Francesco e Giuseppe

Ele havia tentado duas vezes dar o laço na gravata até perceber que não conseguiria.

Os olhos cor de mel fitaram a imagem no espelho, e uma das sobrancelhas do reflexo se ergueu. As mãos moveram-se novamente, para uma terceira tentativa que terminou como as anteriores. Por quê? O rapaz de cabelos castanhos se perguntou ao encarar-se. Por que eu preciso fazer isso? Duas leves batidas na porta chamaram sua atenção, mas não fizeram seus olhos saírem do espelho. Daquele ângulo ele tinha visão da outra extremidade do quarto, e, mesmo que seus olhos não pudessem ver quem era, seu coração sabia.

"Com licença." A voz soou baixa e educada. O dono daquele timbre entrou e abaixou os olhos como sempre fazia. "Eu vim checar se você já está pronto, Chefe."

"Quase." A resposta saiu desanimada. Francesco retirou a gravata de seu pescoço e a apertou com força entre seus dedos. Sua vontade era de atirar para longe aquele acessório, tirar aquela roupa e passar a noite debaixo de grossos cobertores. Por quê? "Eu estou com problemas com a gravata. Poderia me ajudar?"

O homem de longos cabelos louros meneou a cabeça em positivo, aproximando-se devagar. Seus passos o levaram até o espelho, e o herdeiro dos Cavallone virou-se e ofereceu a gravata. Longos e pálidos dedos tocaram o tecido e o Braço Direito começou a arrumar o acessório. O rapaz de cabelos castanhos permaneceu imóvel, em um misto de timidez e deleite. Eram raros os momentos em que ambos podiam estar tão próximos. Giuseppe era habilidoso e conseguiu colocar a gravata em uma única passada. Seus olhos verdes ergueram-se para seu Chefe e um contido meio sorriso cruzou os lábios bem preenchidos e rosados.

"O que foi?" O louro ergueu as sobrancelhas quando Francesco tocou seus cabelos. Eles estavam presos em um rabo de cavalo, pendurados ao lado direito. Um laço azul escuro e bem feito completava o penteado.

"Eu senti falta dos seus cabelos longos." O herdeiro dos Cavallone sorriu. Há alguns anos o Braço Direito havia cortado os cabelos, mas acabou retornando ao penteado anterior em pouco tempo. "Eu prefiro eles mais longos."

Giuseppe desfez o sorriso e deu um passo para trás, afastando-se e indo buscar o terno que estava sobre a cama. O rapaz de cabelos castanhos suspirou, voltando a encarar sua imagem no espelho. Francesco Cavallone estava com 15 anos completos. O tempo fez suas formas infantis desaparecerem pouco a pouco, e o semblante do pai tomou o lugar da aparência inocente. Sua voz havia engrossado há dois anos, e do garoto tímido e contido havia sobrado muito pouco. O herdeiro já ajudava o pai com o trabalho, viajando com Ivan sempre que a posição exigia. Eu sou praticamente um homem, pensou o rapaz de cabelos castanhos ao notar o louro se aproximando novamente, o único que não percebe isso é ele.

O Braço Direito passou o terno sobre os ombros de seu Chefe, ajeitando-o cuidadosamente. Francesco permaneceu imóvel, sabendo que aquele momento deveria ser aproveitado em silêncio. Giuseppe tocou seus ombros, descendo por seus braços e pedindo que ele se virasse. Os três botões foram fechados e, ao terminar, o louro parecia plenamente satisfeito.

"Você é simplesmente igual ao seu pai, Chefe." O Braço Direito apontou para o espelho, orgulhoso.

A expressão no rosto de Francesco tornou-se dura e ele afastou-se de sua companhia. Novamente o mesmo assunto... a mesma comparação. Eu não sou meu pai. Eu jamais serei. Por que você é tão fascinado com esse assunto? Por que você quer que eu me torne como ele? O rapaz de cabelos castanhos sentou-se em sua cama, colocando os sapatos sem pressa.

"Os convidados ficarão felizes em vê-lo. Alguns Chefes anseiam em ver o herdeiro da Família. Esta noite será uma oportunidade única."

"Eu não me importo." O herdeiro respondeu sincero. Ele não dava a mínima para aquela festa. "Eu só quero que a noite termine logo."

"Não fale assim, Chefe." Giuseppe sorriu. Ele ajeitava a própria gravata e naquele momento foi impossível para o rapaz de cabelos castanhos continuar com seu trabalho com os sapatos. Os olhos cor de mel fitaram o homem esquio na frente do espelho e ele engoliu seco. Ele é muito atraente... "Muitos estarão aqui esta noite somente para vê-lo. Não se esqueça que os Chefes trarão as filhas e é sua função entretê-las."

"Você adoraria isso, não é?" O momento de Francesco desapareceu por completo. Aquela pessoa tinha o dom de fazer qualquer ocasião se transformar em um poço de chatice. "Você deve estar torcendo para que eu arrume uma namorada idiota o quanto antes."

"Eu não disse isso." A voz do Braço Direito se tornou séria, e, mesmo sem encarar sua companhia diretamente, o herdeiro dos Cavallone sentiu o timbre diferente. "Eu jamais deixei implícito nada disso."

"Não é o que eu penso, Giuseppe." O rapaz de cabelos castanhos ficou em pé. "Seu olhar ergueu-se e ele encarou o sério homem louro à sua frente. O Braço Direito era alguns centímetros mais alto e até aquilo o irritava naquela noite. "Mas não se preocupe. Com sorte eu terei companhia."

Giuseppe entreabriu os lábios, mas suas palavras não saíram. Duas breves batidas na porta roubaram o momento, e o louro passou por seu Chefe com passos rápidos e uma expressão séria em seu rosto. Droga! Francesco passou as mãos pelos cabelos e suspirou. De novo. Eu fiz de novo. Ultimamente, sempre que o Braço Direito dizia qualquer coisa, ele sentia necessidade de rebater com algo petulante e insolente. Não havia um real motivo além de acertar aquela pessoa e fazê-la engolir as próprias palavras. Eu tenho que me desculpar. Quando o baile terminar eu irei me desculpar propriamente. O rapaz de cabelos castanhos suspirou, sabendo que aquele era o sinal para sair do quarto. Os passos que o levaram até o corredor foram lentos e, ao notar que todos estavam do lado de fora, o futuro herdeiro esboçou um meio sorriso. Seus olhos fitaram primeiramente seu pai, seguido por Mario. Entretanto, havia um terceiro elemento. Uma figura que ele não via com tanta frequência.

"Hahahaha o que é isso?" Francesco aproximou-se e olhou a irmã de cima. "Quem é você? A Catarina que eu conheço geralmente anda suja e despenteada. De onde você saiu?"

Catarina vestia um vestido azul claro, cheio de flores e laços. Seus cabelos – normalmente bagunçados – estavam penteados e ela parecia uma garota comportada e até mesmo decente, e não a petulante e impossível menina que corria pela casa, importunando os empregados e retirando a paz que aquela casa costumava ter.

