Cap. 3

Dean engoliu em seco. Talvez estivesse só fantasiando as lembranças. Mas Deus sabe quantas vezes disse algo semelhante ao velho John quando era garoto. Não sabia como responder, só conseguia se lembrar das palavras do pai:

- Você não pode ir e ponto! Porque eu disse que é perigoso e você não vai. Está decidido! – seu tom saiu mais ríspido do que ele pretendia.

- E você não pode decidir por mim! Você não é meu pai! Não é meu pai nem nunca será!! Nunca! Ainda bem!!– Ben gritou e correu para seu quarto, batendo a porta com toda força que lhe restava depois de tudo que aconteceu.

- Ben!! – Aquilo doeu mais do que um chute nas "jóias da família".

- Dean, deixa – Sam parou o irmão, espalmando as mão em seu peito para impedir que ele corresse atrás de Ben. – É melhor esperar ele se acalmar. Não vai conseguir forçá-lo a aceitar tudo isso numa boa. Ele é uma criança, não se esqueça disso.

- É, você tem razão. Acho que incorporei John Wichester ali. Eu não devia ter falado assim com ele. – Dean ponderou, não sabia se estava mais chateado pela forma como falou com Ben ou por tê-lo ouvido jogar em sua cara que ele nao era seu pai.

- Vou pegar um café para nós, sente aí e se acalme um pouco que eu já volto.

Apenas um aceno com a cabeça. Se Sam conhecia bem o irmão aquilo era um "tanto faz". Desceu as escadas pensando que aquilo estava tomando proporções ineperadas. Subiu poucos minutos depois. Dean ainda estava sentado na cama de Lisa, a cabeça abaixada, as mãos se cruzando na nuca.

- Sei que você está nervoso, que Ben mexe muito com você, que te magoou ouví-lo gritar que você não é o pai dele. Você pode negar, você pode esbravejar, mas eu te conheço bem e sei que você está confuso, está decepcionado. Quer falar sobre isso?

- Não. Quem gosta de drama é você, eu estou bem, ele é só um garoto, não diz as coisas por mal. E além do mais, nós temos muito trabalho por aqui. A começar por tirar essas pessoas daqui e investigar o resto da casa. – Dean respondeu de pronto, evitando demonstrar qualquer tipo de emoção.

- Certo, eu vou esvaziar a casa e você vai falar com Ben. Acho que deveríamos deixá-lo com Norah, pelo menos esta noite.

- Nâo, acho que não, quero vigiá-lo bem de perto. E essa vizinha me parece bem abelhuda, não podemos correr nenhum risco, principalmente o de ela arrancar uma confissão de Ben, e a vizinhança toda ficar sabendo que ele mentiu para os paramédicos.

- É, nisso você tem razão, mas Ben é bem esperto, diga à ele para não contar nada, deixamos Norah tomar conta dele enquanto investigamos a casa, depois o trazemos para dormir e passamos a noite de olho nele, pode ser?

- Acho que sim, vou falar com ele

Dean disse isso já à caminho da porta. Sam revirou o bolso atrás de uma identidade de investigador policial e desceu as escadas para solicitar às pessoas que se retirassem. Dean bateu na porta no quarto de Ben. Nenhuma resposta. Bateu mais forte. Nada. Abriu a porta, não estava trancada. Ben estava deixado na cama, encarando o teto, os olhos fixos no lustre, respirava devagar e profundamente.

- Ben, posso entrar? – Dean usou o tom mais amigável que pôde. Estava se sentindo culpado por ter sido rude com o menino num dia como aquele.

- Pode, claro. – Ben também parecia disposto a fazer as pazes.

- Ei amigão, você tem uma quarto muito legal sabia? – Dean começou a puxar conversa com cuidado, enquanto sentava na beirada da cama, ficando ao lado de Ben.

- Eu também sinto muito.

- Fico feliz que você me entenda – As palavras saíram entre um meio sorriso. Gurizinho inacreditável...

- Me desculpe por gritar com você Dean, eu não quis dizer aquilo. Você é meu único amigo, e eu ficaria muito feliz se você fosse o meu pai, mas você já é meu herói, um herói é melhor que um pai, não é?

