III
Ainda no mesmo dia, um dos soldados rasos do Santuário veio dar o recado para Kanon e Saga de que havia um aldeão de Rodório procurando falar com eles. O gêmeo mais velho já ficou desconfiado, já meio que "adivinhando" certas coisas.
- Hum... o nome dele é Demétrius, certo?
- Sim - respondeu o guarda.
- Ele está sozinho ou acompanhado?
- Acompanhado. Parece que junto dele está uma mulher, também aldeã, e um rapaz que aparenta ser mais jovem.
- Sim... mandem-nos entrar!
Kanon se agitou na cadeira onde estava sentado, pensando que precisaria ver o chato e conservador pai de Dânae. E pior ainda, Dalila, sua antiga rival dos tempos de adolescência. Mas Dalila, coitada...! Mal representava uma ameaça nesse quesito. Fora criada pra ser esposa submissa até as últimas consequências... e agora "pecava" por ter querido para a filha um destino diferente do casamento arranjado!
Então ele mais sentia pena de Dalila do que outra coisa. Terrível mesmo era o tal do Demétrius, um cara bronco, que queria ir casando a pobre filha adolescente assim, sem mais nem menos... mas que inferno! Deixasse a menina escolher! Mas não... homens de Rodório, pois sim! Teria de se segurar para não cometer uma loucura...
Logo os três chegaram. Saga, mais controlado e polido, pediu para que os três sentassem em assentos já distribuídos na sala. Eles assim o fizeram.
- Boa tarde, senhores. E senhora. Por que nos procuraram?
Demétrius, como sendo o mais velho e responsável pela família, tomou a palavra, segundo os moldes da tradição local. Ora, Saga, mesmo sendo incestuoso, não tendo sido pai e não sendo homossexual, meio que seguia essa tradição também... dado que, por ser mais velho que Kanon, mesmo que apenas alguns minutos, tomava a palavra primeiro do que ele em eventos como aquele.
Como dito antes, Demétrius tomou a palavra.
- Senhor! Eu soube hoje, pela boca miúda que sempre corre estas paragens, que minha filha está em poder seu. É verdade?
Kanon se remexeu na cadeira, impaciente. Como assim, "poder seu"? A menina agora era posse? E mesmo que fosse, em poder de Saga por quê, já que Ikarus era quem se encontrava vivendo com ela?
Saga respondeu:
- Senhor Demétrius, sua filha não se encontra em meu poder. Ela apenas se encontra morando na antiga moradia que servia de residência a mim e a meu irmão quando éramos solteiros e Santos de Gêmeos. De uns tempos para cá, desde que contraímos matrimônio, nos mudamos para este local, dado que nos tornamos Sacerdotes diretos de Atena.
- Sim, sim, disso tudo eu sei. O que quero saber é o seguinte... com que autoridade o senhor deixa a minha filha morando lá, junto com o molecote que corrompeu sua virtude?
Kanon se remexeu de novo na cadeira. Teve de segurar-se no encostos de braço da mesma quando ouviu o aldeão chamar seu aprendiz preferido de "molecote". Mas se conteve mais uma vez, esperando para ver a resposta de Saga, o qual logo o fez:
- Sei que não é de sua vontade, senhor Demétrius, mas a sua filha fugiu de casa, segundo o que me contou... não é mesmo?
- Sim.
- E ela passou a morar com Ikarus, o qual agora é... seu namorado. Bem. Ela não queria casar, ao menos não com o homem que o senhor lhe propunha... então não viu alternativa senão fugir.
- Alternativa! - interrompeu o pai de Dânae, em tom de deboche, sem o mínimo respeito pela fala de Saga - Alternativa! Quem estas garotas de hoje pensam ser? Nós as criamos, nos sacrificamos para que elas vivam bem e com saúde, arrumamos noivos de boa família para elas, para que possam ser cuidadas por um homem honesto e trabalhador, o qual possa lhes dar boa prole e sustentá-las como nós fazíamos... e é isso que temos em troca! Uma al-ter-na-ti-va! Escute bem, senhor Saga, o senhor acha mesmo que eu ia querer o mal de minha filha?
- Certamente que não, senhor, mas...
- Se não ia querer o mal dela, por que acha que a minha escolha de noivo não lhe seria boa?
- Porque ela assim não deseja. Ora, o matrimônio deve ser contraído por amor, com alguém a quem se preze... não apenas com fins de "quero ser cuidado"...
