Capítulo 3
Estava com um sorriso vitorioso maior do que o normal esta noite. Tinha resolvido dois casos, interessantes, de vampiros de média classe que vinham criando alguns problemas no centro há uns quatro dias. No retorno de um deles encontrou, por acaso, com Anderson e claro tiveram uma rápida troca de 'afetos' antes de Enrico Maxwell sumir com o padre e ainda eram 22h. Como ainda era bem cedo, optou por seu passatempo favorito: irritar quem não deve. Vagava pelos corredores atravessando uma parede aqui e ali. Próximo ao quarto de Integra notou uma movimentação estranha.
Um corpo humanóide pequeno e gordinho arremessava uma bola colorida na parede do corredor. Ao notar a presença do mais velho a criança direcionou o olhar para ele virando o rosto, com a cara fechada continuava a arremessar a bola que quicava no chão, depois na parede e voltava para as mãozinhas do arremessador. Alucard levantou uma sobrancelha, a criança abriu um sorriso largo de só quatro dentes e voltou sua atenção para a bola.
Alucard passou pela criança abrindo a porta do quarto. Quem diria que ele um dia abriria uma porta em vez de atravessá-la. Olhou para dentro, Integra deveria estar há muito no mundo dos sonhos, reparou que a grade do berço estava abaixada. Olhou para acriança atrás de si que agora parou com a bola em mãos para encará-lo.
"Como você saiu?" Disse como se a criança fosse responder. O pequeno ser o ignorou voltando a jogar sua bola, mas a viu se distanciar cada vez mais quando Alucard a ergueu até a altura de seu rosto.
"Você não tinha os cabelos mais claros?" Ele a segurava por debaixo dos bracinhos. A criança só o olhava como a cara amarrada como se sentisse ofendida.
A aproximação fez o vampiro olhar diretamente nos olhos da criança e ela retribuiu. Os olhos vermelhos ficaram perdidos nos azuis escuros por alguns segundos até que o vampiro abriu um sorriso que assustaria uma criança normal.
"Você vai dar muito trabalho!"
De fato, deu. A começar pela ilusão genética que Integra teve que explicar para quase toda a Inglaterra. A nova herdeira Hellsing parecia-se cada vez menos com a mãe e Integra nem lembrava mais de como tinha descrito o pai imaginário que criara. Com o passar dos meses, os cabelos da menina pareciam subir um tom na palheta de cor até alcançar o preto absoluto com dois anos de idade. Os olhos permaneceram iguais: de um azul escuro, quase tão escuro e enigmático quanto o oceano. Nas primeiras vezes Integra se assustou com o tom vermelho vivo que eles adotavam quando a menina consumia uma mistura de leite e sangue, uma loucura aos olhos da mãe. A Hellsing teve que aceitar, sua única herdeira era metade sanguessuga, como explicar isso para a criança era a resposta que a loira procurava todos os dias.
Todavia a líder Hellsing teve de pensar em uma explicação para o surto de crescimento da filha. Walter foi o primeiro a notar. Ela aprendeu a andar com menos de sete meses, a falar muito melhor e muito antes que as demais crianças. A mãe não entendia por que devia tantas respostas para tantas pessoas, principalmente para a Rainha.
Saiu de suas lamentações ao ver um vulto vermelho abaixar-se próximo à filha que deitada no chão rabiscava um livro de colorir. Permitiu-se apenas observar a cena. O bebê de pouco mais de dois anos pôs-se de pé com os olhos brilhantes ao ver Alucard procurar algo em seu casaco. A Hellsing não sabia se deveria temer o que o vampiro pretendia revelar, afinal estava longe de acreditar que uma criatura da noite poderia nutrir algum tipo de sentimento ou elo familiar que os humanos acabaram por criar. O imortal sorriu simpático ao relevar uma pequena esfera colorida. Enquanto Integra suspirava aliviada a filha enfiava o quebra-queixo na boca com insana ansiedade. Onde será que já viu isso? Integra parou por um momento para digerir a cena. Um vampiro foi capaz de proporcionar um momento de... Bondade? Talvez esteja errada por esperar pouca atitude paterna do servo.
"Alvo silenciado sem problemas, minha mestra" Alucard se ergueu para apoiar-se na borda da mesa da mestra.
"Escreva-me seu relatório" Suspirou apertando o cenho, talvez seja apenas sua mente desconfiada e atenta de mais.
Com os passar dos meses, Madeleine provou ser uma criança difícil de lidar, tinha trocado o dia pela noite e se recusava a ficar em seu novo quarto. Ficava imperativa no período da tarde e não havia cristão que a colocasse quieta por cinco minutos que fosse. Toda via, bastou entrar na pré-escola para que Integra arrancasses os próprios cabelos. Mesmo com seis anos já tinha um conhecimento acima da média, conhecimentos que a mestra Hellsing recusava-se a aceitar a origem. Além de tudo a menina parecia ter herdado o maldito humor do pai. Está ai um trabalho de que Integra fora dispensada: paternidade. Parecia ridículo o quanto a loira tentava fugir do assunto ou omiti-lo, mas a filha passou a chamar Alucard por pai logo que aprendeu a falar, o que rendeu na diversão do Servo e na maldição da Mestra.
