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Não eras capaz de…

. . . PART THREE . . .

Estava ansiosa por encontrar Draco. Era a última visita a Hogsmead antes da sua formatura e esperava poder distrair-se da escola passando a tarde com ele. Estava sentada no banco de pedra, ao lado da Cabana dos Gritos, naquele que se tornara o ponto de encontro secreto dos dois.

"-Boa tarde Ginevra." – Cumprimentou fazendo-a saltar de susto.

"-Que susto Draco!"

Por mais que estivesse à espera dele, Draco conseguia sempre arranjar uma maneira de se esgueirar e aparecer de repente, assustando-a.

"-É para ti." – Disse, passando-lhe uma caixa branca com um laço vermelho.

"-Obrigada Draco, mas não era necessário." – Agradeceu verificando a caixa. Eram GinGin's, os bombons que ele havia criado para ela.

"-O que é que o Potter te fez desta vez?" – Perguntou após observar a face da ruiva durante uns instantes.

"-O que queres dizer com isso?"

"-Estás com aquele sorriso idiota outra vez Ginevra. De certo que o Potter tem algo a ver com isso. Tenho ou não razão?"

"-Tens." – Admitiu erguendo a mão.

"-Isso é o que eu penso que é?"

"-E o que pensas que é?" – Perguntou agitando a mão em frente aos olhos dele.

"-Possivelmente o anel de noivado mais feio que alguma vez vi."

"-Não é feio!"

"-Desculpa, esqueci-me que eras uma Weasley e ele um Potter." – Comentou desinteressado.

Ela levantou-se irritada e atirou-lhe a caixa de bombons.

"-Uma boa tarde Malfoy." – Cuspiu as palavras irritada, afastando-se dele.

Draco ficou parado uns segundos, com a caixa de bombons ainda nas mãos, a ver a ruiva afastar-se.

"-Ginevra, espera!"

Deixou a caixa de bombons caída no banco e correu até ela, pegando-lhe no braço.

"-Espera por favor." – Pediu de novo fazendo-a parar.

"-Para quê? Para teres mais tempo para me insultar?"

"-Não era aquilo que queria dizer."

"-Pelos visto era!"

"-O que eu quero dizer é que…olha, se queres ficar com o Potter tudo bem. Bom para ti, bom para vocês… que tenham uma ninhada de criancinhas irritantes e metidas a herói!"

"-Qual é que é o teu problema com o Harry?"

Ele gargalhou alto, uma gargalhada sarcástica e fria.

"-Não vejo qual é a piada."

"-Ele é o Potter, o que é que achas que eu tenho contra ele?"

"-Uma rivalidade infantil e sem sentido que nem tu nem ele sabem como começou."

"-Não é infantil nem sem sentido! O Potter é desprezível!"

"-Mas agora é meu noivo! O mínimo que podias fazer era absteres-te dos comentários."

"-Não me podes pedir o impossível Ginevra. Eu desprezo o Potter e nem tu podes mudar isso."

"-Eu não estou a dizer que passes a ser o melhor amigo dele! Mas para seres meu amigo vais ter de te abster dos comentários maldosos sobre ele."

"-Ginevra…"

"-Ou será que não eras capaz?" – Acrescentou.

"-Odeio quando fazes isso!" – Comentou um tanto irritado.

"-Isso é um sim?"

"-É Ginevra, é um sim."

"-Obrigada Draco." – Agradeceu colocando-se em pontas dos pés para lhe beijar a face.

"-Não devias ter feito isso…" – Disse num tom sombrio.

"-Pensava que já tínhamos ultrapassado o teu complexo de demonstrações de afecto em público."

"-Este é um complexo diferente." – Respondeu apontando vagamente para um ponto à sua frente.

Ginny seguiu com os olhos o gesto dele, só para encontrar Harry a caminhar na sua direcção com uma expressão estranha no rosto.

"-O que se passa aqui Ginny?" – Perguntou num tom baixo nunca desviando os olhos de Draco.

"-O que é que estás a fazer aqui?"

"-Não tentes desviar a conversa, diz-me o que se passa aqui." – Exigiu olhando para ela por fim.

"-Não se passa nada." – Respondeu calmamente.

"-Nada? E suponho que beijares um Malfoy na cara seja natural."

"-Sim, é perfeitamente natural."

Draco mantinha a sua postura, braços cruzados à frente do peito, um olhar fulminante e um sorriso arrogante nos lábios.

"-Como é que uma Weasley a beijar um Malfoy na cara é natural?"

"-Draco, se nos dás um instante." – Disse pegando na mão de Harry e afastando-o uns metros.

"-Desde quando é que tratas o Malfoy por tu? Desde quando é que andas a passear com ele em Hogsmead e a beijá-lo na cara?"

Harry parecida desesperado. A sua face estava vermelha e ele gesticulava freneticamente enquanto falava.

"-Desde o ano passado, mais precisamente, desde o Natal passado."

"-E como é que eu nunca soube disso? E porque é que começaste a dar-te com ele afinal?"

"-Não interessa o que aconteceu entre nós nem como aconteceu. Eu e o Draco somos amigos e isto antecede o nosso noivado e o nosso namoro."

"-E porque é que nunca me contaste?"

"-Porque era um segredo meu. Nunca ninguém soube nem precisava de saber."

"-Mas ele é um Malfoy!"- Disse exasperado "-É o meu pior inimigo!"

"-Não tens de gostar dele, não te peço isso mas não vou permitir que te intrometas na nossa amizade."

"-Como é que podes dizer isso? Como é que podes ser amiga dele sabendo quem ele é, sabendo o que ele representa para mim?"

"-Ele também te odeia, também te despreza. No entanto isso não tem nada a ver comigo."

"-Vais continuar a vê-lo?"

"-Já te disse Harry, não vou deixar que te intrometas nisto. Não te diz respeito."

"-Mas…"

"-Eu amo-te, sempre te amei. O Draco não tem nada a ver com isso."

"-Ginny, ele odeia toda a tua família, como podes ter a certeza que isto não é uma armadilha?"

"-Vais ter de confiar em mim Harry."

"-Eu confio em ti. Em quem eu não confio é no Malfoy. Ele é uma cobra viscosa e engenhosa e…"

"-Chega Harry. Não vou discutir mais este assunto contigo. Agora vou voltar para perto do Draco e…"

"-Tu vais continuar a andar por aí com ele mesmo eu estando aqui?"

"-Sim, não entendeste o que disse?"

"-Mas eu estou aqui. Vim para te vez, para te surpreender."

"-Desculpa Harry, mas eu combinei que passava o dia com o Draco e é isso que vou fazer."

"-Eu não acredito Ginny…"

"-Eu amo-te." – Murmurou juntando a sua testa com a dele – "Não te esqueças disso nunca."

"-Eu também te amo." – Replicou beijando-a de forma possessiva e mais demorada que o natural – "Tem cuidado." – Pediu quando ela se afastou.

"-Não te preocupes, sei o que estou a fazer."

"-Espero que saibas…" – Murmurou puxando-a para um novo beijo.

"-Tenho de ir. Vemo-nos no baile de formatura."

Ele assentiu com um pequeno sorriso vendo-a afastar-se. O sorriso desapareceu quando Draco, propositadamente, passou o braço por cima dos ombros da ruiva.

"-Não o provoques Draco." – Pediu.

"-O Potter não morre se o provocar só um bocadinho." – Respondeu com um sorriso convencido caminhando agarrado a ela.

"-Pede a Merlin para que ele se controle. Não ias ficar bonito com o nariz partido."

"-E quem é o Potter para me partir o que quer que seja?"

"-Não te esqueças dos meus irmãos." – Lembrou – "Eles vão ficar a saber bem depressa." – Disse libertando-se do abraço dele.

"-Se forem todos como o cabeça de fósforo amigo do Potter não vai haver problema…"

"-Tu não sabes do que os homens Weasley são capazes."

"-Não viemos aqui para falar dos teus irmãos pois não?"

"-Não… Viemos para comprar o vestido para a minha formatura."

"-E que tal irmos primeiro à Doces e Duques e eu te comprar uma caixa enorme de guloseimas, como oferta de paz."

"-Soa-me muito bem." – Disse com um sorriso.

"-Ginevra…"

"-Sim?"

"-O anel não é assim tão feio." – Concluiu fazendo-a sorrir ainda mais.

. . .

Andava ansiosa, de um lado para o outro da sala, sem saber o que fazer. Tinha acabado de enviar um bilhete a Draco, lembrando-o do último desafio que lhe fizera: «Não eras capaz de assistir à minha formatura, pois não?»

Agora o nervosismo acumulava-se no seu corpo e não a deixava ficar quieta. Queria Draco presente, queria-o ao seu lado num dos momentos mais importantes da sua vida. Mas receava o que pudesse acontecer. Harry já sabia de tudo, era certo, mas não estava convencida que os seus irmãos e os seus pais não aceitariam de tão bom grado a ideia de um Malfoy conviver com o membro mais novo da família.

Também Luna contribuía para o seu estado de nervosismo e ansiedade. Tinham combinado de se prepararem juntas para a cerimónia de formatura e esperarem em conjunto pelas respectivas famílias. Mas Luna estava atrasada, atrasada demais.

Sentou-se numa das poltronas da sala comum só para tornar a levantar-se segundos depois. Três alunas do primeiro ano entraram pelo retrato da Dama Gorda, falando e gargalhando alto, irritando ainda mais a ruiva.

Tinha decidido finalmente sair da sala comum e procurar Luna quando um barulho estranho a chamou à atenção. Uma coruja bicava insistentemente no grande vidro da janela da sala comum dos Gryffindor. A coruja que teimava entrar era a de Draco, Alexis.

"-Calma Alexis…" – Disse suavemente deixando a coruja entrar.

O animal sarapintado deu duas voltas no ar antes de pousar no ombro da ruiva após um voo picado.

"-Mais um bilhete para mim."

Draco apenas avisava que estaria em breve na sala abandonada, pronto a cumprir a sua parte do desafio. Sorriu aliviada - com a chegada de Draco poder-se-ia distrair e afastar o nervosismo e a ansiedade por momentos. De um momento para o outro as gargalhadas e as frases altas das alunas do primeiro ano deixaram de ser tão irritantes.

Saiu da sala comum com um sorriso nos lábios dirigindo-se calmamente para a antiga sala de professores. Assustou-se, porque quando entrou na sala Draco já lá estava.

"-Pensei que tinhas dito no bilhete que ainda demoravas."

"-E perder a hipótese de te assustar de novo?"

"-Pensei que não viesses, sabes?"

"-Alguma vez deixei de cumprir um dos teus desafios?"

"-Não, mas achei que a família Weasley e um Harry Potter raivoso te intimidassem."

"-Não me intimido facilmente. Trouxe-te isto." – Disse passando-lhe uma caixa branca.

Não precisava de desfazer a fita vermelha para saber que dentro da caixa oferecida por Draco estavam os mais deliciosos bombons, aqueles que ele havia criado apenas para ela.

"-Conta-me, o que é que a tua amiga Lovegood achou do fantástico vestido que eu escolhi para a tua formatura?"

"-Que tu escolheste?"

"-Sim, que eu escolhi. Se não fosse eu não terias o vestido que vai ser o centro das atenções da cerimónia de hoje."

"-Pois, mas se não fosses tu eu também não teria passado uma tarde inteira a experimentar vestidos e mais vestidos só para escolher o último da pilha."

"-Claro, terias trazido o primeiro, o mais simples e menos apropriado."

"-E ninguém se iria importar."

"-Eu iria, mas o vestido já está escolhido e não há volta a dar."

Ela ia comentar algo mas perdeu o rumo do que ia dizer quando Luna entrou na sala completamente ofegante.

"-Finalmente Ginny! Ainda bem que te encontro! E quem és tu?" – Perguntou olhando para o Draco de forma estranha – "Ah! Não me digas! Tu és o Draco! Draco Malfoy, o melhor amigo do Blaise! Ele tem uma fotografia vossa lá em casa. Mas na fotografia tu não estás a sorrir. Devias sorrir, sabes? Ficas com um ar mais simpático. Devias sorrir como estavas a fazer quando eu entrei. E…"

"-Luna!" – Chamou a ruiva quebrando o monólogo desenfreado da rapariga.

"-Oh! Desculpa Ginny. Estive à tua procura em todo o castelo! Precisamos de nos arranjar rápido! O Blaise deve estar a chegar e quero aproveitar todo tempo possível antes da formatura com ele. O que é que ele está aqui a fazer? E porque é que estás aqui com ele? O Harry sabe? "

"-Luna, calma. Respira."

"-Ginny eu estou tão nervosa! E tu sabes! Quando eu fico nervosa não consigo parar de falar e só digo asneiras e…"

"-Eu sei, eu sei. Agora acalma-te. Vamos sair daqui, vamos até ao dormitório, arranjamo-nos e depois encontras-te com o Blaise, ok?"

"-Mas e se ele não gostar do meu vestido?"

"-Não te preocupes, aposto que ele vai adorar." – Disse acalmando a amiga – "Draco, eu vou subir com a Luna, não devo demorar mais do que meia hora. Não te importas de esperar?"

"-Não me vou mexer daqui."

"-Eu volto rápido."

Saiu da sala, com uma das mãos a segurar a caixa de bombons oferecida por Draco e com a outra pousada no ombro de uma Luna extremamente nervosa.

"-Ginny, o que é que o Draco estava aqui a fazer? Ele não é amigo de ninguém que se esteja a formar."

"-Eu pedi-lhe que viesse."

"-Mas…?"

"-Eu e o Draco somos amigos."

"-Desde quando?"

"-Aconteceu o ano passado. Começámos a falar-nos por causa de um disparate qualquer e antes que déssemos conta éramos amigos."

"-Podias ter dito antes! Tínhamos combinado uma saída a quatro!"

"-Acho que nem o Draco nem o Harry gostariam que isso acontecesse."

"-O Harry sabe?"

"-Ele encontrou-nos juntos na última saída a Hogsmead."

"-E?"

