Capítulo 03: Complex Guilt
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Akira parou de sorrir ao ver a expressão do mais novo. Sabia que não devia ter tentado cozinhar, não levava o menor jeito para aquilo. Ele até tinha se esforçado, feito a comida com todo o cuidado e seguindo a exatas instruções de um paciente Kouyou pelo telefone. Tinha recheado as omeletes com tanto carinho...
- Está ruim, Taka-chan? – perguntou o obvio e Ruki praticamente o fuzilou com os olhos, terminando de mastigar. – Etto... eu vou buscar um chá gelado pra você – murmurou prestativo e saiu rapidamente da sala, massageando a nuca.
Ruki colocou a língua pra fora da boca, como se pudesse com aquilo tirar o gosto de comida estragada da boca. Mas nem morto que ele ia beber algo trazido por Suzuki. Na verdade ele ia aproveitar que estava sozinho para fugir dali, a opção de se trancar no banheiro voltando com tudo e parecendo reconfortante o suficiente.
Praticamente correu para fora da sala, os bentos esquecidos em cima da carteira, só se sentindo tranqüilo quando entrou no banheiro mais próximo, a sensação de que estava a salvo deixando-o mais aliviado.
Aproximou-se da pia, apoiando as mãos na bancada e respirando fundo ao se olhar no espelho. Se achava tão sem graça que em sua cabeça só era possível alguém se apaixonar por ele por conta de uma poção do amor.
Ajeitou os cabelos tingidos de loiros, as mechas um pouco bagunçadas dando um ar ainda mais infantil as suas feições. Em seguida abriu a torneira, molhando as mãos e lavando o rosto. Nunca que alguém como Takashima se interessaria por ele. Nem mesmo alguém como Suzuki, que apesar de rebelde, tinha que admitir que era bonito e tinha um ótimo porte físico, mesmo que parecesse um delinqüente e com aquela faixa estranha cobrindo o nariz.
Abaixou mais a cabeça, curvando completamente o rosto, encostando a testa na bancada fria enquanto resmungava com si mesmo em um tom lamentoso. Estava tão absorto em se auto depreciar, vez ou outro praguejando também contra Suzuki por tê-lo feito comer aquela comida horrorosa, quem nem percebeu a porta do banheiro ser aberta.
Só notou que tinha mais alguém ali quando ouviu o barulho de teclas de celular sendo apertadas. Então virou o rosto, apoiando assim a bochecha na bancada da pia, o corpo ainda curvado e piscando os olhos diversas vezes ao ver quem era.
- Akira, seu namorado está aqui no banheiro do segundo ano – Kouyou falou, desligando o celular ao terminar, apoiado displicentemente na parede ao lado da porta.
Ele fitou Ruki durante alguns instantes, enquanto o menor sequer reagia ainda na mesma posição que antes; e sem dizer nada, o loiro mais alto se afastou da parede, virando-se de costas e saindo do banheiro, como se o pequeno nem existisse.
Ruki só teve tempo de se segurar com os braços na bancada, impedindo-se assim de cair, querendo morrer e pensando seriamente em se afogar na pia mesmo.
Alguma força misteriosa devia detestá-lo muito.
- Que história é esse de você dizer pro Takashima-sempai que eu sou seu namorado? – Ruki esbravejou contra o garoto da faixa, o rosto vermelho de raiva, se contendo pra não pular no pescoço dele e sufocá-lo.
- Eu estava tão preocupado, Taka-chan – mas Akira parecia não ter escutado o que o mais novo falara aos gritos, uma expressão de verdadeiro alívio em seu rosto. – Voltei pra sua sala com o chá e você tinha sumido! Minha sorte foi ter encontrado o Kou-chan. Ele é sempre tão prestativo e disse que ia procurar você também, então depois ele me ligou dizendo que...
- Você é idiota ou o quê? Por acaso ouviu o que eu disse? – Ruki o interrompeu, toda sua paciência indo embora, o medo que sentia de Suzuki esquecido.
Akira o fitou desolado, abrindo a boca para falar, mas sem saber o que dizer. Ele ainda trazia na mão a latinha de chá e Ruki percebendo o quanto tinha sido rude com o mais velho abaixou os olhos meio sem jeito.
