2 - Arthur Weasley
- Irmão, você é um gênio.
- Ora, caro irmão, você quem é. Receba meus cumprimentos. – George reclinou-se, fazendo uma mesura exagerada para Fred.
- Não, não. Eu faço questão. Você foi simplesmente brilhante. – Fred fez a expressão mais séria que conseguiu e retribuiu a mesura.
Quando os dois se aprumaram, começaram a rir, animados. Tinham passado o último mês trabalhando em um novo produto para a Gemialidades e finalmente terminaram. E o resultado fora muito melhor que o esperado.
- Precisamos testar. – Antes que o outro respondesse, George completou rápido.- Em outra pessoa de preferência.
Fred se jogou numa poltrona, fechou os olhos e deu um suspiro satisfeito.
- Isso não será problema. – Pensou um tempo. – Podíamos testar no papai. Que me diz?
George, que estava recolhendo os materiais que estavam usando, parou e encarou o irmão.
- Não tem vergonha de propor uma coisa dessas? Nosso próprio pai. – George fez um som de desagrado enquanto balançava a cabeça, negando. – Se mamãe descobrir que ele será cobaia, acaba com a gente.
Fred nem abriu os olhos para responder:
- Ora, caro irmão. Não vamos machucá-lo. Só pensei no papai porque sabemos o que ele quer e seria mais fácil saber se está funcionando. Mas podemos arrumar outra pessoa se prefere assim. Quem sabe em você?
George se mexeu inquieto. Nem pensar que testaria o novo produto. Além disso, a idéia não era tão ruim, desde que sua mãe não descobrisse.
- Não mesmo. Tudo bem, então. Vamos testar no papai. – Continuou arrumando o laboratório deles. – Qual é o maior desejo dele?
Fred nem pensou para responder:
- Um aviãozinho daqueles com controle remoto.
George franziu o cenho e encarou o irmão novamente.
- Quê?
- Você não lembra? Ele foi a uma daquelas lojas trouxas com Harry depois do trabalho e não fala de outra coisa. Só quer saber sobre o funcionamento do avião. Tenho até pena do Harry ao imaginar a dificuldade que deve ter sido arrancar papai da tal loja.
George se lembrava vagamente dessa história. Os últimos dias tinham sido tumultuados demais, pois estava se preparando para fazer uma viagem de negócios.
- Fred, não acha que é um desejo muito bobo, não?
Fred se levantou e começou a ajudá-lo na arrumação:
- Consegue pensar em algo mais? Papai não liga para essas coisas de dinheiro, carreira ou poder. É feliz no casamento... A única mania dele é objetos trouxas. Pode até não ser o avião, mas algo trouxa deve sair de lá.
George não estava completamente convencido, mas resolveu não continuar com aquela conversa. Seria uma boa oportunidade para descobrirem o presente de aniversário para o pai. E, definitivamente, não seria a cobaia daquele experimento. Juntos, terminaram de ajeitar tudo e foram para a Toca.
Assim que conseguiram uma trégua da mãe, logo após o jantar, carregaram o pai até o quarto deles. Com rapidez e eficiência, antes que Arthur desse conta do que acontecia, lançaram feitiços de privacidade e o sentaram na cama. Fred colocou o novo produto sobre uma cadeira de frente para o pai.
- Uma bacia? – Arthur os encarou, receoso. – Não pretendem me fazer comer ou beber nada que vai me fazer vomitar ou sangrar, não é?
George riu, despreocupado, antes de responder:
- Claro que não, pai. Só vai precisar olhar dentro da 'bacia'. – Fez uma careta. - Ainda não arrumamos um nome legal pra ela.
Arthur encarou o fundo da bacia, visivelmente nervoso. Parecia temer que algo saísse de lá e o atacasse. Na verdade, qualquer um que já tivesse sido vítima de um experimento em teste dos gêmeos, teria uma reação bem parecida.
George esperou que algo acontecesse, pensando que deveriam mudar o design do produto. Aquele fazia parte da linha séria das Gemialidades. Não era um simples brinquedo, apesar de que com algumas modificaçõezinhas, poderia até se tornar um. A intenção deles era que a bacia projetasse o desejo da pessoa que estivesse olhando para ela.