"-E, como é óbvio, ficou furioso, quase perdeu a cabeça, mas eu falei com ele e fi-lo entender que a minha amizade com o Draco não influencia nem é influenciada pela relação que tenho com ele."

"-E o Harry aceitou bem?"

"-Beijinhos doces." – Disse ao retrato da Dama Gorda que lhes concedeu passagem imediata – "Não compreendeu nem gostou da ideia, mas respeitou a minha decisão."

"-E ele sabe que o Draco veio hoje?"

"-Vai descobrir em breve. Espero que não seja catastrófico."

"-Ninguém vai armar confusão na festa! Ainda não me disseste que caixa é essa!"

"-É uma pequena mania do Draco. Onde deixaste as tuas coisas?"

"-Está tudo em cima da tua cama."

Ao entrar no quarto, Ginny viu de imediato o vestido de Luna sobre a sua cama. Mesmo no meio da confusão que se instalara no dormitório do sétimo ano, o vestido de Luna sobressaia como nenhum outro item no quarto.

"-Temos de nos despachar! O Blaise deve estar a chegar a qualquer instante."

"-Ok, vestimo-nos ao mesmo tempo e depois eu arranjo o teu cabelo. Pode ser?"

A loira assentiu começando a trocar o seu uniforme pelo vestido extravagante que havia comprado. Ginny não conseguia desviar os olhos do vestido da amiga, nem mesmo quando quase tropeçou no seu próprio vestido.

"-O que é que achas?"

Luna tinha acabado de dar uma voltinha sobre si própria e esperava ansiosamente o comentário da amiga.

"-É diferente!" – Respondeu com um sorriso.

Diferente era certamente uma das melhores a utilizar na descrição do vestido de Luna. Diferente, extravagante, brilhante e extremamente vistoso.

"-Não é lindo? Foi o meu pai que mo ofereceu!"

"-De que é feito?" – Perguntou curiosa.

O vestido de Luna era de um laranja cintilante. Do busto até à cintura era feito de um tecido brilhante que se colava ao corpo da loira na perfeição. O resto do vestido, que lhe cobria as pernas apenas até ao meio da coxa, era uma massa uniforme de penas compridas, também elas de um laranja fluorescente.

"-Penas de Fwooper. Nós temos vários em casa. Claro que todos eles têm encantamentos silenciadores se não eu e o meu pai ficaríamos loucos."

Ficariam? – Pensou divertida.

"-Aposto que o Blaise vai adorar. Agora diz-me, como queres o teu cabelo?"

"-Quero-o com isto." – Passou à ruiva uma pena igual às do seu vestido.

Ginny arranjou o cabelo de Luna num coque largo que prendeu com a pena laranja.

"-Pronto."

"-Obrigada Ginny." – Agradeceu abraçando-a com uma força desnecessária – "Vou encontrar-me com o Blaise! Não quero que ele fique à espera."

"-Vemo-nos na festa então."

"-Até já!"

Luna saiu do dormitório com um sorriso, cantarolando divertida uma canção dos "The Weird Sisters". Ginny seguiu-a minutos depois, arranjando-se apressadamente para poder aproveitar mais uns minutos na companhia de Draco.

"-Voltei!"

A sua voz saíra animada e descontraída, pela primeira vez naquele dia.

"-Divertiste-te sem mim?"

"-Imenso! Sabias que este cadeirão não tem família?" – Perguntou irónico – "E que aquela estante ali sofre de personalidade múltipla? Já para não falar daquela cortina, que deixou de ser capaz de fazer feitiços de transfiguração quando fez quinze anos."

"-Pronto, pronto, já entendi, foi aborrecido."

"-Ao menos a tua demora valeu a pena. O vestido ficou muito bem."

Ginny sorriu e deu uma volta sobre si mesma, fazendo rodar o vestido que Draco havia escolhido para si. Assentava-lhe na perfeição. Como ouro líquido a escorrer-lhe pelo corpo, o vestido feito de um tecido creme e delicado prendia apenas atrás do seu pescoço. Era simples, mas com um corte distinto que realçava cada forma do seu corpo. O decote deixava à vista apenas o permitido pelos bons costumes e era quebrado por quatro finas fitas de cetim dourado que envolviam o seu tronco e cintura, deixando o tecido ondulado flutuar livremente em elegantes camadas de comprimentos variados.

"-Digamos que foi uma boa escolha."

"-Por esta altura já devias ter percebido que eu só faço algo que valha a pena e que fique bem feito."

"-Com certeza Sr. Malfoy, nem esperaria o contrário de si."

"-Vais ficar em pé o dia inteiro?"

"-Não quero amachucar o vestido!"

"-Vais ficar com as pernas doridas ainda antes da cerimónia começar!"

"-Não te preocupes, eu fico bem. Agora diz-me a verdade. Fico mesmo bem neste vestido?"

Draco nunca teve a oportunidade de responder à pergunta de Ginevra.

"-Ginny?"

A porta da sala de professores abandonada tinha acabado de ser aberta, permitindo tanto a Ginny como a Draco ouvir a voz de quem a havia aberto.

"-Ah! Estás aí." – Disse com um sorriso, antes de abrir a porta por completo – "Tu! Outra vez?!"

Era Harry que falava irritado, lançando ao loiro sentado num dos cadeirões um olhar raivoso.

"-Harry…"

"-Não Ginny! Desta vez não!"

"-Harry, não faças um escândalo, por favor." – Pediu num tom baixo.

"-E queres que faça o quê? Já não basta que a minha noiva seja amiga de um Malfoy, não basta que ela se encontre com ele durante o período das aulas e eu ainda tenho de aceitar o facto da minha…" – Reforçou de forma possessiva – " … noiva, da minha noiva convidar um Malfoy para a formatura dela?"

"-Sim, é apenas isso que te peço, que aceites. Não quero que compreendas nem sequer quero que gostes da ideia ou que te tornes amigo dele. Tudo o que quero é que aceites o facto de eu e o Draco sermos amigos e que tenhas a consciência que não poderás interferir nisso."

"-Mas ele é um Malfoy!" – Gritou apontando para o loiro.

Draco mantinha-se estático, braços cruzados em frente ao seu peito, com os lábios crispados e um certo divertimento com a situação. Ele estava a gostar da situação e a apreciar o facto de ser a causa da discussão.

"-O que raio é que ele pode ter em comum contigo para que sejam tão amigos?"

"-O que importa isso? Eu nunca questionei as tuas amizades!"

"-Isso é porque eu não me dou com o outro lado!"

"-Ouve bem Harry, ouve o que eu vou dizer agora porque só o vou dizer uma vez. O Draco era meu amigo muito antes de tu seres meu namorado ou meu noivo e por isso eu não vou abdicar dele para estar contigo."

Harry rangeu os dentes quando Draco soltou um riso dissimulado e convencido.

"-Eu amo-te, tu sabes disso. Também sabes que o que nós temos não tem nada a ver com a minha amizade com ele. Não quero que sintas ciúmes desta amizade, não há razões para isso."

Caminhou lentamente até ao moreno e passou-lhe as mãos pela face.

"-Não quero discutir contigo…" – Murmurou – "-Nem por causa dele nem por qualquer outro motivo."

"-Ginny, é tão difícil compreender…"

"-Esquece isso, esquece só por hoje, por favor." – Pediu colando os seus lábios aos dele.

Tê-lo-ia beijado, um beijo quente e apaixonado, um beijo que o fizesse esquecer, só por uns segundos, da discussão de há instantes. Mas Draco pigarreou alto, um pigarreio irritado e apressado que quebrou aquela fracção de magia que antecede um beijo entre amantes.

"-Tu és um idiota sabias?" – Disse apontando para o loiro –" E tu…" – Murmurou voltando-se para o moreno –"… ainda mais idiota por teres ciúmes dele."

Harry beijou-a possessivamente, ignorando os protestos irritados de Draco. Queria que ele visse, queria que ele soubesse que Ginny era só sua e que não estava disponível para nenhum idiota, muito menos para um Malfoy.

"-Estás linda hoje…" – Disse, alto o suficiente para Draco ouvir.

Antes que o loiro falasse de mais e despoletasse uma nova discussão Ginny voltou-se para ele, com o dedo indicador estendido na sua direcção.

"-Tu! Bico calado. Encontramo-nos lá em baixo antes da cerimónia, quero que conheças a minha família. Se não quiseres esperar aqui procura a Luna. Ela está com o Blaise e ambos te podem fazer companhia."

"-Obrigado pelas indicações Ginevra." – Disse sarcástico.

"-Comporta-te enquanto eu não estiver. E por favor, tenta não provocar ninguém durante o dia de hoje."

"-Não sei se sou capaz."

"-Tens a certeza que não és capaz de te comportar como um cavalheiro bem-educado da alta sociedade que és?"

"-Sou sim Ginevra."

"-Óptimo!" – Concluiu com um tom sério que amenizou com um sorriso doce – "Vamos Harry, não quero que os meus pais esperem por muito tempo."

. . .

"-Que saudades!"

"-Também estava com imensas saudades Ginny!"

Hermione tinha sido a última a cumprimentá-la, seguindo o exemplo dos pais e irmãos de Ginny. Todos estavam presentes, todos excepto Percy que considerava aquele tipo de celebrações patético e sem sentido.

"-Deixa-me ver o teu anel de novo." – Pediu a morena – "É maravilhoso! Ron! Toma atenção ao exemplo to teu amigo Harry!"

Ron corou violentamente e afastou-se sorrateiramente antes que Hermione tivesse oportunidade de fazer mais um daqueles comentários.

"-Nunca pensei que o Harry casasse antes de nós, sabes? Mas o teu irmão parece ter medo da palavra casamento, desaparece capa dez que se fala nisso."

"-Já percebi…" – Comentou com um sorriso vendo o seu irmão sentado numa mesa grande, numa conversa animada com os gémeos e Harry – " O Ron só precisa de algo que o chame à realidade, um susto, uns dias sem ouvir falar de ti. Depois disso vai pedir-te em casamento de todas as formas que se conseguir lembrar."

"-Às vezes gostava que ele fosse mais decidido, mas não se pode ter tudo, não é? Fala-me desse vestido! Onde o compraste?"

"-Numa loja em Hogsmead."

"-Não sabia que vendiam desse estilo de vestidos no povoado."

"-Digamos que tive uma ajuda especial com o vestido."

"-Foi o Malfoy?"

"-Desculpa, não entendi…"

"-Se foi o Malfoy que te ajudou com o vestido. O Harry contou-me que vos encontrou juntos em Hogsmead."

"-O Harry falou-vos disso?"

"-Estávamos todos na Toca, almoço de domingo e ele chegou tão abalado. Foi quando ele nos contou o que tinha acontecido."

"-Como é que os meus irmãos reagiram?"

"-Da única forma que a Sra. Weasley permite em sua casa, comendo um prato cheio em silêncio."

"-Isso quer dizer que ela aceitou bem?"

"-Quer dizer que ela não permitiu que eles discutissem isso sem estares presente."

"-Preciso de falar com os meus pais. Convidei o Draco a estar presente hoje e quero que eles o conheçam."

"-O Malfoy está cá hoje?"

"-Deve estar a chegar a qualquer momento."

"-Só espero que os teus irmãos estejam num dia calmo. Não gostava de ver o Charlie ou o Bill a agredirem o Malfoy."

"-Nem quero imaginar…" – Caminhou em direcção a uma das mesas redondas onde se sentavam todos os Weasley.

"-Mãe, Pai, preciso de vos falar durante um instante."

"-Diz querida."

Ginny observou os seus irmãos, estavam todos demasiado ocupados para ouvirem a sua conversa.

"-Queria dizer-vos que hoje convidei um amigo para a cerimónia e que o vou apresentar daqui a pouco."

"-Quem é ele?"

"-É o Draco, Draco…"

"-Malfoy, muito prazer."

Ginevra olhou para ele com os olhos bem abertos. De onde é que ele tinha vindo e como é que ele se tinha materializado ali tão depressa e sem ser notado? Draco tinha a mão estendida na direcção do Sr. Weasley, que a apertou energicamente. Ginny deixou de ouvir as conversas animadas dos irmãos e percebeu que todos eles olhavam para o loiro. Percebeu também o rosto do Ron a corar e um brilhar nos olhos dos gémeos que só significava sarilhos.

"-Este é o meu pai e esta a minha mãe."

"-É um prazer Sra. Weasley." – Disse segurando a mão de Molly e depositando nesta um beijo delicado – "Entendo agora de onde vem a beleza de Ginevra."

Ginny ouviu perfeitamente o protesto de Ron, prontamente silenciado por uma cotovelada de Hermione.

"-Vocês já conhecem o Draco. Estes são os meus irmãos. Este é o Charlie, o meu irmão mais velho, este é o Bill, estes são os gémeos Fred e George…" – Draco ia apertando a mão de cada um deles, não se intimidando pelo excesso de força utilizada pelos ruivos.

"-Eu recordo-me de vocês e tenho a certeza que o Filch também guarda boas memórias vossas."

George e Fred olharam um para o outro e sorriram, fosse um Malfoy ou não aquele tipo tinha sentido de humor!

"-O Ron a Hermione e o Harry tu já conheces."

"-Perfeitamente. Mas Ginevra, recordo-me de dizeres que tinhas seis irmãos e se não me falham as contas está a faltar um."

"-O Percy não é muito adepto das celebrações familiares muito menos se estas forem públicas."

"-Entendo. Bem, foi um prazer conhecer-vos mas preciso de cumprimentar uns conhecidos. Sr. e Sra Weasley…"

"-Senta-te connosco querido." – Disse Molly.

Ginny viu de imediato a consequência das palavras de sua mãe na cara dos seus irmãos e de Harry. Ron tinha ficado vermelho, Charlie e Bill tinham fechado a expressão, mantendo-se muito sérios, os gémeos riram alto e Harry crispou os lábios e franziu o cenho.

"-Sente-se jovem, fale-nos um pouco de si, de como se tornou amigo da nossa filha."

"-Não tenho a certeza de que haja muito para dizer." – Disse tomando o lugar vazio ao lado de Artur – "A verdade é que tem uma filha simpática e que sabe manter uma conversa interessante e foi isso que deu hipóteses à nossa amizade."

