Eu queria agradecer, de coração, a todos que acompanharam a história até aqui, e que deixaram reviews. Li todos, e estou realmente grata por cada um deles, e espero que tenha conseguido agradar!

Este é o último capítulo. Espero que gostem!

P.S.: Peço desculpas pela demora. Problemas com a internet :/

P.P.S: Boa leitura! :D


— Você faltou nos últimos três dias — acusou Carl, assim que ela entrou pela porta. Felicity deu um sorriso sem graça e andou até sua mesa, colocando a bolsa sobre a mesma e se virando na direção do colega. Ele tinha a sobrancelha arqueada e os braços cruzados sobre o peito, mas havia algo mais em seu olhar. Preocupação. Ela franziu o cenho, confusa, e se recostou contra a mesa, esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Ele não disse.

— Estava doente — ela esclareceu —, e foi você quem me disse que eu deveria ir para casa. A recuperação só levou um pouco mais de tempo do que eu esperava.

— E você está?

— Estou o que?

— Recuperada?

Para essa pergunta, Felicity não tinha uma resposta. Ela apenas deu de ombros, suspirando, e se sentou em sua cadeira, pronta para iniciar seu trabalho. Os últimos três dias haviam sido difíceis. Por mais que tenha decidido ter uma conversa definitiva com Oliver, não conseguiu encontrar forças para procurá-lo. Ficou a maior parte do tempo deitada na cama, encarando o teto, tentando distinguir a diferença entre o certo e o errado naquela situação. Ela era uma mulher que usava a lógica, afinal de contas. Sempre mais cérebro do que coração. Só que, claro, Oliver tinha que ser a exceção. Como se sua vida não estivesse difícil o suficiente.

Resolveu ir àquela tarde para a empresa porque, honestamente, já estava entediada de ficar em casa sem fazer nada. Além disso, não sabia por quanto tempo mais poderia continuar com a desculpa de estar doente. Não faltava muito para o expediente acabar — ela só tinha ido até lá para conversar com o seu chefe, de qualquer maneira, e entregar os atestados médicos que conseguira falsificar. Não que fizesse isso com frequência, e definitivamente não se sentia nem um pouco feliz em usá-los, mas não poderia explicar o verdadeiro motivo pelo qual se ausentara. Era um emprego bom, e ela não ia se arriscar a perdê-lo.

— Eu já resolvi todas as questões pendentes desses últimos três dias — esclareceu Carl, aproximando-se de Felicity. — Não há nada a ser feito. Mas espero que você venha amanhã. Já estava começando a subir pelas paredes. As coisas têm andado meio intensas desde que... Bem, você sabe.

Ela assentiu silenciosamente, pegando impulso e girando sua cadeira numa volta completa. Carl revirou os olhos, e se despediu com um aceno de mão, saindo da sala e a deixando sozinha. Felicity suspirou, perguntando-se o que ainda estava fazendo ali. Não havia trabalho a ser realizado. Já entregara os benditos atestados — ainda assim, ela sentia essa vontade em ficar. Como se houvesse alguma coisa de importante para ela ali, embora não conseguisse pensar no que.

Dando outro giro na cadeira, ela se parou em frente ao computador, esticando a mão e o ligando. Talvez pudesse revisar alguma coisa. Procurar por algum problema a ser resolvido. Distrair-se. Estava quase digitando sua senha quando escutou a porta se abrir novamente, e bufou, impaciente.

— Carl, é sério, não precisa ser minha babá. Eu estou perfeitamente b... — ela ergueu a cabeça, e a voz morreu em sua garganta. Seu coração começou a disparar no peito, rápido demais, e por um segundo de distração, ela se indagou se estava prestes a ter um ataque cardíaco. Talvez isso explicasse a pontada de dor que sentiu no peito. Ou a falta de ar. Ou o motivo de sua vista ter ficado turva, como se ela fosse desmaiar, e a razão de seu corpo ter tremido involuntariamente.

Ele estava ali. Parado. Encarando-a. Tão bonito — e até mais — quanto sempre foi. Havia algo de diferente sobre ele, embora, o que ela pode perceber nos poucos segundos em que o observou. Seus cabelos estavam mais curtos, ele deixara a barba crescer, e parecia bem mais forte desde a última vez que o vira há cinco anos.

"Respire fundo", ela disse a si mesma, mentalmente, tentando recuperar o controle. Oliver não disse nada. Apenas permaneceu quieto, seus olhos azuis fixos no rosto de Felicity, e toda a dor que ela sentiu se transformou quase instantaneamente em raiva. A adrenalina pulsava em suas veias, e ela se levantou da cadeira. Num piscar de olhos, ela estava frente a frente com ele, pronta para bater em cada parte de seu corpo, socá-lo, gritar, arranhá-o — qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor. Ela estava prestes a erguer a mão quando notou. A pequena lágrima solitária descendo pelo canto de seu olho. E antes que pudesse dizer qualquer coisa, Oliver passou o braço pela sua cintura, trazendo-a para perto e a abraçando com força.

Ela quis lutar contra o instinto de abraçá-lo de volta. Quis empurrá-lo para longe. Quis mandá-lo embora. Entretanto, não foi forte o suficiente para isso. Ao invés, passou os braços pelo pescoço dele, juntando-se a Oliver ainda mais, e sentindo seu cheiro invadir suas narinas. Foi inebriante. Ela perdeu o fôlego novamente, e seu corpo ficou incrivelmente sensível, sobrecarregando com todas as sensações que experimentava ao mesmo tempo. Nem ao menos percebeu que ela mesmo começara a chorar, as lágrimas caindo na roupa dele, molhando-a.

