Capítulo II
Shijima estava inquieto. Havia passado os últimos quarenta minutos rodando pelo complexo, sozinho, tentando achar uma saída por conta própria. Como bolinhas de gude se chocando constantemente, átomos em fissão nuclear, suas últimas memórias estavam começando a lhe dar dor de cabeça. Se pudesse, sua cabeça estaria literalmente fumegando de tão estressado que estava. Tudo aquilo era ridículo demais para se acreditar. Não lhe bastasse o fato de estar preso dentro de uma máquina por sabe-se lá quanto tempo, ninguém se prestava a lhe dar explicações, incluindo o cínico cara do sobretudo.
Por fim, um urso de pelúcia - sim, era um urso, um metro de altura, "talvez autômato? Muito provavelmente," pensou ele - simplesmente disse sem a menor das preocupações que todos ali, sem exceção, teriam de se matar para sair.
- Ora, vejam! A princesa finalmente levantou de seu dossel! - havia dito o estranho urso monocromático, sentado sobre um púlpito no palco improvisado no fundo do mal-cuidado ginásio. - Já não era sem tempo! Não podíamos ficar esperando por você o tempo todo, né?
Os outros adolescentes espalhados pela quadra, ou pelo menos a maioria deles, olhava para Shijima com as mais diferentes expressões. Shijima no entanto, não mais os correspondia. Assim que seu olhar se defrontou com a imagem do escuro sobretudo, ele começou a caminhar vagarosamente, como que fincando os pés no chão a cada passo, na direção dele. De punhos apertados, ignorando todos ao redor, que nem meros obstáculos.
- Ei, seu pestinha cabeça-quente! - chamou novamente o urso, tentando chamar a atenção de Shijima. - Você mesmo, o baixinho! Estou falando com você!
Shijima parou de andar, e notou que o rapaz do sobretudo também havia olhado pra ele de relance. Na verdade, todos os alunos estavam olhando pra ele agora. Inclusive Idaten, que sutilmente havia ressurgido entre eles sem deixar suspeitas.
- Que diabos é você? - Shijima se virou para ele. - Que lugar é este?
- Ah... - o urso tinha um tom tranquilo em sua fala, que logo virou um tom choroso. - Esta é a Academia Hope's Peak. Ou o que sobrou dela... - e então voltou para seu tom brincalhão. - E eu sou o seu diretor, Monokuma!
Shijima levantou uma sobrancelha. Os alunos continuavam a observá-lo, calados. O clima pesado e o silêncio ali eram quase tangíveis. Apenas o zumbido de uma máquina distante, o choramingar incontrolado de uma das garotas e o murmúrio de um dos garotos se podiam ouvir.
- Já que foi um mau aluno e não acordou na hora designada, eu posso lhe dar uma versão resumida do que discutimos aqui - continuou, tão benevolente quanto poderia ser. - É claro, eu não vou deixar isso simplesmente passar. Você vai ser punido por seu atraso!
Monokuma, o urso mecânico, riu. Pelo menos foi o que Shijima cogitou, se é que "upupupupu~" poderia ser interpretado como algo próprio de uma risada. O bicho tinha uma aura tão despreocupada que irritava Shijima a cada palavra que dizia com sua voz caricata.
- Cada um de vocês está designado a permanecer nesta academia indefinidamente, pelo resto de suas vidas! - ele balançou os braços dramaticamente. - Sua única e remota chance de sair é cometendo um assassinato para com seus queridos colegas, sem ser descoberto! - por fim, Monokuma posou sobre o púlpito, como se estivesse de certa forma orgulhoso do que disse.
Dito isso, a garota choramingando perdeu o controle e começou a chorar ainda mais alto, logo sendo acudida por uma garotinha menor que estava ao seu lado, que tocava nela com o que parecia ser um bastão de purificação. Naturalmente, Shijima permaneceu estático, e não deu atenção. Novo silêncio. Ele se sentia que nem um vulcão prestes a entrar em erupção.
- Alguma dúvida, Akasa-kun? - o urso levou a mão à boca, pendendo a cabeça levemente pro lado, hesitante. - Antes que pergunte, sim, vocês estão presos, sem chances de escapatória.