- Eu não disse que éramos namorados ao Kou-chan. Eu só disse a ele que tinha pedido você em namoro... – Akira murmurou, parecendo meio perdido, fazendo Ruki começar a se sentir culpado.
Porque se Akira estava apaixonado, o pequeno sabia que a culpa era sua em ter aceitado a poção que Shou e Hiroto ofereceram. Além do mais devia ter tentado impedir o sempai de tomar a poção ao invés de ficar parado sem a menor reação. Mas Takanori tinha uma dificuldade impressionante em reagir em situações inesperadas.
E contar a Suzuki sobre a poção estava fora de cogitação. O mais velho com toda certeza não acreditaria.
Ruki levantou os olhos para fitá-lo, meio exasperado com tudo aquilo e sem ter idéia de como lidar com a situação. Suspirou baixo, passando uma das mãos pela mechas claras meio nervoso e tentou falar em um tom ameno com Akira.
- Ano, sempai... desculpe. Eu não devia ter gritado com você.
- Hm, tudo bem... – Akira tentou sorrir e como se para mostrar que estava tudo bem entregou ao garoto o chá que tinha comprado. Então embrulhou seu bento quase intocável, vendo que o horário do almoço tinha terminado e que precisava voltar para sua sala.
O mais novo agradeceu pelo chá e Suzuki se despediu, sorrindo meio sem jeito com toda aquela confusão que tinha causado.
Ao mesmo tempo em que ele saia da sala, Kai voltou com um enorme sorriso, puxando sua carteira para o lugar correto e entretido demais relembrando o almoço que havia tido com Nao, para perguntar ao amigo o que estava acontecendo.
E enquanto o professor entrava na sala para começar a aula, Ruki ouviu seu estômago roncar, lembrando-o de que estava morrendo de fome desde a terceira aula já que não tinha tido tempo de tomar café da manhã.
O pequeno olhou seu bento ainda na mesa e o abriu, pensando em comer escondido do sensei, mas não havia mais absolutamente nada ali dentro. Akira havia comido todo o seu almoço.
- Ótimo... – murmurou com sarcasmo, revirando os olhos. – Ao menos me resta o chá.
E ao olhar o sabor na embalagem ele sentiu vontade de jogar a lata no meio da testa de Suzuki quando o encontrasse novamente.
Detestava chá branco.
Ruki terminou de juntar seu material, assim como Kai para irem ao encontro de Naoyuki que esperava do lado de fora da sala. Os três costumavam voltar juntos para casa, nos dias em que nem Kai, nem Nao tinham atividades no clube de música e nem no do jornal do colégio.
O pequeno não parava de resmungar o quanto estava faminto, recebendo olhares preocupados dos dois garotos por conta do seu mau-humor.
- Ele comeu toda a minha comida! Não deixou um grãozinho sequer de arroz. E ainda tentou me matar intoxicado com aquelas omeletes! – do nada ele tinha disparado a falar de Akira, sem notar que Kai nem parecia entender sobre o que exatamente ele estava reclamando.
- Tenho certeza que Suzuki-sempai não fez por mal – Nao se pronunciou em defesa ao mais velho.
- Você conhece ele, Nao-chan? – Kai, perguntou surpreso e o namorado assentiu.
- Ele faz parte do clube de kendo e é sempre muito educado com todo mundo.
- Mas ele parece um delinqüente punk rebelde!
- Você o está julgando pela aparência, Ruki – inquiriu com um tom suave, repetindo as mesmas palavras de Shou e negando com um aceno em sinal de repreensão. – Suzuki-sempai é um exemplo para o pessoal do kendo. Ele é muito disciplinado e concentrado no que faz, além de ter boas notas. Nunca o vi destratar ninguém, tenho certeza que ele teve as melhores intenções quando ofereceu o almoço a você.
Ruki parou para pensar no que Nao dissera. Talvez estivesse mesmo sendo radical em relação a Suzuki, sem se dar ao trabalho de tentar enxergá-lo de verdade. Sabia que o sempai só estava agindo daquela forma com ele por conta da poção, mas mesmo assim ele não parecia ser uma má pessoa.
Além do mais Takashima era amigo dele e aquilo devia significar algo bom.
Mas foi só lembrar do seu amor platônico que ele voltou a resmungar e lamentar.
