Capítulo 003 – O Dia das Nuvens Negras
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Oitenta e sete, quarenta e seis. O elemento não é mais
nosso alvo! Cancele todo o processo! Repito, oitenta e sete, quarenta
e seis! Elemento não-identificado deixou de ser alvo, cancelar
toda a operação!
Apenas ao gritar isso, todos os
carros que estavam presentes dão meia-volta e vão
embora, saindo da vista das criaturas presentes do local em pouco
tempo, abusando da alta velocidade. Tudo que restava era aquele
policial, a mulher, seu filhote e Nubobot. A mulher estava tão
aliviada que não tinha notado que o policial ainda mirava sua
arma no robô. Então o pior acontece, um disparo é
efetuado e acerta exatamente o olho esquerdo de Nubobot, apavorando
mais uma vez a besoura, que achava que tinha o livrado.
- Maldito!!! O pagamento virá em dobro! - exclama Nubobot, sentindo que sua visão estava criticalmente alterada.
- Mas... A queixa não havia sido retirada?! Por que atirou, desgraçado?! - diz a mulher, na hora, com muita raiva de ter sido enganada e daquilo ter acontecido.
- Heheheh... Você não sabe como a polícia funciona! Oitenta e sete é o código usado para fuga falsa, enganando cidadões inúteis como você! E quarenta e seis é o código de armas-expresso, as armas provavelmente chegarão em alguns poucos segundos via aérea.
- Hmmm... Hora do pagamento. - são as palavras de Nubobot enquanto observava fixamente o policial. Seu corpo estava mudando de forma: primeiro suas cores mudavam para azul-claro. Depois a cor de sua mão é eliminada, restando apenas o branco e a sua metralhadora é substituída por outra dessa mão. Sua cabeça toma forma de uma cabeça de arraia e, no final, ele adquire uma roupa de delegado. Definitivamente ele estava mudado, seu visual era idêntico ao daquele delegado arraia que estava no telão do carro minutos atrás, de alguma forma, sua aparição havia sido útil. - Vamos brincar, então.
- Como você pôde... Até aceito um cidadão atormentado me chamar de inútil, mas, um policial?!
- Coincidência, não? Outra coisa que o cidadão atormentado fez e eu estou fazendo atualmente, é mirar em seu filhote! - sorri o policial, com sua Ak-47 apontada para a cabeça do pequeno besouro. Aquela arma provavelmente havia surgido do céu, sem ninguém reparar.
Era o cúmulo para a mulher. Depois de ter sofrido tanto nas mãos do robô, estava sofrendo ao ver seu filho novamente como alvo, dessa vez de um policial, o que queria dizer que suas chances esgotavam-se naquele momento.
- Você não tem coração?! - diz ela, tentando convencer o policial a parar com aquilo.
- É claro que eu tenho! Se não, não estaria querendo me vingar daquele maldito monstro pelo que ele fez comigo e com outros policiais!
- Vingue-nos, soldado Razor, ele nos causou um grande prejuízo. - foi o que disse uma criatura que estava escondida nas sombras, apesar de ser possível enxergá-la parcialmente, uma arraia.
- Vou repetir a pergunta, você tem coração?!
Nubobot já não suportava mais olhar para aquele policial e ficar sem fazer nada, a sede de vingança era a única coisa que sentia no momento, apenas aquilo. Ele investe contra o policial e, no meio do caminho, toma sua forma original e o agarra pelo pescoço usando sua única mão.
- Seu idiota, são por causa de pessoas como você que eu sou esse tal monstro.
Ele estava realmente furioso, tanto pelo seu olho como pelo próprio jeito idiota de agir do tal policial. Seu começo de vingança estava marcado, ele começa a apertar o pescoço de sua presa até fazer energia elétrica começar a circular pelo corpo de seu oponente. Após isso, aponta o seu canhão para a cabeça dele, ameaçando atirar a qualquer momento na cabeça do policial quase desmaiado.
- Você... - diz Nubobot, mudando seu olhar para a mulher. - Devia aprender que coisas como eu e esse policial, abandonadas, não têm coração.
- Como assim abandonadas? Por que você faz isso com os outros?!
- Eu não faço nada, apenas me defendo do mundo do jeito que consigo.
- Qual, qual é o seu nome?
- Nubobot, ou N-105. Isso não importa agora, tenho que matar esse sujeito antes que ele acorde novamente. - dizendo isso, Nubobot começa a concentrar energia em seu canhão.
- Não faça isso! Seu destino será ruim se você matar alguém!
- Eu não tenho destino... E se tivesse, não creio que haveria um jeito de deixá-lo decente.