Ele não havia notado que, automaticamente, estava com o corpo curvado, como em constante posição de defesa. Olhou em volta - alguns alunos haviam desviado seu olhar dele, parecendo acuados.
- Vocês - Shijima se virou para eles. - Isso é uma piada, não é? É ridículo, não é? - buscava confirmação, num tom nervoso. Todos permaneciam calados, enquanto Shijima percorria o olhar por eles. Virou-se para olhar o urso outra vez, que continuava rindo, lambuzando-se com um pote de mel como se estivesse se divertindo com a cena.
- Porque estão parados aí feito bobos?! É só um robô idiota! - Shijima levantou a voz, tentando chamar a atenção de todos. A garota de jaleco a chorar tremia, o que levantou um olhar zangado da dona do bastão que a acompanhava. - Façam alguma coisa! Idaten! - ele gritou, se virando pra ela.
Apesar de ter ouvido o chamado de Shijima, Idaten simplesmente virou a cabeça para o lado, tentando disfarçar que estava sendo chamada.
- Eu imagino que tenha algo contra mim, Akasa-kun - Monokuma chamou outra vez, parando de rir. - Veja, você parece totalmente incrédulo nas minhas palavras. Talvez um pouco de fé possa fazer você ver!
Monokuma então lançou com suas patinhas o pote de mel aparentemente vazio para sua esquerda, na direção do canto do ginásio. Todos acompanharam o movimento do pote com o olhar, até ele se chocar com algo que estava pendurado na parede. Ouve um burburinho entre os alunos, e Shijima demorou a reconhecer por completo o formato daquilo. O pote se chocou contra o chão, logo acima de uma extensa poça de sangue que Shijima não havia notado. Na verdade, Shijima definitivamente não havia se dado conta daquele cadáver desde que entrou na quadra.
Preso ao que parecia ser uma lâmina de serra circular das que Shijima usava em sua oficina, mas de tamanho descomunal, estava o braço de uma pessoa. E pendendo deste braço, com o impacto do pote, balançava precariamente um corpo humano, já sem sua cabeça, vertendo sangue que escorria pelas paredes e se acumulava no chão, sinalizando, não muito distante do pote de mel, onde a cabeça de expressão indefinida de um garoto tinha ido parar. Não muitos segundos de aparente quietude depois, o braço se parte, deixando a lâmina cravada na parede e o corpo em queda livre até se chocar com o chão, se posicionando na poça precariamente como um boneco de pano, com um repugnante som. Morto.
Shijima estremeceu. Não podia ser verdade. Aquilo... Tinha que ser uma brincadeira de alguma forma. Milhões de possibilidades voaram pela cabeça dele. Aquilo era um corpo de verdade? Que diabos era aquele urso? Quem estava por trás disso? Não era um cadáver. Não podia ser um cadáver.
- Como podem ver, o Enoshima-kun aqui iniciou um pequeno levante contra a nossa generosa administração, que sou eu, Monokuma - apontou para si, e deu um rodopio - Medidas drásticas tiveram de ser tomadas. Mas é claro, não irá ocorrer a vocês. Por isso estou fazendo esse aviso.
- Levante? - um garoto que estava lá no fundo do ginásio, aparentemente hesitante, veio se aproximando. Usava um gorro vermelho, um casaco desbotado sobre uma blusa pesadamente estampada, calças incrivelmente gastas e rasgadas e um par de tênis coloridos. Parecia um show de cores ambulante, embora estiloso. - Ele tentou se defender de você e você... - ele tentou expulsar as palavras, como se exigissem esforço. - atirou aquele troço nele!
- Ora, ora, Ryuudou-kun - Monokuma pôs as mãos atrás das costas. - Achou muito brutal? Sangrento? Classificado para maiores de idade? Devo colocar uma censura? - o urso se jogou ao chão, e rolou pelo palco como uma bola, até se pôr de pé outra vez. De trás do púlpito, agarrou dois grandes retângulos pretos do que parecia ser papel-cartão, e os lançou cerimoniosamente sobre o cadáver do garoto.