"Você parece simplesmente perfeita." A voz veio do seu lado, ele soube imediatamente. Giuseppe afastou-se e aproximou-se da menor pessoa parada no corredor. "Seria uma honra acompanhá-la. Se me permitir, claro."

Naquele momento o sorriso desapareceu totalmente dos lábios do rapaz de cabelos castanhos. Seu peito tornou-se apertado e ele abandonou a ideia inicial de pedir desculpas. Catarina sorriu e aceitou a mão que lhe foi oferecida, seguindo ao lado do homem de cabelos louros. O herdeiro dos Cavallone engoliu a raiva que sentia, andando ao lado do pai. Ele sabia que precisaria estar perfeito nos próximos minutos, então seria necessário esquecer momentaneamente aquela afronta. Ele fez de propósito. Não é possível que ele não saiba o quanto isso me irrita. Francesco trincou os dentes e começou a descer os degraus. Ele ouvia a conversa tola que a irmã e seu Braço Direito travavam, e até mesmo as vozes daquelas pessoas o aborreciam. Ivan caminhou até determinada parte da escadaria, parando e marcando que ali seria o local em que faria seu discurso. O rapaz de cabelos castanhos parou um degrau acima, fazendo o possível para aparentar ser o jovem mais gracioso, educado e gentil daquele baile.

O herdeiro dos Cavallone nunca se importou em dividir seus brinquedos ou a atenção de seus pais. Quando Catarina chegou à mansão, há dez anos, Francesco ficou incrivelmente contente por saber que teria companhia para suas brincadeiras. A ida da garota ruiva alegrou seus dias, principalmente porque Catarina não era uma criança chata. Certo, a menina era petulante e energética demais, porém, para alguém que havia passado toda a sua curta vida sozinho e brincando com adultos, Francesco sentiu aquela mudança como algo extremamente positivo. Entretanto, seus dias não foram apenas flores ou sorrisos. Ele não ligava de dividir, fosse a atenção de Ivan durante as refeições, ou os momentos calmos e tranqüilos com Alaudi, com exceção de uma coisa em especial. Alguém em especial.

A atenção que Giuseppe dedicava a sua irmã era a única coisa que o rapaz de cabelos castanhos jamais compartilharia. Desde o dia que pisou naquela casa Catarina sempre conseguiu com facilidade o que ele precisou lutar para obter. O homem de longos cabelos louros nunca o mimou daquela forma, elogiando-o ou tomando partido em nada que o fizesse sorrir. O Braço Direito sempre esteve ao seu lado, fato, mas aquele era seu trabalho, não? Zelar pelo bem estar do Chefe, protegê-lo e ser praticamente sua sombra. O herdeiro dos Cavallone entendia isso muito bem, pois cresceu vendo como Mario servia seu pai. Todavia, não era aquele tipo de atenção que Francesco queria daquela pessoa. Ele não precisava de um melhor amigo ou um homem que morresse por ele. O que ele realmente almejava estava além de suas possibilidades. Um sonho que jamais seria realizado. Se eu fosse uma garota, talvez... mas eu sei que meus sentimentos jamais serão correspondidos. Para Peppe eu não passo de um fedelho.

Ivan havia começado seu discurso, mas o rapaz de cabelos castanhos não ouvia. Ele sabia aquelas palavras de cor, e sabia muito bem quando seria sua vez de tomar partido na situação. Ele já estava com 15 anos, um homem feito basicamente, então muito era esperado de sua posição. O herdeiro dos Cavallone sabia que aquelas pessoas não estavam ali somente para comer e beber, mas também observar. Nós, ao lado dos Vongola, somos a base para a máfia italiana. Muito é esperado de nós. Francesco tinha plena consciência de suas responsabilidades e aquilo fora herdado do pai. Ivan sempre deixou claro que a Família viria em primeiro lugar. É a minha vez. O rapaz de cabelos castanhos colocou o seu melhor sorriso e desceu um degrau, permanecendo no mesmo patamar que seu pai.

"Que esta seja uma excelente noite." Sua voz soou alta e grossa. Quase o mesmo timbre que o de Ivan. "Vamos nos divertir!"

As palmas que ecoaram pelo hall foram altas e sonoras. Os membros da Família desceram e o herdeiro dos Cavallone soube que, daquele momento até o fim da festa, tudo seria observado então era preciso mostrar somente o melhor. Francesco sorriu enquanto descia, porém, seus olhos não compartilhavam aquele sentimento. Ele viu, muito antes de terminar de descer a escadaria, o que aconteceria assim que chegasse ao hall. Um grupo de garotas o esperava, e ele foi basicamente engolido por elas e levado por entre a multidão. Aquela cena acontecia com mais frequência do que ele gostaria, e, infelizmente, ele havia se acostumado. Ou melhor, aprendido a suportá-las.

"Oh! Francis, você está tão elegante!"

"Eu amei a escolha da flor! Azul, combina tanto com seus olhos!"

Francesco recostou-se a um dos pilares do hall, encarando as seis garotas que o haviam cercado. Eu nem ao menos lembro o nome delas, o herdeiro sorriu e agradeceu a mais um comentário inútil sobre suas vestes, não que isso faça diferença. Mais duas garotas juntaram-se ao grupo e Francesco iniciou a sua parte no baile. Sua função era ser agradável com os convidados, mas infelizmente isso se limitava a aguentar garotas chatas e tolas falarem sobre bobagens que ele não tinha interesse em ouvir. Frequentemente sua atenção fugia do momento, e ele permanecia apenas de corpo presente. Aquela era definitivamente a melhor parte, pois, se fosse realmente preciso se lembrar de tudo aquilo seus problemas não teriam fim.

Os assuntos mudaram, mas nada conseguia despertar o interesse do herdeiro dos Cavallone. Vez ou outra ele fingia interesse, arregalando os olhos ou fazendo um comentário superficial e que pudesse demonstrar que ele estava ouvindo. Os olhos cor de mel vagaram pelo hall, em busca de um rosto conhecido, somente para se focar em outra coisa que não fossem vestidos horrorosos e maquiagem exagerada. Daquele local Francesco viu o pai caminhar ao lado de Mario; Giotto, Chefe dos Vongola, passear com dois de seus subordinados. Automaticamente sua mente remeteu a Alaudi e o rapaz de cabelos castanhos sentiu por não ver o Guardião da Nuvem, seu outro pai. Eu pelo menos teria alguém para conversar. Alaudi tem sorte. Sua busca terminou quando seu rosto virou-se para o lado direito e a figura de Giuseppe mostrou-se, longe, mas atenta. Chefe e Braço Direito trocaram um breve olhar, mas Francesco não deu importância. Ninguém poderia salvá-lo daquela situação.

"Nee, Francis, você gostaria de dançar?"