O garoto era uma incógnita para Dean. Algumas vezes parecia tão maduro para sua idade, mas em outras, tinha a inocência de uma criança anos mais nova.

- Nesse caso, eu quero ser sempre seu herói. – Passou a mão nos cabelos do menino – Eu também sinto muito por ter sido tão duro com você, mas eu me preocupo com você, quero que você esteja seguro.

- Eu sei Dean, eu sei.

- Trégua?

Dean ofereceu a mão a Ben, que apertou firme e depois pulou para o seu colo.

- Daqui a pouco vai escurecer, eu sei que isso é coisa de crianças medrosas, mas eu não queria dormir sozinho no meu quarto. Será que você dormiria aqui comigo? – Ben perguntou, com medo que Dean achasse que ele era um maricas, mas ele tinha mais medo ainda de ficar sozinho, precisava pedir.

- Podemos fazer melhor, você dorme no hotel conosco, assim não precisa ficar aqui onde tanta coisa ruim aconteceu, e ainda pode assistir televisão até tarde, o que me diz?

- Seria demais! Já podemos ir?

- Bom, eu e Sam precisamos resolver algumas coisas aqui, mas se você ficar com a Sra. Norah por algum tempo e se comportar direitinho nós podemos ir em poucas horas!

- Tudo bem, promete que não vão demorar?

- Prometo!

Sam e Dean voltavam para a casa de Lisa, depois de deixar Ben comendo uma travessa de biscoitos com a vizinha, quando o celular de Sam tocou.

- Ei Bobby! O que descobriu? – Depois disso Sam permanceu por uns dois minutos apenas emitindo alguns sons para confirmar que estava ouvindo o que Bobby dizia e desligou o telefone.

- E então?

- Bobby está à caminho. Ele encontrou presságios demoníacos por todo o país, um rastro de possessões que vem atravessando meio país, uma cidade após a outra, mas nada além de roubos e outros pequenos delitos praticados por pessoas acima de qualquer suspeita. Parece que esse demônio estava brincando, fazendo um aquecimento para então mostrar à que veio. – Sam disse meio que sem expressão. Isso estava ficando mais e mais confuso.

- Sam, nada está fazendo sentido aqui! Eu vou entrar e ver se tem algo na casa que possa nos dar uma pista. Você tenta obter informações de qualquer fonte, todas as fontes, tudo que possa estar ligado à esse demônio, se é que é um só! – Dean disse extremamente nervoso, jogando as chaves do carro na direção do irmão, que as agarrou prontamente.

- Claro, eu volto logo.

Dean entrou e começou a vistoriar a casa, mas logo percebeu que aquilo não levaria à nada. Fosse quem fosse o demônio, não estava mais lá, e o máximo que deixou foram traços de enxofre, não adiantava procurar nada ali. Pegou em sua mochila o computador de Ash que Sam tinha conseguido consertar e começou a mapear os presságios demoníacos, anotando coisas sem parar. Depois de algum tempo achou que era o suficiente, já começava a escurecer e Dean decidiu buscar Ben e depois encontrar Sam. Os dois caminharam até o centro, o que não levou mais do que 15 minutos. Entraram numa lanchonete e Dean ligou para o irmão. Falaram-se rapidamente.

Ben não quis comer, já tinha comido bastante na casa da Sra. Norah. Dean devorava as últimas batatas de seu prato quanso Sam chegou.

- Ei, as notícias não são boas cara.

- Eu sei Sam, rastreei o demônio através do lap top do Ash. Parece que veio traçando uma cruz invertida pelo caminho até aqui, onde o desenho se fecha no mapa. Isso não pode ser bom!

- Dean, é muito pior. Por onde ele passou, além dos pequenos delitos, houveram mortes, aparentemente nomais. Mas há um padrão. Sempre onde o demônio passou, sempre uma mulher. Sempre mãe solteira. Sempre filhos meninos. Sempre sem família para cuidar do garoto.

- Deixe-me adivinhar – disse Dean sarcástico – Elas sempre morreram na frente dos filhos, e os filhos sempre alegam ter visto olhos roxos?

- Exato.

Ben observava a conversa atentamente. Estava assustado, morrendo de medo, mas não deixaria isso transparecer para Dean. Ele já havia pedido para dormir não dormir sozinho em seu quarto, não teria mais nenhum momento de fraqueza.

