um vale onde havia um vilarejo. Shasta apeou e entrou na vila para comprar pão, cebola e rabanete. O cavalo deu a volta pelo campo, indo encontrar o menino do outro lado. Passaram a proceder desse modo, uma noite sim, outra não.

Eram grandes dias para Shasta, hoje melhor do que ontem, à medida que seus músculos se enrijeciam e as quedas eram menos frequentes. Mesmo assim Bri costumava falar que ele parecia um saco de farinha em cima da sela. E ainda dizia:

- Mesmo que não tivesse perigo algum, confesso que teria vergonha de ser visto com você.

Apesar das palavras duras, Bri era um instrutor paciente. Ninguém ensina equitação melhor do que um cavalo. Shasta aprendeu a trotar, a galopar, a saltar e a manter-se na sela, mesmo quando Bri sofreava o passo subitamente ou negaceava para a esquerda ou para a direita; coisas, dizia, que são necessárias numa batalha.

Naturalmente, Shasta pedia-lhe que contasse as guerras de que havia participado com o tarcaã. Bri falava de marchas forçadas, de caudalosos rios vadeados, de embates de cavalarias inimigas, quando os cavalos guerreiam tanto quanto os homens, sendo todos eles impetuosos garanhões, treinados para morder e escoicear. Mas nem sempre queria falar de guerra.

- Não toque neste assunto, rapaz. Eram guerras do Tisroc e nelas entrei como escravo, como um cavalo mudo. Espere para me ver nas guerras de Nárnia, onde combaterei como um cavalo livre entre o meu próprio povo! Aí, sim, teremos guerras que merecem ser contadas. Para Nárnia! Para o Norte! Brá-rá-rá! Bru-ru!

Shasta logo aprendeu a preparar-se para um galope quando ouvia Bri bradar desse jeito.