Como esperado do bom senso, apenas Monokuma se pôs a gargalhar da cruel piada. Antes que Shijima pudesse levantar a voz outra vez, o urso se deixou continuar.
- Não fiquem impressionados, seus pestinhas. Se estão aqui, é porque cada um de vocês possui o potencial para fazer pior do que aconteceu com o Enoshima-kun! - ele alisou a própria barriga. - E enquanto estiverem aqui, quero que deem o seu melhor. Eu confio nos talentos de vocês! É pra isso que a Academia Hope's Peak existe!
Que urso nojento. Shijima estava à beira da explosão. Quando notou, já estava tomando impulso para correr até Monokuma. No entanto, sentiu uma firme mão segurar seu colete, impedindo-o de sair do lugar. Monokuma saltou de volta para o púlpito, e acenou para todos.
- Aproveitem a estadia, e sintam-se em casa! - com um pulo, ele se deixou cair para trás, e desapareceu, deixando o eco de sua voz soar pelo ginásio.
Shijima sentiu que precisava descontar a raiva em algo. Imediatamente. Então percebeu que a mão ainda o estava segurando, e se virou para se soltar, imediatamente dando de cara com nem mais, nem menos que o garoto de cabelo claro, óculos, e sobretudo escuro. Assim que Shijima se virou, ele o soltou, e pôs a mão no ombro do garoto, aparentemente inexpressivo e completamente calmo. Estavam face a face - dessa vez pra valer.
- Se deseja realmente sair daqui - fitava Shijima fixamente, como se sua íris fizesse contato direto com o subconsciente dele. - Não é simplesmente se jogando em cima daquele urso que você vai conseguir.
Era uma armadilha. Ele era bastante alto, e também convenientemente musculoso. O rosto dele era quase perfeito, de uma masculinidade surpreendente. Os óculos se encaixavam perfeitamente em seu nariz, realçavam os olhos azuis-marinhos, suas arqueadas e bem definidas sobrancelhas, claras que nem seu cabelo espetado e sua densa mas controladamente bem-cultivada barba, que delineava completamente seu queixo e sua boca e-
- Com licença. - ele pôs as mãos atrás das costas, e como um robô, foi caminhando num passo constante, mas rápido, até sair pelo portão do ginásio.
Aquele contato rápido deixou Shijima imerso numa estranha sensação desde então. Ele parecia uma boa pessoa, afinal. Ele meio que impediu Shijima de fazer besteira. Mesmo assim, a falta de respostas ainda o incomodava, e durante todo esse tempo, todos os dilemas estiveram se conflitando na mente dele de tal forma que já estava começando a se sentir mal. Andando sem parar pelos corredores daquele lugar, abrindo cada porta e verificando cada abertura ou corredor, ele nervosamente mexia no aparelhinho que havia achado no seu bolso, o ElectroID, arrastando o dedo na tela intermitentemente na esperança de que as regras da escola instaladas nele magicamente mudassem de uma hora pra outra.
Ora aquilo se assemelhava a uma escola, ora a uma base científica. Os salões e corredores pareciam ter sofrido algum tipo de estranha mutação em que paredes de metal e concreto se fundiam ou apenas se sobrepunham. O aparelhinho cedido pela escola, de acordo com Monokuma, possuía um mapa, mas era apenas parcialmente útil, visto que Shijima atingiu partes não contidas no mapa, e ocasionalmente, placas ominosas contendo diversos avisos de cuidado, ou que alertavam passantes a não prosseguir apareciam no caminho. Havia inclusive algumas em que se podia ler "Complexo Vitrificado, Mantenha-se Fora". Em determinado momento, não fosse seu aleatório senso de perigo, Shijima teria caído em uma enorme fenda no meio de um mal-iluminado corredor, da qual não podia nem sequer ver o fundo.