"-O que me intriga é como começaram essa amizade."

"-Pai, não sejas inconveniente." – Pediu.

"-Não tem problema Ginevra. Temo não saber responder essa pergunta Sr. Weasley. A verdade é que não me recordo do acontecimento que acabou por iniciar a nossa amizade." – Mentiu.

Era óbvio que se recordava perfeitamente do momento crucial em que se cruzara com a ruiva – numa qualquer sala abandonada, após fugir de uma Pansy descontrolada. Ginevra nunca soubera o que o levara a entrar e esconder-se naquela sala e ele não tencionava contar-lhe. Mas a verdade é que agradecia à Pansy aquela perseguição exagerada porque graças a ela o seu caminho tinha-se cruzado com o da Weasley mais nova, dado origem a amizade mais verdadeira que alguma vez experienciara.

"-É justo, pelo que entendi já são amigos há algum tempo."

"-Sim Sr."

"-Foi um gosto conhecê-lo meu jovem, deixou-me muito mais tranquilo sabendo que é um jovem educado e inteligente."

"-Obrigado pelo elogio Sr. Weasley. Agora se me permitem devo mesmo ausentar-me. A namorada de um amigo meu, a Luna Lovegood forma-se hoje e gostaria de cumprimentá-los antes da cerimónia."

"-Claro, não o queremos prender mais. Foi um prazer." – Disse apertando a mão a Draco.

"-O prazer foi todo meu. Sra. Weasley." – Despediu-se de Molly da mesma forma que a cumprimentou, com um suave beijo na não, o que encantou verdadeiramente a mãe de Ginny – "Ginevra, falamos daqui a pouco. Prazer em conhecer-vos." – Disse acenando aos restantes ruivos e afastando-se até ao fundo do salão, onde se encontrava a mesa de Luna e Blaise.

Assim que Draco se afastou, Ginny sentiu os olhares de todos os seus irmãos a recair sobre si, requerendo respostas sobre o loiro.

"-Eu não vou responder a perguntas nenhumas."

"-Mas nós só queríamos saber mais sobre o teu amigo encantador." – Disse George, num tom divertido.

"-Não vou dizer nada, não vale a pena continuarem a tentar."

"-Mas…"

"-Deixem a vossa irmã em paz. O amigo dela é um jovem cavalheiresco e encantador."

"-Ele é um Malfoy!" – Explodiu Ron.

"-E talvez pudesses aprender com um Malfoy boa educação e maneiras!" – Repreendeu Molly.

Aos poucos as conversas na mesa voltaram ao normal, Charlie e Bill discutiam uma nova raça de dragões criada para proteger bens preciosos, os gémeos conspiravam algo em voz baixa e Ron, Hermione e Harry discutiam a prestação do Ministro da Magia no último mês. Harry, porém, não estava muito concentrado na conversa. O seu olhar saltava preocupado de Ginny para o fundo do salão e de lá de novo para a ruiva. Não muito tempo depois Ginny percebeu que algo estava errado pelo olhar de Harry. Percebeu o que se passava quando ouviu a voz de Draco atrás de si.

"-Ginevra, se não te importares, gostaria de falar contigo apenas por uns minutos."

Ela assentiu e levantou-se da mesa sob o olhar irritado de Harry e Ron.

"-Não te demores." – Pediu o moreno – "A cerimónia vai começar num instante."

"-Não te preocupes, volto num instante."

Saiu do salão seguindo Draco até aos jardins.

"-O que me querias?"

"-Livrar-te dos comentários irritantes do teu irmão por uns minutos."

"-Estava a precisar." – Admitiu.

"-E tenho um desafio para ti."

"-Um desafio? Tem de ser agora?"

"-E desde quando é que eu te desafio nos momentos oportunos?"

"-Desde nunca."

"-Pois então…não eras capaz de faltar à cerimónia irritante de formatura?"

"-Mas é um dos momentos mais importantes da minha vida!"

"-É só conversa fiada. Um ou dois discursos idiotas dos professores e deixas de ser uma aluna de Hogwarts. Tu já assististe a isso uma dezena de vezes, não precisas de outra. O que tu precisas é de fugir do castelo durante uma boa hora e esquecer uma cerimónia chata e irritante."

"-Vamos a isto!"

"-Foi fácil convencer-te."

"-Vamos antes que perca a coragem!"

Puxou-o pela mão e correu com ele ao longo do jardim. Naquele momento todos os visitantes e alunos estavam no Salão Nobre, concentrados na cerimónia de formatura e nenhum deles viu Ginevra a gargalhar alto enquanto corria trazendo consigo Draco.

"-Pára Ginevra!"

"-Não és capaz de descontrair por um minuto?" – Perguntou sem soltar a mão dele.

"-Só desta vez." – Respondeu deixando-se levar.

Rapidamente chegou à conclusão que a sensação de cometer uma loucura impensada era realmente boa. Só Ginevra conseguia trazer ao de cima aquele lado dele, aquele lado que o permitia ser inconsequente, descontraído e bem-disposto.

Impediu-a de continuar a correr quando alcançaram a orla da Floresta Negra.

"-Ficamos por aqui."

"-Pensei que hoje querias arriscar."

"-Vais estragar o teu vestido e não quero que te magoes, a floresta pode ser perigosa."

"-Tudo bem, tudo bem. Agora o que é que vamos fazer? O discurso deve demorar uma hora!"

"-Falemos."

"-E de que queres falar?"

"-Fala-me de ti…do que vais fazer a partir de hoje."

"-Falo-te disso com uma condição!"

"-Que condição?"

"-Tu falas-me de ti a seguir. É a tua vez de partilhar algo, de me contar algo pessoal sobre ti. Porque tu sabes tudo sobre mim e tudo o que sei é que gostas de avelãs e menta."

"-É justo."

"-Ainda não decidi o que vou fazer. É claro que não quero ficar em casa, nem mesmo depois de casar com o Harry, mas a realidade é que ainda não descobri a minha verdadeira vocação."

"-Já pensaste no Quidditch?"

"-Quidditch?"

"-Sim. Eu já te vi jogar Ginevra. Tens boas técnicas de voo, estabilidade, boa visão em campo e para dizer a verdade os teus talentos estavam a ser mal aproveitados na equipa dos Gryffindor. Tens técnica e és pequena e leve o suficiente para ser uma seeker profissional."

"-Nunca tinha pensado nisso. É certo que gosto de Quidditch e amo voar, mas daí a fazer disso profissão…"

"-Vai a uma ou duas audições, as grandes equipas estão sempre à procura de novos jogadores. Pode ser que entres para os Chudley Cannons e realizes o sonho do Weasley de os ver ser campeões antes dele morrer."

"-Esse é realmente o maior sonho do Ron! Mas não sei… ser jogadora profissional é muito exigente. Nunca poderia passar muito tempo em casa, não poderia passar tempo com o Harry e se quiséssemos ter filhos seria simplesmente… complicado."

"-Não deixes que isso te impeça de seres o que queres ser. Tenta ao menos, se não conseguires nem gostares tens sempre um mundo de oportunidade à tua espera."

"-Estás muito pensativo hoje Draco. Essas não são as palavras que esperaria ouvir da boca de um Malfoy."

"-Coisas estranhas aconteceram hoje Ginevra. Eu estive sentado numa mesa de repleta de Weasleys e ouvi a tua amiga Lovegood a tagarelar durante vinte minutos sobre as vantagens de ter uma criação de Fwooper em casa. Este não é um dia comum para um Malfoy, portanto não esperes nada de comum de mim hoje."

"-Então aproveita para me falares de ti, conta-me os teus segredos."

"-Segredos? Eu não tenho segredos."

"-Como não? Tu não deixas que ninguém se aproxime o suficiente para saber coisas de ti. Não passas férias com ninguém, não sais nem te divertes, não há como alguém saber quem és."

"-E como é que tu sabes tudo isso? Como sabes que não saio nem me divirto?"

"-Tu disseste-mo, tu disseste que apenas convives com o Blaise e com a Pansy. O Blaise sei que passa todo o tempo que pode com a Luna, pelo menos durante o este último ano, e a Pansy, pelo que me recordo dos anos em que andaram Hogwarts, não tem esse tipo de relação contigo."

"-Digamos que é verdade…que tenho segredos, e depois?"

"-E depois, eu quero sabê-los, alguns pelo menos."

"-Acho que a cerimónia acabou, devias voltar."

"-Não vou voltar agora, não sem antes partilhares algo comigo, algo que nunca tenhas dito a ninguém."

"-Algo que nunca disse a ninguém?" – A ruiva assentiu-lhe com a cabeça – "Nunca disse a ninguém que todos os dias, quando acordo, me pergunto porque raio montei uma empresa que vende chocolates e não aceitei o lugar de seeker e capitão de equipa dos Puddlemere United."

"-E já chegaste a alguma conclusão?"

"-Decidi que é altura de dar aos Malfoy um legado que não tenham de esconder."

"-Tinhas razão, coisas estranhas estão a acontecer hoje."

"-Feliz por saberes mais de mim?"

"-Fico satisfeita, nunca é demais saber coisas sobre os amigos."

"-Deves ir agora. O Potter deve estar desesperado e a pensar que o trocas-te por um maravilhoso Malfoy e os teus pais devem estar preocupados."

"-Não voltas comigo?"

"-É hora de ir."

"-Quando é que falamos de novo?"

"-Podes escrever sempre que quiseres. Fico à espera de um desafio."

"-Fica prometido." – Disse com um sorriso começando a caminhar em direcção ao castelo.

"-Hey Ginevra!"

"-Sim?"

"-Tens noção de quantos bombons me deves?"

Ela gargalhou alto, uma gargalhada cheia de alegria.

"-Vou fazer por me lembrar de tos levar da próxima vez que nos encontrarmos."

"-Não me vou esquecer!"

. . .

"-Vens jogar?"

"-Vou passar desta vez Harry."

"-Mas sabes que só fazendo par contigo sou imbatível. De outra maneira vou ser destruído pelos gémeos e pelo Ron."

"-Vais ter de viver com essa derrota hoje." – Disse beijando-o levemente – "Prometo que jogo com vocês à tarde."

"-Vou cobrar."

Ginny sorriu ao ver o namorado afastar-se, pronto a jogar mais um dos rotineiros jogos de Quidditch da Toca. Todos os dias na casa dos Weasley eram iniciados com um jogo de Quidditch, normalmente o Ron e os gémeos numa equipa e Harry e Ginny noutra e normalmente Harry e Ginny saíam vencedores.

O céu estava limpo, não havia nuvens nem vento a perturbar os que aproveitavam o sol de Verão. Foi por isso que estranhou quando uma mancha escura surgiu no horizonte, aproximando-se rapidamente na sua direcção. Três corujas carregavam consigo um pacote grande, em que nenhum dos rapazes pareceu reparar.

Ginny pegou no pacote – um pouco mais pesado do que esperava – e esgueirou-se para o seu quarto, sem ser notada. Estava ansiosa para descobrir o conteúdo do embrulho e o seu remetente. O bilhete era pequeno, azul-marinho, adornado com juncos dourados e nele podia ler-se: Audição dos Puddlemere United. Todas as tardes de Segunda-Feira durante o mês de Agosto. No verso do cartão Ginny encontrou a letra perfeitamente desenhada de Draco, formando apenas uma frase: «Hoje não eras capaz!».

Apressadamente desfez o papel que cobria o pacote que Draco havia enviado. Dentro da grande caixa encontrou uma longa sacola feita de pele de Hebridense-Negro, um dos dragões mais agressivos e territoriais que se conhecia, com o seu nome gravado numa das alças, com uma bonita linha prateada. Ginny conhecia aquele tipo de sacola e sabia que só serviam para um propósito – guardar uma vassoura. E foi isso que encontrou ao abrir a sacola, uma vassoura de corrida novinha em folha, uma Nimbus 2001, o modelo utilizado por todos os jogadores profissionais de Quidditch.

"-Completamente louco…" – Murmurou, ainda espantada com o presente que tinha em mãos.

Sabia que só a sacola era um item de coleccionador, principalmente com o seu nome bordado nela, já para não mencionar a vassoura, usada por todos os jogadores profissionais por ser uma das mais rápidas e estáveis vassouras no mercado. Aquele presente e o bilhete significavam apenas uma coisa: Draco não a ia deixar esquecer a hipótese de se tornar uma jogadora profissional de Quidditch.

Ela tinha de ir àquela audição!

Num instante trocou a sua roupa por algo mais apropriado para um treino de Quidditch. Guardou a caixa de bombons inesgotáveis na sacola da vassoura, rabiscou algo na parte de trás de um pedaço de pergaminho e desceu as escadas a correr.

"-Mãe, a Errol ?"

"-Está lá fora no poleiro querida. Para que precisas dela? E que saco é esse?"

"-Preciso de enviar um bilhete. Vou sair, não sei a que horas volto."

"-Mas Gininha, o almoço está quase pronto."

"-Não te preocupes, almoço depois."

"-Até logo querida. Cuida-te!"

"-Sim mãe."

Com cuidado, para não ser vista pelos rapazes, caminhou até ao poleiro das corujas para enviar um bilhete a Draco, pedindo que se encontrasse com ela em Hogsmead.

Cerca de trinta minutos depois Ginevra foi assustada mais uma vez por Draco. Sentada no banco de pedra junto à Cabana dos Gritos, a passar os dedos mecanicamente sobre o seu nome bordado sob a pele de dragão, Ginny apanhou um susto quando, mais uma vez, Draco se aproximou dela sorrateiramente.

"-Que tal me saí?"

"-Completamente exagerado!"

"-Não será se fores aceite na equipa principal dos Puddlemere."

"-Deves ter gasto uma fortuna, não devia aceitar."

"-Devo dizer que os chocolates que tenho vendido com o teu sabor favorito têm sido os mais populares desde que foram lançados há meses atrás, portanto nada mais justo do que te dar um presente com esses lucros."

"-Sendo assim, presente aceite!"

"-Preparada conseguir o lugar de seeker nos Puddlemere?"