- Todos tem um destino! Você tem, e pode...
Ela é interrompida pelo policial, que não se importava com mais nada a não ser obter sua vingança. Ele imediatamente se levanta e aponta sua Ak-47 para o pequeno besouro, atirando em poucos segundos depois, era tão rápido que nem Nubobot conseguiria impedir.
- Eu levo um comigo, bando de desgraçados!
A besoura instantaneamente entra na frente de seu filho, recebendo o tiro no seu coração em troca de seu filho vivo. Aquela era a sensação mais estranha que Nubobot já sentira: ignorando todas as circunstâncias, uma pessoa se sacrificando por outra só por causa de sentimentos, ah, malditos sentimentos. Mas o que o intrigava mais era pensar na possibilidade do mundo não ser tão cruel como ele pensava, ele até poderia ter outra chance! Era só uma possibilidade, por isso ele apenas ficava duvidando ainda mais.
O mais estranho não era a questão dos sentimentos em si, apesar de tudo. Não era qualquer um que teria agilidade o suficiente para entrar na frente de um tiro já disparado, então aquela mulher já teria algumas habilidades em especial. Ou seria apenas um impulso, pelos tais sentimentos?
- Por que raios você deu sua vida no lugar do filhote?! Que lógica existe nisso?! - diz Nubobot, tentando eliminar aquela dúvida de vez.
- Amor de mãe não tem lógica, ele é meu filho e eu o amo mais do que tudo! Não aceito que ninguém o machuque na minha frente!
E ela não estava para brincadeiras. Utilizando as suas últimas forças, a besoura corre até o policial que estava quase imóvel e finca seu chifre exatamente no coração dele, no mesmo lugar onde havia recebido um tiro instantes atrás. Nubobot só se surpreendia mais, de onde havia saído tanta energia para ela ignorar todas as circunstâncias e atacar? Ele continuava com um rosto indiferente, mas no fundo, estava mais chocado que a própria mulher ou o próprio policial, os dois à beira da morte.
- Mãe, você vai continuar cuidando de mim? - diz o inocente garoto, chorando, vendo a dor de sua mãe.
- Me desculpe, filho... Eu não, não posso...
- Mesmo, perdendo, tudo... Eu vou me vingar de todos vocês!
O policial aproveita aquele pequeno momento de distração por parte da mãe e rapidamente pega sua arma para atirar novamente, dessa vez acertando o verdadeiro alvo.
- Eu, acho, que é o...
- FIM! - interrompe Nubobot, decapitando o policial com sua foice. - Não vou aceitar que ninguém o machuque na minha frente.
Apesar de não querer que o robô sujasse suas mãos com o policial, literalmente falando, a mulher fica feliz por finalmente ter seu filho a salvo... mas e ela? Tinha apenas alguns segundos de vida, mas nem se importava mais, só queria fazer um último pedido a Nubobot.
- Eu sei que eu nem te conheço e você, bem, nem meu nome sabe... mas cuide do meu filho, por favor...
O favor pedido não passava de mais dúvidas para o robô. Por que a mulher confiaria nele? E, como ele cuidaria do garoto? Era pior que qualquer loucura que ele havia imaginado. Mas ao contrário das dele, não era algo ruim ou cruel, pelo contrário, era algo que vinha de uma imensa bondade! Por fim, as dúvidas acabam o vencendo e ele resolve perguntar algo importante para a mulher, que respirava com dificuldades usando a boca, em seus últimos segundos de vida.
- Por que você ama esse garoto? O que ele te dá em troca?
- Simplesmente o amo... Por ser meu filho... Acho que isso é mais que suficiente, agora, por favor, cuide dele...
A mulher fecha seus olhos e joga seu corpo no chão, para que morresse sem mais dores, causadas simplesmente com a coluna torta. O seu sangue imediatamente se esparrama pelo chão todo, formando uma pequena poça vermelha abaixo de si. O garoto chorava, chorava muito, só que era um choro tão forte que ele não conseguia nem lacrimejar, muito menos adquirir voz para gritar. Nubobot continuava lá, parado, sem entender absolutamente nada daquela situação, apesar de que sentia algo doer dentro de si: era um tipo de tristeza que estava sentindo pela primeira vez, dó de ver aquela mulher sofrer sem merecer, e também de ver a criança chorar.
- Então... será que estava enganado sobre todos? - diz Nubobot, pensando em deixar um pouco o seu ódio de lado, para pensar melhor no que estava fazendo e tomar uma decisão definitiva. - É isso... - Nubobot vira seu rosto para o garoto, sua decisão estava feita em alguns poucos segundos. - Ei você!