Aquela era uma pergunta que nunca deveria ser feita. Pelo menos não para o rapaz de cabelos castanhos. Normalmente ele declinaria, sorrindo e oferecendo alguma desculpa esfarrapada, mas que o tirasse daquela situação. O herdeiro dos Cavallone sabia dançar, aquele era um pré-requisito básico para sua posição. O que ele não gostava era de ser induzido a tal coisa. Se eu quisesse eu teria convidado. Se eu ainda não disse nada é porque não tenho interesse. Por que é tão difícil entender? Francesco sorriu e, contra sua própria vontade, aceitou o convite da garota.

Os dois caminharam até o centro do hall e automaticamente as pessoas abriram espaço para eles. Os músicos mudaram o tom, e uma lenta valsa começou a ser tocada. O rapaz de cabelos castanhos fez uma polida reverência, passando uma mão pela cintura da garota e começando a mover os pés. Os dois cortaram o hall e os anos com as aulas de dança foram mostrados sem humildade. O herdeiro dos Cavallone permaneceu o tempo inteiro com um sorriso nos lábios. Sua companhia conversava sobre alguma coisa, mas ele não ouvia, não dava atenção. Os olhos cor de mel estiveram o tempo todo observando as pessoas ao seu redor, fazendo questão que fossem vistos. Você deve estar feliz, Peppe. Eu estou sendo gracioso e sorridente e amável com essas garotas. O homem de longos cabelos louros permanecia no mesmo lugar, recostado ao pilar, mas daquela distância não seria possível ver qual era a expressão em seu rosto. A dança terminou, Francesco agradeceu sua companhia, mas quase automaticamente tirou outra garota para dançar. A noite estava apenas começando e ele pagaria com a mesma moeda a humilhação que havia recebido anteriormente.

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Dez danças depois e o rapaz de cabelos castanhos achou que já havia sido suficiente. Suas pernas doíam e seu estômago pedia um pouco de atenção. O humor do herdeiro dos Cavallone sempre se tornava ruim quando ele tinha sono ou fome, então Francesco fez o possível para se livrar das garotas e seguir para o jardim, a fim de degustar algo quente. A saída triunfal só foi um sucesso devido à quantidade de pessoas no baile, e porque as jovens não queriam passar frio. Uma delas até se prontificou a fazer companhia, mas sugeriu que o rapaz de cabelos castanhos oferecesse seu terno para que ela vestisse e não passasse frio. Como se eu fosse fazer isso, o herdeiro dos Cavallone deixou a mansão, passando as mãos pelos cabelos, você pode morrer congelada que eu não me importaria.

As mesas do jardim estavam cheias de convidados, mas nada que ser o filho do anfitrião e um sorriso não resolvessem. Francesco conseguiu passagem, aproximando-se da mesa de bebidas e enchendo uma caneca com vinho quente. Seus olhos brilharam com o prospecto de engolir a bebida, entretanto, antes que o líquido tocasse seus lábios, a caneca foi retirada de sua mão por dedos hábeis.

"Então você está ai." O rapaz de cabelos castanhos não estava surpreso. Ele sabia que precisaria de muita sorte para ter conseguido beber o vinho.

"Eu estive aqui o tempo todo." O Braço Direito colocou uma nova caneca nas mãos de seu Chefe e pelo cheiro o líquido era algum tipo de chá.

"Meu pai disse que posso beber um pouco de vinho. Hoje é festa, não há problema."

"Um pouco não é o mesmo que uma caneca inteira." Giuseppe respondeu com um sorriso, bebericando o vinho quente.

O herdeiro dos Cavallone sabia melhor do que ninguém que não conseguiria vencer uma discussão com aquela pessoa, então não havia nada a fazer além de se conformar com o chá. A bebida estava quente e doce, como ele gostava, e o aqueceu quase imediatamente. Sua mão procurou algum petisco, achando os pães com azeite e patê. O homem louro instalou-se ao seu lado, observando o jardim, mas permanecendo presente. Aquela proximidade muito agradava Francesco, que notou que aquele estava sendo o melhor momento desde que deixara o quarto.

"Você deveria mostrar um pouco mais de amabilidade com as garotas, Chefe."

"É mesmo? Pois eu penso o contrário." Eu sabia. Tudo estava perfeito demais.

"Qualquer um teria notado o sorriso falso e a gentileza forçada. Você é o futuro Chefe da Família. É esperado que você receba bem essas pessoas."

"Eu não as destratei e dancei com todas elas. Minha função foi realizada com perfeição e as idiotas não pareceram incomodadas. Não me peça para fazer além do necessário, Peppe. Você sabe que isso é impossível."

O Braço Direito abaixou os olhos, encarando o fundo da caneca e abrindo um sorriso fraco, triste.

"Você não deveria chamá-las de idiotas. Para essas garotas você é uma pessoa incrível. Elas provavelmente passaram horas escolhendo vestidos e arrumando os cabelos, somente para estarem bonitas esta noite. É uma grande falta de respeito não dar valor ao esforço das outras pessoas."

"Eu admiro o esforço, mas isso não é problema meu." Francesco serviu-se de mais torradas. "Não pedi que viessem, muito menos enfeitadas. E você só diz isso porque está de fora e não precisa suportar os comentários chatos e vazios. Por uma hora inteira eu ouvi sobre laços e romances tolos feitos para garotas tolas. Eu sorri, eu fingi interesse e fui muito melhor companhia do que elas mereciam. Só não me peça mais do que isso. Pensar que terei de retornar para aquelas conversas me faz querer fingir qualquer coisa, somente para ser enviado mais cedo para a cama."

"Seu pai ficaria decepcionado, Chefe."

"Eu sei. Ele é o único motivo que me faz não ir embora. Eu jamais faria isso com meu pai." O rapaz de cabelos castanhos foi sincero. Ivan era a pessoa que ele mais respeitava e falhar com aquele homem estava definitivamente fora de cogitação.

"Eu gostaria que você dedicasse uma parte desse respeito aos seus convidados." Giuseppe disse baixo. "Eu me coloco no lugar daquelas garotas e imagino o quão triste deve ser receber o tipo de tratamento que você oferece. Eu ficaria realmente machucado."

"Eu nunca o tratarei dessa forma." O herdeiro dos Cavallone virou-se e segurou o pulso de seu Braço Direito com força. Aquela conversa ridícula já havia ido longe demais. Por que ele defende aquelas idiotas? Por que ele se dá ao trabalho de querer que eu dê atenção às pessoas que não merecem nada. Nada! Por que ele não vê que eu trocaria tudo isso por cinco minutos somente ao lado dele? Em silêncio, em qualquer lugar, no meio da neve, com frio, com fome e com sede? Por que ele não vê que eu não tenho olhos para mais ninguém?

Francesco pousou a xícara sobre a mesa e soltou o pulso do homem louro. Permanecer ali estava fora de cogitação.

