Falcões da Noite
(de 27 a 29 de Junho de 1995)
A escuridão acabara de cair quando escutei as batidas na porta, como se você apenas estivesse à espera da segurança das trevas para se mostrar. Se eu dissesse que estava surpreso em vê-lo, estaria mentido. Se dissesse que tive vontade de abraçá-lo novamente, também.
Não era nada fácil assimilar a idéia de que você estava de volta para valer. E que ia dormir no meu sofá e roncar alto, como nos velhos tempos. Eu achava que se o tocasse, mais uma vez que fosse, você poderia desaparecer e que levaria consigo todas as certezas, todas as esperanças que me mantiveram vivo até então. Desvanecer como uma lembrança antiga.
Nunca esqueci da primeira noite que passamos sob o mesmo teto após aqueles, já então, treze anos separados. Lembro especialmente de você ficar acordado a madrugada inteira.
Dava para ouvir seus passos ecoarem pela casa, inquieto por estar novamente dentro de quatro paredes. Claustrofóbico. Eu acordara pelo menos duas vezes com o barulho, mas, em vez de descer e perguntar se você precisava de alguma coisa, eu preferira me sentar na cama, fitando o velho e gasto papel de parede do quarto, sem conseguir fechar os olhos, me perguntando o que eu poderia lhe oferecer para passar o tempo.
Será que uma xícara de chá com biscoitos e histórias sobre anos de uma vida anônima e solitária lhe distrairiam?, eu me perguntei, rindo amargamente, num sopro de vida, para a penumbra.
Ou talvez você achasse que eu quem gostaria de saber sobre a sua temporada em Azkaban?
Sim. Talvez eu pudesse achar interessante a idéia de ficar a par de cada detalhe sórdido e escuso dos seus miseráveis doze anos e assim, quem sabe, sentir-me em paz... Consciente de que pelo menos alguém naquele mundo todo sofrera mais do que eu?
Foi somente na terceira noite que tomei coragem para descer, dizendo a mim mesmo que aquilo era só porque você estava começando a me deixar maluco com aquele barulho. Dizendo a mim mesmo que eu precisava dormir e que você-
"Eu sinto muito." A sua voz me alcançou antes que eu terminasse de descer as escadas. Você estava sentado no sofá, os braços cruzados, vestindo os pijamas que eu lhe emprestara e que ficavam muito largos e muito curtos em você. Dava para ver seus tornozelos ossudos aparecendo sob a flanela azul. "Eu sabia que ia acabar te acordando, desculpa."
"Eu já estava acordado." Respondi tentando sorrir para tranqüilizá-lo. Não consegui. Eu nunca fora um bom mentiroso. Jamais fui capaz de enganá-lo por muito tempo.
Mas tentei, assim mesmo, algumas vezes. Mais do que eu gostaria.
"Sempre durmo mal nessa época do ano," acrescentei depois de alguns instantes, incerto e constrangido, também cruzando os braços, sem saber mais o que fazer ou o que dizer. "Deve ser o tempo." A desculpa saiu assim mesmo. Tola, estúpida e completamente desnecessária.
Mas você fez um aceno discreto com a cabeça, concordando, e se afastou um pouco, me dando espaço para sentar ao seu lado no sofá. Meu olhar vagou sobre a manta e o travesseiro que eu lhe dera duas noites atrás, agora caídos no chão. Você percebeu meu olhar e imediatamente esticou o braço para pegá-los, um reflexo involuntário. Estendi minha mão ao mesmo tempo, colocando-a sobre a sua, tentando impedi-lo de se censurar por algo tão banal. O contato da sua pele quente contra a minha me fez prender a respiração e mal nos encaramos antes de desviarmos o olhar. Constrangedor, previsível. Não sabíamos mais como agir.
"Desculpa." E você repetiu com o rosto baixo e a voz rouca. Uma mão enfiada nos cabelos, sem saber mais o que falar. Sem saber como se portar próximo a outro ser humano. Eu não podia censurá-lo. Quem disse que eu sabia? "Estava calor e eu-"
Alcancei a manta e o travesseiro, lançando-os para longe como se não valessem nada. E de fato, não valiam. Ambos atingiram a perna da mesa ao canto, caindo sobre o soalho sem qualquer ruído. Você arregalou os olhos, um instante apenas, um brilho curioso dançando sobre as íris acinzentadas.