Eles tinham construído uma mescla de Penseira com o espelho de Ojesed. A diferença é que não precisariam ser colocados os pensamentos nela e que as outras pessoas também poderiam visualizar o conteúdo, desde que se mantivessem mais afastados. Somente podia ser capturado um pensamento por vez e não por um longo tempo. Se desse certo, poderiam faturar alto com aquilo.
As divagações de George foram interrompidas pela exclamação do pai, quando um líquido foi preenchendo lentamente a bacia. Quando já estava pela metade, a superfície líquida foi se acalmando até ficar tão plana quanto à de um espelho. Sorriu de leve e se aproximou um pouco mais para enxergar a imagem que se formava. Um avião vermelho, de asas brancas foi tomando forma e não pode evitar olhar para Fred e flagrar a expressão convencida dele. Os dois trocaram um sorriso que morreu instantaneamente quando viram a imagem se borrar e apagar completamente. George conteve a série de imprecações que desejava soltar. Tinha sido rápido demais. Talvez se mudasse o feitiço de... O fluxo de idéias foi interrompido novamente quando seus olhos focalizaram o que aparecia agora.
Sentiu os olhos arregalarem e se abaixou mais um pouco para ter certeza que não estava alucinando. Mas não havia dúvidas: a 'penseira Weasley' formava a imagem de dois homens se beijando. E a menos que estivesse completamente enlouquecido, um deles era o seu pai. E o outro... Não podia ser. Olhou para Fred e percebeu a mesma expressão aturdida, o mesmo olhar pasmado. Voltou a se concentrar no líquido a tempo de ver os dois homens se despindo. E pela cabeleireira loira e a bengala caída no chão, não tinha dúvidas que aquele era realmente Lucius Malfoy. Quando viu Malfoy abrindo a calça do pai, esticou o braço e puxou Fred para longe do objeto. Não era certo ficarem olhando aquilo.
Fred exibia uma expressão tão chocada e aérea que George precisou apertar o ombro dele para trazê-lo de volta a realidade. Os dois se encararam em silêncio e George quase podia ver os mecanismos da mente de Fred trabalhando. Olhou novamente para o pai e não sabia o que fazer. A expressão dele era muito tranqüila, com um sorriso leve. Pouco depois, a superfície do líquido começou a se mexer e um vapor de cheiro adocicado preencheu o quarto quando evaporou. Esperaram mais um tempo e foi Fred quem chamou:
- Pai?
- Oh, garotos. Ainda estão aí... – A voz dele era indefinida assim como a expressão que exibia. – Produto interessante...
E se calou novamente. George trocou um olhar com Fred e se aproximou do pai.
- Viu alguma coisa?
Antes que o pai respondesse, Fred completou:
- Um aviãozinho, não foi?
George quase sentiu pena pelo pedido desesperado contido na pergunta do irmão. Percebeu a leve surpresa no rosto do pai ao responder depois de alguns longos minutos:
- Sim, um aviãozinho. Como sabia?
Fred sorriu, visivelmente aliviado, e disse:
- Descobrir o desejo era a nossa intenção. Mas ainda precisamos fazer alguns ajustes. – Passou o braço em torno do ombro do pai e o levou até a porta.- Mas me diz como se sentiu? Está bem?
George ficou observando os dois saírem, pensativo. Aproximou-se da 'penseira' e encarou o fundo dela, tentando descobrir o que teria dado errado. Uma sensação de tranqüilidade o invadiu e calmamente observou o líquido começar a preenchê-la.
Quando Fred voltou ao quarto, meia hora depois, George estava deitado olhando para o teto.
- Precisamos fazer só mais uns ajustes, mas parece que estamos no caminho certo.
George apenas assentiu para o irmão, ainda recordando o que tinha visto. Não tinha qualquer dúvida que a penseira era perfeita, mas achou melhor não contradizê-lo. Pelo menos algo bom tinha saído daquela experiência: dois dias depois, Arthur Weasley ganhou um lindo aviãozinho vermelho e de asas brancas de presente de aniversário.
