Cap 3 Contraste

Lembro-me bem de quando Shaka chegou neste Santuário... um loirinho miúdo e calado, em principio pensei que ele falasse pouco por não saber bem o Grego, mas depois percebi que era parte da personalidade dele mesmo. Havia outros além de nós Doze, mas eles iam desistindo, deserdando, e se perdendo ao longo do caminho, e mesmo dentre nós havia aqueles que são um pouco mais velhos, como é o caso dos Gêmeos, de Shura e de Aioros...

O caso é que Shaka era por natureza reservado e distante, e eu me aproximei, aos poucos quebrei um pouco da reclusão dele. Logo tínhamos uma sólida amizade, que persiste até hoje... chamam-me Mu de Áries, o Guardião da Primeira Casa Zodiacal.

Os treinos aos quais éramos submetidos eram quase desumanos, tínhamos de fazer com que nossos corpos suportassem o Cosmos que nós explodíamos dentro de nós, e isso era um processo árduo. No entanto nossos Mestres sabiam que por mais poderosos que fossemos, e por maior que fosse nosso potencial, éramos meninos! E vez por outra nos era permitido emular uma infância, mas Shaka não se permitia farrear pelo Santuário na companhia dos outros meninos, ele se reservava e se auto impunha treinos exaustivos e estudos incessantes... obstinado... essa é a palavra que eu usaria para defini-lo nesta época... aos dez anos de idade Shaka decidiu fechar seus olhos... e raramente os abria, eu lembro bem dele tropeçando nas coisas, ralando os joelhos e cotovelos nos tombos que tomava por não ver os obstáculos a sua frente, eu o ajudei a aprender a andar sem ver, contava os degraus que separavam cada Casa para que ele pudesse subi-los, e lhe dizia a localização das coisas, ninguém acreditava que ele levaria adiante essa idéia, mas eu sabia que Shaka não voltaria atraz, e que iria realmente aprender a viver como um cego por escolha própria...

-Mas seus olhos são perfeitos! De todos nós talvez sejam os seus olhos os mais aguçados! Por que fechá-los assim, amigo? – eu perguntava preocupado enquanto o ajudava a se erguer depois de ter tropeçado em um banquinho de madeira que Mascara da Morte pusera na sua frente de propósito.

-Já viu o poder de minha Mestra? Já viu o poder das mulheres deste lugar? Elas se privaram daquilo que lhes é mais precioso para obtê-lo, privaram-se da Feminilidade ao colocar aquelas Mascaras nos rostos, e até mesmo uma Amazona de Bronze é perigosa para um Dourado, por que possuem poderes que nós homens não compreendemos. Se para obtermos um grande poder eu precise me privar de algo que me é caro, que seja, afinal imagine quão útil poderei ser para Athena, e quantos não poderei ajudar com um grande poder nas mãos!

Até hoje essas palavras me espantam, éramos tão meninos e Shaka já era mais sábio que muitos adultos... e ele de fato privou-se da visão, apenas abria os olhos para ler na Biblioteca de Athena, e nada mais... os poucos oponentes que o fizeram abrir os olhos morreram tão rápido que nem mesmo Caronte teve tempo de percebê-los chegando ao Estige... vez por outra ele e eu treinávamos juntos, mesmo depois de recebermos nossas Armaduras Douradas, Shaka sempre dizia que nunca era o suficiente treino e estudo, pois o Universo tem infinitas coisas para aprendermos... eu me perguntava se isso era realmente suficiente para fazê-lo feliz... por que para mim pelo menos, faltava algo...

Certo dia Shaka entrou em minha Casa como um furacão! Quem o visse juraria que uma Guerra Santa havia começado ou que ele descobrira o Segredo da Vida!

-Mu! Mu, meu amigo! Hoje vi algo fantástico! – Ele pousava as duas mãos em minha mesa e me encarava com aquele olhar cego, de olhos cerrados, seus cabelos estavam levemente desalinhados o que indicava que ele havia corrido, assim como sua respiração levemente alterada confirmava isso...

-Descobriste o Sentido da Vida amigo? Acalma-te! Senta-te e conta-me. – ele sentou-se e por instantes calou-se, harmonizou a respiração e acalmou o coração, bebeu um copo de água num longo gole, e depois pôs-se a falar com a habitual serenidade que eu à anos conhecia.