- Hah! Amor? Isso lá coloca mesa, senhor Saga? Esse moleque com quem ela co-habita agora, como uma cortesã sem bom nome... esse molecote inútil pode sustentá-la bem, sendo um Santo de Atena? Casamento por amor! É por isso que o senhor se casou tão velho, apenas porque quis se assegurar do amor?
Dessa vez Kanon se levantou da cadeira.
- Velho? Na sua aldeola pode até ser...! Mas eu não sou velho! E nem o Saguinha! Além do mais... qual o problema em se casar depois dos trinta anos? Apesar de tudo, eu e ele convivemos como casal desde a adolescência! Oras! Nunca fui "encalhado"!
- Senhor Kanon...! Eu sabia que o senhor uma hora tomaria a palavra da maneira que agora faz. Pois bem, eu lhe pergunto: além da razão de não querer ver minha filha desgraçada numa relação não-conjugal, e nem solteira depois dos trinta anos, como uma árvore seca e inútil... de que lhe serve esse casamento que o senhor fez? Um casamento sujo, de dois homens...! Que não gera filhos, e é feito apenas pela sem-vergonhice! Não podia dar em outra coisa a não ser um discípulo torpe como o seu!
- Ora! Ao menos sou muito feliz no meu casamento, obrigado! E a sua filha, que ia casar infeliz? E a sua mulher, que está há mais de quinze anos casada com um bronco-bruto como o senhor? Ela é feliz?
- Da minha mulher cuido eu. Agora, senhor Saga... seja lá como for, não vim aqui para discutir o que o senhor ou eu achamos do casamento, nem como o vemos. Vim discutir meu direito como pai - e não só isso. Trago aqui o noivo de Dânae, Antinoco. Ora, ele e eu tínhamos firmado termo de que ela se casaria com ele assim que fizesse quinze anos. Esse termo foi firmado há mais de dez anos, senhor, quando ela era pequena, com o pai dele! Agora, o que diz a ele...? Ele, que esperava uma noiva virgem e agora terá de se contentar com uma fornicadora grávida de outro?
Saga respirou fundo e em seguida continuou:
- Senhor Demetrius. Tudo isto eu tento entender. Tento entender a tradição de sua aldeia, e de sua família. O que não posso entender... é como a sua filha não tem sequer escolha sobre isto. Se o contrato foi firmado antes mesmo de ela completar cinco anos de idade...!
- Sim, senhor Saga, tudo isto é opinião sua. Agora explique a Antínoco como ele poderá se contentar com isto!
Antínoco era o "homem mais jovem" de quem o guarda falara. Ele tinha por volta de vinte e oito anos, era bem apessoado, mas tinha ar de homem muito duro. Saga o cumprimentou e em seguida tomou a palavra novamente.
- Senhor Antinoco. Vejo que lhe desgosta saber que sua noiva teve relações com outro homem, a ponto mesmo de engravidar dele.
- E a quem isto não desgostaria...?
- Ora, senhor... já que isto lhe desgosta... por que não escolher outra noiva? Devem haver tantas em Rodório que podem bem lhe servir...
- Não me importa. Eu quis Dânae por dez anos, e não será agora que vou desistir dela.
Saga suspirou em voz alta, mal acreditando.
- Mas como assim? Ela está com outro rapaz, o pai do filho dela...! Não pode mais contrair matrimônio com o senhor!
- Pode sim. Ah, se pode! É meu direito resgatá-la como noiva, por mais que ela esteja grávida de outro, e eu a quero!
Foi a vez de Kanon suspirar. Mas que coisa! Todos viam os direitos do homem ali presente, mas da mulher não...!
Saga tentava contornar a situação com mais calma:
- Senhor Antínoco... ela não quer voltar! Imagine o casamento infeliz que não fariam...
- Não me interessa. Quero casar com Dânae, e farei isso nem que seja a última coisa que faça em minha vida!
Saga não sabia o que falar ou fazer. Eles pareciam completamente irredutíveis! Antes de poder formular uma resposta, no entando, Demétrius voltou a falar:
- Senhor Saga, o senhor não tinha o direito de oferecer moradia clandestina a ela e ao moleque que a emprenhou. Não tinha! Ao saber da tramóia de ambos, o senhor tinha a obrigação de devolver a noiva à sua família, em vez de simplesmente acolhê-los em seu desvario juvenil!