"Está realmente calor," concordei sem desviar o olhar das duas peças, como se suas dobras e sombras do tecido me hipnotizassem. Como se eu precisasse olhar para elas para não olhar para você. Ao meu lado, a sua respiração ficava cada vez mais forte. "A gente devia, sei lá, dar uma volta," sugeri sem pensar muito, querendo só sair dali. "Esse lugar sempre foi meio sufocante."
Senti você balançar a cabeça ao meu lado. Talvez se lembrasse de que eu nunca fora exatamente um fã de caminhadas noturnas e, desta forma, entendesse que eu só fazia aquilo por sua causa e então estivesse apenas grato por isso. Ou, talvez, você simplesmente não soubesse como dizer 'não' sem soar grosso, rude e mal-agradecido.
Mas a noite nos recebeu bem, até, com sua brisa úmida e morna, o cheiro de orvalho e da terra que juntos me passavam uma enorme sensação de paz. Andamos até o celeiro onde Bicuço estava escondido e ele sacudiu as asas, feliz, quando o viu. Eu me mantive afastado enquanto você fazia uma leve reverência e, em seguida, se aproximava para acariciar-lhe às penas. Assisti-o murmurar alguma coisa para ele, sorrindo. Pensei em como ele parecia ser o seu melhor amigo, perfeitamente capaz de entendê-lo tão, tão melhor do que eu.
E era claro que eu não pensei que você se sentia à vontade com o hipogrifo por tão óbvias razões. Porque vocês dois tinham certas coisas em comum. As pessoas os temiam, sem saber que apenas ações erradas despertariam a ira de vocês. Os dois eram fugitivos, perseguidos por crimes que não cometeram e, embora ambos fossem vítimas das circunstâncias, ainda assim tinham culpa em algumas coisas. Não eram, de fato, completamente inocentes. Mas vocês só agiram por instinto, medo e alguma auto-preservação. Talvez um pouco de orgulho.
"Acho que ele não gosta muito de mim" comentei, distraído, quando saímos do celeiro. Em resposta você deu uma risadinha, mais amarga do que alegre.
"Você-" e a sua voz morreu por alguns instantes, antes de respirar fundo e continuar, como se estivesse se esquecido da maneira de usar as palavras. Como se estranhasse o som da sua própria voz. "Você sempre achou isso, né, Aluado? Que as pessoas não gostavam de você."
Rodei os olhos, ainda que ouvir o velho apelido me alegrasse de uma estranha maneira. "Ele não é bem uma pessoa, Sirius."
"Ah, você entendeu." Foi a sua resposta. Levemente irritada, e evasiva, como se aquilo decidisse o assunto.
Voltamos a caminhar, sem nunca tomar a estrada principal, onde mesmo àquela hora alguém poderia aparecer e reconhecê-lo ou qualquer coisa assim. Cartazes de buscas estavam espalhados no vilarejo não muito longe dali. Era claro que você sempre poderia se transformar, mas ainda assim nenhum de nós parecia disposto a correr o risco. Não hoje. Não mais.
Como mudamos, eu pensei de repente, sendo tomado por uma estranha vontade de chorar. Um nó se formara na minha garganta como se alguém tivesse acabado de me lançar uma azaração. Me segurei como pude e, embora talvez meus olhos estivessem brilhantes, minha voz saiu firme quando voltei a falar.
"Mas é verdade. Não há mais muita gente que goste mesmo de mim." Retomei o assunto ao fazermos o caminho de volta para minha casa.
"Nem de mim." Você riu outra vez. Outra risada amarga. Talvez você só tivesse mudado a sua maneira de rir, eu pensei, ou talvez fosse eu quem tivesse me esquecido de como ela costumava soar. Fazia tanto tempo. "Não que isso importe." Você acrescentou, pensativo, alguns segundos depois.
"Mas importa." Encarei-o de soslaio e você abaixou a cabeça, derrotado diante do peso da minha afirmação. "Importa."
Uma vez dentro da casa, fomos direto para a cozinha onde comecei a preparar um chá, meus movimentos da varinha inconscientes, quase robóticos. Eu mal me dei conta de quando já tinha aprontado tudo e estava sentado na mesa, de frente para você, olhando de vez em quando para o fogão, distraído, meus braços cruzados sobre a superfície lisa à espera da água ferver.
"Nós não precisamos conversar, precisamos?" A sua voz quebrou o silêncio de uma maneira tão eficiente quanto teria sido uma xícara que se espatifa pelo chão, espelhando cacos pontudos. "Quero dizer, sobre tudo que aconteceu?"