-Se lhe disser que descobri uma mulher mortal que virou Deusa, o que me diz?

-Não lhe basta ser "O mais próximo de Deus" agora tenciona ser Deus amigo?

-Não zombes de mim, Carneiro, sabe bem que não é isso... – ele me encarava sereno com aqueles olhos fechados que bem sei, enxergam mais do que muitos olhos abertos que conheço, sabia que ele não se ofendera com minha brincadeira, e me pus a pensar nas palavras dele, que pacientemente esperava minha resposta.

-Está me dizendo que uma Mulher Mortal, filha de pais Mortais, se tornou Deusa? Uma Deusa Olímpica? - Acredito ter dado certa ênfase nas palavras Mortal, Mortais e Deusa.

-Não não, uma Deusa Helioconde, uma Musa...

-Ora Shaka! Isso é espantoso! Qual delas seria? Se bem me lembro nos ensinaram que eram todas irmãs de Athena, filhas de Zeus e Mnemósine...

-Belavoz, Tália, Glória, Hinária, Celeste, Alegracoro, Amorosa, Dançarina e Festiva são de fato filhas de Zeus e Mnemósine, me refiro á outra Musa... me refiro a Sapho de Metilene a Musa da Erotika, filha de pai e mãe Mortais, portanto tão Mortal quanto eu ou você, ela se tornou Deusa... e fez isso em vida! – Shaka falava calma e pausadamente mas deixou as palavras "em vida" bem demarcadas... fiquei maravilhado com esta informação. Quem não ficaria? Afinal as Musas são legítimas irmãs de Athena é filha de Zeus e de Mnemósine antes do casamento do Senhor dos Raios com Hera...

-Seria este o motivo de Zeus ter nomeado Athena Guardiã da Humanidade ao invéz de Aphrodite? Por que dentre nós mortais veio uma de suas irmãs?

-É uma ótima teoria, amigo, claro que puramente especulativa, mas ainda assim válida... isso seria uma nova ótica sobre a origem de nós Cavaleiros também... compreende a maravilha desta descoberta?

-E que mais se sabe sobre esta mulher que virou Deusa? – Eu tinha legitimo interesse e Shaka retirou umas folhas de papel enroladas que ele havia posto presas em seu cinto de couro, estavam amassadas no local onde o couro as apertou contra o corpo dele, mas perfeitamente legíveis com a letra do Santo de Virgem... eu passei meus olhos ali e pude ler vários poemas...

"Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,

queimando de amor; tu me trazes a paz."

Sapho de Metilene

"Lésbia nervosa, fascinante e doente,

Cruel e demoníaca serpente

Das flamejantes atrações do gozo."

Alceé de Metilene

'Contemplo como o igual dos próprios deuses

esse homem que sentado à tua frente

escuta assim de perto quando falas

com tal doçura,

e ris cheia de graça. Mal te vejo

o coração se agita no meu peito,

do fundo da garganta já não sai

a minha voz

a língua como que se parte, corre

um tênue fogo sob a minha pele,

os olhos deixam de enxergar,

os meus ouvidos zumbem,

e banho-me de suor, e tremo toda,

e logo fico verde como as ervas,

e pouco falta para que eu não morra

ou enlouqueça."

Sapho de Metilene

"Morrer é ruim

assim os Deuses decidiram,

senão eles também morreriam."

Sapho de Metilene

Eu li e reli os poemas algumas vezes, Shaka aguardava pacientemente, quando finalmente dobrei os escritos e os pousei na mesa ele falou com sua habitual calmaria...

-Eis a Musa... estes poemas são de sua autoria...

-Um aqui não é... tem o nome de um homem...

-Que fala sobre ela... este homem escreveu sobre ela coisas que você ficaria espantado amigo...

-Por que copiou esses poemas? Não sabia que gostava deste tipo de literatura...

-Pois gostei, sobretudo deste terceiro, se visse a imagem dela e lesse essas frases saberia por que meu encanto... – Em verdade Shaka estava encantado, ele pode não ter idéia disso, mas eu via nele um interesse diferente do habitual, e eu o conhecia desde os seis anos de idade, só lamentei que tamanha empolgação fosse dispensada á alguém intocável em uma pintura e em meia dúzia de palavras num papel...