Aqui e ali se viam o emblema da Academia Hope's Peak, ou novamente o logotipo do que quer que fosse a empresa "Futuro" estampado em várias das máquinas, que pareciam ser nada mais que sucata espalhada por todo lado - não seria necessário dizer que Shijima achou tudo aquilo um desperdício, e também que saiu coletando pedacinhos de maquinário que achava interessantes, estufando os bolsos com eles. Alguns corredores nem sequer tinham energia, e embora ele pudesse usar sua mini lanterna para navegar com mais facilidade, eventualmente chegava a algum lugar intransponível, como um lance de escadas bloqueado por barras de ferro, elevadores selados, mais fendas de solo instável ou mesmo desabamentos, e era obrigado a retornar.
Imaginou se alguém estava o seguindo, provavelmente para cumprir a regra estabelecida pelo urso, e então acabar com a vida dele ali e naquele momento. No entanto, por mais estranho que pudesse parecer, Shijima não conseguia se preocupar com isso. Sua vontade de sair se sobrepunha de tal forma a qualquer outro sentimento que imaginou se já estava começando a esquecer do resto. Numa destas em que teve de retornar, finalmente decidiu parar por ali e voltar para o seu quarto, e começou a fazer seu caminho de volta, numa das rotas fora do mapa, esperando encontrar algum tipo de atalho. Embora estivesse cansado, Shijima finalmente sentiu que a caminhada tinha aliviado um pouco seus sentimentos. Eis que, ao percorrer um outro corredor, imerso em seus pensamentos, o garoto foi acordado com uma intimidadora e forte batida no metal.
- Minha... Medicação. - uma voz rouca, pesada, e estranhamente familiar ecoa fracamente do corredor logo à esquerda. Não demorou muito para que Shijima percebesse de quem era.
Ele cogitou olhar pelo corredor, mas seria arriscado demais. No entanto, teve uma ideia. Puxou um toquinho de câmera que tinha achado no caminho, precariamente plugou alguns fios nessa câmera e no ElectroID e forçou o aparelhinho a mostrar o sinal da câmera. Empurrando com cuidado para que ninguém percebesse, Shijima conseguiu posicionar a câmera no rodapé da parede, dando a ele uma visão clara do corredor pelo ElectroID. Tinha uma resolução terrível, mas foi então que finalmente conseguiu ver - cercado contra a parede, Monokuma era confrontado pelo cara do sobretudo, que mantinha seu grosso braço acima dele, e aparentava ter uma expressão nada amigável. Shijima engoliu em seco.
- Ora, vamos, não sejamos apressados... - o urso tentou apaziguá-lo. - Se bem que eu poderia usar você a todo vapor desse jeito...
- Não é pra isso que estou aqui? - muito diferente do seu tom de voz no ginásio, ele falava num tom grave e nada calmo. - Não me explicou porque ELE ainda está aqui. Não era parte do acordo! - ele golpeou a parede de metal outra vez, fazendo o teto tremer.
Shijima estava ficando cada vez mais curioso, embora compreendesse a periculosidade da situação. Se fosse pego ali, não sabia o que poderia lhe acontecer.
- Higansha-kun, o mundo é feito de negócios, sabe... - o urso, porém, tinha o mesmo ar de palhaço de sempre. - Concorrência existe, e essas coisas...
- Vá direto... Ao ponto. - ele não parecia conseguir falar com fluidez. A respiração dele parecia pesada.
- Às vezes alguns produtos são mais vantajosos que outros e... Sua preferência acaba mudando e... - o urso esfregou o pé no chão, talvez para fazer parecer que estava confessando algo que não deveria. Seus movimentos pareciam tão vivos que nem parecia um robô. - Digamos que Akasa-kun se tornou um produto muito mais vantajoso pra mim, e pela metade do preço!
Shijima sentiu seu tato sumir por um milésimo de segundo. Monokuma havia falado dele? Pro cara do sobretudo? Não, não era possível.
- O que pensa que vai fazer com o Shijima? Do que você está falando?! - Higansha agarrou o urso pela cabeça, levantando-o à altura do seu rosto. Higansha. Esse era o nome dele. Ele sabia quem Shijima era. Seu coração disparou.
- Ai! Ai ai ai! - o urso gemeu, parecendo aflito. - Está me amassando, Higansha-kun! - haveria um certo tom de prazer na fala do urso...? Não, bobagem. Higansha forçou a cabeça de Monokuma contra a parede, num impacto violento.