"No mês passado uma dessas garotas se confessou para Enrico. Ela jurou que estava apaixonada e entregou cartas e cartas sobre belos sentimentos e amores eternos. Enrico a rejeitou, claro. E, então, sabe o que aconteceu? Semana passada ela se confessou para mim! O mesmo discurso, os mesmos belos sentimentos dessa vez foram direcionados a mim. É lindo, não? Como o amor dessas garotas é forte e eterno." O rapaz de cabelos castanhos sentia o sangue ferver. Ele estava cansado de tentar abrir os olhos daquele homem. Cansado de ouvir sobre pretendentes e a necessidade de continuar a Família... Cansado de ouvir dos lábios da pessoa que amava que ele deveria estar com outra. "Tudo o que elas querem é um idiota que pague os vestidos, os bailes e os romances tolos. Qualquer um serve, qualquer um! Agora não me venha com discursos sobre oferecer além do necessário para esse tipo de gente, porque eu não o farei."

O herdeiro dos Cavallone afastou-se sem olhar para trás. Seus passos o levaram novamente ao hall, mas dessa vez seu humor não foi capaz de melhorar, nem sequer para fingir interesse quando uma das garotas se aproximou. Francesco caminhou para uma das extremidades, seguindo até a área que não era reservada para os convidados e entrando no escritório. Um longo suspiro escapou por seus lábios quando ele sentou-se em um dos lados do sofá, afrouxando a gravata e abaixando a cabeça. Eu fiz de novo. Droga, eu fiz de novo! O barulho que vinha do hall era alto, mas o rapaz de cabelos castanhos sabia que não seria importunado ali, pelo menos no que dizia respeito a algum dos convidados. Entretanto, o mesmo não poderia ser dito sobre um membro da Família...

Uma rápida batida na porta anunciou que o herdeiro dos Cavallone infelizmente não teria seus tão esperados minutos de solidão e sossego. A porta foi aberta, e Francesco limitou-se a virar o rosto, não sabendo se ficava feliz ou irritado com a pessoa que caminhou até ele, sentando-se ao seu lado no sofá.

"O que houve?" Catarina pousou a mão sobre a testa do rapaz de cabelos castanhos. "Você está com dor de barriga?"

"Não." O herdeiro dos Cavallone riu. "Eu só queria um pouco de sossego." A palavra foi dita com ênfase.

"Eu entendo. Eu também vim aqui por isso." A garota de cabelos ruivos balançava os pés no ar, já que eles não conseguiam alcançar o chão. Os olhos cor de mel fitaram sua pequena companhia, que não parecia sua irmã de todos os dias. Intimamente ele sentia falta das roupas sujas de terra e molhadas, os cabelos bagunçados e o sorriso sincero e não forçado.

"Sobre a sua roupa..." Francesco levou a mão até uma parte do vestido e sorriu. "Desculpe por ter rido. Não foi engraçado e você não está feia."

Catarina afastou-se um pouco, olhando o irmão com uma careta. O rapaz de cabelos castanhos riu, recostando-se melhor ao sofá. Quando foi que eu parei de me divertir com essa garota? A resposta ficou em pé, ajeitando a calda do vestido com certo trabalho.

"Eu preciso voltar agora. Eu achei que você estivesse com dor de barriga, mas já que não está então eu não tenho nada a fazer aqui." A menina de cabelos ruivos ergueu os olhos castanhos. "E eu não fiquei chateada. Você é estúpido, Francis, e fala muita bobagem."

Catarina acenou e se afastou, mas o herdeiro dos Cavallone assoviou baixo, chamando sua atenção.

"Nunca mude, Catarina. Se um dia você começar a falar sobre vestidos e romances eu prometo que deixo de ser seu irmão."

Catarina olhou para Francesco e balançou a cabeça em positivo, respondendo um sério "Certo". A porta foi aberta e o rapaz de cabelos castanhos fechou os olhos, recostando a nuca à parte alta do sofá. Eu quero subir e passar o resto da noite dormindo. O barulho do baile tornou-se mais alto no instante em que a porta foi reaberta. O herdeiro dos Cavallone permaneceu como estava, imaginando que sua irmã havia retornado por alguma bobagem.

"Catarina, se você continuar entrando e saindo, papà vai perceber que estou aqui." A voz de Francesco soou baixa e cansada. Ele estava exausto.

"Seu pai já sabe que você está aqui, Chefe. E eu temo desapontá-lo, mas não sou Catarina."

Os olhos cor de mel se abriram devagar, mas o rapaz de cabelos castanhos não encarou sua nova companhia. Giuseppe caminhou até o sofá, fazendo o mesmo caminho que a garota ruiva havia feito há poucos instantes.

"Posso?" O homem louro apontou para o assento vago ao lado de seu Chefe. A resposta foi um menear de ombros.

O Braço Direito acomodou-se e permaneceu em silêncio. O herdeiro da Família engoliu seco, sabendo muito bem que precisaria utilizar aquela oportunidade para se desculpar. Entretanto, ao contrário da irmã, dizer um simples "desculpe" para aquele homem era uma tarefa árdua.

"Eu sinto muito pelas minhas palavras, Francesco. Eu fui indiscreto e o irritei. Espero que me perdoe." A voz de Giuseppe soou baixa, como sempre. Aquela pessoa raramente aumentava o tom de voz.

"Eu não estou chateado." Mentiroso. "E eu devo um pedido de desculpas também." O rapaz de cabelos castanhos virou-se um pouco, esboçando um sorriso tímido. "Eu fui mal educado e acabei dizendo grosserias, desculpe se eu o ofendi."

"Não ofendeu." Giuseppe abriu um genuíno sorriso. "Para ser sincero, eu gostei de ouvir o que você realmente pensa."

"É-É mesmo?" O herdeiro dos Cavallone virou-se um pouco mais, surpreso. Normalmente a sua insolência era sempre resolvida com algum esporro. Se eu tivesse dito tudo aquilo a Mario eu certamente teria levado um sermão.

"Sim. Mesmo que eu não concorde com o que você disse, eu gostei de saber que a pessoa que eu devo servir não é um fantoche que obedece a tudo sem questionar. Eu me senti orgulhoso, de verdade."

Francesco sentiu quando suas bochechas se coraram, e imediatamente o garoto virou o rosto, cruzando os braços e tentando esconder a súbita timidez. Todas as vezes que o homem de longos cabelos louros o elogiava, era como se de repente tudo fosse perfeito no mundo. Todavia, aquela oportunidade não poderia ser somente utilizada como um pedido de desculpas. Se eu não for sincero, aqui e agora, a situação irá se repetir e teremos novamente aquele desentendimento. O rapaz de cabelos castanhos virou-se, engolindo a timidez e decidido a colocar uma pedra sobre aquele assunto.

"Peppe, eu gostaria de fazer um pedido."

"Qualquer coisa." O Braço Direito virou-se, encarando seu Chefe de frente. Seus olhos verdes brilharam com a simples menção de se fazer útil. Tolo! Algum dia eu vou me aproveitar do seu "Qualquer coisa" e então não terá volta.

O futuro Chefe dos Cavallone entreabriu os lábios, porém, pela terceira vez alguém entraria no escritório. Giuseppe e Francesco ficaram em pé ao mesmo tempo, como se de repente o sofá houvesse sido infestado por formigas.

"O que vocês pensam que estão fazendo?" A voz de Mario era tão rígida quanto a expressão em seu rosto. "Francis, você deveria estar lá fora, entretendo os convidados. E, você, Giuseppe, o que faz aqui? Desde quando é a função do Braço Direito permitir que o Chefe deixe de fazer seu trabalho?"

