Só 3 reviews?! God… Ok…
Bem… Obrigada minhas queridas. Por serem aquelas fiéis de sempre que eu adoro eheh.
Beijinhus. Esta é para vocês e minha Beca, minha querida:
II
"E continuamos completamente envolvidos um com o outro
Ela meia-viva e eu meio-morto"
Victor Hugo
A alguns quilómetros dali, um pouco mais a sul, a silhueta imponente de um Land Rover todo-o-terreno atravessava o parque de estacionamento deserto do cemitério de Brooklyn Hill.
No canto do pára-brisas, um cartão plastificado revelava a identidade e a profissão do seu condutor:
Doutor Darien Galloway
Hospital St. Mattew's
Cidade de Nova Iorque
A viatura estacionou junto da entrada. O homem que dela saiu estava muito próximo dos 30 anos. Com o seu porte maciço, o sobretudo de linhas direitas e o fato de bom corte, transmitia uma ideia de solidez e de elegância, mas o seu estranho olhar – uns olhos azuis-escuros como uma noite sem nuvens – estava toldado de melancolia.
O ar era frio e incómodo. Darien Galloway deu um nó ao cachecol e soprou sobre as mãos para as aquecer. Deu alguns passos na neve em direcção ao portão. A esta hora do dia, o cemitério ainda estava fechado. Mas, no ano anterior, Darien tinha feito uma doação ao cemitério para contribuir para a preservação dos túmulos, o que lhe permitia possuir a sua própria chave.
De há um ano para cá, vinha uma vez por semana, sempre de manhã, antes de se dirigir para o hospital. Um ritual que se transformara numa droga.
A única forma de estar ainda um pouco com ela…
Darien abriu a pequena barreira de ferro fundido – normalmente reservada ao guarda – e accionou o sistema de abertura, antes de deixar que os seus passos o guiassem maquinalmente através das alas.
Era um vasto cemitério, instalado nas imediações do parque. No verão, numerosos transeuntes vinham tirar proveito da diversidade de árvores e dos caminhos ensombrados. Mas, esta manhã, nenhum canto de pássaro nem nenhum movimento perturbava o silêncio do local, excepto a neve que se acumulava em camadas silenciosas.
Ao fim de 300 metros, Darien chegou ao túmulo da mulher.
A neve cobrira inteiramente a pedra tumular de granito rosa. Com a manga do sobretudo, Darien limpou a parte mais alta do túmulo, permitindo que a inscrição aparecesse:
Lita Galloway
(1980-2008)
Repousa agora na paz do Senhor.
Estava acompanhada de uma fotografia a preto e branco de uma mulher de 28 anos, com cabelos castanhos apanhados atrás e um olhar esquivo.
Indescritível.
- Bom dia – disse com uma voz doce. – Está fresco esta manhã, não está?
Darien continuava a falar com Lita, que morrera havia já um ano, como se ela estivesse viva.
Contudo, Darien Galloway nada tinha de místico. Não acreditava nem em Deus nem na existência de um hipotético além. A bem dizer, Darien não acreditava em muita coisa para além da medicina. Era um excelente pediatra que, na opinião de todos, demonstrava possuir uma grande compaixão para com os pacientes. Apesar da sua juventude, já tinha publicado numerosos artigos em publicações médicas e, mal tinha concluído o estágio, recebera logo propostas de estabelecimentos prestigiados.
Darien especializara-se numa área da psiquiatria, a resiliência, que partia do princípio de que mesmo as pessoas atingidas pelas piores tragédias podiam encontrar forças para se conformarem face à fatalidade da desgraça. Parte do seu trabalho consistia então em tratar gravíssimos traumas psíquicos sofridos por determinadas crianças: a doença, as agressões, as violações, a morte prematura de um familiar…
Se era verdade que Darien tinha muita força para ajudar os pacientes a ultrapassarem a sua dor, a fim de recuperarem o controlo da sua existência, parecia contudo incapaz de aplicar a si próprio os conselhos que lhes fornecia. Isto porque ficara desfeio com o desaparecimento da mulher, um ano antes.
