As pesadas cortinas de damasco que cobriam as portas e janelas foram abertas, e em cada caixilho brilhava uma luz delicada, filtrada através das árvores.
Brianna acordou com o som de violinos. Era uma ária da Traviata. Ela abriu a porta do quarto e viu Albus cantarolando ao som da orquestra invisível, enquanto andava de um lado para o outro. Parecia agitado, ansioso, perturbado com alguma coisa.
– Que bom que acordou, precisamos conversar – ele disse ao mesmo tempo em que, com um gesto, silenciava a música. – Assinaram um acordo em Munique afinal e deram à Alemanha o Sudetenland, começando em dez de outubro, e prometeram a Hitler o resto da Tchecoslováquia, se ele não avançar mais. Mas não é preciso ser bruxo para saber que ele não vai parar. Achei que gostaria de saber.
Ela não chegou a se mexer, mas apenas olhou para ele com calma.
– Obrigada por me contar, Albus. Estou tão feliz por você estar aqui! Você não imagina como estou feliz com você aqui nesta casa, feliz por não estar sozinha. Mas quero voltar para Londres.
Ele, então, se recostou na cadeira.
– Tenho uma outra proposta,que você talvez ache mais interessante. Você foi colocada na Comissão Britânica para Refugiados da Tchecoslováquia, e esperamos sua ajuda na localização e transferência de famílias bruxas na região. Em troca, o Ministério vai te ajudar a tirar de lá o máximo de refugiados trouxas que puder e vai convencer o Ministro trouxa a providenciar essa remoção.
Ela se descobriu olhando para ele em silêncio, mergulhando nos olhos azuis, grandes e brilhantes, dele.
– Obrigada, Albus. Não imaginei que confiasse tanto em mim. É claro que quero ir.
Ele se obrigou a sorrir.
– Prometa que vai tomar cuidado. Haverá dois bruxos encarregados de ajudar neste trabalho; eles são confiáveis e podem proteger você se for necessário. Um deles é meu irmão e se chama Aberforth, ele está lá fora pronto para acompanhá-la. Ela assentiu em silêncio e ele não disse nada. Fez um movimento, e os acordes da ópera voltaram a ecoar pela casa.
Era o final do ano de 1938 quando Brianna chegou à Tchecoslováquia. Encontrou milhares de refugiados desesperados. Judeus assustados, comunistas e dissidentes políticos que tinham que deixar o país rapidamente por causa do Acordo de Munique assinado em setembro, segundo o qual a Grã-Bretanha, França e Itália haviam concordado em retirar suas tropas do território tcheco e ceder à Alemanha uma parte deste território.
Ela conheceu um homem chamado Nicholas Winton, que fora levado até lá por Martin Blake, funcionário da Comissão Britânica para Refugiados da Tchecoslováquia. Ao ver todo aquele inferno, Winton disse, numa conversa, que deveria fazer algo para ajudar.
E fez.
Ficou três semanas em Praga, coletando fotos e informações sobre jovens que precisavam de ajuda. Ao retornar à Grã-Bretanha, teve que convencer o governo a permitir a entrada dos jovens refugiados, o que de fato conseguiu, e atender às condições impostas pelas autoridades.
Winton conseguiu também, através do apoio de organizações beneficentes e de organizações cristãs, encontrar pessoas interessadas em adotar os refugiados. Brianna, por sua vez, encaminhou ao Ministério bruxo um relatório sobre Winton e suas idéias, recomendando que o governo trouxa fosse incentivado a apoiar suas iniciativas.
Mas as coisas estavam difíceis no mundo dos bruxos também. Ela soube através de Aberforth que aqueles que seguiam as idéias de Grindewald perseguiam as famílias dos que se associavam aos trouxas - a quem chamava de traidores do sangue - perseguiam aqueles que haviam nascido de famílias trouxas, perseguiam os abortos e, obviamente, os trouxas. Ele a alertou a manter sigilo sobre seu trabalho para o Ministério e a chamar o mínimo de atenção possível.
Em meio ao trabalho de ajuda aos refugiados trouxas, eles localizavam crianças bruxas nascidas trouxas e, inspirados em Winton, conseguiam mandá-las para famílias e escolas do mundo bruxo dispostas a ajudar.