"E-Eu sinto muito." O homem louro se perdeu com as palavras. O rapaz de cabelos castanhos mordeu o lábio inferior. Ele queria defender sua companhia, mas verdade fosse dita, nenhum deles tinha coragem suficiente para encarar o homem ruivo parado à porta. Mario era uma ótima pessoa, mas, quando o assunto era trabalho, ele se transformava totalmente e era simplesmente impossível encontrar argumentos. "Nós já estávamos saindo, não, Chefe?"

"S-Sim!" O herdeiro deu um passo à frente. "Eu me senti mal... dor de barriga." Obrigado, Catarina!

"É mesmo?" O Braço Direito de Ivan fingiu surpresa. Era tão clara a maneira como ele não havia acreditado que Francesco recuou o passo que havia dado. "Quer que eu vá à cozinha e prepare um chá forte para você, Francis? Oh! O que acha de pedir algo para Ottavio? Enrico está fora do país, mas o pai está no baile... algo para mentiras!" Mario apontou para os dois, apertando os olhos. "Vocês tem um minuto para sair daqui depois que eu fechar a porta. Um minuto!"

O ruivo fechou a porta, e os dois presentes no escritório se entreolharam, contando até dez e então saindo às pressas. Não havia sinal do Braço Direito de Ivan e o rapaz de cabelos castanhos respirou parcialmente aliviado. Ele se sentia bem por ter escapado apenas com um sermão, mas a simples ideia de retornar ao baile o fez pensar que seus preciosos minutos, no fim, não serviram para quase nada. Bom, é hora de ir. O futuro Chefe ajeitou a gravata e suspirou cansado.

"O que acha de um passeio pelo jardim?" O Braço Direito apontou para o corredor. O lado direito levaria ao hall, mas o esquerdo era caminho até a parte de trás da mansão. "Nós estávamos conversando, não? Você tinha algo para me pedir."

"Você está realmente curioso, Peppe." Francesco riu, tentando não mostrar seu rosto corado. Um momento a sós com aquela pessoa era mais do que ele merecia depois de seu péssimo comportamento naquela noite.

Giuseppe sorriu e piscou com um dos olhos, apontando para o lado esquerdo do corredor. Os dois começaram a caminhada com passos rápidos, mas logo ela se tornou uma breve corrida. Alguns subordinados apareceram no caminho, a maioria responsável pela segurança. O rapaz de cabelos castanhos apenas acenou, agradecendo pelo trabalho árduo. A porta de saída não estava trancada e, quando Chefe e Braço Direito ganharam o jardim, nem o vento frio e nem a neve foram capazes de pará-los. O herdeiro dos Cavallone precisou de alguns segundos para retomar o fôlego e os dois decidiram caminhar até um dos bancos que ficava rente à mansão. Dali era possível ouvir o baile, mas o som era mais baixo do que no escritório e ambos sabiam que não seriam importunados. Oh! Francesco ficou surpreso ao sentar-se. Seus olhos cor de mel automaticamente encararam o entorno e ele reconheceu o carro de Alaudi. Então ele veio!

"Lembra-se quando brincávamos aqui?" A voz do homem louro ao seu lado fez com que o rapaz de cabelos castanhos afastasse a imagem do Guardião da Nuvem de sua mente. Alaudi tem sorte. Ele pode ficar no segundo andar, sem precisar lidar com nada disso! "Nós construímos vários bonecos de neve durante todos esses anos."

"Você gosta de falar do passado, não?" O futuro Chefe riu baixo. Ele não se importava de reviver certos momentos, principalmente as brincadeiras. Entretanto, o que o incomodava era o tom de voz que seu Braço Direito sempre usava. Como se sentisse falta daquele tempo. Ele ainda me vê como uma criança. Aos olhos de Peppe eu ainda sou aquele pirralho que se escondia nas pernas das pessoas. Eu sou um homem agora.

"Eu acho que vivemos duas vezes quando relembramos, ainda mais se as memórias são agradáveis." Giuseppe afundou um pouco mais o rosto dentro do cachecol branco. Quando vestia aquele sobretudo creme e o cachecol claro, aquela pessoa parecia ainda mais frágil.

"Eu prefiro o agora." Francesco sentiu sua expressão se tornar séria. "Eu gosto de pensar que as lembranças que são feitas hoje serão recordações melhores no futuro."

"Você tem razão!" O homem louro sorriu e virou-se para seu Chefe. "Então, permita-me perguntar o que você gostaria de me pedir. Perdoe a insistência, mas é a primeira vez que você me pede algo, e estou um pouco receoso sobre isso."

O herdeiro dos Cavallone ainda encarava o jardim cheio de neve quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Aquele local guardava todas as suas lembranças, todos os seus momentos. E a pessoa que estava ao seu lado havia feito parte de todos. Quando ele começou a andar, a falar, a ler e a escrever, Giuseppe esteve ao seu lado o tempo todo, como uma sombra, observando e mantendo-se presente. Todavia, já não era suficiente. Há algum tempo Francesco percebeu que tê-lo como Braço Direito não era o que ele queria. O problema estava justamente no querer. Eu sei que nunca vai acontecer, mas dói ouvir certas coisas. Eu posso escutar isso de qualquer pessoa menos dele. O rapaz de cabelos castanhos suspirou e jogou o corpo um pouco para trás, apoiando as palmas das mãos no banco gelado. Seus olhos cor de mel fitaram o céu e um segundo suspiro cortou o ar, deixando seus lábios e formando fumacinhas.

"Eu quero pedir que não fale mais sobre garotas comigo. Como eu devo tratá-las, o que eu devo fazer e principalmente me lembrar de minhas obrigações. Eu sei que as garotas que vieram aqui esta noite esperam que eu demonstre interesse, e acredito que até meu pai pense o mesmo. Eu sei disso e sei bem de minhas responsabilidades, mas eu não gostaria de ouvir isso dos seus lábios."

"Eu compreendo." Giuseppe respondeu sem hesitar. "E peço que me desculpe novamente por ter sido indiscreto. Isso não voltará a se repetir."

"Obrigado." O futuro Chefe virou o rosto e sorriu para sua companhia. Estava frio e seu rosto estava vermelho, então ele sabia que poderia corar sem ser descoberto. "Sabe, Peppe, eu gostaria que nada mudasse." Francesco retirou uma das mãos do banco e a levou até a do homem de longos cabelos louros. Elas estavam sobre os joelhos, frias e pálidas. Diga! Diga! Diga! Aquele movimento foi tudo o que o rapaz de cabelos castanhos conseguiu fazer.

"Eu também." O Braço Direito abaixou os olhos verdes e moveu os dedos, entrelaçando-os aos de seu Chefe. O contato direto, a maneira como os dedos se encontravam e se tocavam... era definitivamente perfeito. O gesto, porém, durou poucos segundos e então Giuseppe ficou em pé, como se houvesse se lembrado de alguma coisa. O baile... "Nós precisamos voltar. Aguente somente por mais algumas horas e então estará livre."