- Anda! Que raios você quis dizer com isso! - falou, com sua voz falhando, mas com um forte rosnado ao fundo. Higansha não estava no seu normal.
- N-Não preciso mais de você. - o urso balançou os braços, frenético. - O potencial do Akasa-kun é algo que você jamais poderia alcançar. Pode ir embora, se quiser, mas ele agora está na custódia da Academia Hope's Peak.
Shijima não estava entendendo mais nada. Monokuma naturalmente teria como saber de sua identidade, mas Higansha, o garoto do sobretudo... Quem era ele afinal? Shijima não tinha como saber... Uma miríade de pensamentos e perguntas diferentes explodia na cabeça dele como pipoca. Estava difícil raciocinar. Precisava sair dali para não ser visto, mas também queria continuar escutando.
Foi então que Higansha urrou. Desolado e de repente inerte, ele havia largado o urso no chão, e socando a parede mais uma vez, liberou um literal rugido rasgado que ecoou pelos corredores e reverberou em tudo ao redor, fazendo com que até Shijima sentisse a vibração. Distraído, o garoto voltou a olhar pra tela do ElectroID, onde viu Monokuma estender para Higansha um pequeno potinho, que Higansha abriu com ferocidade e rapidamente levou uma cápsula à boca. Monokuma, pacientemente, esperou parado no seu lugar, enquanto Higansha parecia tomar controle de si e a tremer menos, até parecer completamente estável, e respirar normalmente. Havia retornado ao normal.
- Está melhorzinho? - Monokuma perguntou. Higansha o olhava com uma indiferença sobrenatural. Ficaram parados por alguns segundos assim, embora Monokuma murmurasse baixinho.
Higansha continuou parado, fitando Monokuma misteriosamente. Devagar, ele se virou na direção do corredor, respirando fundo.
- Ele não vai ser de nenhum uso pra você. - ele murmurou, na sua voz calma e vazia de antes.
- Não acho que você tenha autoridade para dizer isso, Higansha-kun. Pelo menos não mais! - Monokuma pôs as mãos atrás da cabeça enquanto Higansha se distanciava dele. - Veja só, ele não sobreviveria cinco segundos lá fora assim! Upupupupu~
Passos. Higansha se aproximava do corredor. Shijima tinha de dar o fora. Agora.
Em debandada, o garoto desplugou a câmera e zuniu pelo corredor buscando alguma saída. Eis que uma porta que não tinha percebido estava logo ao seu lado, e Shijima agarrou a oportunidade. Entrou e se encolheu num cantinho do apertado cubículo, que parecia ser pelo menos uma despensa, para se esconder. Dum, dum, dum. As botas militares de Higansha ecoavam no metal. Sem sequer perceber movimento ali, ele foi se distanciando pelo corredor, até que seus passos se tornaram inaudíveis.
A respiração de Shijima, no entanto, ainda não havia voltado ao normal. Aquela conversa fez fluir de volta todas as memórias de que Shijima havia se esforçado para esquecer - a simulação repetida, a perseguição que fez a Higansha lá dentro, o corpo do aluno no ginásio e toda essa estupidez de jogo de matança mútua simplesmente não batiam. Quem diabos era Higansha, porque ele o conhecia, e por fim, o que queria com ele? E agora, para tornar as coisas piores, tinha perdido a memória também?
Shijima nunca se sentiu tão desgraçado. Tudo o que estava acontecendo com ele não eram fardo para um garoto como ele levar. O que havia acontecido com sua vida normal, e quando foi que ele perdeu o controle dela? Não sabia responder. Lentamente, ele foi se deixando esses pensamentos se avolumarem, e tão logo, fluírem de dentro dele. Shijima começou a chorar, silenciosamente, mas chorava, ali mesmo. Lentamente chutando as paredes da sala, seus pés faziam surdos sons na superfície do metal, abafando seus fungados. Não muito depois, quando os joelhos da calça dele já estavam molhados o bastante, com um dos chutes na parede as luzes da sala ligaram, e a porta automaticamente se fechou. Shijima levantou a cabeça. Não era uma simples sala - era um elevador. Bingo.