"-Eu não sei Draco, é uma loucura, nunca vou ser aceite e…"

"-E vais tentar de qualquer maneira, porque eu não perdi o meu tempo a comprar-te esses presentes para os deixar ser desperdiçados."

"-Vens comigo?"

"-Só saio do estádio quando conseguires o lugar."

E lá estavam eles, vinte minutos depois, sentados numa das altas bancadas do estádio dos Puddlemere United.

Ginevra estava nervosa, as mãos suadas, a barriga às voltas e a garganta muito seca. Mas nem ela, assoberbada com os nervos, deixou de reparar na magnificência do estádio, na exaltação das cores das bandeiras, na grandiosidade dos postes de marcação dourados e na ostentação das bancadas. Era em locais como aquele que os sonhos se tornavam realidade, onde a imaginação podia ser tocada se apenas se fechasse os olhos e onde gritos, clamores e exclamações traziam para mais perto as mais loucas fantasias e os desejos mais profundos.

"-Nervosa?"

Ela sorriu, fracamente. O nervosismo transpirava dela em casa suspiro em cada olhar desconfiado e apressando, em cada toque mecânico na sua nova vassoura. Draco sabia-a nervosa, todos os que a rodeavam viam espelhada na face pálida a ansiedade e o receio que precede uma grande conquista.

"-Vai correr tudo bem."

"-Vê a quantidade de pessoas que está aqui para tentar entrar na equipa! Não tenho a certeza que vou fazer boa figura, quanto mais conseguir um lugar na equipa."

"-Deixa que o encarregado da audição decida isso. Agora vai lá abaixo e dá o melhor de ti. Mostra-lhes o que uma Weasley é capaz de fazer."

"-Se eu fizer uma figura triste…"

"-Eu vou estar aqui para rir, não te preocupes."

"-Obrigadinha Draco!"

"-Vai lá Ginevra!"

"-Isto é para ti." – Disse tirando da sacola da vassoura a caixa de bombons prateada – "Diverte-te."

"-Podes ter a certeza!" – Respondeu apanhando no ar a sacola de vassourada ruiva e abrindo com um sorriso de contentamento a caixa de bombons inesgotáveis de seguida.

Desceu das bancadas e reuniu-se com o grupo de possíveis reforços da equipa, para tentar conseguir o lugar de seeker.

"-Atenção! O exercício de qualificação é simples. Uma dezena de snitchs douradas vão ser libertadas ao meu sinal. O vosso objectivo é capturar uma delas no menor tempo possível. Quando todas as snitchs tiverem sido capturadas o exercício termina para todos. Os vossos resultados vão ser analisados e vão ser contactados no final desta semana, sexta-feira. Preparem as vassouras." – Pediu abrindo uma caixa pequena de onde saíram uma dezena de pequenas bolinhas douradas que rapidamente voaram para fora do alcance da visão de qualquer um dos candidatos – "Podem começar."

Deu um pontapé no chão iniciando o seu voo. Assim que se elevou nos ares deixou para trás todo o nervosismo e ansiedade, todas as borboletas no estômago e os suores frios, tudo tinha sido esquecido e restava agora uma enorme felicidade em sentir o vento a afastar-lhe os cabelos da face. Passou uma última vez os olhos nas bancadas, encontrando Draco no meio das pessoas sentadas a assistir as audições e concentrou-se de seguida no exercício.

Lutava pela conquista de uma das dez snitchs douradas com outras trinta pessoas, trinta indivíduos que tinham o mesmo sonho e a mesma ambição de se tornarem seekers de uma equipa famosa. Não negava que alguns deles tinham verdadeiras capacidades e meios de fazer uma óptima prestação mas estava decidida a tentar, decidida a retribuir o voto de confiança de Draco.

Um reflexo dourado cruzou o seu campo de visão à sua esquerda, longe, apenas um brilho ténue, uma refracção de um raio de sol. Inclinou-se na vassoura acelerando ao máximo até alcançar o ponto onde julgara ver a snitch. De lá observou todo o campo, os candidatos a seeker espalhados pelo espaço, em perseguições arrojadas ou simplesmente a pairar à procura da sua passagem para a fama. E lá em baixo, não passando de um pontinho minúsculo, pairava uma pequena snitch dourada. Mergulhou de cabeça, bem agarrada à sua vassoura, descendo numa espiral, uma manobra perigosa com a qual poderia facilmente arranjar uma lesão grave. A rasar o relvado verdejante do estádio esticou o braço para apanhar a snitch dourada. Ela escapou-lhe por entre os dedos, avançando um pouco no ar. Lançou-se para a frente, fechando os dedos em torno da pequena esfera dourada, perdendo o equilíbrio durante uns segundos. Essa falha custou-lhe a estabilidade em cima da vassoura de corrida que resultou numa queda pouco graciosa, porém inofensiva, no relvado do campo.

"-Boa tarde."

Era o homem que lhes havia explicado as regras do exercício que lhe falava. Ginny apanhou a sua vassoura do chão, sacudiu as suas vestimentas e só depois esticou a mão na direcção da do homem, apertando-a.

"-Boa tarde."

"-Boa manobra."

"-Obrigada. Foi uma apanhada um pouco desajeitada no final, mas faz tempo que não perseguia uma snitch." – Disse devolvendo ao homem a esfera dourada.

"-Ainda assim, não é uma manobra que se esperaria de um jogador não profissional. Vou precisar do seu nome para enviar os resultados."

"-Ginevra Weasley."

"-Obrigado pela presença Ginevra. Espere uma carta no final desta semana. E boa sorte."

"-Obrigada."

Draco esperava-a junto ao relvado e ajudou-a com a vassoura assim que a alcançou.

"-Que tal me saí?

"-Apanhada descuidada mas a manobra antes disso foi perfeita."

"-Foi o que eu achei." – Concordou com um sorriso.

"-O que é que ele disse?"

"-Gostou da manobra e disse que enviava os resultados no fim da semana, sexta-feira."

"-Isso quer dizer que vais passar a sexta-feira comigo."

"-E porquê?"

"-Porque eu quero saber ao mesmo tempo que tu que a Ginevra Weasley vai ser a nova face dos Puddlemere United."

"-Estás muito confiante."

"-Eu sei o que digo. Tu não só foste a mais rápida a apanhar uma snitch como o fizeste de forma extraordinária e com a técnica e experiência semelhante à de um jogador profissional. Já para não dizer que uma jogadora com a imagem como a tua só trará boa publicidade e muitos fãs para a equipa."

"-Não sejas louco! Eu nunca vou conseguir o lugar e sexta-feira vais ficar desiludido."

"-Veremos."

"-Agora tenho de ir, saí meio que às escondidas de casa e já devem estar preocupadas."

"-Espero-te em Hogsmead na sexta de manhã. E acho que isto te pertence." – Disse passando-lhe a caixa prateada de bombons.

"-Até sexta Draco. E obrigada por tudo."

"-De nada Ginevra."

. . .

"-Eu preciso de ir!"

"-Vais ter com o Malfoy, não vais?" – Perguntou segurando-a pela mão.

"-Estou à espera de uma carta importante e o Draco pediu-me para a abrir com ele."

"-Que carta tão importante é essa que só pode ser aberta com o Malfoy? "

"-Eu conto-te tudo quando voltar, sem mais perguntas agora, estou atrasada." - Disse rapidamente beijando-o ao de leve.

"-Não demores." – Pediu beijando-a de volta.

Ginny aparatou em Hogsmead e pela primeira vez não foi surpreendida pela chegada de Draco. O loiro já estava sentado no banco de pedra, com um pequeno embrulho branco e vermelho.

"-Os teus bombons." – Disse passando-lhe a caixa de chocolates.

"-Bom dia Draco."

"-Bom dia Ginevra. Nervosa?"

"-Achas que não tenho razões para isso?"

"-Não…porque eu já sei o que vai dizer a carta."

"-Sabes?"

"-Os Puddlemere United têm o maior prazer de anunciar a sua entrada no plantel da próxima temporada, na posição de seeker…"

"-Tens muito mais esperança do que eu, sabes?"

"-Deixa de ser tonta Ginevra. Eu tenho razão, eu tenho sempre razão! Agora come um chocolate e relaxa, a tua carta deve estar a chegar. E depois disso tenho uma surpresa."

"-Uma surpresa? Que tipo de surpresa?"

"-Uma surpresa em forma de desafio."

"-Não é justo Draco! Não me podes provocar com uma surpresa quando eu já estou nervosa com a carta."

"-Vá Ginevra, come um chocolate e acalma-te."

Aceitou o conselho de Draco e deliciou-se com o bombom em forma de coração. O chocolate e o sabor das cerejas afastaram por momentos as suas preocupações. Mas todas elas voltaram quando uma imponente coruja de olhos amarelados pousou sobre o seu joelho, desejosa de se ver livre do sobrescrito que carregava.

"-Eu não sou capaz…" – Murmurou.

Draco agarrou o envelope e abriu-o.

"-O que é que diz? O que é que diz? Não entrei? É isso? Eu sabia, eu sabia…" – A cara de Draco estava limpa de emoções.

"-Desculpa Ginevra, mas…"

"-Deixa lá… acontece. Eu sabia que ia ser assim! Não estou desapontada… quer dizer, era bom, mas não aconteceu."

"-Como eu estava a dizer, desculpa Ginevra, mas vais ter de ir a uma reunião amanhã à com o treinador da equipa dos Puddlemere!" – Completou com um sorriso recebendo um abraço apertado da ruiva – "Eu disse que ias conseguir."

"-Obrigada Draco! Obrigada! Se não fosses tu, a vassoura, o convite, o apoio… nunca teria conseguido!"

"-Claro que terias… mas de nada."

"-Ah! Eu nem acredito!"

"-Está aqui." – Disse passando-lhe o envelope – "Fazes parte da equipa!"

"-Eu, seeker dos Puddlemere United! Quem diria! Os meus pais nem vão acreditar! E o Harry! Ele vai adorar a noticia!"

"-Aposto que vai. Claro que daqui a uns meses ele pode ficar chateado contigo sabes, por seres mais famosa do que ele."

"-Não comeces Draco."

"-Tudo bem Ginevra, já percebi que o Potter é o teu ponto sensível."

"-Não é isso Draco, só não gosto da forma como falas dele, como também não gosto da forma como ele fala de ti. E tenho a certeza que se tivesses uma noiva também não gostarias que aproveitasse todas as oportunidades para fazer pouco dela. Aliás, porque é que ainda não tens uma noiva? Julguei que os Malfoy colocavam a continuação da sua linhagem acima de tudo."

"-Pois julgaste errado. Uma noiva não está no meu top de prioridades."

"-E o que está no teu top de prioridades?"

"-Isso é uma outra conversa. Primeiro vem o desafio que tenho para ti."

"-Tenho medo sabes? O teu último desafio quase deu cabo de mim!"

"-Mas graças a ele conseguiste o melhor emprego que podias desejar."

"-É verdade… mas não empates, qual é o desafio?"

"-Não eras capaz de almoçar comigo hoje…"

"-Só isso?"

"-…e conhecer a minha mãe."

"-Queres que conheça a tua mãe?"

"-Eu conheci não só os teus pais como os teus irmãos, é justo que conheças a minha mãe."

"-Não tenho a certeza que seja uma boa ideia."

"-Deixa de ser idiota Ginevra. Eu, um Malfoy, estive sentado numa mesa repleta de Weasleys, portanto tu podes lidar com uma Malfoy, não? Além do que eu tenho a certeza que a minha mãe te vai adorar."

"-Ela sabe que vais aparecer em casa com uma Weasley?"

"-Eu falei-lhe da hipótese."

"-E?"

"-E ela apressou-se a dar ordens aos elfos domésticos, para que preparassem um almoço especial."

"-Tens a certeza do que estás a dizer? Não quero incomodar a tua mãe."

"-Isso é um sim?"

"-Como se eu fosse capaz de me negar a um dos teus desafios."- Confessou.

"-Perfeito. E como hoje é o teu dia de sorte talvez oiças a história da famosa Miette Montford." – Disse fazendo a ruiva sorrir.

. . .

A sala era ampla, iluminada pelo sol de Verão que entrava pelas grandes vidraças. A luz tocava tudo no espaço, fazendo reluzir os detalhes dourados das molduras dos quadros, das carpetes que cobriam o chão e da magnifica lareira que aquecia a sala em noites frias de Inverno.

"-É uma sala muito bonita Sra. Malfoy."

"-Por favor querida, Narcisa está bom. E obrigada, este sempre foi o meu pequeno espaço, que partilho apenas com Draco."

Ginny sorriu. Estava agradavelmente surpresa com Narcisa Malfoy. Sempre julgara que a mãe de Draco se tratava de uma pessoa fria, arrogante e snob, mas a verdade é que Narcisa não se mostrara mais do que simpática, amável e bem disposta.

"-Espero que o almoço a tenha agradado Ginevra."

"-Foi perfeito."

"-A verdade é que Draco nunca traz nenhuns amigos e almoços como este são uma raridade."

"-isso não é verdade mãe. Por várias vezes o Blaise almoçou ou jantou connosco."

"-O Blaise não conta querido, ele faz praticamente parte da família."

"-Um membro da família bastante inconveniente."

"-De qualquer maneira, um membro da família. E gostaria de conhecer a namorada dele, parece que é um assunto sério."

"-Podes perguntar tudo sobre ela à Ginevra, são as melhores amigas."

"-Isso é perfeito, porque acabo de ter uma ideia fenomenal. Amanhã à noite eu e algumas amigas próximas vamos dar um baile de beneficência, cujos fundos revertem a favor do St. Mungus. O Blaise e a namorada podiam participar e seria óptimo que se juntasse a nós Ginevra, como par do Draco."

"-Eu não sei, a realidade é que…"

"-Mãe, caso não se recorde a Ginevra é noiva do conhecido Harry Potter."

"-Eu sei querido, mas um noivado nunca impediu ninguém de ir a um baile. Além do que tu precisas de um par e não conheço ninguém que possa ocupar esse lugar melhor que a Ginevra."

"-Não me cabe a mim decidir." – Disse com um sorriso descarado – "Embora eu ache que a Ginevra não fosse capaz de ser o meu par amanhã."