"Certo." O herdeiro dos Cavallone ficou em pé, coçando a nuca. O baile havia começado insuportável, mas naquela altura do campeonato os poucos minutos que passou na companhia daquele homem foram mais do que suficientes. "Ah, Peppe! Quando a festa terminar, passe no meu quarto. Eu preciso entregar o seu presente de Natal."

"P-Presente?!" Pavor cortou o belo rosto do louro. Suas sobrancelhas se juntaram e Francesco sentiu uma vontade absurda de envolver aquela pessoa em seus braços. Adorável. Simplesmente adorável. "M-Mas eu não comprei nada, Chefe. E-Eu não sabia. Por favor, perdoe-me, eu–"

"Não há necessidade. Conversamos sobre isso depois." O rapaz de cabelos castanhos riu. "Apenas não se esqueça de passar lá, está bem?"

O Braço Direito concordou, mas passou o caminho de volta para a mansão sussurrando para si mesmo sobre presentes e vergonha. O baile ainda acontecia quando o futuro Chefe retornou, e as garotas voltaram a cercá-lo. Francesco sorriu e desculpou-se pela ausência, alegando que não se sentia bem. As jovens moças suspiraram e o levaram até um canto do hall, fazendo-o sentar e prometendo que o fariam companhia. Intimamente o rapaz de cabelos castanhos queria se livrar de todas e sair dali, mas estranhamente a festa tornou-se bem mais suportável e menos enfadonha. Ele não sabia se isso derivava do descanso que tivera ou dos preciosos minutos que passou ao lado de Giuseppe. O que ele, porém, sabia, era que não havia nada mais interessante de se observar naquele resto de noite do que a expressão problemática e perdida que o homem de cabelos louros esboçava. O Braço Direito havia caminhado até um local distante, mas aonde tivesse visão do que acontecia. Os olhares se encontraram e Francesco sorriu. Um dia eu direi. Um dia eu vou tirar tudo isso do meu peito.

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O restante do baile passou maçante, mas o rapaz de cabelos castanhos achou que sobreviveu melhor do que o esperado. Catarina havia se retirado antes de todos, sonolenta e completamente exausta. O herdeiro dos Cavallone precisou ficar um pouco mais, porém, quando os convidados começaram a se dissipar e seu pai foi até a entrada, despedindo-se de quem deixava o hall, Francesco soube que seu sofrimento havia terminado. Giuseppe aproximou-se e ficou ao seu lado, e naqueles curtos minutos em que o rapaz de cabelos castanhos passou se despedindo dos convidados ele nunca havia se sentido tão à vontade em uma festa.

"Você fez um ótimo trabalho, Chefe." O homem jovem e louro disse pomposo.

"Eu sei, mas obrigado." O herdeiro ergueu uma sobrancelha e sorriu. "Você ficará esta noite na mansão, não?"

As bochechas do Braço Direito se tornaram rubras e até mesmo Francesco sentiu-se tímido naquele momento. Mario irá para casa, então Peppe passará a noite aqui. Durante o baile, o rapaz de cabelos castanhos viu o Vice-Inspetor de Polícia e deduziu que o moreno faria companhia ao Braço Direito de seu pai. O futuro Chefe dos Cavallone sabia que, quando Mario levava o amante para casa, Giuseppe sempre dormia na mansão para dar privacidade aos dois. Eles nunca conversaram sobre aquilo, nem mesmo com relação a Ivan e Alaudi, mas para Francesco nada parecia anormal. O que o deixava envergonhado era imaginar que ele mesmo sentia algo similar pelo homem louro ao seu lado, mas que, infelizmente, seu final feliz jamais aconteceria. Eu nunca terei a chance de ter um momento particular com ele...

O Braço Direito seguiu o Chefe durante todo o caminho. Eles cruzaram o hall e acenaram para Ivan e Mario, desejando e recebendo boas-noites. A escadaria, entretanto, foi a parte mais penosa e cada degrau pareceu um martírio. O rapaz de cabelos castanhos bocejou ao entrar no quarto, e Giuseppe veio logo atrás, fechando a porta.

"Deixe-me fazer isso, por favor." O homem louro apressou-se quando o herdeiro dos Cavallone ligou a luz e fez menção de acender a lareira. As cortinas estavam abertas, então a outra iluminação vinha da belíssima lua cheia.

A lareira foi acessa em segundos, aquecendo o cômodo que agora contava também com a iluminação elétrica. Francesco agradeceu e fez sinal para que sua companhia esperasse, enquanto ele se afastava para it até o closet, em uma das extremidades do quarto. O que ele procurava estava recostado ao fundo do largo guarda-roupa, enrolado por um pano branco. Suas mãos seguraram a peça retangular com firmeza, sentindo o seu peso.

"Não serei humilde. Eu sei que você irá gostar." O rapaz de cabelos castanhos pousou a peça em frente ao Braço Direito. "Feliz Natal, Peppe."

Giuseppe encarou o que tinha diante de seus olhos, mas recuou momentaneamente. Sua mão direita se esticou incerta e temerosa, puxando o lençol branco. Os olhos verdes se arregalaram devagar, encarando seu Chefe e voltando a olhar para a peça.

"F-Francesco..." A voz do homem louro soou baixa. Suas bochechas estavam coradas e seus olhos úmidos com lágrimas. "E-Eu não posso aceitar."

"Mas claro que pode; já aceitou. Desculpe, mas não tenho como devolver. Se você não o quiser eu pedirei a Mario que o jogue no quarto de brinquedos velhos."

"Não!" A resposta saiu automática, e o Braço Direito levou a mão aos lábios, desculpando-se com aqueles belos olhos. "M-Mas eu não sei o que dizer. Eu não mereço algo assim."

"Não diga bobagens." Você merece tudo o que eu puder dar. Eu faria qualquer coisa por você. Eu daria todo o meu dinheiro, tudo o que eu tenho material por você.

O presente de Giuseppe era um largo e caríssimo quadro de um pintor italiano. O homem havia feito apenas dez trabalhos em toda a sua vida e aquele, em particular, retratando uma cena de floresta em que uma jovem lia, recostada a uma pedra, havia conquistado o homem de cabelos louros desde a primeira vez que o vira, no início do ano, em uma feira de artes na França. Naquele momento o futuro Chefe dos Cavallone soube que faria o impossível para adquirir o quadro e foi basicamente o que ele precisou fazer. A peça havia lhe custado nove meses de mesada – o que era um valor altíssimo – o suficiente para trocar boa parte da frota de carros da Família. Vê-lo sem palavras, corado e tão feliz... valeu cada centavo.

O Braço Direito encarava o quadro com uma expressão digna de uma criança que havia ganhado o melhor presente de Natal do mundo. O pano branco voltou a cobrir o quadro, e Francesco o levou novamente ao closet, prometendo que o manteria em um lugar fresco e longe de umidade até o dia seguinte.

"Escolha um belo local para pendurá-lo, Peppe. Ele merece ser visto."

