Capítulo 2
Dizer que a convivência entre Camus e Katrina era amistosa seria exagero, na verdade dizer que eles tinham alguma convivência já seria um exagero. Nas semanas que seguiram a alta dela os dois mal se encontraram, mesmo vivendo na mesma casa. Na primeira semana ele sempre aparecia em seu quarto para lhe dar bom dia, e mais tarde para desejar boa noite. Mas Katrina sentia que fazer aquela visita ridícula lhe era tão sacrificante que certa manhã ela fez questão de dizer-lhe que poderia poupar aos dois daquele incomodo.
Katrina se esforçava para encontrar no aquariano qualquer resquício do seu antigo tutor, mas Camus era apenas frieza e formalidade. Quem sempre lhe fazia companhia eram Rômulo, vulgo Máscara da Morte, e Milo. Os dois cavaleiros era divertidos e agradáveis e a faziam se sentir em casa. Milo tentava fazer Katrina ver além da frieza de Camus, dizendo que com o tempo os dois seriam amigos e ela descobriria o quanto o aquariano também podia ser divertido e ótima companhia. Já MM, como ela gostava de chamar o canceriano, gostava era de fazer a caveira do aquariano, dizendo que ele era mesmo um tremendo de um babaca. Katrina adorava acompanhar a briga dos dois em defesa/ataque do seu anfitrião.
A verdade é que a jovem sabia que era um peso para o cavaleiro. Ele nunca quis ser duque e muito menos babá de uma nobre mimada. Ela o ouviu se referir a ela dessa forma quando lhe pediu que providenciasse alguém para lhe fazer as vezes de dama de companhia. Bem, talvez ele estivesse certo, ela havia sido criada com todo o luxo, cercada por serviçais, mas o que realmente queria era alguém para conversar quando Rômulo e Milo estavam ocupados, o que ocorria com certa frequência. Passou meses trancafiada tendo por companhia apenas o fantasma de sua amiga, será que seria assim tão horrível ela querer uma companhia mais viva?! Além do mais, a ruiva dizia que para ela era difícil permanecer no Santuário, pois ali havia uma forte energia espiritual que parecia bloquear manifestações desse tipo.
Lamentavelmente a jovem que lhe havia sido designada como dama estava doente e há dois dias ela não tinha qualquer companhia, fosse de vivos ou mortos. Estava entediada e triste e se perguntava se apenas não havia mudado de cativeiro. Ela também estava com um problema, naquele dia ela tinha que fazer aplicação de uma esfoliação e cremes cicatrizantes nas costas. Shaka lhe havia indicado o tratamento para cuidar das cicatrizes. Ficou tocada pela sensibilidade dele e o tratamento vinha dando resultado, mas para continuar funcionando ele tinha que ser feito nos dias certos e sem sua dama ela não teria como fazer a aplicação.
Ela sabia que seu anfitrião estava em casa. Ouviu quando ele bateu a porta do quarto. Munindo-se de coragem decidiu ir até ele pedir ajuda.
Camus ouviu alguém bater na porta de seu quarto, estava absorto lendo e ficou surpreso. Só poderia ser ela, pois sabia que ninguém havia adentrado na casa. O que será que ela queria? Há dias não trocavam nem mesmo cumprimentos depois dela ter afirmado que suas visitas diárias eram desagradáveis. Ela era ingrata, isso sim, nem todas as suas tentativas de ser cortês e gentil pareciam agradá-la, o que ela esperava? Que ele fosse como seu pai? Bem, seu pai era mesmo uma pessoa formidável, mas ele era ele é pronto! Além do mais o pai tinha sentimentos paternais pela jovem, uma coisa que ele estava muito longe de sentir.
Deu permissão para que ela entrasse.
- Boa noite, Vossa Graça!
Ele rodou os olhos impaciente, como detestava que ela se referisse a ele dessa forma, acreditava que ela o fazia apenas para lembrá-lo que se ele tivesse assumido o título ela não teria passado pelo tormento que viveu.
- O que quer, My Lady?
- Preciso que me faça um favor. Doutor Shaka me passou um tratamento para as cicatrizes nas minhas costas e como minha dama está doente preciso que faça isso por mim.
- Por que não me disse que estava sem sua dama?!
