Tributo aos esquecidos
Quando o sonho acaba e a morte chega, um ruído enigmático nos chama para o escuro, mas algo nos puxa pra luz, e a solidão se dissipa.
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Para proteger o Rei
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"For one so small, you seem so strong. My arms will hold you, keep you safe and warm"
(Para alguém tão pequena, você parece tão forte. Meus braços te abraçarão, manterão você segura e aquecida.)
(You'll Be In My Heart - Phil Collins)
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Asuma lançou um olhar despreocupado a Kurenai, que acariciava o ventre com delicadeza. Ela sorria.
O ninja se aproximou e sorriu quando apagou o cigarro e pôs a sua mão sobre a dela, esperando por uma notícia que até conseguia avinhar no embalo de seus pensamentos.
- Estou grávida.
Era maior que o som do grito vitorioso depois de uma missão ranking S, maior até que sua honra ninja, maior que ele mesmo. Asuma estava trêmulo, pálido, preso a uma felicidade irradiante e gigantesca que deixava todo o seu corpo em choque. Duas palavras, duas pequenas palavras o levaram a um paraíso jamais imaginado por ele.
- Deus! É mesmo?
Seu sorriso tão presente estava maior, mas seus olhos denotavam uma preocupação mínima que ia aumentando gradativamente, encolhendo-se depois, porém os orbes espertos da mulher ruiva à sua frente podiam notar toda aquela angústia.
- Não ficou feliz?
- Sim! Sim, eu fiquei! Eu... Eu nunca estive tão feliz antes! – ele não mentiu.
- Mas há algo em seus olhos que não é felicidade.
Asuma tocou o rosto branco e macio da esposa e, num gesto delicado, a beijou. Prendeu-a em seus braços fortes e a manteve ali por tempo suficiente para convencê-la de que ele de fato estava feliz. Ela o proporcionara a notícia mais feliz de toda a sua vida, mas a vida estava lhe jogando para outro destino e ele inconscientemente sabia disso.
- Eu te amo, Kurenai.
Uma gotícula salgada uniu-se as pálpebras da mulher que segurava com força os ombros fortes a lhe abraçarem. Ela também o amava e não cansava de dizer isso.
"Eu te protegerei de tudo ao seu redor. Eu estarei aqui, não chore."
- Você parece tão distante – reclamou ela, antes de secar o rosto.
- E você parece tão aflita.
- Não deseja esse filho, Asuma?
Como ele poderia responder a uma pergunta tão dolosa? Sem magoá-la, sem ser grosso ou frio? Era uma pergunta estúpida acima de tudo. Ele jamais repudiaria um filho que viesse da mulher que amava. Jamais repudiaria o fruto daquela mulher. Pois ela era sua e ele pertencia a ela.
- Não seja estúpida – sorriu, mesmo querendo ser rude. – É o nosso filho. Como eu poderia não desejá-lo?
"Este laço entre nós não pode ser quebrado, estarei aqui."
Kurenai pulou em seus braços e suspirou, aliviada e chorosa – não chore –, beijou os lábios de seu amado e jurou-lhe amor eterno.
Fizeram amor mais uma vez, antes de ele, em silêncio, sair de casa para jogar xadrez com Shikamaru. Enquanto se amavam, ele sussurrou seu nome por diversas vezes, sussurrou declarações de amor, sussurrou seus sonhos, seus desejos. Entregou-se a ela, completamente.
- Veja, Shikamaru, eu sou representado por esse peão, e você... esse cavalo.
Ao fim do jogo, uma metáfora complicou até a mente brilhante do gênio Nara Shikamaru: quem era o rei no jogo de xadrez que era Konoha?
- Os peões se sacrificam para proteger o Rei – disse Asuma, entre uma baforada e outra do seu cigarro.
- Quem é o rei?
Shikamaru era jovem demais para saber tal coisa. Mas o tempo a curto ou longo prazo o ensinaria.
Num anoitecer acolhedor, Kurenai laçou Asuma entre os seus braços e apaziguou o coração palpitante do ninja. Ele não estava com seu tão presente cigarro em mãos, nem sequer o cheio de tabaco estava em seus dedos. Apenas um olhar distante acolhido pelas mãos suaves de sua kunoichi favorita.
- Ser um shinobi é difícil às vezes – comentou, entrelaçando seus dedos nos dela. – Seria mais fácil abandonar o meu posto de jounin e virar um comerciante. Seria melhor para o nosso filho.