Os anos se passaram e bem sei que ele ainda dispensava algumas horas na biblioteca onde no mais puro anonimato se permitia abrir os olhos e ler aqueles escritos que ele tanto gostava, podem imaginar minha surpresa ao ver meu amigo chegando do Santuário de Ares acompanhado de uma bela mulher ao findar a Guerra Santa contra Vênus Aphrodite? Eu senti seu Cosmo entrando no Santuário e fui ao seu encontro, eu puxava a perna devido á um ferimento que não havia conseguido tratar, e me escorava em meu discípulo Kiki, Shaka estava sentado em uma pilastra observando o trabalho dos outros, coisa que normalmente não acontece, pois o Virgem sempre foi solicito. Dispensei meu discípulo para que ajudasse nos trabalhos com os feridos...

-É bom vê-lo bem meu amigo... assim que eu estiver em condições começarei a consertar as Armaduras Douradas, a sua será a primeira, veja só o estado da sua Armadura!

-Ah Mu! Senta-te comigo e faz-me companhia, amigo...

Apesar dos olhos fechados ele encarava uma mulher ao longe que limpava uma enorme queimadura nas costas de Mascara da Morte, e por Athena que bela mulher era ela! Sei bem que embora para mim a distancia a fizesse uma figura muda em meio a tantas pessoas que passavam, para ele possivelmente era possível ouvir até mesmo o bater do coração dela.

-Quem é ela? – Perguntei pousando minha mão no ombro dele e olhando-o de cima á baixo procurando ferimentos, mas ele estava relativamente inteiro...

-Sapho...

Eu o olhei incrédulo, ergui uma de minhas sobrancelhas e cruzei os braços esperando que ele saísse do torpor que havia entrado, mas Shaka estava perdido em pensamentos... e eu sentei-me ao seu lado, o silencio se prolongou por alguns minutos, até que ele rompeu o silencio falando como se falasse mais para si que para mim, embora eu soubesse que ele se dirigia a mim.

-Ela saiu do papel não é... você também está vendo aquela mulher ali não está?

-Sim estou, muito bela por sinal...quem é ela amigo?

-Ela me enfrentou de igual para igual, em verdade acho que eu não seria capaz de vencê-la se ambos quiséssemos nos matar numa luta...

-Está me dizendo que aquela moça servia á Aphrodite? – ele assentiu com um menear de cabeça e eu deixei escapar um suspiro cansado conforme levava minha mão até cabeça jogando para traz meus cabelos, não conseguia entender o que se passava, Shaka estava estranhamente disperso, e não dizia coisa com coisa... – Shaka! Me responda, por que você à trouxe para cá? Alguém sabe que ela lutou contra você? – ele novamente confirmou com um menear de cabeça e falou com voz distante...

-Eu discuti com Shina à este respeito, ela disse que não fazemos prisioneiros e me deu a opção de matá-la ou deixá-la... mas eu lhe disse que ela seria minha convidada, mais tarde tive permissão de Athena para trazê-la...

Shaka me contou a história... de como ela lhe permitiu ver suas memórias e como fora estranha esta experiência, me contou tudo que viu e sentiu e eu só podia pensar que meu amigo havia enlouquecido...

-Não quer realmente convencer-me que esta mulher é Sapho...

-Pois lhe digo que é... eu a vi menina, a vi crescer, senti sua vida passar por mim numa vertigem maravilhosa...

Eu o encarei levemente chocado... era muita informação absurda de uma única vez, e o modo de falar de Shaka estava igual ao dia em que ele veio a minha Casa cheio daquelas poesias... ele então me tomou pela mão e se pôs a caminho da Biblioteca de Athena, eu andava com dificuldade e me doía muito os movimentos, mas Shaka estava tão ansioso e compenetrado que sequer notou que estava indo rápido demais...

Entramos na Biblioteca passando reto pelos Oficiantes que ali estavam, Shaka parecia conhecer bem o caminho por que se movia com tamanha destreza entre aquelas prateleiras altas que mais pareciam um labirinto de livros e tomos... chegamos então á uma porta de madeira que ele abriu com a mente de forma ríspida, e lá haviam muitas coisas, um pequeno tesouro de livros velhos, tapetes, quadros, pergaminhos, desenhos e outras antiguidades que eram estudadas pelos Oficiantes sob supervisão da Amazona de Sextante.