O tempo era curto, a guerra viria logo, todos sabiam, e ela tentava salvar o máximo de vidas possível.
A influência de Grindewald crescia e a hostilidade contra trouxas aumentava. Surgiam propostas de leis absurdas a todo o momento. Havia até uma que tentava tornar a caça a trouxas legal. Felizmente a Confederação Internacional dos Bruxos não aprovou a lei.
Dumbledore havia enviado um rapaz chamado Alphard Black para ajudá-la, e apesar do jeito altivo ele era gentil o bastante para lhe contar algumas coisas. Era através dele e de Aberforth que ela recebia esparsas notícias de Albus. Faltavam poucos dias para o Natal, e eles não se viam desde setembro.
Brianna
estava cansada e triste, pois sabia que, por mais que trabalhasse,
não conseguiria salvar tantos quantos gostaria.
Numa
noite, depois de um longo dia de trabalho, ela chegou ao pequeno
apartamento que ocupava acompanhada de Alphard Black, de quem não
conseguira se livrar. Aberforth tinha ficado subitamente indisposto.
E Black insistira em levá-la até a porta.
Ela conduziu Alphard por um corredor mal iluminado de um prédio muito velho, em um bairro decadente de Praga. A tensão estalava no silêncio carregado; algo na atitude de Black a incomodava. Chegaram à porta do pequeno apartamento, e ela agradeceu sem abri-la.
– Obrigada, Sr. Black, pela companhia e proteção. Tenho certeza que já lhe dei todas as informações que seu Ministério precisa. Boa noite. pode ir, eu vou ficar bem.
Ela sabia que não podia confiar completamente em Black, sabia que ele a via como algo inferior, pois apesar de toda sua gentileza, ele era um bruxo criado numa família tradicional e cheio de todos aqueles horríveis pensamentos abusivos sobre os quais Dumbledore havia lhe falado. Brianna estava com medo.
O próprio ar em volta deles era carregado; parecia que até a poeira se recusava a pousar sobre os casacos escuros. Mesmo um observador distraído perceberia, mas ali não haveria nenhum observador distraído. Ele era muito esperto para isso.
– A única coisa de que temos certeza é que não temos certeza de nada, cara Srta. Doyle. – Ele sorriu passando o dedo delicadamente pelo rosto de Brianna.
– Eu tenho mesmo certeza, Sr. Black. – Ela não chegou a se mexer, mas apenas olhou com calma e disse devagar: – Estou tremendamente cansada e realmente preciso dormir.
– Eu não estou cansado, muito pelo contrário, Srta. Doyle. E preciso entender porque me sinto tão atraído por você. Nunca me interessei por mulheres trouxas, até ver você. – Ele sorriu insidiosamente ao mesmo tempo em que sussurrava imperioso: – Entre!
Atrás dela, o apartamento escuro estava à espera. Brianna estava com medo, o pior medo que jamais havia sentido de um lugar em toda a sua vida. Olhava em volta sem saber para onde ir. Ela estava numa armadilha.
Ela entrou consciente do som da sua própria respiração difícil. Contemplou calada a porta aberta. A luz que vinha da rua era quase inexistente; apenas a luz da lua entrava pelas cortinas, fazendo-a lembrar de Albus. Ela suspirou e depois se voltou, afastando-se da luz tranqüilizadora, para olhar nos olhos de Alphard Black.
Não importava que ela não o quisesse. O poder de um bruxo era o poder de um bruxo. A mulher cedeu. Por que não cederia? Ela era apenas uma trouxa. Era quase uma covardia forçá-la a fazer o que ele queria, submetendo-a com o olhar desse modo. Mas era preciso que ele agisse assim; desejava ter aquela pele branca sob a sua, desejava intensamente aquela trouxa de cabelos vermelhos.
– É, minha querida, você é minha agora – disse Black sorrindo. – Você devia se sentir honrada. Alphard Black, da antiga e nobre casa dos Black, deseja você.
Brianna baixou os olhos, insegura. Ela não tremia. Estava ansiosa, perturbada e horrorizada pela sua impotência.