Ginny olhou para Narcisa, que lhe retribuía o olhar, expectante e depois os seus olhos cruzaram-se com os de Draco, brilhantes e divertidos.

"-Aceito o convite com agrado Narcisa." – Disse com um sorriso – "Vou precisar da tua ajuda Draco, para escolher um vestido apropriado. Como deve saber Narcisa, o Draco tem uma grande aptidão para escolher vestidos. Foi ele que escolheu o que usei na minha formatura."

"-Desconhecia esse talento Draco."

"-Há coisas que um Malfoy não revela, nem à sua própria mãe." – Disse fazendo a loira gargalhar delicadamente.

"-Acho melhor acompanhares a Ginevra na compra do seu vestido agora querido. Eu preciso de me ausentar para providenciar os últimos detalhes do baile e o convite para o Blaise e a namorada."

"-Claro mãe. Vamos Ginevra?"

"-Vamos sim. Obrigada Narcisa, adorei conhece-la."

"-Para mim também foi um prazer Ginevra, o Draco tinha falado muito sobre si e foi com gosto que confirmei que é realmente uma jovem mulher encantadora. Vemo-nos amanhã."

"-Sim, até amanhã. E de novo, obrigada pelo convite."

"-De nada querida, é um prazer."

Narcisa saiu da sala deixando Draco e Ginny ainda sentados nos fofos cadeirões forrados com um tecido claro.

"-Vamos à mesma loja do costume? A de Hogsmead?"

"-Não, tenho uma ideia melhor." – Disse afastando-se até à lareira.

Abriu uma pequena caixa dourada e dela retirou um punhado de cinzas que atirou para a lareira. Logo chamas verdes irromperam dando a Draco a visão da face de uma jovem bastante bonita.

"-Vestiaire Madame Ange Moreau. Como posso ajudá-lo?"

"-Gostaria que avisasse a Madame Moreau de que preciso do serviço dela de imediato, é uma urgência."

"-Desculpe senhor mas a Madame Moreau está muito ocupada e as suas vagas só começam no próximo mês."

"-Acho que não me fiz entender. Deve avisar a Madame Moreau que a família Malfoy precisa da sua prestação de imediato. Tenho a certeza que a Madame vai ter o maior prazer em atender ao meu chamado."

"-Claro Sr. Vou dar-lhe o recado de seguida."

"-Diga-lhe também que a espero no salão rosa. Ela saberá o significado."

"-Sim Sr. E uma boa tarde para si."

"-Obrigado igualmente." – Respondeu antes de se virar para a ruiva – "Feito."

"-O que é que acabaste de fazer?"

"-Nada de especial, apenas chamei a Madame Moreau. Ela confecciona toda a roupa importante da família e uma vez que vais como meu par precisas de algo realmente bem feito."

"-Mas a moça disse que ela ia estar ocupada até ao mês que vem."

"-Mas não ocupada o suficiente para recusar a um pedido da minha família."

"-Tens a certeza de que não é incómodo? Já para não falar do vestido, deve ser dispendioso e…"

"-E não tens de te preocupar com isso. É um presente meu."

"-Draco!"

"-Sim Ginevra?"

"-Não me podes cobrir de presentes! Chocolates sempre que me vês, a sacola e a vassoura, agora o vestido! É demais Draco!"

"-Foste tu que disseste que os amigos podiam trocar presentes. Pois então, estou apenas a ser um bom amigo."

"-Um amigo extremamente generoso e eu não posso continuar a aceitar presentes assim."

"-O vestido é o último. Pelo menos até ao Natal."

"-Ok, mas só passo a aceitar presentes nas datas socialmente estipuladas."

"-Está combinado."

"-E o que fazemos agora?"

"-Esperamos. A Madame Moreau não demorará muito a chegar."

Não mais do que cinco minutos depois um elfo apressado entrou na sala anunciando a presença da Madame Ange Moreau. Ginny espantou-se ao ver a mulher, esperava uma senhora baixinha, gordinha carregada com tecidos e linhas variadas mas tudo o que viu foi uma mulher com uma aparência distinta, alta e elegante com um longo cabelo cinzento preso num elegante coque, que não trazia consigo mais do que uma bolsinha pequena.

"-Boa tarde Madame Moreau."

"-Boa tarde querido. Fiquei intrigada com o seu chamado, afinal a sua mãe já tem o vestido para o baile de amanhã."

"-Eu sei, mas tenho alguém que lhe quero apresentar. Esta é a Ginevra Weasley."

"-Muito prazer." – Disse a ruiva, levantando-se para cumprimentar a mulher.

"-Boa escolha Draco, ela é muito bonita. Que tipo de vestido de noiva vai querer Ginevra?"

"-Oh! Não, não, não. Nós…eu… nós não nos vamos casar!"

"-Mas pensei…"

"-Não Madame Moreau." – Interveio – " A Ginevra é apenas o meu par para o baile e como tal necessita de um vestido adequado."

"-Peço desculpa pelo equívoco, mas como a sua mãe me tinha dito que não ia ao baile assumi que o meu propósito hoje fosse outro. Mas sendo assim vamos ao trabalho. Alguma ideia em mente menina Ginevra?"

"-Eu escolho o vestido dela. Comece por algo básico e daí eu logo decido o que pretendo."

A mulher retirou da sua pequena bolsa uma varinha curta e delicada. Com um abanão no ar a varinha produziu uma centena de finos fios brancos que se enrolaram em tono do corpo da ruiva, substituindo a sua roupa por uma peça simples de tecido claro, muito semelhante às usadas pelas modistas muggle para dar forma aos seus vestidos.

"-Um vestido até aos pés deve ser apropriado." – Disse a mulher.

Cada frase que dizia era acompanhado de um movimento de varinha que reproduzia no vestido as alterações ditas em voz alta.

"-Sem alças." – Disse Draco "-E de cor escura, talvez verde."

"-Talvez mais justo, não acha?"

"-Definitivamente."

Dois ou três movimentos de varinha depois e Ginevra envergava o vestido mais bonito que alguma vez tinha experimentado. Sem alças, o topo do tecido acompanhava a forma dos seus seios, deixando que o tecido se colasse totalmente ao seu tronco, cintura e coxas, alargando levemente um pouco dos joelhos, numa leve imitação da cauda de uma sereia. Adorava a sensação do cetim frio, verde jade, colado ao seu corpo, deixando livre os seus braços para qualquer movimento.

"-Que tal?" – Perguntou Draco reparando na expressão de contentamento da ruiva.

"-Maravilhoso!" – Disse com um sorriso.

A Madame Moreau escrevinhava apressadamente num bloco de notas e após terminar os seus apontamentos desfez o feitiço e o vestido que Ginny usava transformou-se de novo nas suas roupas normais.

"-Quer que envie o vestido para cá ou para qualquer outra morada?"

"-Para aqui está bom. Acrescente ainda uma gravata do mesmo tom do vestido dela ao meu pedido regular."

"-Claro Draco. Mais alguma coisa?"

"-É tudo por hoje Madame. Obrigado pela visita tão em cima da hora."

"-É sempre um prazer querido. Foi um prazer conhece-la menina Ginevra."

"-O prazer foi meu. E obrigada pelo vestido, é lindo."

"-É o que eu faço de melhor." – Respondeu aparatando.

"-Eu também devia ir sabes? Saí de casa de manhã cedo e ainda não dei notícias, devem estar preocupados."

"-E nós não queremos preocupar o Potter numa altura destas, pois não? Afinal ele vai ter motivos suficientes para ficar preocupado com a tua presença no baile de amanhã."

"-Não te preocupes, o Harry não vai ser problema. Como fazemos amanhã?"

"-O baile começa às oito. Uma hora deve chegar para te preparares, portanto encontro-me contigo em Hogsmead às sete."

"-Às sete então. Até amanhã Draco."

"-Até amanhã e boa sorte com o Potter."

Iria realmente precisar de muita sorte.

Harry esperava-a ansioso sentado num dos bancos do jardim e levantou-se num pulo assim que aparatou no relvado. Correu até ao noivo e abraçou-o pelo pescoço, beijando-o fervorosamente.

"-Isso são saudades?"

"-Saudades e a melhor noticia do ano!"

"-Tem a ver com a carta de hoje?"

As suas testas estavam coladas, lábios próximos, numa partilha de intimidade enorme.

"-Sim…"

"-O que dizia essa carta?"

"-Que eu, a maravilhosa e fantástica Ginevra Weasley, consegui o lugar de seeker na equipa principal dos Puddlemere United!"

"-O quê?" – Perguntou surpreso.

"-Eu! seeker dos Puddlemere United! Não é inacreditável?"

"-É fantástico! Como é que isso aconteceu?"

"-O Draco sugeriu que eu tentasse uma das audições para a equipa principal e ele tinha razão! Funcionou! Eles gostaram da minha prestação e chamaram-me. Dentro amanhã estarei reunida com o treinador da equipa."

"-Porque é que não me contaste antes? Queria ter estado contigo nas audições!"

"-Não queria que fosse uma desilusão se não entrasse."

"-Não ia ser uma desilusão, apenas significava ir contigo a outra audição."

"-Obrigada…" – Murmurou.

"-Vamos, tens de contar tudo à tua família."

"-Espera, tenho outra coisa para te dizer."

"-Pode esperar uns minutos. A tua família vai ficar louca quando souber da novidade."

Suspirou e deixou-se levar por Harry para o interior da Toca. A notícia do baile podia esperar.

"-Weasleys!" – Chamou Harry ao entrar em casa – "A Ginny tem uma novidade para vocês."

"-Não me digas que estás grávida!" – Disse Ron com uma expressão enjoada no rosto.

"-Por Merlin! Não! Não é nada disso!"

"-Se não é isso, então porquê o sorriso estampado na cara?" – Perguntou George.

"-Um enorme sorriso estampado na cara!" – Completou Fred.

"-Conta-lhes Ginny." – Pediu o moreno.

"-Eu fui seleccionada para ocupar o lugar de seeker principal dos Puddlemere United!"

"-Como… como é que isso aconteceu?"

Ron estava espantado, tal como todos os outros Weasleys presentes, mas a sua incredulidade estava completamente espelhada na sua voz.

"-De entre trinta candidatos eu fui a primeira a apanhar uma snitch dourada de pois de fazer uma descida em espiral a rasar pelo relvado. E claro porque eu sou maravilhosa." – Completou com um sorriso fazendo os irmãos mais velhos rir.

"-É uma noticia maravilhosa Gininha, parabéns."

"-Obrigada mãe."

"-Precisamos celebrar! Já sei! Amanhã à noite! Jantar especial! Família reunida, a Hermione e a Luna e um enorme bolo de chocolate e canela, o teu favorito!"

"-Eu adoraria mãe, mas amanhã nem eu nem a Luna podemos estar presentes."

"-Como não, o que é que tu e a tua amiguinha vão fazer amanhã?"

Ginny voltou-se para Harry e falou-lhe num murmúrio.

"-Era disto que eu te queria falar. Eu e a Luna, nós recebemos um convite para um baile de beneficência da…"

"-O que tanto vocês segredam aí?"

"-Não me interrompas Ron!" – Pediu dirigindo-se novamente a Harry – "O baile foi organizado pela Narcisa Malfoy e ela pediu-me como um favor pessoal que aceitasse o convite dela."

"-E desde quando é que conheces a Narcisa Malfoy? E desde quando é que ela te pede favores pessoais?"

"-Não importa Harry, o facto é que eu recebi um convite e vou comparecer ao baile."

"-Posso ao menos ir contigo?"

"-Não Harry…"

"-Mas se vais a um baile vais precisar de um par!"

"-Eu já tenho um par Harry." – A sua voz saía arrastada, num tom de derrota como quem espera uma reacção explosiva mas não tem a força para a enfrentar.

"-Espera, não me digas, o Malfoy é o teu par!" – Exclamou em alto e bom som atraindo as atenções dos ruivos que já tinham começado a dispersar.

"-Harry… por favor…"

"-Não comeces com o «Harry, Por favor!». Estou farto dessa frase porque está sempre ligada ao Malfoy! Ao maldito Malfoy que nem sequer devia ter nada a ver contigo!"

"-Eu não vou discutir isto de novo."

Saiu da cozinha, afastando-se em passos rápidos em direcção ao seu quarto.

"-Esse é o problema!" – Gritou ao fundo das escadas.

Numa fracção de segundo ele subiu todos os degraus colocando-se à frente dela, um olhar ameaçador a contrastar com a pele branca da sua face.

"-O problema é que tu nunca queres discutir nada, nunca aceitas que se fale do Malfoy! Parece que o queres proteger acima de tudo! Protegê-lo acima da nossa relação."

"-Harry, será que não compreendes?"

"-Não, não compreendo. Não importa quantas vezes mo possas explicar, nunca vou entender essa fixação pelo Malfoy!"

"-Não é uma fixação! O que acharias do facto de eu não querer que voltasses a falar com a Hermione?"

"-Um absurdo. A Hermione é a minha melhor amiga e…"

"-É nada! É o mesmo com o Draco."

"-Não tem nada a ver, a Hermione é uma boa pessoa e o Malfoy… o Malfoy é um pirralho irritante, arrogante e nojento que só pode ser má influência!"

"-Quantas vezes é que já discutimos isto? Quantas vezes mais o vamos discutir?"

"-As vezes que forem necessárias! Eu não quero que convivas com o Malfoy, que te pavoneies com ele em Hogsmead ou que vás às festinhas da mãe dele."

"-E eu não quero que te transformes num homem horrível moldado pela raiva e pelo ciúme!"

"-Não tentes virar o jogo aqui Ginny! Não sou eu que estou do lado errado desta história!"

"-Não vou repetir esta discussão nunca mais. Esta será a última vez que discutimos por causa do Draco. Da próxima vez que esta discussão surgir eu desisto de nós, desisto de tentar uma relação que não consegue resistir ao ciúme. Estamos entendidos?"

"-Não Ginny não estamos! Eu estou no meu dever de noivo de questionar as tuas relações com outros homens!"

