Sinnoh atraves de dois lados: Mal 2.0
Um ano se passou, e uma sombra de uma amizade surgiu entre mim e Cynthia. Muitas vezes liamos em voz alta para que o outro soubesse o que estava lendo. Para minha pequena surpresa, ela lia extremamente bem. Ela me dizia que treinava com Gabite em uma montanha próxima a cidade, e queria que ele ficasse no nível do ginásio da cidade antes de sair para continuar sua jornada. O nome da montanha era Iron, talvez pelo nome da ilha, Iron Island.
Certa semana, ela me convidou para ir a ilha com ela enquanto treinava. Eu teria uma folga no sábado e domingo, de forma que poderíamos ficar o fim de semana sem se preocupar. Bom, não havia muito o que reunir, então após sair da biblioteca as nove da noite, caminhava por entre buracos e poças da periferia, sem trocar olhares com quaisquer outras pessoas. Entrei no prédio em que meu apartamento ficava, e com algum trabalho destranquei a porta. Eu vivia me amaldiçoando por não me mudar daquela espelunca. Peguei uma mochila de baixo da cama, e coloquei um cobertor, um pouco de comida e um pequeno kit de primeiros socorros. Eu parei por um minuto, observando uma pokeball guardada no armário. Eu carregava apenas um Pokémon comigo, que para mim, já era o suficiente, mas algo me dizia que eu precisaria daquele. Enfiei rapidamente a esfera no fundo da mochila, para que não me arrependesse. Coloquei a mochila na cadeira da escrivaninha, e deitando em minha cama, imaginei que eu, Cyrus de Sunyshore, poderia ter se enfraquecido tanto por uma garota no qual mal conhecia. Eu dormi com essa ideia.
Quando chegou o final da semana, Marcamos de nos encontrar as três da tarde para ir em direção as docas. Um problema que achei era que, para seguir para as docas, precisávamos atravessar a periferia. Após uma leve insistência minha, ela topou, desde que logo atrás de mim. Se isso acontecesse hoje em dia, era muito mais provável que ela varresse a periferia com seus Garchomp enquanto tomava um sorvete, ou lia um livro. Enfim.
Após conversar com o marinheiro, embarcamos e zarpamos da cidade. Descobri que odiava navios. Eu preferia ficar na cabine, longe da brisa marítima ou das ondas do mar. Cynthia do contrario, observava com seu Gabite, em busca de algum Pokémon nadando pela imensidão azul. Eu não entendia. Havia coisas complexas, coisas das quais eu era especialista. Poderia dizer as ferramentas para montar um computador em ordem alfabética do Latim. Mas coisas simples, como sentir a brisa, admirar o mar e a paisagem marítima, eram além de meu alcance. Talvez isso fosse pela minha busca incessante pelo extermínio da emoção em mim mesmo e a tudo ao meu redor. Ou minha falta de interesse mesmo.
De qualquer forma chegamos a ilha cerca de uma hora depois de partir do porto. A passagem principal era composta por cascalho, prensados ao chão. Combinei com Cynthia que seguiríamos por caminhos separados por cada lado da montanha e encontraríamos em um pequeno acampamento do outro lado. Então soltei meu Weavile, para um treino leve. Haviam meses que eu não o treinava. Cynthia abaixou-se e fez carinho em meu Pokémon. Parece que Weavile gostou e sorriu para ela. Fiz um aceno para ele vir, e acenou uma ultima vez para a treinadora, antes de me seguir.
Não olhei para trás. Weavile era capaz de derrotar Steelix selvagens com seus golpes bem posicionados, adquirindo experiência ao longo do caminho. Não apenas estas serpentes de aço, mas Golbats, Gravelers e Onix eram alvos derrotados com muita facilidade.
Estava descansando perto do topo da montanha, observando algumas rochas. Tenho um colega que se interessaria nelas. Quando ouvi um berro vindo do outro lado, seguido de um urro de algum Pokémon grande. Por dever cívico, fui correndo com Weavile em direção a origem do grito. Eu paralisei ao ver a cena, mas foi por poucos segundos. Um Garchomp completamente enfurecido, berrando e atacando tudo a sua volta. Seus olhos que deveriam ser dourados, estavam completamente vermelhos. Não mundo longe, Cynthia estava caída, desacordada e com um corte no lado direito da cabeça. Então resolvi montar o quebra cabeça com essas peças. Provavelmente o Garchomp é o Gabite de Cynthia que evoluiu, e provavelmente perdeu o controle de si mesmo durante o processo. Ao tentar acalma-lo, sua treinadora deve ter recebido um golpe por engano, mas forte o suficiente para fazer alguns estragos.