- Vi que ficou incomodado da primeira vez que o fiz que achei melhor não lhe trazer mais esse problema. Pensei que logo ela estaria de volta, mas hoje é o dia do tratamento e ela ainda não se recuperou.
Como a odiava por sempre lhe fazer se sentir como se fosse o vilão daquela história.
- Não sou nenhum demônio, Katrina, pode vir falar comigo quando quiser ou necessitar. Como está tarde não posso chamar ninguém agora. Vou aplicar o tratamento para você e amanhã providencio uma nova dama.
A jovem entrou definitivamente do quarto enquanto lhe explicava o que ele tinha que fazer. Logo eles perceberam um pequeno inconveniente, Camus pigarreou:
- Enquanto eu busco a água quente no banheiro você retira a blusa do pijama e deita de bruços...
Ela apenas assentiu e, assim que ele se afastou, se despiu e deitou na cama. Enquanto esperava sentia o coração acelerar, mordeu o lábio ao lembrar que ele estava sem camisa, vestindo apenas uma calça de moletom preta, além de ficar lindo com óculo de leitura. Ele tinha um corpo perfeito. Milo e Rômulo eram bonitos também, assim como eram todos os homens daquele lugar, mas ele tinha uma beleza nobre, aristocrática e enervante! Mordeu o lábio dessa vez com força para afastar os pensamentos nem um pouco apropriados, principalmente diante do fato dele não sentir nada além de incomodo com a presença dela.
Ao voltar para o quarto Camus se viu obrigado a respirar fundo e balançar a cabeça buscando não se sentir afetado com a imagem dela deitada semidespida em sua cama. Riu de si mesmo. Teve certa dificuldade em reconhecê-la no dia em lhe abordou no bar de Rodório. Desde que a jovem havia completado 17 anos a avó lhe mandava quase que semanalmente fotos dela. Ele sabia muito bem o que aquela velha alcoviteira queria com aquilo. Teve vontade de gargalhar quando recebeu a primeira foto, Katrina era então uma garota magricela e sem qualquer atrativo, parecia ter 12 e não 17 anos. Se perguntou se avó tinha noção de que ele era dez anos mais velho que a jovem e que com certeza não teria qualquer interesse numa menina.
Mas ele não contava com a metamorfose pela qual ela passaria pelos próximos dois anos. A cada nova foto ele via que a garotinha dava lugar a uma mulher refinada, com curvas perfeitas, ainda que continuasse pequena em altura, mesmo o ano de internação não havia prejudicado a beleza elegante e nobre, ao menos ela não parecia ter perdido peso. Ele sempre preferiu mulheres mais altas e com mais volume, preferencialmente loiras. Mas a morena de cabelos castanhos com reflexos rosados e cachos soltos cortados à altura dos ombros era dona do rosto mais perfeito que ele já tinha visto, rosto que ele teve dificuldade de reconhecer tapado pelo capuz do moletom que usava naquele dia.
Riu de lado ao se lembrar da última foto enviada pela avó. Nela Katrina e, ele acreditava, Juliet, estavam de biquíni. A velha devia estar mesmo desesperada para que ele caísse de amores pela pupila do pai. A lembrança da imagem dela na foto e a visão da jovem deitada fizeram que seu corpo reagisse. Engoliu seco, como se não bastasse a presença dela lhe perturbando a alma pela culpa, agora teria lidar com uma atração que nunca achou que sentiria.
- Algum problema, My lord?!
- Não! Estava refazendo os passos do tratamento para não esquecer nada.
Olhou com pesar para as costas marcadas pensando em todo o sofrimento que impingiram à pele delicada. Felizmente o tratamento de fato estava surtindo efeito e as feridas agora se resumiam a linhas quase apagas. Depois de lhe umedecer as costas usando uma toalha com banhada em água quente ele começou a passar o creme esfoliante. Ela sentiu o toque gelado das mãos dele e riu, sentindo cosquinha.
- Nossa, que mão gelada!
Ele riu com a reação dela.
- Bom que assim sei que não me pedirá para fazer isso novamente. – Respondeu em tom de brincadeira.
- Está enganado, My Lord, achei gostoso!