-Nós não deveríamos estar aqui não é? – minha voz estava pausada e calma mas meu corpo doía...

-Tenho permissão, Sibila me deu enquanto ainda era a Amazona... – Shaka estava parado á minha frente, ele me apontou a parede do fundo do aposento onde figurava uma pintura... e que pintura! Lhes digo que a mulher da pintura era a mesma que eu vira cuidando da queimadura nas costas de Câncer! Ela parecia olhar dentro de meus olhos como um felino, vestia um longo Kíthon negro que ia até os pés descalços mas estava solto nos ombros deixando os seios à mostra, a mulher da pintura segurava de forma displicente a Lira de Apolo, em verdade me dava a impressão de que à qualquer momento ela largaria a Lira e saltaria da pintura como um tigre...

-É a mesma mulher...

-É Sapho de Metilene... a Musa – eu via um sorriso discreto se formar no rosto de Shaka e meu olhar titubeava entre ele e a pintura tentando organizar os pensamentos... então era verdade o que ele me dissera!

-Por Athena, me diga que não estou louco Shaka... aquilo tudo realmente aconteceu... aquela mulher é realmente Sapho – ele assentiu com um meneio de cabeça e tocou a pintura com as pontas dos dedos... Shaka estava tão absorto na situação que pareceu esquecer-me, o Santo de Virgem estava abobalhado de uma maneira tal que não tive duvidas... Shaka de Virgem se apaixonara...

Não é segredo que censurei Athena, fui eu quem lhe disse que "O amor de Athena deveria ser para todos os seus Cavaleiros igualmente e não para um único", mas quando percebi a situação de Shaka não pude deixar de me compadecer... entendam que a primeira coisa que me veio a mente é que mesmo estando em carne neste Santuário, ela permaneceria inalcançável, mesmo para Shaka "O Homem mais próximo de Deus". Logicamente não lhe disse essas coisas, seria de uma maldade que não sou capaz... apenas pedi aos Deuses em silêncio que este encanto de Musa passasse...

Os dias que se seguiram não o deixaram menos disperso, ou menos ansioso... bastava a menção do nome da Musa para gerar uma ânsia muda no Santo de Virgem, e Athena concedeu asilo para Sapho em troca de que ela instruísse os jovens do Santuário... Claro que eu me preocupava com meu amigo, mas á esta altura, também se seguiam em minha vida certos acontecimentos, e acabei por me tornar um assíduo freqüentador da Biblioteca do Santuário, a diferença é que eu não ia pelos livros e sim pela responsável por eles... como todo bom Ariano sou um tanto teimoso quanto aos meus pontos de vista, mas uma certa Amazona me lançou uma nova ótica sobre certos assuntos, e fui obrigado a rever alguns conceitos... mas não é minha história que vocês vieram ouvir agora, por isso falarei de Yuri em outra oportunidade. Durante os treinos Shaka se tornou instável, ora disperso ora compenetrado de forma tal que precisávamos chamá-lo a realidade. E em pouco tempo aquilo que eu percebia devido à minha proximidade com Shaka estava óbvio para todos... Shaka de Virgem estava completamente encantado com a Musa... Certo dia ele simplesmente não quis mais continuar o treino, eu sugeri que ele fosse para seu templo e se banhasse demoradamente...

-Poderia me acompanhar por parte do caminho Mu? – eu assenti com um menear de cabeça que sabia bem que ele podia captar através dos ouvidos, joguei-lhe uma toalha e saímos do coliseu enquanto ele enxugava o suor do rosto...

-Você está disperso, algo lhe aconteceu e lhe tira o sono, pois tem o semblante cansado... – minha voz não escondeu minha preocupação, e ele deixou um suspiro vencido escapar antes de falar

-Se lhe disser que beijei uma mulher, e que desde este episódio não consigo parar de pensar em milhares de coisas e que acordo com o gosto do beijo na boca... iria rir de mim?