Eu estava perdendo tempo. Logo ordenei a meu Weavile que usasse Icicle Crash, que daria conta de Garchomp no momento. Rapidamente meu Pokémon se posicionou a frente do dragão e criou uma serie se espinhos de gelo afiados como laminas em direção ao mesmo. Rapidamente Garchomp caiu desmaiado, e isso me deu tempo o suficiente para verificar o estado de Cynthia. Oh eu estava perto demais, demasiadamente perto de contato humano. Concentrei-me, dando um longo suspiro, e repetindo mentalmente que aquilo não era nada, não havia riscos nem necessidades de ficar nervoso. Então sentei sobre o chão, que nada mais era do que a montanha abaixo de mim. Retirei minha mochila das costas e comecei, para minha surpresa, uma bagunça arremessando tudo que não fosse meu objetivo para fora do apetrecho. Finalmente achei o kit de primeiros socorros. Destravei e deixei a postos. Respirei fundo e com o máximo de cuidado possível e impossível para um ser humano, puxei um pouco sua franja para o lado, para ter uma visão melhor do corte.
O instinto humano é algo tão...inexplicável. Naquele exato momento eu estava muito nervoso, e até hoje, com minha vasta experiência, não sei com clareza o que me aconteceu para tal nervosismo. Eu retirara um pouco de algodão e iodo do kit, e torci para que a ardência não a acordasse. Por sorte não acordou, a batida deve ter sido forte. Aos poucos fui estancando o sangue que ainda escorria o corte não era tão profundo para levar pontos.
Limpei tudo cuidadosamente, e meu nervosismo não deixou perceber que Garchomp já havia acordado e recobrado a consciência. Parecia melhor agora, seus olhos voltaram a tonalidade dourada original. O Pokémon veio até mim, e abaixou-se para observar que eu fazia com sua treinadora, preocupado aparentemente. Apesar de não ver o mínimo sentido nesta ação deixei que o dragão permanecesse.
Após limpar tudo, era hora de enfaixar para que não infeccionasse. Era hora de levanta-la para colocar a faixa. Desviei meu olhar para a paisagem além da montanha, para os Pokémon, para qualquer coisa. Então tomei coragem e peguei-a pelos ombros, e apoiando-a em meu joelho. Com muita calma peguei a gaze, e comecei a enfaixar dando aproximadamente quatro voltas até que ficasse firme. Dei um pequeno porem firme nó, e parecia terminado. Coloquei de volta a sua posição original e quase cai ao dar um pulo para o mais longe possível desta cena que acabara de se desenrolar.
Mas ou menos quinze minutos após eu terminar meu pequeno ato medico, ela acordou, um pouco tonta eu diria. A primeira coisa que percebeu foi a faixa enrolada sobre um lado da cabeça, cobrindo o olho direito. Ela olhou os arredores e imediatamente me notou sentado sobre uma rocha, onde eu estava comendo pão. Ela me perguntou algo usando palavras bem simples.
"Você..." Houve uma breve pausa. "...você fez isso?"
Eu acenei sim com a cabeça. Com um leve esforço ela se levantou, e Garchomp não tardou a ficar ao seu lado para algum apoio.
"Obrigada." Ela disse em voz baixa. Aquela foi a primeira de algumas poucas vezes, em que a vi abalada. Quase cheguei ao mais próximo de pena quando a vi arrumando sua franja, para cobrir a faixa em seu olho. Curiosamente, mesmo após a cicatrização do mesmo, ela permaneceu com o penteado.
Apesar deste pequeno inconveniente, o treino continuou para ambos os lados. Voltei para meu lado da montanha e segui para o acampamento marcado. Agora, eu refletia sobre o que havia feito. Eu não me importava com que destino aquela garota teria, nem qualquer preocupação com seu futuro. Então, por que eu fiz aquilo? pena? compaixão? Eu estava agora, treinando minha mente. Era um sinal de que, mesmo com todo o meu esforço, alguma emoção restava em meu ser. Eu teria de retirar aquilo, e logo.
Cheguei ao acampamento e o marinheiro me disse que Cynthia havia chego mais cedo e que não voltaria antes da data de retorno. Por um momento breve, pensei em vigia-la, mas deixei a ideia para lá. Nos dois dias seguintes li alguns dos meus próprios livros, e treinei um pouco. Quando chegou o dia do retorno marcado e já estava no barco quando ela chegou. Não disse uma única palavra o caminho inteiro, o que pra mim fora um alivio. Mal sabia eu que, isso seria um caminho sem volta para mim e para ela, para esconder o que realmente sentíamos. A diferença, é que na época, não sabíamos que trilhávamos pelo mesmo objetivo, mas por atalhos diferentes.