A história entre Lita e ele era complicada. Conheciam-se desde o inicio da adolescência e ambos tinham estudado em Bedford-Stuyvesant, um bairro maldito em Brooklyn, conhecido pelos seus vendedores de crack e pelas suas taxas recorde de homicídios.
Originários da Colômbia, os pais de Lita haviam fugido das ruas de Medellín quando ela tinha seis anos, sem saberem que estavam a trocar um inferno pelo outro. Ainda não havia um ano que estavam nos Estados Unidos quando o pai foi vitimado por uma bala perdida num tiroteio entre dois bandos rivais do bairro. Lita viu-se então sozinha com uma mãe que, pouco a pouco, foi caindo no álcool, na doença e na droga.
Frequentava uma escola deteriorada, situada numa zona imunda e pejada de carcaças de automóveis calcinados. O ar era irrespirável, o ambiente, frenético e os traficantes espreitavam sempre ao fundo da rua.
Aos 11 anos, vestida de rapaz, também ela vendera droga numa sórdida casa de crack da Bushwick Avenue. Isto porque se estava em Brooklyn em meados dos anos 80 e era essa a única forma de conseguir a droga de que a mãe necessitava. Aliás, tinha sido ela a ensinar-lhe a regra essencial do negócio: nunca largar a mercadoria antes de ter na mão os dólares do comprador.
No liceu, conhecera dois rapazes um pouco mais novos que ela e que pareciam diferentes dos outros: Darien Galloway e Fiore Powell. Sempre com um livro na mão, Darien era o intelectual da turma, um rapaz solitário educado pela avó. Era também o único «branco» da escola, o que lhe valia uma quantidade considerável de inimizades nesta zona de maioria afro-americana.
Quanto a Fiore, era uma força da natureza. Aos 13 anos, era tão alto e desenvolvido quanto a maioria dos adultos do bairro, mas, sob a aparência de mau rapaz, escondia uma grande sensibilidade.
Os três tinham unido forças para sobreviverem no meio da loucura que os cercava. A sua entreajuda e amizade construíram-se com base na complementaridade, e cada um deles encontrava o seu equilíbrio graças aos outros dois. A Colombiana, o Branco e o Preto: o Coração, a Inteligência e a Força.
Ao crescerem, continuaram a manter-se tão longe quanto possível das confusões do bairro. Tinham assistido o suficiente à devastação das drogas duras no seu meio envolvente para nunca mais nelas desejarem tocar.
Darien e Lita nunca poderiam imaginar que deixariam um dia aquela cloaca humana. Os riscos de se viver aí, presentes por toda a parte, incitavam a que não se fizessem projectos a longo prazo. Deste modo, não possuíam verdadeiras ambições, porque ninguém em seu redor as possuía.
Assim, contra todas as expectativas, e graças a circunstâncias favoráveis, ambos conseguiram sair dali. Ao tornar-se médico, Darien tinha levado a sua amiga de infância atrás de si, tendo sido quase naturalmente que se casou com ela.
A neve continuava a cair sobre o cemitério em flocos pesados e espessos. Darien não desviava o olhar da fotografia da sua mulher. No retrato, Lita tinha os cabelos apanhados atrás em volta de um longo gancho. Trazia consigo o seu eterno avental, que colocava sempre que pintava. Fora Darien a tirar a fotografia. Ela era um pouco esquiva. Normal: Lita nunca se deixava fotografar.
No hospital, ninguém conhecia a origem social de Darien e ele nunca falava nisso. Mesmo quando vivia com Lita, raramente recordava esse mundo que tinham deixado. É preciso dizer que a comunicação não era propriamente um dos principais talentos da sua mulher. Para se proteger das trevas da infância, construíra desde muito cedo, graças à pintura, um mundo onde ninguém a podia atingir. Uma carapaça de tal espessura que, muito depois de ter deixado Bed-Stuy, nunca baixou verdadeiramente as defesas. Com o tempo, Darien disse para consigo que conseguiria «curá-la», tal como tinha curado muitos dos seus pacientes. Mas as coisas não evoluíram assim. No mês anterior à sua morte, Lita refugiara-se com uma frequência cada vez maior no seu mundo de pintura e de silêncio.
E ela e Darien tinham-se afastado ainda mais um do outro.