- Mamãe me disse que você é um monstro! - responde agressivamente o pequeno besouro, encarando o robô.
- Apesar de ser um monstro, ela pediu para cuidar de você. Talvez você ache legal ter um, erm, papai com olhos estranhos... - diz Nubobot, tentando agradar o filhote. Pensando que o melhor jeito de cuidar de alguém é deixando a pessoa alegre, já que havia sido criado do mesmo jeito, mesmo que traído no final.
- Ei monstro... Obrigado! - no mesmo momento, o filhote solta um sorriso sincero que alegra um pouco Nubobot.
- Sem problemas, vou precisar de você para me explicar certas coisas.
- Me desculpe, mas... é que eu não sei muita coisa, estou na segunda série!
- Você não entendeu e nem vai precisar entender, vamos simplesmente seguir o caminho, certo?
- Certo! - responde o garoto, entusiasmado, pensando em passar algum tipo de aventura. - Meu nome é Cross, sou da espécie dos Hardbeetles! Mas... Posso lhe pedir um favor, erm, coisa?
- Me chame de Nubobot ou de Bot, eu agradeceria. Pode pedir o favor.
- Posso ver a mamãe pela última vez? - diz Cross, entristecendo um pouco seu rosto novamente.
- Não vejo motivos para lhe impedir. - responde Nubobot, voltando a não compreender a situação.
Cross dá lentos e tristes passos até o corpo ensangüentado de sua mãe, com esperanças de que ela ainda pudesse estar cuidando dele, o observando e guardando no céu. Simplesmente por ver o rosto dela e seus olhos, - que apesar de abertos, apenas mostravam um branco vazio confirmando sua morte garoto volta a chorar, - ele volta a chorar, dessa vez ele rapidamente enxuga suas lágrimas demonstrando um pouco mais de coragem.
- Mamãe... Cuide de mim... Em meu coração.
- Ai que lindo, faça uma franja agora. - diz Nubobot, encostado no poste e com um sorriso sarcástico, provavelmente era uma tentativa de fazer piada, só que a hora não era das melhores.
- Não brinca com isso, cara! Ela foi a pessoa que eu mais amei na minha vida e, provavelmente, a que eu mais amo até hoje! - retruca Cross, com uma cara séria, porém parcialmente entendendo a inocência do robô ao fazer aquilo.
- Hmmm... Mudando de assunto, conhece alguém que faça manutenção de máquinas?
- A mamãe fazia isso.
- Tudo bem, mas, não conhece mais ninguém?! - pergunta o robô, extremamente irritado com a perda de seu olho.
- Não, desculpe.
Nubobot literalmente explode de raiva na hora. Maldito policial que havia arrancado seu olho! Maldito! Ele morreu e sequer sofreu o suficiente para pagar pelo que havia feito, aquilo irritava-o cada vez mais e mais. De tanta raiva, ele acaba socando o buraco que estava no lugar do olho: já que não se importava com sua aparência e aquilo o incomodava, queria retirar os restos de vez. Mas ele sente algum comando especial em seu corpo sendo ativado, um comando que faz aquele buraco liberar uma forte luz, irritando-o ainda mais e praticamente cegando Cross.
- Mas que merda! Já bastava ficar enxergando apenas com um olho... Por que essas coisas só acontecem comigo?!
Depois de alguns segundos a luz começa a se apagar, sendo que Nubobot sentia algo mais estranho ainda acontecendo com seu corpo. Pelo menos não era ruim, mas era surpreendente! A visão dele estava se recuperando aos poucos e ele não entendia nada do que se passava, absolutamente nada, só sentia um olho nascer e sua visão voltar.
Ao pensar melhor, ele percebe que aquilo também não era nada muito bom. Ele vê seu passado como se fosse um filme, passando cena por cena de quando ele foi traído, e uma frase se repetia várias e várias vezes em sua mente.
- Por mais que você tenha feito isso comigo, você ainda voltará. Agora que obteve tudo o que precisava, tem muito poder em mãos, e vai precisar de mim para controlá-los.
Ele tenta ignorar aquilo, mas era óbvio demais, ele realmente não conhecia seus poderes e não sabia como iria descobrí-los, o que o botava em mais perigo ainda. Eram mistérios demais para sua mente, tudo que ele precisava no atual momento era andar e adquirir novas informações, só que ainda não sabia nem de que se tratavam essas informações.
- Você está estranho, o que aconteceu?
- Nada não, vamos apenas criar um caminho e seguí-lo.