Ginny gargalhou alto, uma gargalhada sarcástica e fria.

"-Não, não estás, porque nunca ninguém se intrometeu nas minhas relações. E se nem o meu pai o fez não és tu que o vais fazer."

"-Tenta compreender o meu ponto de vista Ginny…"

"-Eu compreendo, compreendo perfeitamente. Tens ciúmes, estás inseguro e odeias o Draco. Eu vejo isso, não sou cega. Mas tu sabes, porque eu já to disse uma centena de vezes, que te amo, que te adoro e que nada vai mudar isso."

"-Promete-me uma coisa." – Pediu segurando a face dela entre as mãos – "Promete-me que tens cuidado, que olhas por ti e que não te deixas cair nas teias do Malfoy. Promete, por favor."

Um sorriso pequeno e um beijo ao de leve serviram como resposta apaziguadora ao espírito ciumento do moreno. O gesto de Ginny foi forte o suficiente para que no dia seguinte, quando se preparava para se encontrar com Draco, Harry se despedisse apenas com um beijo longo e um sorriso fraco.

"-Demoraste imenso Ginevra."

"-Não perguntes Draco, foi um dia complicado."

"-O Potter de novo?"

"-Eu disse para não perguntares."

"-Tudo bem, falaremos disso mais logo. Agora preciso de te levar até à mansão e enfiar-te dentro daquele maravilhoso vestido verde."

"-Se não tivesse sido um convite da tua mãe eu não iria sabes?"

"-E ias deixar-me sem par?"

"-Por favor, faz a minha noite valer a pena." – Pediu segurando o braço dele para uma aparatação.

"-Onde vai ser o baile afinal?" – Perguntou ao sentir os seus pés a tocar o chão de mármore branco.

"-Num dos salões de baile da alta sociedade. Nada de muito especial, apenas mais espaçoso que o nosso salão de baile."

"-Mais espaçoso? Quantas pessoas vão estar presentes?"

"-Umas centenas de pessoas da alta sociedade."

"-Centenas?"

"-És capaz de reconhecer algumas caras. Agora despacha-te, tens menos de quarenta e cinco minutos para te preparar e eu sei como são as mulheres."

"-E onde é que posso trocar de roupa?"

"-Vem comigo, as tuas coisas estão num quarto lá em cima."

Draco disse a palavra quarto tão indiferentemente que quando entrou no cómodo ficou surpresa pela magnificência do local. Em tons cremes e dourados todo o quarto parecia esculpido de um enorme bloco de mármore brilhante. Em cima da cama pomposa encontrava-se uma grande caixa branca onde estava guardado o vestido verde.

"-Apressa-te Ginevra."

"-Quando estiver pronta…?"

"-Eu espero por ti à porta do quarto."

Ela assentiu e esperou até que o loiro saísse para correr até à cama. Só então reparou na costumeira caixa de bombons que Draco insistia em oferecer-lhe de cada vez que se encontravam. Desembrulhou a caixa grande com rapidez só para encontrar, para sua surpresa, não só o vestido verde jade como também duas pequenas caixas brancas e um par de sandálias prateadas.

"-Não aprende…" – Murmurou ao ver o conteúdo das pequenas caixas brancas.

Numa delas encontrou um par de brincos bastante invulgares, de ouro branco compridos com uma pequena esmeralda na ponta e na outra duas, pequenas presilhas para o cabelo, como finos prendedores de gravata, incrustadas com pequenas esmeraldas. Trocou rapidamente a sua roupa pelo maravilhoso vestido de baile e parou apenas uns segundos em frente ao espelho para se observar antes de prender o cabelo num coque largo de onde escapavam finas madeixas de cabelos ruivos que lhe tocavam a face, o pescoço e os ombros.

"-Foste rápida." – Disse vendo-a sair do quarto – "O resultado foi incrível para quem só demorou vinte minutos. Estás lindíssima."

"-Obrigada, mas julguei que tínhamos combinado nada de presentes até ao Natal."

"-Se não os queres de presente considera-os como um empréstimo, que me podes devolver no fim do baile e pedir de volta quando desejares."

"-Gosto dessa ideia. O prendedor de gravata ficou muito bem." – Disse passando o dedo no prendedor de gravatas prateado que lhe oferecera no Natal.

"-Ainda bem. Vamos?" – Perguntou esticando-lhe o braço.

Ginny sorriu e em menos de nada estava num salão repleto de pessoas bem dispostas e vestidas a rigor. Do tecto caíam grandes faixas de tecido branco, que com letras douradas garrafais anunciavam aos convidados que todas as receitas do evento reverteriam ao hospital de St. Mungus. Havia um grande bar com imensas bebidas exóticas e dezenas de jogos, leilões e pequenas actividades que estimulavam os convidados a doarem os seus galeões.

"-Faz a minha noite valer a pena…" – Murmurou-lhe de novo.

"-Só se colocares um sorriso lindíssimo nessa face." – Pediu em retorno, observando a expressão alienada da ruiva.

Ela assentiu deixando que um sorriso lhe escapasse dos lábios.

"-Muito melhor. Está ali a tua amiga."

Ginny viu Luna ao longe e não se admirou por não ter reparado nela antes – estava irreconhecível! O longo cabelo loiro que costumava apontar em todas as direcções caía agora em delicados cachos que lhe tapavam os ombros e as costas. Não envergava um vestido espalhafatoso ou invulgar, era um simples vestido longo, marcado na cintura de um tecido brilhante e flutuante laranja claro. Das suas orelhas não pendiam brincos em forma de cenoura, abóbora ou qualquer outro vegetal, como do seu pescoço não pendiam colares de rolhas de cerveja amanteigada ou caricas de garrafas de sumo de abóbora – a sua beleza era adornada por um par de brincos simples de brilhantes redondos e uma gargantilha fina também ela de brilhantes.

"-Luna! O que fizeram contigo?" – Perguntou divertida vendo a amiga dar uma voltinha delicada sobre si mesma.

"-Que tal estou?"

"-Linda!"

"-Foi o Blaise que escolheu o vestido e as jóias."

Blaise sorria obviamente orgulhoso, não largando a cintura da namorada.

"-Boa escola Zabini."

"-E quase posso jurar que foste tu que escolheste o vestido da Ginny."

"-Sim, fui eu quem escolheu o vestido da Ginevra."

"-Como foste capaz de saber isso Blaise?" – Perguntou a ruiva curiosa.

"-Porque eu sei que o Draco adora uma mulher bonita vestida de verde. Principalmente se tiver a hipótese de a segurar pelo braço durante um evento."

"-Fui usada?! – Perguntou Ginny num tom de choque fingido.

"-Temo que sim!" – Respondeu com um sorriso genuíno.

Por uns segundos perdeu-se no sorriso verdadeiro dele, que só vira em uma outra ocasião – aquando a sua troca de presentes no Natal passado. Gostava de o ver assim, com aquele sorriso sem segundas intenções, sem sarcasmo ou arrogância, apenas uma expressão de felicidade genuína que lhe modificava a expressão da face e o fazia parecer um rapazinho jovem e despreocupado.

"-O que é que foi Ginevra?"

"-Oh!" – Despertou de repente do sei devaneio – "Não foi nada. Estava só a pensar…"

"-Em quê?"

"-Nada de especial."

"-Parecias muito divertida para quem estava só a pensar. Diz-me o que pensavas."

"-Não sejas curioso Draco!"

"-Ora porquê? Não eras capaz de me dizer no que pensavas?"

"-Sabia que ainda não te tinha dito que te odiava hoje…" – Murmurou entre dentes fazendo o loiro sorrir arrogantemente – "Estava a pensar que devias sorrir mais vezes."

"-Eu sorrio as vezes necessárias."

"-Mas não da forma como sorriste ainda há pouco."

"-E de que forma é que eu sorri ainda há pouco?"

"-Como se quisesses mesmo sorrir, sem sarcasmo nem arrogância, apenas sorrir."

Draco estava a pensar numa resposta à altura, mas nunca teve oportunidade de contrapor o comentário da ruiva.

"-Ginevra, querida, está maravilhosa!"

"-Obrigada Narcisa."

"-O vestido é maravilhoso." – Comentou com uma gargalhada leve.

A mulher loira ria porque o seu vestido e o de Ginevra eram bastante semelhantes. O vestido de Narcisa, tal como o de Ginny, abraçava-lhe o corpo e realçava-lhe as formas e, feito de um tecido preto e brilhante, cobria-lhe o peito e se envolvia-se num nó delicado atrás do seu pescoço.

"-Na realidade foi o Draco que o escolheu. E percebo agora de onde herdou o seu talento para vestir uma mulher." – Comentou reparando nas semelhanças entre o seu vestido e o da mãe de Draco.

"-Gosto de saber que o que ensinei ao meu filho não lhe passou ao lado. Blaise querido, que saudades."

"-É um prazer reencontrá-la de novo, Sra. Malfoy"

"-Esta é a tua namorada?"

"-Sim, Luna Lovegood. Luna, apresento-te Narcisa Malfoy, a mãe de Draco."

"-É um prazer Sra. Malfoy."

"-Trate-me por Narcisa querida. O Blaise é que insiste em tratar-me por Sra., fazendo-me parecer uma velha decrépita."

"-Longe de mim Sra. Malfoy."

"-É um cavalheiro Luna, tem muita sorte por encontrar um homem assim. Já não se fabricam destes hoje em dia." – Comentou com um sorriso – "E tu querido, tens muita sorte em encontrar uma mulher bonita como a Luna, elegante e simpática."

"-Foi realmente um achado Sra. Malfoy. Não sei bem o que fazia sem ela agora."

"-Cuida bem dela. E aproveita para colocares algum juízo na cabeça do meu filho. Receio bem que Draco nunca consiga escolher para si uma mulher inteligente e bonita que o mereça."

"-Mãe, não vamos falar disso. Não aqui, não agora."

"-Querido, digo apenas a verdade. Põe os olhos no teu amigo, que escolheu para si uma mulher esplendorosa e inteligente."

"-Sim mãe…" – Murmurou contrariado como uma criança que acaba de ser repreendida.

"-Eu não tenho a culpa que tenhas deixado escapar a Ginevra querido."

"-Oh não Narcisa. Eu e o Draco nunca nos poderíamos envolver dessa forma."

"-E porque não querida? Afinal entendem-se bem o suficiente para serem amigos."

"-Oh! Mas nós somos muito diferentes, nunca poderia resultar entre nós nada mais que uma amizade." – Respondeu atrapalhada sentindo uma onda de calor a subir-lhe pelo pescoço e instalar-se nas suas bochechas.

"-Mãe, estás a embaraçar a Ginevra."

"-Não era a minha intenção querida. Sei que ama o seu noivo e que o vosso casamento está para breve. No entanto não posso deixar de lamentar que o seu noivo não seja o meu filho."

"-Hum… não tem importância Narcisa." – Disse constrangida, mal erguendo os olhos do chão.

"-Bem, vou deixar-vos a sós. Vocês são jovens e não precisam de alguém da minha idade a encher-vos de histórias antigas."

"-Não se vá embora por isso Narcisa, adoraríamos ouvir algumas das suas histórias, talvez a história da famosa Miette Montford."

"-Conto-vos dela noutro dia queridas. Tenho de cumprimentar umas peruas convencidas no fundo do salão." – Disse um toque de troça na voz, fazendo-os rir – "Divirtam-se."

"Vocês não querem dar uma volta pelo salão, ter uma das vossas conversas de mulheres?"

"-Porquê Draco, já te fartaste da nossa companhia?"

"-Não propriamente, tenho assuntos pendentes com o Zabini, só isso."

"-Tudo bem, mas não têm muito tempo para falar porque eu e a Luna não queremos ser cortejadas por todos os homens solteiros desta festa."

"-Que presunção Ginevra."

"-Presunção? Achas que não sou capaz de atrair cada homem solteiro desta festa?"

"-Não, de forma alguma, mas todos viram ao meu lado esta noite e vão assumir que estamos juntos. E nunca ninguém se atreve a cortejar a mulher de um Malfoy."

"-E eu é que sou presunçosa?" – Perguntou com um sorriso.

"-Divirtam-se."

"-Boa conversa rapazes. E Blaise?"

"-Sim querida?"

"-Pensa em mim…" – Murmurou esticando-se em cima dos seus saltos para capturar os lábios de Blaise num beijo apaixonado.

"-Que assuntos pendentes são esses Draco?" – Perguntou, os olhos cravados na namorada que saboreava um colorido cocktail.

"-Nenhuns na realidade."

"-Então porque mandaste as raparigas embora?"

"-A Ginevra não estava muito animada esta noite, problemas com o Potter suponho. Achei que a tua namorada fosse capaz de a animar."

"-Entendo…"

"-Por falar na tua namorada, como é a Lovegood?"

"-A Luna é espectacular! É distraída e excêntrica, é obvio, mas é tão ingénua e doce que é impossível não ficar apaixonado."

"-Isso é sério, não é?"

"-Como nunca foi! Ela tem algo, eu não sei o que é, que me prende, que me atrai cada vez mais."

"-O que é que os teus pais dizem sobre o assunto?"

"-A minha mãe não ficou contente. O pai da Luna é um tanto… excêntrico, à falta de melhor palavra e a minha mãe não aprecia o facto da Luna descender de um homem como ele. Já o meu pai, deseja que nos casemos o mais rápido possível e lhe demos uma dezena de netos."

"-E tu, o que é que achas?"

"-Vou pedi-la em casamento hoje."

"-Hoje? Não é um pouco apressado?"

"-Sei que tem de ser hoje. Durante semanas imaginei como seria e ontem com o convite da tua mãe, soube que tinha de ser aqui. Ela está esplendorosa, a noite está linda e eu quero que ela se recorde do pedido para sempre."

"-Eu acho que é precipitado de mais Zabini."

"-Isso é porque não entendes o que é estar loucamente apaixonado e não desejar nada mais do que estar ao lado da mulher que amas."

"-Isso soa demasiado lamechas, até para ti."

"-Saberás que digo a verdade quando lá chegares."

"-Até lá divertir-me-ei sem preocupações."