Assim como toda criança, Madeleine tinha uma curiosidade insana e uma ampla lista de perguntas a fazer. Para alívio ou desgraça da mãe a "pergunta" que ela não queria responder foi feita ao mordomo, com quem a menina nutriu grande afinidade.
Naquela tarde, a nova herdeira dos Hellsing parecia estar com a mente fora de seu corpo, vagava pelos corredores da mansão arremessando uma bola para o alto e pegando-a novamente, seu passeio sem rumo acabou por deixá-la na cozinha, onde Walter dava instruções para alguns funcionários. Ao notar a presença da menina os empregados se tornaram impacientes e agitados, rapidamente dando desculpas para sumir do cômodo. Não que eles a temessem, mas as semelhanças com Alucard, raramente visto por eles, era o suficiente para causar-lhes desconforto.
Walter virou-se gentilmente na direção da menina ao notar sua presença, abriu um sorriso encantado antes de pronunciar-se.
"Precisa de algo, senhorita?"
Ela apenas balançou a cabeça negativamente sentando-se em uma cadeira de madeira posta contra uma parede. A criança assoprou uma mecha da franja que caia em seus olhos como um sinal de tédio.
O mordomo encarou a menina de curtos e lisos cabelos negros, abriu a boca para falar algo, mas desistiu. Pôs-se a preparar o chá de Sir Integra. Arrumou a louça chinesa na bandeja de prata, tocou a maçaneta da porta de uma saleta que seria uma espécie de dispensa tamanho "Nobre Inglês".
"Por que o senhor não atravessa a parede, é mais rápido do que a porta" A menina comentou ainda sentada, com o rosto apoiado nas mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos.
Walter riu.
"Isso é impossível, senhorita" simplesmente respondeu
"Não, meu pai tem costume de fazê-lo" o mordomo riu com o comentário lembrando-se dos chiliques de Integra com essa mania do servo "Já vi a Vick fazer uma vez e eu também fiz uma vez ou outra, logo, pode fazê-lo"
Walter engoliu seco. Já sabia o que estava por vir, por que logo ele teria que responder essa pergunta? Se depois tivesse que responder coisas como: de onde vem os bebes, partiria dessa para melhor, mas do jeito que essa menina é era melhor sempre andar com duas moedas de prata para pagar o barqueiro do mundo dos mortos. O mordomo limpou a garganta e abriu a boca para falar, mas foi interrompido.
"Eu sou um vampiro, não é!?" Ela o encarou séria arrumando-se na cadeira.
O velho assentiu com a cabeça fechando os olhos por um segundo, ao abrir deu de cara com a menina a poucos metros de si com um sorriso nos lábios.
"Poderiam ter dito antes!"
Ótimo! Agora Integra pode ter um infarto. Quando foi informada do ocorrido amaldiçoou Alucard, Victória e a si mesma por não esconder essa informação pra sempre, ou pelo menos por mais tempo. Seja lá o porquê da menina ter gostado da notícia a loira sabia que teria mais um problema com o qual lidar. O que ocorreu mais tarde naquele mesmo dia permaneceu na ignorância da mulher.
Victória levou um susto ao ver Madeleine sentada como índio na porta do que seria o quarto de Alucard. Ela simplesmente estava parada como se montasse guarda.
"Aaah, Mad? O quê está fazendo aqui?" A ex-policial perguntou baixinho temendo acordar o homem no outro cômodo.
"Esperando meu pai, Vick" Respondeu seca, mas com a voz elevada demais para os temores da mais velha.
"Tudo bem, mas fale baixo, está cedo para acordá-lo!" Ela gesticulava agitada, temia levar outra bronca por causa de barulhos inconvenientes.
A menina assentiu com a cabeça e a loira seguiu seu caminho no corredor de pedra até entrar em seu quarto.
Madeleine não pode deixar de questionar os hábitos da outra. Se Victória é uma vampira, deveria agir mais como uma. Talvez, agora que sabe, deveria ela mesma agir como uma. Parou para refletir. Muitas coisas fazem sentido agora. Foi interrompida pelo barulho da pesada porta de madeira se abrindo. Ela se levantou fitando a entrada,esperando alguém sair. Sem resposta decidiu entrar encontrando Alucard, recém acordado, de pé próximo à mesa, segurando uma taça de fino cristal tingido por um líquido de vermelho vibrante. Ele a encarou antes dela começar.
"Quero que me ensine!" Soou quase como uma exigência.
Alucard apenas levantou uma sobrancelha em troca.
"Sei o que sou e quero que me ensine mais" Ela falou impaciente.
O Vampiro sorriu largamente ao escutar.
"Integra vai ter uma sincope" Comentou divertido tomando o resto do líquido da taça. Abaixou-se até alcançar a altura da menina "Vamos começar pelo básico"
Madeleine sorriu satisfeita em resposta.