-Então deverias ponderar se isso não é um motivo á mais para alegrar-se do que para preocupar-se... se esta mulher lhe beijou ou permitiu-se ser beijada é sinal que nutre por ti alguma estima ou no mínimo uma afeição, e não deves permitir que isso seja negativo...

Shaka não disse mais nada até a Casa de Áries onde se despediu de mim e agradeceu-me com um sorriso sério no rosto... o dia que se seguiu á esta conversa não me foi menos espantoso.

Pela manha Shaka ainda estava disperso quando chegou em minha Casa, e o acompanhei até o Coliseu eu porém quebrei nosso silêncio com legitima preocupação

-Algo te atormenta e isso se nota á olhos vistos! – Shaka deixou um longo suspiro cansado escapar, como se acabasse de se dar conta de uma derrota...

-Amigo, diga-me... tem um mortal direito de se apaixonar por um Deus? – eu não respondi de imediato, Shaka não é um ingênuo, ele certamente havia ponderado cada aspecto possível antes de dizer-me cada palavra e se já admitia sua paixão é por que provavelmente tendia a render-se á ela...

-Se me perguntasse outrora diria que não... bem sabe o quanto censurei nossa Senhora Athena no passado com medo de que ela apenas sofresse em vão, mas agora as coisas assumiram outra dimensão... agora eu tenho noções que antes eu não tinha... - enquanto eu falava meus pensamentos convergiam para uma irritante Mascara prateada, mas tenham certeza da sinceridade de meus dizeres... - deixe-me perguntar... desde que descobriu este sentimento sua consideração por mim foi alterada meu amigo?

Shaka torceu o nariz contrariado, minha intenção não era ofender-lhe, mas queria mostrar da maneira mais simples possível que amar uma pessoa não significa deixar de amar as outras... eu aprendi esta lição recentemente também, e queria compartilhar isso com Shaka na esperança de trazer-lhe um pouco de paz...

-Ora mas que disparate é este? Sabes que não! – ele foi ríspido e taxativo, mas eu prossegui meu raciocínio...

-E quando vestiu sua Armadura Sagrada sentiu-a pesar em seu corpo? – Para esta pergunta ele também não ponderou de imediato, mas queria que ele visse que seus deveres também não haviam sido prejudicados pelo sentimento que ele descobrira, o que prejudicava seu desempenho nos treinos e nas tarefas eram os próprio pensamentos dele acerca do assunto!

-Logicamente que não, a Sagrada Armadura de Virgem está como sempre esteve, Mu!

-E prejudicas alguém com este seu sentimento?

-Não vejo por que isso afetaria alguém além de mim e dela...

-Então qual o grilhão que te prende, Shaka meu caro? – eu continuei a andar mas percebi que Shaka ficara para traz, provavelmente ele se dera conta de minhas palavras apenas neste momento, ao ouvir a própria voz respondendo o que ele esperava ouvir de mim... eu só parei para cumprimentar Aldebaran que enxugava o rosto suado numa toalha e ria com sua voz portentosa com seu habitual bom humor... Sapho estava sentada na arquibancada com meia dúzia de jovens discursando sobre Moral e Ética, e o Grande Touro estava me contando como gostava de vê-la ensinar... foi quando Shaka passou por nós em desabalada carreira... Juro-lhes que ele parecia ter voltado aos dez anos de idade, quando ainda estava aprendendo a viver com os olhos fechados, pois trombava e esbarrava nas coisas e pessoas, completamente perdido e verdadeiramente cego pela primeira vez em anos... era como se em sua ansiedade os outros sentidos estivessem amortecidos. Ele quase derrubou Shura num esbarrão que nem se deu ao trabalho de importar-se, então ele parou, e todos pareceram entrar num consenso de silencio para que Shaka em sua cegueira pudesse se achar... ou melhor localizá-la... Shaka a segurou pelo braço e Milo ao meu lado deixou o queixo cair...

-Ooh Carneiro... está vendo o que eu vejo? Shaka de Virgem abordando uma mulher assim no meio do Coliseu... – O Escorpião falava entre o divertimento e o espanto...