O celular de Sam tocou de novo, ele rapidamente explicou à Bobby como chegar na lachonete.

Depois que Bobby e Sam terminaram de jantar eles foram para um motel próximo dali. Sam e Bobby dividiram um quarto e Dean ficou em outro com Ben.

Sam tomou um banho rápido, depois foi a vez de Bobby, que saiu do banheiro recapitulando os fatos. Sam não conseguiu mais segurar o que estava lhe atormentando há dias.

- Então foi aí que Ben encon...

- Bobby! – Sam interrompeu, nervoso.

- O que?

- Tem uma coisa que não mencionamos.

- E o que seria?

- No dia em que Dean se livrou do pacto, quando eu achava que não tinha mais esperanças, eu chamei o demônio da encruzilhada para oferecer minha alma também. Caso não pudesse trocá-la pela vida de Dean eu simplesmente daria, e iria com ele. Não podia deixá-lo sozinho nessa. Mas aí aconteceu tudo aquilo, e quando Dean estava apontando o colt para ela, ela disse que éramos idiotas, que estava tudo fácil demais para nós, e que não havia terminado, estava apenas começando. Não consigo parar de pensar nisso. E não consigo parar de achar que tem algo a ver com a morte da Lisa. - Sam falava rápido, Bobby mal conseguia acompanhar o raciocínio do rapaz. – Quero dizer, foi mesmo fácil você não acha Bobby? Não acha que tem mais alguma coisa por trás disso?

- Sam! Qual é o problema de vocês?? Isso virou algum tipo de vício pra essa família? por que diabos vocês não conseguem ficar longe das encru...

- Bobby! Tudo bem! Eu sei, eu sei que somos malucos, inconsequentes e merecemos uma surra!! eu sei!! Mas agora já passou, e não há tempo pra discutir isso! Essa não é a questão!! Quero que você diga o que acha que ela quis dizer?

- Olha Sam, eu tenho que dizer que achei mesmo estranho quando você me contaram. Nunca ouvi dizer que um pacto fosse desfeito através de um simples ritual indígena, mas como nós sabemos pouco perto do imenso conhecimento deles, e no final das contas deu certo, eu não questionei - Ele dizia as frases entre profundas inaladas de ar, tentando se acalmar - Como vocês puderam esconder de mim o que foi dito? Isso é muito importante! – Estava definitivamente consternado.

- Eu sei Bobby, eu sei...

No quarto ao lado, Ben e Dean estavam no banheiro. Lado a lado, em frente ao espelho, Ben em cima de uma cadeira. Escovavam os dentes sincronizadamente, parecia ensaiado Até na hora de cuspir. Dean ensinou Ben como fazer a barba, com espuma de barbear e as costas do barbeador, o que fazia a simulação perfeita. Ben seria rápido e eficiente na hora de se barbear, assim como Dean. Ben aprendeu como espalhar a loção pós-barba nas bochechas e pecoço, e como quando ele tivesse barba para fazer de verdade, aquele processo iria areder um pouco.

Depois da higienização completa, Dean colocou Ben na cama e deitou na sua. Apagou a luz do quarto e programou a televisão para desligar em 30 minutos.

- Boa noite Ben.

-Boa noite Dean.

Dean rolava na cama, não conseguia dormir. Quando começava a cochilar sonhava com os últimos acontecimentos, acordava. A televisão desligou, deixando o quarto numa escuridão completa. Dean ouvia Ben se mexendo na cama ao mesmo tempo em que ele próprio se mexia.

- Dean? está dormindo? – Ben tinha a voz receosa.

- Estou, profundamente. - Respondeu Dean, num tom de deboche.

O garoto riu. Depois ficou em silêncio, como se estivesse criando coragem para dizer.

- Ben?

-Sim?

-Estou com um pouco de medo, será que você poderia deitar aqui comigo? Sabe, só até eu dormir, por favor?

Ben riu novamente e passou num piscar de olhos para baixo da coberta de Dean, aninhando-se em seu peito. Dean abraçou o menino e ficou dedilhando seus cabelos até perceber que sua respiração era profunda e regular. Passou a noite acordado, velando o sono de Ben.