- Senhor, o senhor me desculpe, mas eu jamais entendei isso de "direito familiar" acima da vontade e da felicidade de quem quer que seja! Ela está feliz assim, nós a vimos! Apenas não queria um filho agora, mas o casamento com Antínoco também não era de sua vontade! E como eles se viram em situação desamparada na aldeia dos Cavaleiros de Prata, decidimos acolhê-los para que eles se sintam melhor...
- Infâmia! Eu não poderia esperar nada pior de um homem incestuoso como o senhor! Ora! Pois me devolverão a filha, e a darão a seu legítimo noivo, mesmo que eu tenha de pôr esta sala abaixo!
Saga não queria reagir violentamente, mas se não lhe restasse outra alternativa, era o que ele teria de fazer... porém antes que a coisa ficasse ainda pior, Dalila levantou de seu assento e tentou acalmar o marido.
- Acalme-se, Demétrius...
- E você cale-se e sente-se no seu lugar! Você ajudou a menina a fugir, e se eu fosse outro homem, a teria posto para fora de casa! Não tem mais pai nem mãe, então não teria para onde ir!
Nessa hora, Saga viu algo estranho no rosto de Dalila.
- Dalila, o que...?
- Oh deixe, senhor Saga... deixe!
Com vergonha, ela quis esconder o que havia em seu rosto. Porém, Kanon havia visto... e primeiro que Saga. Levantou do assento e foi até ela.
- Espere... o que é isto eu seu rosto?
Sem esperar resposta, Kanon foi até ela e retirou suas mãos do rosto. E viu... uma nódoa roxa. Um hematoma. Na mesma hora ele entendeu.
- Safado, cachorro, sem vergonha...! Vem falar da filha viver com um homem que você não escolheu, mas você bate na sua mulher, seu merda?
Quase indiferente, o aldeão respondeu com naturalidade:
- Algumas mulheres precisam apanhar.
- Alguns homens também!
Sem se conter, Kanon deu um soco bem dado no homem, o qual caiu desmaiado no chão. Antínoco tentou detê-lo, mas levou outro e também foi ao chão. Dalila, sem saber o que fazer, colocou-se a chorar. Saga teve de segurar Kanon para que ele não matasse aos dois homens. Mesmo imobilizado pelo gêmeo, o mais moço não deixava de derramar sua fúria pelos lábios:
- Veja só! Nunca, jamais imaginei em minha vida que ia defender Dalila, a que quando menina eu detestei por querer a Saga, com tanta veemência! Isso não se faz, a pobre mulher nem tem como se defender, nem tem onde morar! O pai dela era doente desde que ela era adolescente!
Saga se surpreendeu. Jamais pensara que a moça que um dia fora quase "rival" de Kanon, e cujos ciúmes originaram o relacionamento de ambos, seria quando mulher defendida de forma tão firme.
O mais velho segurou o companheiro por mais um pouco, até a hora em que ele se acalmou e sentou num dos assentos, ainda ofegando. Saga foi até Dalila:
- Dalila, eu não acredito! Seu marido bateu mesmo em você?
- E o que é que a gente pode fazer...? Eu não tenho força pra revidar. E não tenho para onde ir, como dito...
- Você vai morar junto com sua filha e seu genro, para que seja protegida. E quanto a seu marido e o ex noivo de sua filha... serão impedidos de chegar sequer perto do Santuário. Estarão confinados a Rodório, por desacato.
- Senhor... Saga... eu ajudei minha filha a fugir, por não querer um destino igual ao meu para ela... mas por favor... eu não gostaria de vê-la convivendo com Ikarus sem ser casada pro resto de meus dias!
- Não se preocupe. Nós mesmos vamos casá-la. Agora fique tranquila, tome suas coisas e vá para a Casa de Gêmeos, sim? Um dos soldados a acopanhará.
Ela acenou afirmativamente, enxugou as lágrimas restantes e foi com o guarda buscar as coisas, para enfim ir à Casa de Gêmeos. Ao menos lá teria a companhia e compreensão da filha...
Saga abanou a cabeça, negativamente.
- Bem, Kanon... isso está dando mais trabalho do que deveria.
- Mas nós vamos superar. Esse camarada safado não vai passar por cima de nossa autoridade como Sacerdotes de Atena!
E assim, eles mandaram os guardas levarem Antínoco e Demétrius desacordados para a aldeia e lhs comunicarem o banimento do Santuário. Porém, aldeões poderiam ser muito mais agressivos do que pareciam, apesar de serem "meros homens comuns"...
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
A casa caiu! E agora, como se dará o casamento da Dânae?
Beijos a todos e todas!