O garoto se levantou, e apertou o botão mais ao topo. Lentamente, o elevador começou a se mover, enquanto Shijima enxugava os olhos. Após pôr aquilo tudo pra fora, ele sentia um certo vigor novo embora não estivesse completamente em paz consigo. Seu pai sempre havia dito que chorar não era necessariamente um sinal de fraqueza, mas apenas uma válvula de exaustão. Seu pai. Agradáveis memórias invadiram a mente de Shijima. Onde estaria ele agora?
O elevador parou, e a porta se abriu sem problemas. Parecia novo aos olhos de Shijima, quando observou melhor. A saída era direta para um corredor, que dava para uma nova porta no seu fim. Era frio lá em cima. Shijima apenas se deixou levar pela curiosidade, e lentamente foi andando até ela. O frio aumentava a cada segundo. Ele se pôs em frente à porta, respirando fundo o ar que vinha lá de fora, fluindo por entre as brechas.
- Akasa-kun? - uma voz chamou Shijima lá de trás. A voz de brinquedo do urso. - O que está fazendo aqui? É uma área proibida para alunos.
Shijima não se virou para ele. Estava hesitante, sua mão ainda sobre a maçaneta.
- Não que eu esteja proibindo você de ir... - Monokuma continuou. - Mas como eu já bem disse, não acho que você deveria ver o que tem lá fora... Pelo menos não ainda!
Ele tinha razão. Shijima não queria ver. Já era o bastante por um dia. Seguiu com Monokuma de volta para o seu quarto, sem responder nada do que ele dizia. Estava fraco e abatido. Não queria mais responder pergunta alguma.
Enquanto tentava dormir, a imagem de Mako voltou à mente dele. Por um lado, Shijima sentia uma chama queimar dentro dele toda vez que pensava no pai. Uma chama de esperança, se é que ele poderia chamar assim. Esperança de que poderia sair dali, se reunir com o pai outra vez e sentir seu caloroso abraço de quando voltava para casa.
Outro lado de Shijima, obscuro e pequenino, desejava que, no momento em que ele caísse no sono, o dia resetasse apenas mais uma vez.
15 alunos restantes
Shijima Akasa (朱咲 黙) - Super Inventor de Nível Colegial (超高校級の発明)
Akira Idaten (韋駄天 光) - Super Velocista de Nível Colegial (超高校級の競走)
Azuma Ryuudou (流道 東) - Super Skatista de Nível Colegial (超高校級のスケーター)
Yui Mushuuden (夢秀伝 ゆい) - Super Sacerdotisa de Nível Colegial (超高校級の巫女)
Naru Rokumune (六宗 成) - Super Rugbista de Nível Colegial (超高校級のラグビー)
Kanagara Kisaragi (衣更着 神長羅) - Super Estilista de Nível Colegial (超高校級のファッション)
Sadaki Higansha (彼岸沙 サダキ) - Super Desenvolvimento de Nível Colegial (超高校級の開発)
MarinaP (マリナP) - Super Cosplayer de Nível Colegial (超高校級のコスプレ)
Satte Heisoku (平足 撮手) - Super Repórter de Nível Colegial (超高校級の探訪)
Honma Iwanai (岩内 本間) - Super Bióloga de Nível Colegial (超高校級の生物学)
Monrei Kudarou (下郎 門礼) - Super Mordomo de Nível Colegial (超高校級の執事)
Cherry Shiobana (汐華 桜) - Super Líder de Torcida de Nível Colegial (超高校級のチアリーダー)
Arato Manji (卍 新人) - Super Boa-Sorte de Nível Colegial (超高校級の幸運)
Kanata Eino (映乃 奏多) - Super Pintora Tradicional de Nível Colegial (超高校級の日本画家)
Nagura Enoshima (江ノ島 名蔵) - Super ? de Nível Colegial (超高校級の???) [Eliminado]
Sumire Sen'ya (仙也 菫) - Super Exploradora de Nível Colegial (超高校級の冒険家)