"-E a Ginny?"

"-O que tem a Ginevra?"

"-Não sou cego Draco. Já vi como olhas para ela. Reparei que desde que elas se afastaram que olhaste para ela seis vezes."

"-E daí? É apenas minha amiga."

"-Não foi ao acaso que a tua mãe fez o comentário sabes? Ela também reparou. E aposto que o Potter também reparou quando vos encontrou em Hogsmead e Hogwarts, porque pelo que a Luna me disse, a Ginny discutiu com ele de forma séria, mais do que uma vez, por tua causa."

"-Não faço ideia do que estás a falar. O Potter é um idiota e é por isso que a Ginevra discute com ele."

"-Só faço mais um comentário, depois não volto a tocar no assunto."

"-Desembucha Zabini."

"-Não a deixes escapar. Ela está noiva do Potter mas ainda não casou. Se quiseres ainda vais a tempo."

"-Vou ignorar esse comentário. Foi absurdo, inútil e completamente sem sentido."

"-Veremos…" – Murmurou entre dentes, fazendo-se de desentendido quando Draco lhe perguntou o que tinha dito – " Vamos ter com elas, não gosto forma como aquele homem está a olhar para a Luna."

Draco gargalhou. Blaise que sempre gostara tanto ou mais de se divertir com várias mulheres do que ele estava agora totalmente apaixonado por uma excêntrica e ingénua rapariguinha. Ora ali estava uma coisa que nunca esperara presenciar.

"-Já terminaram a vossa conversa masculina?"

"-Na verdade não Ginevra. Mas o Zabini tinha uma vontade incontrolável de voltar para a Lovegood."

"-A sério fofinho?" – Perguntou Luna numa voz melosa passando, com alguma dificuldade, os braços em torno do pescoço dele – "Tinhas saudades minhas?"

"-Saudades e medo que alguém ousasse roubar a minha princesa daqui." – Respondeu no mesmo tom meloso, muito raro em homens com o mesmo tamanho e constituição física que ele.

"-Vamos embora por favor…" – Pediu Draco num murmúrio – "Não aguento mais tanta lamechice."

"-Que infantil Draco." – Murmurou-lhe de volta – "Luna, Blaise, nós vamos dar uma volta pelo salão. Encontramo-nos daqui a pouco, ok?"

Afastaram-se um pouco, em direcção ao bar.

"-Ainda bem que saímos dali, não demorará muito para a tua amiga começar aos gritinhos."

"-Como assim, aos gritinhos?"

"-O Blaise vai pedi-la em casamento esta noite."

"-A sério? Oh! Isso é fantástico!" – Falava apressada, num tom excitado e divertido.

"-Calma, ele vai pedir a Lovegood em casamento, não a ti."

"-Importas-te que fique feliz pela minha amiga já que tu não ficas pelo teu amigo?"

"-Não… estás totalmente à vontade para celebrar mais um casamento patético do mundo mágico."

"-Qual é o teu problema com casamentos?"

"-Além de os achar inúteis? O Zabini e a Lovegood não vão durar muito tempo. Depois de uns meses de casados o Zabini vai perder o encanto e a Lovegood vai chorar que nem uma idiota quando o casamento acabar."

"-Tens assim tão pouca fé no teu amigo? Olha pare eles, observa como se contemplam um ao outro, como falam, como se tocam com delicadeza, como se beijam. Não é uma coisa passageira, não é uma coisa do agora. Se conheço um casal que pode durar para sempre esse casal é a Luna e o Blaise."

"-Como tu e o Potter?" – Perguntou, o sarcasmo evidente na sua voz.

"-Espero que sim." – Comentou aérea, ainda perdida a olhar para Blaise e Luna.

"-Chega de pensar no casamento do Zabini e da Lovegood e no teu casamento com o Potter. Deves me uma dança."

"-Devo?"

"-Não me pediste para fazer a tua noite? Pois então, uma dança comigo e todos os teus problemas voarão pela janela num instante." – Disse esticando a mão na direcção dela.

Aceitou a mão que ele lhe estendia e deixou-se guiar até ao centro do salão, para uma enorme pista de dança. Não foi uma dança complicada, um tango agitado ou uma valsa intricada, foi uma dança simples, mão na mão, mão no ombro e mão na cintura. Passos lentos, corpos colados, respirações sincronizadas. Os olhos nunca se desviaram um do outro, os sorrisos nunca deixaram os seus lábios. Pensavam em coisas diferentes, mas pensavam um no outro. Draco apreciava o perfume dela, o mesmo exótico aroma de coco e baunilha que tinha sentido no dormitório dos Slytherin. Já a ruiva pensava no sorriso de Draco e como realmente o gostava de ver com aquela expressão despreocupada e satisfeita.

"-Já fugiram os teus problemas?" – Perguntou num murmúrio ao ouvido dela, quebrando finalmente o contacto visual.

"-Sem problemas até ao raiar do sol." – Murmurou de volta, inspirando involuntariamente o perfume forte dele.

O seu corpo tremeu quando a mão de Draco que pousava na sua cintura escorregou ao longo da sua coxa quando a dança terminou. Primeiro indignação depois irritação consigo própria e por fim um abanar de cabeça que afastou os seus estranhos pensamentos de vez.

"-Estás com cara de quem precisa de beber."

"-Não me provoques Draco, tudo o que eu menos preciso é de uma ressaca pela manhã."

"-Porquê, não és capaz de aguentar uma bebida?"

"-Sou capaz de aguentar mais do que uma."

"-Então vamos a isso."

Draco aproximou-se do bar e pediu duas bebidas. Com um movimento de varinha o homem atrás do balcão serviu a Draco uma taça de champanhe e um cocktail rosa forte.

"-À nossa Ginevra!" – Brindou.

"-À nossa!"

Bebeu a bebida rapidamente para seu espanto. Não estava habituada à bebida muito menos consumida daquela forma, mas ao segurar a taça sentiu vontade de pelo menos uma vez na vida cometer uma pequena loucura.

"-Pronta para a segunda?" – Perguntou divertido pousando a taça de champanhe vazia em cima do balcão, ao lado da taça de Ginny.

"-Não é apropriado para uma Sra. beber demasiado em público."

Draco voltou-se num instante para o homem que servia as bebidas e murmurou-lhe algo, recebendo em troca duas garrafas de um verde vivo.

"-Vem comigo." – Disse oferecendo-lhe um braço para que ela se apoiasse.

Ginny sorriu para ele, com cocktail a começar a fazer-se sentir. Não tardaria muito para fazer um disparate.

"-Onde vamos?"

"-Para um local onde uma certa Sra. que eu conheço possa beber em demasia."

"-Queres embebedar-me Draco Malfoy?!"

"-Só se não quiseres." – Respondeu enquanto saíam do salão.

Entraram numa porta de madeira escura que escondia uma pequena sala de chá, decorada em tons de rosa velho e creme. Ginny atirou-se para um dos cadeirões ignorando o preço do vestido que usava.

"-Estas sandálias estão a matar-me!" – Disse irritada desapertando os atilhos que mantinham as altas sandálias presas aos seus calcanhares – "Tens sorte não seres mulher e não teres de usar vestidos apertados e sandálias que magoam."

"-É realmente uma sorte."

Draco conjurou dois copos pequenos e encheu cada um deles com o líquido verde de uma das garrafas que tinha acabado de pousar numa pequena mesa.

"-O que é?" – Perguntou curiosa antes de engolir o liquido verde – "Oh! Queima! Ah! MUITO…FORTE!"

"-É absinto, uma bebida muggle." – Respondeu antes de esvaziar o seu copo com uma careta.

"-É forte de mais."

"-Isso significa que já desististe?"

"-Enche outra vez!"

Mais um gole, mais uma careta. A cena repetiu-se vezes o suficiente para que o álcool começasse a fazer efeito e ela perdesse a conta. Draco riu alto ao reparar na figura da ruiva. O vestido estava puxado até ao meio das suas coxas, permitindo que se sentasse de pernas cruzadas no cadeirão, já não tinha sandálias e o seu cabelo estava mais solto que preso, emaranhado e com as presilhas preciosas prestes a cair.

"-O que foi?"

A sua voz saiu mais arrastada do que o costume fazendo Draco rir de novo.

"-Qual é a piada?"

"-Tu és!"

"-Também já não estás muito composto sabes?"

Dizia a verdade. O casaco dele estava caído ao lado do cadeirão, o cabelo estava agradavelmente despenteado, os botões da camisa estavam quase todos abertos e a gravata estava frouxa.

"-O Potter morria se nos visse assim."

"-Hoje não há Harry, ok?"

"-Ok…O que é que há então?"

"-Bebida!"

"-Temo que não, o absinto já se acabou."

"-Só restamos nós então. Que horas são?"

"-Não faço ideia…" – Disse deixando-se cair no silêncio.

"-Ficas sexy assim…" – Disse vagamente, os olhos desfocados e um sorriso torto.

"-Estás tão bêbeda Ginevra!"

"-Estou apenas alegre, queres ver?"

Levantou-se. Nada aconteceu por uns segundos. Depois o mundo decidiu colapsar por baixo dos seus pés e ela caiu para a frente embatendo com toda a força no chão.

"-Estás bem?" – Perguntou preocupado, erguendo-se com dificuldade.

Ginny riu alto, rolando no chão até ficar de barriga para cima, braços e pernas esticados.

"-Magoaste-te?"

Mas ela não lhe respondeu, continuava a rir como se tivesse visto a cena mais engraçada de sempre. Draco deitou-se ao lado dela, de barriga para cima, com as mãos pousadas sobre o tronco.

"-Já não te vais levantar pois não?" – Perguntou, os seus olhos cruzando-se com os dela.

"-Não antes do sol nascer."

Não demoraria muito para que ela adormecesse ali mesmo, pois os seus olhos piscavam arrastadamente, a sua boca mexia-se com dificuldade e a sua voz parecia mais melosa do que costume.

"-Vais ficar doente se dormires no chão…" – Comentou a certa altura, sem obter resposta.

Tinha adormecido, tal como previra. Os cabelos eram agora uma massa disforme que serviam de apoio no chão frio. Com dificuldade esticou o braço e alcançou o seu casaco, algures acima da sua cabeça. Ergue-se só o suficiente para fazer passar o casaco por debaixo dos ombros da ruiva impedindo que as suas costas tocassem o chão frio. Deixou de tentar lutar contra o efeito do álcool e o sono e adormeceu, embalado pelo perfume e pela respiração suave dela.

Acordou de repente, com dificuldades em respirar. Algo comprimia o seu peito e lhe pendia os movimentos. Foi quando abriu os olhos que percebeu que não era algo que lhe dificultava a respiração e sim alguém. Ginevra dormia profundamente com a cabeça apoiada no seu peito, manchando a camisa dele com baba.

Onde é que já vão as noites glamourosas do famoso Malfoy? – Pensou divertido ao verificar que a sua camisa mais cara estava agora completamente arruinada com baba de Weasley.

Afastou algumas madeixas indisciplinadas da face da ruiva e observou-a por uns instantes. Não era a mesma Weasley franzina e pequena que o irritara no último ano de Hogwarts. Não era a mesma baixa e empertigada ruiva que o desafiara dia após dia, com pedidos estranhos em troca de bombons de chocolate. Não! Aquela mulher tinha apenas sombras distantes da rapariga que ele conhecera. Era forte, fogosa, atrevida e divertida, capaz de encantar qualquer um. Os seus braços eram compridos, as suas coxas cheias, os seus seios firmes e as suas pernas longas. Toda a sua pele era pontilhada por um sem fim de sardas e sinais, que como estrelas, formavam pequenas constelações para quem as quisesse interpretar e ele culpou-se por uma fracção de segundo por nunca lhes ter prestado muita atenção. Antes de afastar aqueles pensamentos da sua mente de vez permitiu-se beija-la levemente, um beijo curto e delicado no topo da cabeça de Ginny.

"-Acorda Ginevra…"

Ela mexeu-se lentamente, levando as mãos à cabeça, os seus olhos pesados a piscarem muito lentamente.

"-Onde estamos?" – A sua voz saiu arrastada, presa pelo álcool da noite passada.

"-No chão da sala de chá."

"-O baile…" – Murmurou, as mãos cobrindo-lhe os olhos, rolando para o lado - "Que horas são?"

"-O sol já nasceu se é isso que queres saber."

"-Oh não! A minha mãe deve estar preocupada." – Tentou levantar-se mas as dores de cabeça e as tonturas não lhe permitiram ir além da posição sentada.

"-Fica quieta." – Aconselhou – "Tenho de descobrir uma forma de te levar para casa."

"-Aparata comigo."

"-E correr o risco de nos dividir num milhão de pedacinhos? Não obrigado. Chave de portal e flu também estão fora de questão."

"-E isso deixa-nos…"

"-Deixa-nos sem meio de sair daqui sem correr riscos."

"-Mas eu preciso de avisar os meus pais."

"-Não te preocupes, mais um par de horas e um café forte e estarei pronto para aparatar contigo."

Ela murmurou qualquer coisa incompreensível e levantou-se, cambaleante, caminhado até ao cadeirão mais próximo. Draco seguindo-lhe o exemplo ergueu-se, ajeitou a camisa e a gravata e caminhou até à porta.

"-Vou ver se encontro café… e algo para comeres."

"-Obrigada."

Ele não demorou a voltar, carregando consigo um tabuleiro pequeno.

"-Foi tudo o que consegui, café e sumo de abóbora."

"-Está óptimo."

Deixou-se afundar mais no cadeirão, a chávena de café fumegante presa entre as suas mãos.

"-Eu disse alguma coisa errada ontem? Fiz algo que não devia?" – Perguntou embaraçada.

"-Porquê a pergunta?"

"-Estava a dormir em cima do teu peito… tinha de perguntar…"

"-Não foi nada de que o Potter se orgulhasse."

"-O que é que aconteceu? Oh! Por Merlim não me digas que eu, que nós…!"

"-Calma Ginevra, era uma piada. Não aconteceu nada."