Até essa funesta noite em que, ao abrir a porta de casa, o jovem médico descobriu que a mulher decidira abandonar a vida, que se lhe tinha tornado insuportável.
Darien caiu bruscamente num estado de torpor. Nunca Lita lhe transmitira verdadeiros sinais que evocassem a possibilidade de acabar com a sua própria vida. Recordava-se mesmo de que ela parecia cada vez mais calma nos seus últimos dias. Compreendia agora que isso se devia apenas ao facto de já ter tomado a decisão e que, de certa forma, se tinha entregado a essa saída fatal como se de uma libertação se tratasse.
Darien passara por todas as fases: desespero, vergonha, revolta… E, mesmo actualmente, não passava um dia em que não se perguntasse a si mesmo:
Que poderia eu ter feito que não fiz?
A culpabilidade que o corroía impedia-o de fazer o luto. Estava fora de questão «refazer a sua vida». Mantivera a aliança no dedo, trabalhava 70 horas por semana e era frequente ficar várias noites seguidas de serviço no hospital.
Em determinados momentos, alimentava um sentimento de cólera para com Lita, acusando-a de ter partido sem nada lhe ter deixado para se confortar: não houve uma palavra de despedida, não houve explicações. Nunca saberia precisamente o que a tinha levado a cometer esse acto tão pessoal e íntimo. Mas, era assim. Há questões que permanecem sem resposta, e ele tinha de aceitar isso.
É certo que, no fundo de si mesmo, sabia que a mulher nunca tinha recuperado da sua infância. Na sua cabeça, vivia ainda nos blocos de habitação social de Bed-Stuy, cercada pela violência, pelo medo e pelo estalar dos cachimbos de crack.
Algumas feridas não são reversíveis ou curáveis. Tinha de o admitir, ainda que, diariamente, dissesse o contrário aos seus pacientes.
Ao fundo do cemitério, uma velha árvore quebrou-se sob o peso da neve.
Darien acendeu um cigarro e, tal como todas as semanas, contou à mulher os acontecimentos marcantes desses últimos dias.
Passado um certo tempo, deixou de falar. Bastava estar ali, com ela, deixando-se invadir pelas recordações que o assaltavam. O frio glacial golpeava-lhe o rosto. Envolvido por um turbilhão de flocos, que se prendiam aos cabelos e à barba curta, sentia-se bem. Com ela.
Por vezes, à noite, após jornadas de trabalho esgotantes, desenvolvia uma percepção sensorial estranha, próxima de uma alucinação: parecia-lhe ouvir a voz de Lita e entrevê-la num quarto ou num corredor do hospital. Sabia com toda a certeza que nada daquilo era real, mas acomodava-se a isso, como se se tratasse de uma forma de estar ainda um pouco com ela.
Assim que o frio se tornou demasiado intenso, Darien decidiu dar meia volta e regressar ao carro. Mas, quando já estava a caminho, acabou por voltar atrás.
- Sabes, há muito tempo que te queria dizer, Lita…
A sua voz estava transtornada.
- Uma coisa que nunca te confessei… que nunca disse a ninguém.
Interrompeu-se por um momento, como se ainda não tivesse a certeza de querer continuar com essa confissão. É preciso dizer tudo àquela ou àquele que amamos? Ele não pensava assim. De qualquer modo, continuou.
- Nunca te falei disto porque… se estás verdadeiramente lá em cima, sem dúvida que já o sabes.
Nunca tinha sentido tanto a presença da mulher como nessa manhã. Talvez devido a esta paisagem irreal, a todo este branco que o cercava e que lhe transmitia a impressão de, também ele, estar no meio do céu.
Falou então durante muito tempo, sem interrupções, e revelou-lhe por fim o que lhe esmagara o coração durante todos esses anos.
Não era a confissão de um adultério, não era um problema de casal, não era uma história de dinheiro.
Era outra coisa.
Bem mais grave.
Quando terminou, sentiu-se vazio e extenuado.
Antes de virar costas, encontrou ainda forças para murmurar:
- Espero apenas que ainda me ames…
Continua
O que será que Darien disse hum? Aceitam-se apostas =P
Por favor pessoal… eu estou a passar isto de um livro ='( que desânimo!
Revisem por favor!