- Ele chama o Takashima-sempai de Kou-chan! Dá pra acreditar nisso? – Kai riu ao escutá-lo e Nao voltou a olhá-lo com preocupação. – Por que ele pode chamar o Takashima-sempai de Kou-chan e eu não?!
- Você nem tem coragem de se aproximar dele, Ru-chan. Como quer chegar a esse grau de intimidade? – Kai questionou, bagunçando os cabelos do pequeno carinhosamente. – E Suzuki-sempai parecia bem empenhado em agradar você hoje, ainda que não tenha sido bem sucedido.
O menor iria responder, mas perdeu o fio de pensamento com o que viu mais a frente.
Seu coração bateu acelerado de forma dolorosa, enquanto sua mente lhe dizia que aquilo não era real, que estava tendo um sonho ruim ou que seus olhos estavam lhe pregando uma peça.
Kai, notando que o amigo tinha parado de andar subitamente, acompanhou o olhar dele não demorando muito a compreender o que se passava com o outro ao ver a cena que se desenrolava.
Logo a frente, em uma das colunas ao canto no pátio do colégio, estava Takashima sendo prensado de maneira tórrida por um moreno que escondia o rosto na curva do pescoço dele, as mãos parecendo pressionar com força a cintura do loiro.
Kouyou tinha os olhos fechados, as mãos pressas frouxamente na camisa do homem que o prensava, a cabeça inclinada para o lado oposto em que se encontravam os lábios em seu pescoço, os próprios lábios comprimidos no que parecia ser uma tentativa de conter um gemido.
Takanori fechou os punhos, sentindo os olhos arderem, mas segurou o choro, dizendo a si mesmo que não iria fazer um papel ridículo como aquele. Mas sabia que não conseguiria conter as lágrimas por muito tempo. Kai pressionou seu ombro gentilmente, tentando guiá-lo para fora do colégio e fazendo com que desviasse os olhos da cena.
Os três estudantes nem notaram que próximo a eles mais ao canto estava Akira, vendo toda a cena com uma feição preocupada, hesitante em se aproximar deles.
E ao sair do colégio eles não trocaram mais nenhuma palavra, sabendo que o pequeno preferia ficar em silêncio ao invés de tocar no assunto. Mesmo assim Kai e Nao fizeram questão de deixá-lo em casa, avisando que passariam ali na manhã seguinte para irem juntos ao colégio.
Assim que chegou em casa, entrou, deixando os sapatos na porta, ouvindo a voz de sua mãe vindo da cozinha, de maneira vaga, enquanto subia as escadas.
- Okaeri, Taka-chan! Estou preparando omelete de queijo para o jantar. Tome banho e não demore a descer.
Mas mesmo que aquele fosse seu prato preferido e estivesse morrendo de fome, ele só queria saber de se trancar no quarto e dormir.
Entrou no banheiro, se despindo e tomando um banho demorado, fazendo tudo como se tivesse ligado o piloto automático, vestindo uma bermuda e uma camisa folgada quando terminou de se enxugar. Ao sair avisou a sua mãe que estava com dor de cabeça e que por isso não iria descer para o jantar, assentindo quando ela pediu para que deixasse a porta do quarto destrancada, pra ela poder entrar mais tarde e ver se estava melhor e levar algo para ele comer.
Ruki voltou a subir as escadas, indo em direção ao seu quarto e assim que chegou lá se jogou na cama, agarrando um travesseiro, os olhos fechados controlando a vontade de chorar, sem ligar para as lições de casa que precisava fazer.
Ele só queria esquecer que não tinha a única coisa que desejava. Que Kouyou sequer o notava e que o máximo que sabia sobre Ruki é que agora ele não passava do suposto namorado do seu melhor amigo. As imagens do loiro agarrado com outra pessoa indo e vindo em sua mente, dolorosamente.
E ainda tinha que lidar com Akira. Concluiu, sufocando com o travesseiro um grito frustrado. Prevendo o quão longa seriam essas semanas.
Talvez fosse a hora de deixar de sonhar e esquecer Takashima de uma vez. A idéia de tentar se relacionar com Suzuki para esquecer o outro nem parecia tão ruim assim a aquela altura, por mais que algo em sua consciência lhe avisasse o quanto era errado.
Continua...