-Shhhhhh fica quieto inseto, isso não é da nossa conta... deixa a Cobra saber que você se interessa tanto assim com o que acontece com as mulheres no Coliseu - Afrodite retrucou dando-lhe um tapa na nuca que eu gostei muito de ver... e tenho a impressão de que o Peixe olhou para a cena com certa cumplicidade... mas isso não vem ao caso. Eu pude ver ele soltá-la de forma desajeitada e envergonhada, conforme Shaka voltava para perto de nós os cochichos diminuíam e ia se formando um gélido silêncio, eu pousei minha mão no ombro dele e me permiti concluir em voz alta o suficiente para que ele ouvisse claramente...

-Parece que resolveu esquecer os Grilhões amigo... – Shaka me deu um sorriso involuntário em resposta, e eu me dei por satisfeito com isso, já Milo estava fazendo suas piadinhas... algo sobre sempre ter achado que Shaka era como Afrodite, não precisei me importar com isso, já que Aioria e Mascara da Morte se importaram por mim e por Shaka... mas é engraçado ouvi-los ralhar entre si...

O treino deste dia correu bem, muito bem por sinal, meu amigo parecia ter redobrado a vontade de exercitar-se... em partes isso é por conta da ansiedade que ele sentia. Quando paramos para descansar ele já estava mais calmo, mesmo assim eu percebia a ansiedade de ver o tempo passar...

-Mu...

-Hum... – eu enxugava o suor de minha testa quando ele chamou-me, a voz serena e distante tinha um tom diferente do habitual, talvez devido ao esforço de controlar a ânsia que tentava tomá-lo...

-Eu pedi que ela me ouvisse, disse-lhe que temos de conversar...

-E a julgar pelo seu modo de agir desde então ela aceitou, não estou certo?

-Me ajuda a descobrir algo? – eu fiquei curioso com o pedido, admito isso, assenti com um menear de cabeça no mesmo instante e Shaka prosseguiu – Quero saber quem foi Trivio, de quem Sapho me falou certa vez, na verdade eu estou pensando nas palavras dela o tempo todo, e essa é uma que desconheço... podes me ajudar?

No mesmo instante me pus a caminho da Biblioteca de Athena, se havia alguém que poderia responder-lhe esse alguém era Yuri ... a Amazona de Sextante...

Ao chegarmos na Biblioteca ela parecia nos aguardar, fiquei feliz com isso...

-Senti seu Cosmo se aproximando – Yuri me disse com uma voz que não escondia uma ponta de contentamento.

-Por gentileza, não quero atrapalhar seus afazeres, mas necessito saber sobre Trivio... podes ajudar-me, Sextante?

Yuri se espantou, isso foi claro, mas não se recusou a ajudar, em momento algum questionou o porque do interesse de Shaka por este Trivio, e o atendeu com toda sua dedicação e sua gentileza... eu me perdi um pouco observando-a auxiliar Shaka no meio dos tomos que ela tirava daquele quarto onde a pintura de Sapho se encontra... depois de um tempo Shaka pôs-se a ler algumas coisas indicadas por ela e eu finalmente tive sua atenção...

-Seu Amigo está mudado... – eu estava encostado na mesa com os braços cruzados esperando

-E como sabe disso? – eu sabia que ela olhava para Shaka enquanto se sentava na mesa ao meu lado, cruzando as pernas e soltando os longos cabelos que até então ela mantivera presos...

-Por que vejo nele uma mudança parecida com a que você passou...

-Pode ser, mas Shaka não tem uma Mascara de Prata para assombrar-lhe os sonhos...

-Tudo á seu tempo meu Carneiro... – Shaka enrolou o tomo na mesa erguendo a cabeça já com seus olhos fechados, eu mesmo não via a cor daqueles olhos á tantos anos que já não me lembrava que cor era, Yuri de um salto foi até ele... eu também me juntei à ambos.

-Meu amigo... Trivio é um Deus esquecido, um Deus que perdeu a fé e não pode mais acordar.

-E isso lhe é de alguma serventia? – eu sentei-me na beira da mesa e propositadamente pousei minha mão na de Yuri, ela não recuou, e Shaka estava tão compenetrado no assunto que não percebeu, ou se importou...

-Bem, Trivio foi esquecido o que significa que é pouco mais que nós Mortais ou talvez até como nós. Destituído de sua Divindade, mas ela é uma Musa... não pode ser esquecida...