"-Então como é que nós…"

"-Como é que fomos parar ao chão?" – Ela assentiu – "Tu levantaste-te para me mostrar que não estavas bêbeda e caíste de cara no chão e eu apenas te fiz companhia. Como acabaste a dormir em cima de mim também não faço ideia."

Ela suspirou de alívio, voltando de novo a sua atenção para o café quente e forte. Na sua mente ainda cruzavam imagens do que podia ter sido uma noite repleta de erros com Draco.

"-Tens a certeza que não aconteceu nada?" – Perguntou confusa.

"-É isso que achas de mim?" – O seu tom beirava a irritação – "Um homem qualquer que se aproveita de mulheres comprometidas e bêbadas?"

"-Não, não quis dizer isso, só…"

"-Mas foi o que disseste Ginevra."

"-Desculpa Draco. Não era isso que queria insinuar. Só… eu não sei… estou confusa, não me lembro de nada…e… eu… eu nunca mais volto a beber!" – Completou fazendo-o soltar uma gargalhada trocista.

"-Não sejas desmancha-prazeres! A bebida deixa-te muito mais divertida. E não te preocupes, não traíste o teu precioso Potter esta noite, nem comigo nem com ninguém."

Ela suspirou, o alivio a invadi-la e a substituir o medo e o stress que sentia há momentos antes.

"-Como está a tua cabeça?"

"-Melhor…"

"-E achas que consegues aparatar apoiada em mim?"

"-Se me segurares com força não será um problema."

"-Tens a certeza? Não quero aparatar e perder-te em milhares de pedacinhos."

"-Eu estou bem. Leva-me até à mansão para recolher as minhas coisas e depois para a minha casa."

Draco ergue-se, apanhou o seu casaco e as sandálias da ruiva do chão e segurou-a pelo pulso levantando-a em seguida com um puxão gentil.

"-Agarra-te com força Ginevra, não quero chegar à mansão a segurar apenas o teu braço."

"-Não te preocupes, estou bem." – Entrelaçou o seu braço no dele com a maior força que conseguiu. A última coisa que desejava era desfragmentar-se no espaço e no tempo ficando perdida em pequenos pedaços para sempre.

Para seu alívio Draco conseguiu fazê-los aparatar tanto na mansão como na Toca completamente inteiros.

"-Obrigada Draco, pelo convite, pela noite e pela ajuda na aparatação."

"-Fiz a tua noite valer a pena?" – Ela assentiu – "Isso é o que interessa."

"-Queres entrar? Dizer olá aos meus pais?"

"-Vou ter de dispensar, até porque já tens quem olhe por ti." – Disse apontado vagamente para um ponto atrás da ruiva.

Ginny voltou-se só para ver Harry a correr na sua direcção.

"-Ginny!" – Gritou o moreno.

"-Tem um bom dia Ginevra." – Desejou beijando-lhe a face delicadamente, o tempo suficiente para irritar Harry – "Até outro dia."

"-Até…" – Murmurou para si depois dele ter aparatado.

"-Ginny!" – Chamou de novo, segurando-a pelos ombros assim que estava perto o suficiente – "Estávamos preocupados! Saíste ontem para uma festa do Malfoy, julgámos que ele … bem… não interessa." – Impediu-se de iniciar uma nova discussão sobre o Malfoy – "Estávamos preocupados."

"-Eu estou bem Harry…" – Respondeu deixando-se escorregar para o abraço que ele lhe oferecia – "Bebemos um pouco e preferimos não aparatar."

"-Estás linda…"

Agradeceu o elogio murmurado ao seu ouvido e deixou-se ficar no calor confortável dos braços dele. Era tudo o que precisava para esquecer o álcool, a dor de cabeça e a ressaca.

. . .

"-Farta?"

"-Um pouco, mas encaro outra se formos rápido."

"-Vamos fazer uma pausa, beber uma cerveja amanteigada quente e afastar este frio."

"-É uma óptima ideia." – Respondeu deixando-se abraçar por ele – "Nunca pensei que procurar casa fosse tão difícil."

"-É apenas o primeiro dia."

"-Gostava de ter começado antes, mas os treinos estão cada vez mais frequentes e intensos. Pensei que não me dariam uma pausa antes do Natal."

Sacudiu a neve dos ombros e dos cabelos antes de entrar no 3 Vassouras, acompanhada de Harry. Já tinham combinado aquela pequena expedição em busca de casa havia várias semanas, mas com os treinos dos Puddlemere a ocuparem todos os seus dias acabava por ser difícil encontrar momentos em que ambos estivessem livres de compromissos profissionais.

"-Decidi que não quero viver aqui."

"-Porque não? Hogsmead é um povoado agradável, com todo o comercio que possamos precisar."

"-Por isso mesmo. Gostava de algo mais reservado, isolado."

"-Como a Toca?"

"-Exactamente como a Toca. Não me consigo imaginar a viver no meio da confusão, aprecio demasiado o silêncio da Toca para viver de outra forma."

"-És capaz de ter razão, um local como a Toca seria ideal. Principalmente para as crianças."

"-Crianças?" – Perguntou confusa.

"-Não queres ter filhos? Com uma família tão grande sempre achei que…"

"-Sim, quero ter filhos. Nunca pensei que tu quisesses…"

"-Estás a brincar? Ainda é cedo, somos novos, mas quando chegar o tempo certo quero meia dúzia de crianças ruivas a correr em todas as direcções." – Respondeu beijando-a apaixonadamente.

"-Vamos precisar de uma casa enorme…" – Comentou divertida.

"-Com um jardim enorme para jogar Quidditch."

"-E uma sala suficientemente grande para os jantares com a família Weasley toda."

"-Posso falar com um colega meu do Ministério, a mulher dele trabalha no ramo imobiliário, talvez ela conheça o sítio ideal para nós."

"-Óptima ideia…Que horas são?"

"-Horas de ires." - Disse com pesar – "Mantendo este ritmo nunca vamos ser capazes de ter filhos sabes?" – Disse fazendo-a rir – "É sério, estou com saudades tuas."

"-Eu também. Prometo que me vou esforçar para chegar cedo hoje."

"-Se o teu treinador o permitir…"

"-Se eu não me despachar a tempo hoje prometo que passo o fim-de-semana todo contigo."

"-Não tens treino este fim-de-semana?"

"-Não, vão dar-nos dispensa antes do Natal. E eu vou aproveitar o tempo todo contigo."

"-Óptimo."

"-Preciso de ir…" – Beijou-o demoradamente contrariada por ter de partir – "Eu juro que te compenso depois."

"-Espero por isso. Encontro-te na Toca?"

"-Sim, espera por mim." – Pediu.

"-Vou esperar."

Aparatou no estádio dos Puddlemere, só para encontrar o vestiário feminino vazio – o treino já tinha começado. Trocou de roupa rapidamente pegou na vassoura e correu para o campo. Os seus colegas de equipa já faziam uma série de exercícios seguindo as ordens do treinador.

"-É a segunda vez este mês Ginny! Sabes que não podemos treinar sem ti e mesmo assim continuas a chegar atrasada!"

"-Peço desculpa treinador. Não vai voltar a acontecer."

"-É bom que não!"

Elevou-se no ar contente por sentir a liberdade que o voo lhe proporcionava. Adorava voar no Inverno para sentir o frio e a neve a gelarem-lhe a face.

"-Simulação número treze!" – Gritou o treinador.

Ginny sorriu, gostava particularmente daquela simulação. Nela a equipa jogava aplicando toda a sua força no ataque, com os beaters e os keepers organizados de forma a baralhar a equipa adversária e tendo o seeker o papel mais divertido do jogo. Ao contrário do que seria de esperar não era suposto concentrar os seus esforços em localizar a snitch e capturá-la. Em vez disso a sua função era distrair o seeker adversário executando uma série de manobras e descidas perigosas simulando a busca da snitch.

Treinou as suas descidas em espiral e os mergulhos directos perto dos postes de marcação. Estavas prestes a iniciar um voo rasante e particularmente difícil sobre as bancadas quando algo prendeu a sua atenção.

"-Draco…?" – Murmurou para si própria.

Aproximou-se mais um pouco e percebeu que era realmente Draco sentado numa das bancadas mais altas do estádio. Ele observava-a concentrado e acenou levemente com a cabeça quando Ginny lhe sorriu.

Posou ansiosa no relvado assim que o treinador deu sinal.

"-Foi um bom treino equipa. Ginny, tens de trabalhar mais as subidas em zig-zag e os desvios para a esquerda. Susan, mais atenção ao teu lado esquerdo, continuas a executar rebatimentos só para o lado direito. Chambers, Davies e Gorgovitch, preciso de mais rapidez e precisão e menos improvisação na hora de passar a quaffle. Amanhã quero-vos cá meia hora mais cedo e isso inclui-te Ginny!"

"-Sim Sr."

"-Descansem bem esta noite. Estão dispensados."

Ginny utilizou a sua Nimbus 2001 para chegar ao topo das bancadas mais depressa.

"-Não me avisaste que vinhas!"

"-É uma das premissas de uma surpresa, não revelar detalhes sobre ela."

"-Foi uma surpresa agradável."

"-Ainda bem que gostaste."

"-Já começava a estranhar a tua falta de comunicação. Contava com um desafio antes do Natal."

"-Não tenho um desafio para ti mas tenho os teus bombons." – Disse passando-lhe uma pequena caixa branca, que ela tão bem conhecia.

"-Obrigada. Adoro quando mos ofereces."

"-Eu sei."

"-Mas conta-me! O que te traz por cá?"

"-Vim ver como se estava a sair a mais nova seeker dos Puddlemere. Queria ter vindo ao jogo de abertura da temporada mas surgiu um imprevisto com o negócio."

"-Não tem importância. Vens como convidado especial ao nosso encontro com os Falmouth Falcons, este Natal, que reverte para o St. Mungos. O que achas?"

"-Acho que é melhor apanhares a snitch e me dedicares o jogo."

"-Fica combinado." – Disse com um sorriso.

"-E como vai o Potter?"

"-Não vais começar com os teus comentários, pois não?"

"-Foi uma pergunta inocente Ginevra."

"-Vai bem… Na realidade está à minha espera."

"-Na realidade não está!"

"-O que queres dizer com isso?"

"-Quero dizer que ele está aqui." – Respondeu apontando – "E se queres que te diga não me parece muito satisfeito."

Draco tinha razão, as feições de Harry contorciam-se numa expressão de raiva. No entanto, no momento em que o moreno falou a sua voz soou calma e controlada.

"-Pensei que tínhamos combinado na Toca assim que terminasse o treino."

"-E combinámos. Ia sair agora mesmo."

"-Parecias demasiado envolvida na conversa para quem estava prestes a ir embora."

"-Mas ia. E agora que chegaste não há porque ficar aqui mais tempo."

"-Ele aparece aqui muitas vezes?" – Perguntou bruscamente.

"-Não, na realidade é a primeira vez que o Draco me visita."

"-Porque se ele te tivesse visitado antes explicaria o facto de chegares sempre tão tarde e nunca teres tempo para estar comigo."

"-Dificilmente seria eu a atrasar a Ginevra sendo que a última vez que a vi foi no Baile de Beneficência do St. Mungos."

"-Eu estava a falar com a minha noiva, se não te importas." – Disse colérico.

"-Claro Potter. Ginevra, se não te importas, eu vou ter de ir. Envia-me o dia e a hora do jogo quando puderes."

"-Claro. Falamos depois." – Esperou que Draco aparatasse para se voltar para Harry – "Não precisavas de ser rude."

"-Ginny, rude é o melhor que eu consigo fazer quando encontro a minha noiva a falar com um Malfoy quando deveria estar comigo."

"-O Draco apareceu e conversámos por uns minutos, nada mais."

"-Eu não quero saber, não quero discutir mais. Estou cansado…não quero perder o nosso tempo com discussões."

"-Ainda bem…" – Murmurou-lhe ao ouvido, passando os braços em torno do pescoço dele – "Porque eu estou cheia de saudades e pensei que podíamos sair para jantar e depois…"

"-E depois?"

"-Tu sabes o que vem depois." – Completou num tom sugestivo que fez o moreno sorrir e esquecer o seu surto de raiva.

. . . END OF PART THREE . . .


N/A:

Este capítulo era para ser monstruoso mas percebi que era grande de mais para ser lido de uma vez só e que em vez de lerem com atenção tudo só saltariam de parágrafo em parágrafo em direcção ao final!

Assim as 55 páginas deste capítulo foram divididas para formar um novo capítulo que tenciono MANTER SEQUESTRADO até que me PAGUEM UM RESGATE EM REVIEWS!

Estou a brincar!

Tenciono postá-lo assim que tiver uma pausa das confusões e trabalhos da faculdade!

Agradecimentos rápidos à Jamelia Millian, à Helena Malfoy, à Veronica D. M, à Katie Christensen, à Ara Potter e à Rebeca Maria (já te disse que adoro receber as tuas reviews, não disse? Deixam-me sempre mais inspirada! Desta vez até comecei uma fic nova! Rebeca Maria e a sua arte obscura de fazer os outros escrever!)

Quero PEDIR DESCULPAS às pessoas que são susceptíveis a CENAS H/G e avisar que eu própria NÃO TENHO NENHUMA LIGAÇÃO SENTIMENTAL COM ESSE SHIPPER – todavia é um mal necessário para o desenvolvimento desta fic!

Aqui fica uma pequenina PREVIEW do último capítulo da fic – PART FOUR:

« As ruas estavam agora vazias para além deles e iluminadas apenas pelas estrelas, a lua cheia e um par de candeeiros velhos.

"-Porque é que nunca me beijaste?" – Perguntou a certa altura, afastando a sua testa do ombro dele para lhe fixar os olhos cinzentos.

"-Porque nunca o quis fazer Ginevra." – Disse num tom condescendente, como quem explica algo a uma criança.

"-Porquê?"

"-Porque nunca aconteceu Ginevra."

"-É porque eu sou uma Weasley?"

Espero que se tenham divertido tanto a ler este capítulo e que se divirtam com o próximo como eu me diverti a escrevê-los!

BOAS LEITURAS e BOAS REVIEWS! Beijos Grandes!

Kika Felton87

22/10/2008