Ela se perguntava de onde tirou dizer aquilo. Sentia o rosto até queimar tamanha era a vergonha. Já Camus sentiu uma forte pressão no baixo ventre com o comentário. Não saberia dizer se ela o fez para provocá-lo ou por não ter a menor noção do quanto aquilo soava sedutor.
Continuo com o tratamento tentando conter a própria excitação, aquilo não era correto. A jovem estava ali apenas para que ele garantisse sua segurança e bem estar até que ela pudesse voltar à sua vida e não para satisfazer os desejos dele, para isso ele tinha a estonteante Amazona de Lebre, não tinha um cavaleiro que não sentisse inveja da sua atual conquista. Tentou se concentrar na imagem da bela loira de olhos verdes, mas não estava tendo muito sucesso.
Foi quando ouviu Katrina gemer sensualmente com seu toque que o último resquício de bom senso o deixou. A virou de frente para ele com certa brusquidão, se colocando sobre ela, com uma perna para cada lado, ao mesmo tempo em quem lhe prendia os braços acima da cabeça, segurando cada um dos pulsos com as mãos.
- Está tentando me seduzir, My Lady?!
- Está se sentido seduzido, My Lord?!
Os dois se olhavam com os olhos faiscando. Ele capturou os lábios vermelhos num beijo faminto, sendo correspondido com a mesma intensidade. Puxou o lábio com os dentes, para novamente a invadir com língua, surpreso com o fato da jovem delicada ter um beijo sensual, quase devasso. Dos lábios a boca avançou sobre o pescoço delicado, mordendo e lambendo cada centímetro de pele que alcançava. Da boca da morena saiam apenas gemidos de satisfação o instigando a continuar. Sem lhe soltar os braços ele passou a circular com a língua o bico rijo do seio.
- Tem certeza que seus dons paranormais não têm nada a ver com bruxaria, Lady Stonehaven?! Pois só isso pode explicar meu súbito desejo por morenas cujos seios nem enchem minha mão - Ele disse antes de tomar um seio com a boca, quase o devorando por inteiro, sugando como se estivesse sedento. Repetiu a carícia ousada no outro seio para depois lamber e mordiscar o ventre delgado e voltar a dar atenção aos seios turgidos de excitação, mas algo dentro dele o fez voltar à razão.
- Acha que assim irá me convencer a assumir o ducado? Não estou a venda...
Assim que terminou de falar ele saiu de cima dela.
- Não tente jogar comigo, Katrina! Você não passa de uma fedelha que ainda cheira a leite e acha que pode brincar com um homem num jogo como esse?!
Katrina simplesmente não entendia o que tinha feito. Não tinha a menor intenção de se insinuar para ele quando foi lhe pedir ajuda. Tudo isso era por ter falado que gostou do toque dele? Tudo bem que o havia provocado quando ele perguntou se o estava seduzindo, mas o fez por raiva da reação inesperada e agressiva.
As lágrimas vieram com toda força e ela não conseguia se levantar. Tinha vontade de sumir. Nunca sentiu tanta vergonha e humilhação, nem mesmo no tempo em que esteve internada e tinha que suportar as investidas de Jhonson, uns dos capangas de Merlows.
O choro dela lhe cortava a alma, mas precisava deixar claro a ela que não deveria brincar com ele, que não tentasse coisas tolas para lhe convencer de algo que simplesmente não faria. Estava disposto a ajudá-la, mas faria do seu jeito.
- Saia daqui! Amanhã vou providenciar para que Máscara da Morte a receba e sua casa. Depois disso não é prudente que permanecemos na mesma casa.
Ela se levantou trêmula pegou a camisa do pijama e colocou diante dos seios, sem ter forças para vestir-se.
- Odeio você! Tenho nojo de você, quase chego a desejar voltar para San Valentin do que ter que conviver com o senhor! Seu pai deve ter vergonha do filho e eu não quero nem pensar em qual seria a reação da sua avó ao saber que o neto adorado é apenas um pervertido que põe na conta dos outros os desejos que não consegue reprimir por si mesmo.
Com o máximo de dignidade ela saiu do quarto dele altiva e sem derramar nem mais uma lágrima.