Voltei os olhos do bule, cuja água começava a borbulhar de leve, e o encarei. Você não se encolheu sob o peso do meu olhar, mas eu podia sentir, quase podia ouvir, o seu coração batendo rápido e assustado. Vi os anos pesados nas sombras dos seus olhos. Vi todos os dias e noites de silêncio. Arrependimento. Desejo de vingança. O pedido de desculpas que foi sufocado até perder o sentido. E o medo, ah, o medo de ser tarde demais...
E talvez minha resposta não tenha lhe dado a paz que você tanto queria e que, de verdade, precisava. Mas eu sei que foi o bastante para aquela noite.
"Não há nada para conversarmos, Sirius."
INTERLÚDIO | Só para caso de não ter reparado, fui eu que atirei em você
Você não tinha como saber que eu já me sentia daquela forma antes, embora eu mesmo não entendesse muito bem o que sentia, não na época. Nem que talvez tenha sido por causa daquilo que as coisas chegaram ao ponto em que chegaram.
Você não tinha como saber que todas aquelas suas perguntas sobre onde eu me enfiara e o que eu fizera nas noites em que eu não estava por perto, ao seu lado, em missões para a Ordem, por exemplo, sempre, sempre me deixavam de mãos atadas. Não por eu não conhecer as respostas, mas por não saber o que você esperava ouvir de mim. Seria a verdade que você queria?, era o que me perguntava, sempre. Sempre.
O que você acharia se soubesse que, em uma de tantas daquelas noites, quando éramos jovens e lutávamos por um mundo livre e melhor, eu simplesmente, vez ou outra ficava de saco cheio de tantas reuniões, tantas perdas e tão poucos ganhos e resolvia, do nada, ir até algum pub no centro de Londres? E que lá uma garota qualquer puxaria conversa comigo e que nós acabaríamos saindo juntos? Você ia mesmo querer saber que eu me sentia o pior canalha do mundo quando, antes dela ir embora, eu lhe dizia que eu e ela simplesmente não voltaríamos a nos ver porque... eu já tinha outra pessoa?
Se eu lhe contasse, aposto que você faria alguma piadinha sem graça sobre o seu amigo, que sempre fora tão santinho, estar finalmente colocando 'as asinhas de fora'. Mas você acabaria, eu tenho certeza, certeza absoluta, me perguntando, afinal, quem era essa tal 'outra pessoa' a quem eu me referira. E eu fico pensando, Sirius, o que você diria se soubesse que essa pessoa, é claro, era você?
Eu não podia te contar e mesmo assim nunca consegui me esquecer dos silêncios constrangedores em que assisti você passar as mãos nos cabelos, irritado comigo e consigo. Seu rosto coberto por uma máscara indecifrável. De raiva, de exaustão e de medo, antes de dar as costas e dizer 'Ah, deixa para lá, Aluado'. E daí você falava que só estava cansado demais. Que andava pensando demais. Que estava tudo, tudo bem-
Talvez você não saiba, mas hoje eu também me culpo por isso e fico imaginando que deveria ter tido coragem para dizer o que eu pensava já naquela época. Deveria ter esclarecido todos aqueles mal-entendidos. Nos dado o benefício da dúvida. Uma chance de errar.
Mas o medo que eu sentia de te perder como amigo, a única certeza que eu tinha de você, facilmente me venceu em cada uma daquelas vezes. Foi o medo que me fez achar que eu estava agindo da melhor maneira. Achar que não havia nada de errado em manter o meu seguro silêncio. Ele era indolor para o resto do mundo enquanto permanecesse assim. E era a minha vida, afinal. Eu tinha o direito de fazer o que bem entendesse. Sair e dormir com quem eu bem entendesse. É, era bem engraçado, até, se você parar para pensar. Aparentemente, eu só não podia gostar de quem bem entendesse.
Sendo sincero e sem maquiar os fatos, Sirius. Não vou tentar fingir que podia ter sido diferente, sendo que, no final, a verdade era que eu sentia só medo. Medo que virou comodismo e me fez pensar que se eu tivesse paciência, tudo acabaria se acertando, eventualmente. Um dia.
Eu só não fazia idéia de que seria a um custo tão alto e que levaria tanto tempo para as coisas se acertarem, acontecerem.
E nem que tudo duraria tão pouco, como se nunca tivesse acontecido.
(TBC)
NdA: Como prometido, atualizações regulares! Comentários e críticas são muito bem-vindos. ;)