Nenhum dos dois soube ao certo quanto tempo passaram abraçados, entregando-se ao sentimento, permitindo-se matar a saudade que o tempo trouxera. Oliver sabia que ela estaria ali, naquele setor, sentada naquela exata cadeira, mas quando cruzou as portas e a viu, realmente, depois de tanto tempo... Ele pensou em palavras. Montes delas. Elas surgiram em sua mente, uma atrás da outra, e ele se imaginou dizendo-as, explicando-se, desculpando-se, implorando por perdão. Entretanto, estar realmente diante dela, ouvir sua vez, ver seu rosto — foi como receber um murro no estômago, exceto que cada parte de si sofreu com o baque. E quando ela o abraçou de volta, ele pensou que poderia morrer naquele exato momento, e tudo estaria bem. Porque ela estava ali. Em seus braços. Como deveria ser.

Ele sabia que isso não significava que ela o desculpava. Mas sabia, também, que indicava que ela sentira tanto a sua falta quanto ele sentira dela. Mostrava que, mesmo depois de todos aqueles anos, depois de toda aquela dor que ele a causou, ela ainda o amava. E provavelmente se odiava por isso. Oliver tinha sua parcela de ódio, também. Em relação a si mesmo. Odiava-se por tê-la feito sofrer. Odiava-se por ter sido covarde. Odiava-se por não ter sido o homem que ela merecia ter. E levou cinco anos em uma ilha deserta para que ele se tornasse alguém melhor. Ou, ao menos, assim ele esperava. Não achava ser capaz de suportar se a magoasse novamente. Nunca imaginou, também, que pudesse amá-la tanto. Se soubesse disso antes de ter entrado naquele barco, a história provavelmente teria um rumo diferente. Ele imaginou os dois casados, a essa altura, com Felicity esperando o primeiro filho deles. Agarrou-se a ela com mais força, e chorou.

Depois de um tempo, eles se afastaram, os olhares presos um no outro, comunicando-se em silêncio, dizendo tudo aquilo que eles sabiam que precisavam ouvir. Oliver viu a dor, o medo, a traição, a saudade, o amor. Felicity viu o arrependimento, a culpa, e a determinação. Ela sabia o motivo de ele estar ali. Soube no momento em que o abraçou. Soube que, pelo resto de sua vida, Oliver ia se lembrar do que lhe fizera, e ai sofrer por isso. Todas as acusações que ela desejou fazer desabaram. Seria como chutar alguém que já estava no chão — e ela não era capaz de fazer isso. Nem mesmo que essa pessoa a tivesse machucado mais do que qualquer outro já havia feito. Ela o amava, apesar de tudo. Apesar de todos os defeitos. Apesar de todos os "poréns" que ela poderia imaginar. Ela apenas o amava. Tão simples e complicado quanto o amor pode ser.

— Eu não te perdoo — ela sussurrou, conseguindo recuperar a voz. — Não depois de tudo isso. Não depois de cinco anos, Ollie. Eu não posso... Não agora.

— Eu sei — ele sussurrou de volta, esticando a mão e acariciando seu rosto. Felicity fechou os olhos, apreciando a sensação da pele dele contra a sua, e abriu um sorriso, ainda que minúsculo. — Mas Felicity...

Ela abriu os olhos, perdendo-se naquela imensidão azul. O rosto dele estava próximo agora. O bastante para que ela sentisse a respiração dele; o suficiente para sentir o cheiro de seu hálito — hortelã, exatamente como ela se lembrava.

— Sim, Ollie?

— Para você, eu tenho todo o tempo do mundo.

E, então, os lábios dele tocaram os dela. Felicity sentiu como se seu corpo estivesse entrando em combustão, o fogo se espalhando para todos os lados, o coração quase saltando de seu peito. Oliver a trouxe para mais perto, passando um braço pela cintura, prendendo-a contra ele, sentindo seu corpo contra o dela, sentindo suas respirações se tornarem uma só. Ele esperou por aquele momento por tanto tempo. Queria agarrá-la, para nunca mais soltar. Queria que ela fosse dele. Somente dele. Para o resto de suas vidas. Beijou-a apaixonadamente, tentando mostrar o quanto a amava, mesmo sem dizer uma palavra sequer. Tentou mostrar o quanto havia mudado. Tentou mostrar que seria diferente dessa vez. Tentou dizer, com um beijo, tudo o que palavras jamais seriam capazes de expressar. E ela entendeu.

Separaram-se pela falta de ar, mas continuaram grudados um ao outro como se suas vidas dependessem disso. Testa colada contra testa. Peito contra peito. Nariz contra nariz. Eles abriram os olhos, lentamente, e apenas se encararam. Felicity suspirou.

— E agora? — ela perguntou.

— Agora — ele murmurou, beijando-lhe a testa — tudo o que você precisa fazer é dizer sim.

— Você não me fez nenhuma pergunta — Felicity constatou, arqueando a sobrancelha. Oliver riu. Foi o som mais lindo que ela se lembrava ter escutado. Ela se pegou sorrindo, também.

— Você quer ir jantar comigo?

— Jantar com você? — ela repetiu. — Mas onde?

— Na minha casa — disse-lhe. — Com a minha família.

— Oliver...

— Está na hora de minha mãe e minha irmã conhecerem minha namorada — ele disse, afastando-se. Ele estendeu a mão para Felicity. — Tudo o que você precisa dizer é sim.

Ela segurou a mão que lhe foi oferecida, entrelaçando-as juntas. Não houve palavras. Não foi necessário.

Silenciosamente, ela disse sim.


E aqui se encerra. Espero que tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever.

Muito obrigada, mais uma vez, por terem acompanhado, e pelo feedback tão positivo

Até uma próxima! :)