Assim que a viu sair ele permitiu que seu cosmo explodisse em fúria pela vergonha e pela raiva, o quarto foi tomado pela neve e por fortes rajadas de vento, mas nada disso acalmava seu coração. Ela já havia sofrido tanto, porque ele teve que fazer aquilo? Ela estava certa, o desejo era dele e simplesmente não conseguiu se controlar. Pelo menos havia pensando no óbvio, ela estaria segura em Câncer. Máscara da Morte nutria por ela sentimento quase fraternais e lhe daria o conforto e a segurança que ela tanto precisava. Com o quarto arruinado pelo acesso de raiva a ele restou apenas dormir no sofá da sala junto com a vergonha e um pedido de desculpas que talvez nunca conseguisse fazer.
- Parabéns, Vossa Graça – Disse chamando a si pelo irritante pronome de tratamento que ela insistia em usar – Amanhã será o assunto entre as servas...
- Nem pense em dizer uma única palavra para defender aquele calhorda, ou nunca mais falo com você! - Juliet olhava para amiga com a boca aberta incapaz de dizer uma única palavra.- Odeio ele! Acho que ele e Armand merecem irem juntos governar no inferno!
- Katri, Lord Norfolk está apenas confuso, não seja injusta comparando ele com Merlows!
- Confuso?! Juliet! Está defendendo ele! Você é inacreditável não é por menos que caiu na conversa do Merlows...
Juliet olhou para amiga com profunda mágoa. E sem dar tempo para ela se desculpar desapareceu. Podia até entender a raiva da amiga, Camus havia agido como um crápula, mas ela sabia que ele estava sofrendo com a própria atitude, coisa que Merlows seria incapaz de fazer, culpa não fazia parte do dicionário dele. Porém não aceitaria que Katrina descontasse nela sua frustração. Os dois que assumissem logo o que estavam sentindo e deixassem o mundo em paz.
- Lety! Me perdoa! Não quis dizer isso! Não me deixa sozinha... - Mas a amiga não voltou, o que foi mais uma coisa para ela jogar na conta dele, tinha ganas de matá-lo, mas a lembrança do gosto dos lábios macios e o toque sensual da língua sobre si esmorecia sua determinação, então ela percebia que tudo o que queria era voltar aquele quarto e exigir que ele terminasse o que começou.
Primeiro distraído pela luxúria e depois pela explosão de fúria, Camus não percebeu que, enquanto esteve com Katrina, outra pessoa esteva na casa de Aquário e presenciou o momento de intimidade partilhado pelo casal. Os olhos verdes faiscavam de raiva, não conseguia acreditar que o mesmo homem que havia resistido a ela por meses não conseguiu segurar nem trinta minutos ao lado daquela ensossa. Bem, os dois queriam estar longe um do outro, não?! Ian iria gostar de saber sobre a nova fraqueza do aquariano. Pelo que soube a jovem era uma foragida e estavam pagando uma boa recompensa pelo resgate dela. Seria fácil enganá-los após a cena passional que presenciou, ela fugiria por estar com raiva e ele jamais saberia que ela foi devolvida ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Sorrindo deixou a casa antes que o cavaleiro se juntasse ao sofá da sala para a noite mais mal dormida as sua vida.
Chateada com o comportamento de Katrina, Juliet seguiu para a casa de Câncer. Tinha plena noção de que o que estava fazendo era totalmente errado, mas não conseguia se conter, estava fascinada pelo guardião da Quarta Casa. No início ela começou a visitá-lo por perceber que durante o sono ele era visitado por uma verdadeira turba de espíritos vingativos. Ia para protegê-lo dos ataques e também para ajudar aquelas almas em dor. Mas quando numa noite mais quente descobriu sem querer que ele dormia totalmente nu, passou a ir apenas para ficar contemplando o corpo perfeito e o semblante tranquilo de quem finalmente conseguia dormir. Considerava-se uma tonta, será que não tinha noção de havia um verdadeiro abismo entre eles, algo como ele vivo, ela nem tanto... Mas sentia como uma mosca indo para luz, não conseguia voltar à razão.