"Eu sei que somos diferentes, mas dentro de nós não somos tão diferentes assim."
Kurenai sorriu. Entendia aquele sentimento, mas não achou justo que Asuma, assim como ela, decidisse abandonar o seu posto de capitão para ser um pai de família.
- Você não precisa abrir mão de nada para ser pai – declarou finalmente. – Eu cuidarei bem de nosso bebê até que você volte da missão para contar a ele sobre as suas aventuras.
Numa gargalhada, ele aconchegou-se ainda mais no colo da esposa e fechou os olhos como se fosse dormir.
- Mesmo? Posso um dia não voltar de uma dessas missões.
- Você gosta de ser um ninja, Asuma... Seu filho não precisará que você desista disso por ter medo de deixá-lo sem um pai. Sei que você voltará ao fim de cada dia. Mas confesso que queria muito que a Hokage-sama evitasse lhe colocar em missões perigosas...
"Nós precisamos um do outro, ter um ao outro, abraçar. Eles verão com o tempo, eu sei."
- É... ela devia mesmo...
Adormeceu nos braços de sua mulher, sua amada, sua companheira. Teve sonhos felizes onde via rostos sorridentes e vozes juvenis. Seu próprio rosto parecia mais jovem nos sonhos e não havia medo em seu olhar, apenas uma certeza ínfima de que ao fim do dia beijaria a sua esposa novamente e lhe tocaria o ventre para ouvir o palpitar do coração do seu filho.
Na manhã fria que se procedeu, o jounin da Vila da Folha convocou os seus soldados. Ino, Shikamaru e Chouji caminharam juntos de seu professor, amigo e capitão. Caminharam para proteger a vila, como num jogo de xadrez.
Num jogo de xadrez, os peões morrem primeiro.
"Quando o destino te chama, você precisa ser forte."
Uma luta difícil se desenrolou contra dois membros da tão temida Akatsuki. Um deles, com uma técnica cruel e masoquista, feriu mortalmente a Sarutobi Asuma e, antes de nele aplicar um golpe final, teve a sua cabeça arrancada pelo próprio ninja da folha.
Nos braços dos três companheiros, a vida dele se desprendia do corpo com um imenso buraco em sua alma, uma dor contínua em seu coração.
Ele nao poderia voltar para casa ao fim de cada noite para contar as suas aventuras. Aquela era a sua última aventura. Mas o seu rei estava salvo.
"Eu poderei não estar com você, mas você terá que continuar."
Asuma se despediu docemente dos três jovens amigos que lhe acompanhavam e, em seu coração, sorriu uma última vez para Kurenai e seu filho. Sorriu para ele mesmo... queria fumar um último cigarro.
"De hoje em diante agora e para sempre, oh, você estará em meu coração."
Ele deixou uma mensagem concreta para Shikamaru: o peão se safricara, agora o cavalo tinha que avançar. O garoto entendia perfeitamente agora, entendia a sua missão, a sua função no jogo. Tinha que derrubar um bispo, tinha de vingar o seu mestre.
Shikamaru tomou o cigarro do amigo e, com lágrimas nos olhos, jurou não deixar barata aquela jogada. Jurou ser também uma peça importante e o próximo passo seria o cheque-mate.
Sarutobi Asuma sentia que, assim como Kurenai, estava grávido, mas ele não podia esperar. O Amor é algo realmente estranho... na hora da morte, ele nos dá uma força sobre-humana e não para sobreviver, mas para poder uma última vez lembrar do rosto de quem amamos.
Seus olhos se fecharam uma última vez para nunca mais abrir.
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N/A: Falar de morte é legal gente. Choro vendo anime, e lembrando do anime também. Às vezes assisto Naruto em algum episódio antigo e me pergunto "por quê, meu deus, por quê!" mas a vida continua né? Pelo menos pra alguns. Asuma-sensei era um cara legal u.u
Minna! Acho que o próximo vai ser o Hayate! Ia ser o Hidan, mas vou deixá-lo mais pra frente. Sim, tio Orochimaru vai ter uma oneshot só pra ele tb! aaaaamo aquele cabeludo! Perdão se esse capítulo ficou meio meloso, mas não imagino Asuma-sensei com outra atitude que não fosse romântica! Gente! Até hoje choro pq ele morreu T.T
Já disse que amo vocês? Pois é, amo. Espero reviews!