-Enquanto houver uma pessoa cantando Belavoz terá força, pois é a Musa que protege os cantores, é este o raciocínio não é? – Yuri havia pego o raciocínio de Shaka bem antes de mim, e as palavras dela me fizeram pensar em Sapho... a Musa da Erotika...

-Shaka, se seguirmos por este raciocínio, Sapho não será esquecida enquanto houver gente neste mundo, não entendo por que você quer se torturar com estas idéias...

-Por que elas dão para o "Mais próximo de Deus" a idéia de sua pequenez...

Shaka se levantou pegou os tomos em suas mãos e os guardou de volta á sala de Yuri, nos agradeceu e saiu, eu não pude ficar parado, não pude simplesmente ver meu amigo sair convencido de que aquela minha idéia estúpida de que um Mortal não tem direito de se apaixonar por um Deus era real... eu o segui rápido e o parei na porta da Biblioteca de Athena.

-Shaka o que vai fazer?

-Não sei, talvez passar um tempo na Sala das Arvores Gêmeas recuperando minha razão...

-Acovardando-se você quer dizer? – eu o encarei sério, e bem sei que aqueles olhos fechados dele não o impediam de saber isso...- Shaka se aproximou de mim com a respiração pesada de quem controla a raiva, eu o deixei muito irritado com meu comentário... sei disso.

-O que você sabe sobre o que eu estou passando Mu? – Shaka falava entre dentes e eu podia sentir a ira que ele tentava conter...

-Mais do que imagina, e muito mais do que gostaria, amigo - eu espalmei minha mão no peito dele afastando-o de mim e prossegui, sequer percebi a presença de Yuri – És um Santo alienado, que sabe muita teoria mas nada sobre a prática, estudou tanto o sofrimento Humano mas é a primeira vez que você resolveu se importar com algo de verdade não é? Dói ver algo que você quer e mesmo vendo-a tão perto senti-la longe como as estrelas no céu não é? Me diga se estou errado Shaka, mas nós somos Cavaleiros Dourados, e nós fazemos Milagres acontecerem... fomos até onde ninguém foi, e derrubamos o Muro, agora você pode lutar pelo que você ama ou fugir.

-E como pensa que posso lutar, não use Eufemismos românticos para me dizer que essa loucura tem sentido para você Mu!

-Essa Loucura que você diz, é natural, tão natural que deve ser estranho para nós que rasgamos os céus com os punhos e abrimos a terra com os pés, se é para usar os termos que aprendemos com nossos Mestres.

-Somos um piscar dos olhos de um Deus meu amigo... nada mais que isso...

-Então não perca tempo, já que você tem tão pouco disponível. Se é pra ser um instante, que seja o instante mais bonito...

Shaka esboçou um sorriso no canto da boca, ele tinha a atenção focada em algo, mas eu sabia que ele ouvira cada palavra que eu disse... me deu um abraço e um tapa leve nos ombros, e pude ouvir ele falar baixinho

-Você disse isso tudo para mim, mas acho que serve de lição para nós dois, não perca seus instantes Carneiro, ela também ouviu cada palavra...

De fato Yuri estava lá, eu não havia percebido até então, mas Shaka com sua audição aguçada sabia, e também eu não me importava em dizer aquelas coisas perto dela, Eu observei meu amigo ir em direção ao pathernon e pedi á Athena que zelasse por ele, já Yuri... pude sentir os braços dela me envolverem e ela recostar a cabeça nas minhas costas. Depois disso Shaka e Sapho se acertaram, ou pelo menos estão tentando fazer isso mesmo com o contraste que um é do outro. E se antes eu me perguntava se meu amigo era feliz naquela vida de treino obstinado e espiritualidade exacerbada, hoje acho que sei que sim, ele até podia ser feliz, mas era incompleto, acho que entendi um pouco que a felicidade não está no outro, mas na forma como nós nos permitimos lidar com ele, apesar de me sentir sozinho, sei que de fato eu nunca estive, e encontrar Yuri não mudou este fato, apenas me fez ver com mais clareza... por isso acho que Shaka agora esteja verdadeiramente "Mais próximo de Deus" por que a distancia entre um Santo e uma Lésbia pode não ser tão grande quanto parece...