Estava triste, queria tanto se sentir protegida novamente. Voltar a sentir o toque físico de alguém querido. Mesmo que uma vozinha interna a repreendesse ela não resistiu e se deitou ao lado dele, talvez só ficar ali, olhando o rosto bem feito trouxesse um pouco de conforto. De repente braços fortes a envolveram a colocando de costas e apoiada sobre o peito másculo. Ela tinha certeza que se ainda tivesse órbitas, os olhos lhe teriam saltado tamanho o susto.
- Sabe, nunca sabemos de onde pode vir nossos inimigos, Atena achou por bem ter um cavaleiro com capacidade de transitar entre este e o seu mundo, por isso consigo torná-la quase tão densa como se estivesse viva.
Ele sussurrou próximo ao ouvido dela lhe causando arrepios.
- Não deveria estar se aventurando por aqui. Já percebeu que não tenho as melhores companhias.
- Preciso que alguém me abrace, preciso que me ajude a esquecer tudo que ele fez...
- Tem dedo podre para homens, ruivinha! Acha que sou tão querido pelos seus companheiros de além-túmulo pelos vários atos de bondade que cometi na vida?!
- Hoje não quero saber de nada! Quero apenas que me abrace e me deixe sentir um pouco de vida de novo!
Ele abraçou com força e lhe deu um beijo no topo dos fios vermelhos. Ele sabia que torná-la tão material lhe sugava muita energia vital, já se sentia letárgico, mas achou que ela merecia aquele conforto. Assim que se sentiu segura ela simplesmente desapareceu, deixando o canceriano fraco e com uma enorme sensação de vazio.
Camus fez questão de acordar antes que as servas responsáveis pela arrumação de sua casa viessem. Não teria como por as coisas do seu quarto no lugar, mas não queria que vissem que ele havia dormido no sofá. Saiu cedo para os treinos.
Pouco depois Katrina acordou se sentindo ressaqueada apesar de não ter bebido uma gota sequer na noite anterior. Era ressaca moral e, principalmente ressaca do "o que teria sido se ele não tivesse parado". Mesmo querendo odiá-lo pelo comportamento cafajeste e estúpido passou a noite toda sonhando com o beijo luxurioso e a língua maliciosa vagando por todo seu corpo. Ressaca de raiva, isso sim, só não sabia se tinha mais raiva dele ou dela mesma!
Tomou um longo banho e pôs sua roupa de equitação. Saori a havia convidado para cavalgarem, um prazer que ambas compartilhavam. Estava quase saindo do quarto quando viu um bilhete em sua cômoda, provavelmente deixado enquanto tomava banho: "Me encontre no bosque próximo ao antigo coliseu. Quero lhe passar alguns detalhes antes que se mude para Câncer". Queria rasgar o bilhete em mil pedaços e ignorá-lo, mas no fundo sabia que a situação também era difícil para ele e não poderia negar que estava se sacrificando por ela.
Chegou ao local a tempo de vê-lo conversando com dois homens que ela não conhecia, achou estranho que ele tivesse marcado o encontro num local tão isolado, mas ele não gostava de se expor. Foi se aproximando de vagar sem nem saber por que o fazia, mas ao ouvir o nome de Merlows na conversa que ele estava tendo com os desconhecidos ela sentiu o coração quase pular da boca e se escondeu atrás de uma árvore para poder ouvir direito.
- Entenderam, não? Ela deve ser entregue apenas a este senhor e a mais ninguém, por isso contratei um jato que ira descer na residência oficial do ducado em Sussex, exigência do Duque. Podem ficar com o dinheiro da recompensa para vocês, a mim interessa apenas me livrar da garota.
Seu coração batia tão rápido e forte que ela sentia que ele poderia sair do peito. Tentava conter os soluços. Chegou a morder a mão para evitar que o som do choro a denunciasse. Tinha que sair dali. Mas a quem recorrer?! Nesse momento ela duvidava até mesmo que poderia confiar em Rômulo.
No desespero acabou pisando em falso num galho. Na mesma hora os três homens olharam na sua direção.
- Peguem-na! Ela não pode nos denunciar!
Passou a correr, mas os dois homens eram muito mais ágeis e logo a alcançaram. Ela sentiu uma forte pancada na cabeça, mas segundos antes de perder o sentido viu Camus se aproximar, mas ao mesmo tempo parecia ser outra pessoa, e ainda chegou a ouvir, lá no fundo da sua mente o homem dizer, com uma voz que não mais lembrava a do aquariano.