Ele murmurou um encanto ao mesmo tempo em que apontava a varinha para a porta, que se fechou com um estrondo. Murmurou mais alguns feitiços e finalmente apontou a varinha para Brianna, erguendo as sobrancelhas e sorrindo.
Segurou a mão dela e a afagou. Ela fechou os olhos. "Preciso recuar "- ela pensava. "Preciso sair daqui." Os olhos dela se abriram, mas ela não via nada; pensava em Albus.
Ele a envolveu em seus braços e a conduziu gentilmente até a cama; deitou-se ao lado dela e com gestos lentos retirou-lhe as roupas.
- Brianna – ele disse com um suspiro – Não vou te machucar, Eu prometo. Pense nele se quiser, mas fique comigo.
Envolta em um sonho muito nítido, ela sentiu de repente um desejo enorme por ele. Nem mesmo era erótico. Era só uma espécie de fascínio e enlevo. Queria sentir os braços dele, queria que ele a pegasse no colo, queria que ele a beijasse, coisas simples como essas. Eles deveriam dançar. Na realidade, era obviamente maravilhoso que ela o desejasse, era como se nunca tivesse sido diferente, como se ela sempre o tivesse desejado. Brilhavam-lhe os olhos, seus lábios sorriam, estava com o homem a que amava.
Ela percebeu que ele estava olhando para ela e, à claridade uniforme da luz da rua, o rosto dele estava pálido, porém nítido. Num canto escondido de sua mente, ela sabia que aquilo tudo era errado, mas não se controlava mais, não era mais dona de sua vontade.
Havia nele certa falta de delicadeza com aqueles que julgava serem seus inferiores. Tomou-a nos braços, beijando-a, esmagando seu corpo contra o dela. E ela não conseguia se afastar, estava numa espécie de delírio. Mesmo sua própria respiração lhe parecia lenta e estranha. Ela ouvia a voz de Black em sua mente.
– Sua voz me acalma. Ela é linda – suspirou.
"Eu quero que ela seja linda para você" – ele sussurrava em sua mente. "Eu quero lhe dar prazer. Ficarei triste se você me odiar."
Era uma voz muito agradável, mas totalmente falsa. O brilho nos olhos escuros era desagradável. Ela sentia o perigo emanando dele e fez um esforço enorme para controlar seus pensamentos.
"Você está cansada agora. Deixe-me acalmá-la, Brianna. Deixe-me tocá-la". A voz estava mais grave, mais urgente.
Ela sentia os lábios de Black tocando seu rosto. Enrijeceu-se, mas estava perdendo a luta por sua vontade.
– Afaste-se de mim – disse ela. – Eu não quero você!
Mais uma vez ele roçou seu rosto, dando-lhe calafrios no corpo todo. Os bicos dos seios estavam duros sob a seda da combinação, e uma pulsação surda começou dentro dela, uma fome incontrolável por ele.
Ela estremeceu e ergueu as mãos para afastá-lo, mas era como se estivesse presa por fios invisíveis que comandavam seus movimentos.
– Afaste-se de mim! – sussurrou ela. – Não!
– Você está brincando. Estou onde quero estar. Bem aqui, dentro de você.
Ela
fechou os olhos. Conseguia ouvir o farfalhar das cortinas, enquanto
ele a preenchia violentamente; o rosto dele roçando no seu
cabelo e no seu rosto. Demorou uma eternidade, mas acabou. Ele então
ficou olhando para ela de um modo estranho; passou suavemente a mão
pelo seu rosto, sussurrou seu nome.
Ele se levantou e se vestiu
em silêncio, depois parou à porta para calçar as
luvas e saiu sem falar mais nada.
Nota: Nicholas Winton e Martin Blake realmente existiram. Graças ao trabalho de Winton, centenas de crianças foram salvas. Sem o seu empenho, apenas algumas teriam sido salvas. Numa entrevista concedida em 1988, disse não entender porque tantas homenagens, já que ele tinha apenas cumprido com o seu dever. Às vezes, uma só pessoa pode fazer toda a diferença.
Abraços a quem chegou até aqui.