"O-Obrigado. Eu não tenho palavras para agradecer, Francesco. Honestamente, ainda acho que não deveria ter feito isso. Eu sei quanto vale o quadro. Por favor, reconsidere."

O rapaz de cabelos castanhos fez negativo com a cabeça, sentando-se sobre a cama.

"Você me ofende dessa forma e deveria saber disso."

"Eu só acho que o dinheiro poderia ser melhor investido." Giuseppe sentou-se ao lado de seu Chefe, sorrindo de canto. "Presentear um empregado com algo assim é um absurdo."

"Você não é um empregado e eu o proibi de dizer essas coisas, lembra?" O herdeiro dos Cavallone ficou sério. Eles já haviam conversado sobre aquilo. Antigamente sua companhia vivia se chamando de "empregado" e "subordinado". Foi preciso uma discussão seguida por uma longa conversa para colocar fim aquele hábito. Todas as vezes que eu ouvia "empregado" meu peito doía. Eu odeio quando ele se subestima. Se ao menos Peppe pudesse se ver como eu o vejo...

"Desculpe." O homem louro desculpou-se mais três vezes antes de continuar. "Eu não tenho nada preparado, perdoe-me. Você sempre disse que não se importava com presentes e a única vez que eu ofereci algo você me pediu que parasse. Sinto que estou em um grande débito com você, então, se tiver algo que queira, peça."

"Qualquer coisa?" Francesco engoliu seco. Isso é ridículo. Ele jamais aceitará.

"Qualquer coisa!" Os olhos verdes brilharam e o Braço Direito sorriu. Ele estava decidido a retribuir.

"Certo..." O rapaz de cabelos castanhos coçou a nuca e respirou fundo antes de se virar. "E-Eu quero um beijo."

Giuseppe piscou várias vezes e o olhou, tentando entender o que havia acabado de escutar. Sua expressão era de pura dúvida, mas o homem de cabelos longos e louros apenas deu de ombros e inclinou-se à frente, depositando um casto e gentil beijo na testa do herdeiro dos Cavallone.

"O que você está fazendo?" Francesco esbravejou. O que era aquilo?

"Você me pediu um beijo... você sempre me pedia beijos nos seus aniversários."

Existe um limite para a ingenuidade, Giuseppe! Você está cruzando a linha!

O rapaz de cabelos castanhos colocou a mão na testa, revirando os olhos e voltando a encarar sua companhia. Sua timidez havia desaparecido, dando lugar a uma insolente seriedade. Eu sei que ele nunca me amará como Alaudi ama meu pai, mas eu aceitarei qualquer coisa. Eu só preciso dessa lembrança para levar comigo para sempre.

"Eu estava me referindo a um beijo... de verdade. Eu quero que me beije como se fossemos amantes."

E, assim como anteriormente, a expressão no rosto do belo homem louro mudou drasticamente. A dúvida deu lugar às linhas duras e sérias e o Braço Direito ficou em pé, dando as costas e cruzando os braços.

"De onde você tirou isso, Francesco?"

"Você disse que eu poderia pedir qualquer coisa."

Giuseppe virou-se e o olhar que lançou para o garoto sentado na cama foi totalmente desaprovador. O famoso não-seja-insolente tipo de olhar que somente aquela pessoa possuía.

"Eu irei fingir que não ouvi o que você acabou de dizer, está bem? O que acha de sairmos no próximo final de semana? Podemos almoçar juntos naquele restaurante que você adora. Por minha conta."

"Como fazíamos quando eu era criança, não é?" Francesco apertou os punhos. Ele estava irritado.

"Sim!"

"Quando é que você vai abrir os olhos e perceber que eu não tenho mais cinco anos?" O rapaz de cabelos castanhos ficou em pé, diante do louro. Eles não eram da mesma altura, mas naquele momento ele se sentiu muito mais alto. "Eu pareço uma criança para você? Eu falo como uma criança? Minha voz te lembra a de uma criança? Meu trabalho, minhas decisões... Não ouse dizer que eu ajo como uma criança!"

O Braço Direito engoliu seco e permaneceu em silêncio. Seu olhar, porém, esteve o tempo inteiro fixo em sua companhia.

"Você já beijou alguém, Francesco? Você ao menos sabe o que é isso?" A voz de Giuseppe saiu baixa e estranhamente séria.

"N-Não!" O futuro Chefe dos Cavallone respondeu temeroso. Oportunidades não lhe faltaram, mas ele jamais permitiu que garota alguma encostasse um dedo em qualquer parte de seu corpo.

"Você precisa escolher a pessoa certa. Não pode ser algo assim... repentino." O homem louro suspirou resignado, voltando a se sentar na cama e fazendo sinal para que o garoto o acompanhasse. "O seu primeiro beijo será parâmetro para todos os outros. E, honestamente, você quer se lembrar dos lábios de outro homem futuramente?"

"Não." Francesco sentou-se e respondeu direto. "Eu quero me lembrar do seu beijo." Embora, para ser sincero, eu gostaria de não precisar beijar mais ninguém. O único que eu quero é você, tolo! Os lábios do Braço Direito se fecharam e ele encarou o chão, visivelmente desconcertado com aquele comentário. "Se você realmente não quiser eu aceito o almoço no restaurante." O rapaz de cabelos castanhos forçou-se a sorrir. Você sabia que isso aconteceria...

Giuseppe permaneceu em silêncio por quase dois minutos. Seus olhos verdes pareciam ver algo no tapete, alguma coisa que nenhum outro mortal seria capaz de enxergar. Quando seu rosto ergueu-se, ele continuava com as bochechas coradas, mas havia algo diferente em suas expressões.

"Certo. Eu te darei o beijo. Um beijo."

"M-Mesmo?" O herdeiro dos Cavallone arregalou os olhos. Era impossível!

"Desistiu?"

"Claro que não!" Francesco respondeu decidido. "Apenas diga o que eu preciso fazer."

"Feche os olhos." A voz do louro soou baixa. O rapaz de cabelos castanhos obedeceu prontamente. "Quando eu encostar meus lábios aos seus, eu quero que os mova devagar. Não precisa ter pressa. Eu não irei a lugar algum."

O futuro Chefe dos Cavallone sentiu cada fibra de seu corpo tremer em antecipação. Seu coração batia rápido, descompassado e chegava a ser difícil até mesmo respirar. Ele sentiu o colchão tornar-se mais baixo quando o Braço Direito se inclinou, mas nada o fez entrar tão em pânico quanto a respiração de Giuseppe próxima à sua e o cheiro do perfume de sua companhia. Os lábios se encontraram devagar, tímidos e incertos. Francesco não conseguia se mover, sentindo o contato se tornar maior quando o louro começou a mover os próprios lábios. Eles eram quentes e macios, exatamente como em suas fantasias. A mão direita de Giuseppe tocou a de seu Chefe e foi aquele inusitado contato que despertou Francesco de sua paralisia momentânea. Seus lábios moveram-se devagar, sentindo melhor os de seu parceiro.