- Pena que vamos ter que entregar a garota intocada, aquele maldito sabe mesmo escolher suas vadias...
Eram um pouco mais de onze e meia quando Camus retornou à sua casa, Já tinha conversado com Máscara da Morte e Shion sobre a mudança de Katrina para Câncer. Claro que não contou a eles o real motivo da mudança, mas há semanas vinha conversando com Hyoga sobre uma viagem para Sibéria para reforçar o treinamento de alguns jovens que vinha se destacando e achou que a ocasião não poderia ser melhor.
Mesmo não querendo voltar a encará-la, não achava justo que ela saísse de sua casa sem ao menos um pedido de desculpa formal.
Bateu na porta do quarto e não teve resposta. Depois da terceira tentativa ele girou a maçaneta e percebeu que a porta estava destrancada. Não havia nem sinal dela no quarto e a porta do banheiro estava aberta, indicando que ela também não estava ali. Procurou pelo resto da casa e nem sinal dela.
Se lembrou que no dia anterior Atena havia convidado a jovem para cavalgarem juntas. Seguiu para o Salão principal, talvez as duas estivesse lá conversando após o passeio.
- Lamento, Camus, mas a senhorita Katrina não apareceu para nosso passeio. Pensei que ela estivesse indisposta. - Ouviu Saori dizer ao mesmo tempo em que sentia o coração apertar. Esteve com Milo e Máscara da Morte toda manhã, ela não poderia estar com eles, estava ficando preocupado.
Juliet andava de um lado para o outro da casa de Câncer, ansiosa para que seu guardião chegasse logo. Tentou localizar o cavaleiro, mas a energia espiritual do Santuário a impedia. Na verdade ela conseguia circular apenas por Aquário e Câncer, provavelmente pela mediunidade de Katrina e Rômulo.
Assim que o viu entrar pela casa pulou em seus braços aos prantos, deixando Camus e Milo com os olhos arregalados quanto ao tocar o cavaleiro a jovem se tornou totalmente visível para os dois.
- Levaram ela! Katrina está em San Valentin! Não sei como, mas está! Merlows está espancando ela como nunca fez antes!
O Canceriano tentou acalmar a jovem enquanto sentia uma forte tontura o dominar, caindo de joelhos no chão.
- Rômulo!
- Não se preocupe comigo! O mais importante é ajudarmos Katrina.
- Você é Juliet!
- Lord Norfolk! – Fez uma pequena reverência.
- Precisa me dizer exatamente onde fica esse lugar, Juliet! Milo, vá buscar Mu, vamos precisar de nos teletransportar. Traga o Shaka também!
Milo aquiesceu e saiu correndo de Câncer para localizar Mu e Shaka.
- Máscara, é melhor que descanse e você, senhorita, agradeço muito a informação, mas não pode ficar aqui, entende o que faz ele ficar assim, não?!
A jovem balançou a cabeça de forma positiva. O coração doía, era horrível saber que fazia mal a ele. Quanto estava para sumir sentiu uma mão forte a segurar. Num instante estava de frente ao cavaleiro de Câncer que a beijou com paixão como se quisesse soprar-lhe toda sua vida. Antes que o beijo terminasse ele estava desmaiado no chão, com Juliet segurando sua mão.
- Enquanto Milo não retorna vou levá-lo para o quarto. Lamento muito por vocês, Juliet, fariam até um belo casal.
A ruiva sorriu para o aquariano, pela primeira realmente simpatizava com o rapaz, principalmente por ver nele uma real preocupação com sua amiga. Podia sentir a tensão, o pânico quando contou que ela estava novamente em San Valentin e que Merlows a estava espancando sem qualquer piedade. Quando ele retornou, ela já não mais estava ali e, em seu lugar, Milo, Mu E Shaka já trajavam suas armaduras.
- Tenho apenas que pegar meus documentos e partimos.
Ele também não sabia como Katrina havia indo parar novamente nas mãos de Merlows mesmo estando em um dos lugares mais seguros do mundo. Mas sabia o que tinha que ser feito para que ele não voltasse a ter essa chance e para começar ele tinha se encarar e ser o que era; o 20º Duque de Norfolk.
CONTINUA