"É suficiente, não?" A voz saiu sussurrada, em um timbre que o rapaz de cabelos castanhos nunca havia ouvido. Ele sentiu o rosto do Braço Direito encostado ao seu, como se ele tentasse esconder a face em seu ombro.

"Não..." A própria voz do herdeiro dos Cavallone soou rouca, abafada e envolvida pelo clima que havia se formado. Aquela era a primeira vez que ele se sentia tão consciente de seus sentimentos e desejos por aquela pessoa. "Eu quero um beijo real. Eu quero um beijo seu. Eu quero sentir você."

Giuseppe soltou um longo suspiro, mas nem isso foi capaz de aplacar o espírito de Francesco. Ele permaneceu irredutível, esperando sua companhia dar o próximo passo. A espera, porém, não foi longa e no segundo seguinte o rapaz de cabelos castanhos sentiu novamente os lábios se encostarem, entretanto, desta vez a língua do louro deslizou devagar para dentro de sua boca. O choque inicial fez o futuro Chefe dos Cavallone agarrar com força o terno do homem em seus braços. O Braço Direito pareceu sentir a tensão, deixando que uma de suas mãos tocasse a nuca de sua companhia, massageando-a levemente, como se pedisse que ele se acalmasse. Francesco sentiu sua própria língua se mover, encontrando a de Giuseppe. A sensação percorreu todo o seu corpo e seus lábios se entreabriram um pouco mais, intensificando a carícia.

O rapaz de cabelos castanhos nunca havia feito aquilo na vida. Por diversas vezes alguma garota tentou roubar-lhe um beijo, mas ele sempre deixou claro – e de maneira parcialmente ignorante – que não tinha interesse naquilo. E, verdade fosse dita, o herdeiro da Família não tinha interesse algum no sexo feminino. Seu corpo não reagia de nenhuma maneira, e o simples pensamento de que a continuidade do legado dos Cavallone dependeria dele e de um suposto filho era suficiente para deixá-lo noites sem dormir, imaginando como conseguiria a proeza de dividir a cama com uma mulher. Todavia, a parte que realmente o incomodava não se limitava somente ao futuro incerto e distante, mas sim ao simples e inegável fato de que ele era apaixonado por Giuseppe. Aquele sentimento sempre existiu em seu peito, mas somente ao tornar-se um pouco mais velho foi que Francesco entendeu o que tudo aquilo significava. O beijo que havia requisitado de maneira egoísta nada mais era do que uma forma de obter qualquer coisa daquele homem, o mínimo possível, migalhas emocionais. Ele nunca será meu. Este provavelmente é meu único momento.

A mão do rapaz de cabelos castanhos tocou a cintura do louro e a distância entre eles diminuiu. O beijo se tornou mais intenso conforme as línguas se encontravam, envolvendo-se e fazendo o corpo inteiro do futuro Chefe dos Cavallone tremer de excitação. Por quanto tempo ele passou ali, perdido no contato mais íntimo e agradável de sua vida, seria difícil dizer. Os lábios inevitavelmente se afastaram, requisitando ar. Entretanto, nenhum deles realmente pôs um ponto final à carícia e Francesco usou a oportunidade para roubar um rápido segundo beijo. Era viciante.

"Você pediu um beijo..." A voz do Braço Direito saiu rouca, mas ele permaneceu imóvel. A total falta de vontade para lutar era quase palpável.

O rapaz de cabelos castanhos inclinou-se à frente, e foi impossível que um terceiro beijo não acontecesse. O corpo de Giuseppe cedeu e o herdeiro dos Cavallone inclinou-se um pouco mais, ficando parcialmente sobre ele. Dessa vez a carícia não foi comportada ou contida. Francesco sentiu seu casaco ser puxado e sua mão deslizava pela cintura do homem que estava por baixo, enquanto sua língua procurava provar cada cantinho da boca do louro. As diversas camadas de tecido evitavam um melhor contato, e foi graças a elas que o Braço Direito conseguiu ser a mão responsável e interromper o beijo no exato momento em que o herdeiro dos Cavallone tocava sua coxa esquerda.

"Chega, Francesco." Giuseppe o empurrou levemente na altura do peito e saiu da cama às pressas. Suas mãos ajeitaram as roupas, mas ele ficou de costas o tempo todo.

Francesco permaneceu sentado, puxando discretamente um dos travesseiros e o colocando sobre seu colo. Eu tenho apenas 15 anos. Essa foi a maior emoção da minha vida, ele disse para si mesmo, tentando justificar a ereção em seu baixo ventre. O louro virou-se após alguns segundos e o encarou sério. Todavia, as palavras lhe faltaram.

"Obrigado, Peppe." O rapaz de cabelos castanhos sorriu e coçou a nuca. "Desculpe por obrigá-lo a fazer isso. E não se preocupe, ninguém saberá disso."

"Eu não fui obrigado." O Braço Direito respondeu confuso. "Mas agradeceria se mantivesse a discrição, Chefe."

"Não se preocupe." O futuro Chefe riu. "Eu guardarei o quadro, então, boa noite."

"Boa noite." Giuseppe aproximou-se e tocou a cabeça de Francesco bagunçando-a de leve. Seu corpo inclinou-se e ele afastou a franja antes de depositar um gentil beijo na testa do garoto. "E Feliz Natal."

A figura do louro retirou-se do quarto e Francesco jogou-se na cama. Seu corpo abraçou o travesseiro e virou-se, afundando o rosto na roupa de cama e sentindo as bochechas se tornarem escarlates. Havia sido bom. Havia sido simplesmente ótimo. Seus lábios ainda podiam sentir o calor, a pele e principalmente o leve gosto de vinho. Nunca, em sua curta vida, o rapaz de cabelos castanhos havia se sentido tão feliz e realizado. Eu finalmente consegui o que eu sempre quis, o herdeiro dos Cavallone sentiu o sorriso diminuir gradativamente, até se transformar em uma fina linha, o problema é que agora eu quero mais. Eu quero tudo o que ele pode me dar. Eu quero um beijo como esse durante todos os dias da minha vida.

- FIM.


Notas da autora:

Segundo especial de final de ano entregue!

Reconheço que essa fanfic foi escrita com muito mais amor, provavelmente porque eu estava morrendo de saudades desses personagens. Desde o começo eu tinha a intenção de fazer uma fanfic tripla, para agradar aos leitores de todas as formas. Como eu já disse anteriormente, esta e Family Business são prólogos para a longfic que será postada no ano que vem. Eu deixei várias dicas sobre a temática, então não direi nada mais a respeito do plot, a não ser que espero conseguir postar logo.

Sobre a continuação, ela deve sair em meados de fevereiro (espero) e eu decidi que a escreverei como fiz com Vendetta. A narração será dividida em POVs, assim, aqueles que preferem casal x e y, não terão motivos para tristeza.

Bem, o terceiro especial será postado amanhã, no dia de Natal. Sim, outra postagem diária!

No mais, agradeço aos leitores por acompanharem mais um projeto :D

Obrigada e Feliz Natal!