Título: Sangue do meu sangue

Classificação: K+

Fandon: Bonanza

Autora: Crica ( Sem Beta, todos os erros são meus)

Categoria/Gênero: Western/aventura/família/drama

Sinopse: Não importa o quão grave seja a situação, o quanto custe, o que seja necessário fazer porque os laços de sangue são muito mais fortes.

Nota: Todos os personagens de Bonanza pertencem à CBN e à Bonanza Ventures. Aqui nada é meu. Este é mais um trabalho, sem fins lucrativos, de uma fã.


SANGUE DO MEU SANGUE

CAPÍTULO 3

Na cidade de Virgínia, Bem Cartwright reunião umpelotão armado de pás e enxadas. Muitos dos seus amigos estavam ali, prontos para auxiliar no resgate dos rapazes e mineiros. Havia também um tanto de homens dispostos a trabalhar duro na escavação em troca do polpudo salário prometido pelo fazendeiro. A comitiva partiu da cidade em direção à mina com um Benjamin ansioso e de feições duras à frente.

Hoss e os mineiros trazidos por Tomás continuavam na empreitada. Os homens se revezavam em turnos de duas horas por equipe para pouparem suas forças até que os outros chegassem com seu pai. Até Hop Sing tinha vindo da sede da fazenda para preparar o alimento para os trabalhadores.

- Senhor Hoss, Hop Sing preparou boa comida – o empregado apresentou o prato ao patrão _ Deve comer um pouco agora.

_Não, obrigado, Hop Sing – Hoss respondeu sem nem mesmo tirar os olhos da pá que cavava a terra dentro da montanha.

_ Senhor Hoss nunca negou comida de Hop Sing – o chinês insistiu _ Se não comer vai ficar doente e não vai ajudar nada senhor Joe e senhor Adam.

Hoss parou por um instante e voltou-se para o serviçal que era mais um membro de sua família, secou o suor do rosto na manga da camisa encardida pela poeira e aceitou o prato.

_ Você tem razão, meu amigo – respirou fundo_ Eu não tenho fome alguma, mas você está certo. Não serei de ajuda nenhuma se passar mal por inanição, não é mesmo?

_ É isso, senhor, é isso – Hop Sing sorriu e depois pegou a pá que o outro havia largado no chão_Senhor Hoss come tudo direitinho e Hop Sing , não perde tempo, certo?

Eric sorriu agradecido e sentou-se junto ao monte de terra que se elevava à medida que cavavam. Ali, na penumbra que anunciava o final do dia, sorveu o alimento que lhe traria forças para continuar lutando pela vida de seus irmãos. Dentro da cabeça do Cartwright não havia espaço para dúvidas quanto ao sucesso daquele resgate. Não havia dentro do grande coração de Hoss espaço para outro sentimento senão a necessidade de alcançar os acidentados o mais rapidamente possível. Sua agilidade e presteza poderiam ser a diferença entre a vida e a morte para eles e Eric sequer podia conceber a possibilidade de nunca mais ouvir as gargalhadas de Joe ou as canções que Adam dedilhava ao violão.

Quando todo o grupo de Hoss saiu da mina para o jantar, foi substituído pelo grupo liderado por Tomás. Os homens retomaram a escavação, agora com mais cuidado para evitar qualquer fagulha.

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_ Adam, você pode me ouvir? – Joe chamou pelo irmão _ Vamos lá, mano... Não vá desistir... Quem vai cuidar de mim se você morrer nessa droga de buraco? – o coração de Joe estava apertado.

O mais jovem dos filhos de Ben aproximou-se mais do outro rapaz e puxou-lhe o corpo para perto de si, passando seus braços por baixo dos braços de Adam, abraçando assim o tronco do mais velho.

_ Nada melhor do que um abraço fraterno para aquecer, não é? – sorriu para si mesmo no intuito de afastar os pensamentos funestos que assolavam sua mente _ Vou mantê-lo quentinho. Você vai ficar bem e nós vamos sair dessa, como sempre fizemos, juntos- Joe puxou o corpo de Adam mais para cima e ouviu um gemido fraco _ Desculpe-me, irmão, mas não posso vê-lo e é difícil não esbarrar em nada nessa escuridão. Prometo que terei mais cuidado, está bem? E você terá que me prometer que vai aguentar as pontas, que não vai desistir, está me ouvindo?

O coração de Joseph pulsava num ritmo acelerado e descompassado. Não era capaz de precisar a quanto tempo estavam dentro da mina soterrados, mas tinha certeza de que já se passara um bocado de horas pelo menos e, a cada minuto, a possibilidade de sobrevivência se distanciava deles. Suas costas ardiam e seus braços tremiam tensionados pelo esforço de sustentar o corpo do irmão junto ao seu. Precisava encontrar um ponto para recostar e aliviar a pressão sobre sua coluna. Deixou que Adam escorregasse cuidadosamente para o lado e arrastou-se de costas, trazendo o irmão pela gola da camisa em seu caminho. Uns poucos centímetros para trás, encontrou uma superfície lisa e fria, uma rocha provavelmente. Ali, puxou Adam contra seu próprio corpo e acomodou-o entre suas pernas, mantendo o tronco do mais velho sobre seu peito para aquecê-lo. A pele de seu irmão apresentava-se perigosamente fria e pegajosa ao toque. Joe não era médico, mas por experiência sabia que isso não era um bom sinal. Sabia que necessitava manter Adam aquecido para evitar o pior, mas também sabia que apenas o calor de seu corpo não seria o bastante para manter o outro vivo pelo tempo necessário para que alguém os achasse.

_ A coisa está feia, não é, irmão? – Joe estava cansado _ Você está muito calado, sabia? Não que você seja um falador... Aliás, eu sempre achei você um sujeito muito calado – o rapaz precisava ouvir algum som para manter-se acordado _ Com exceção dos momentos em que você pensa que é o pai e faz aqueles discursos intermináveis sobre responsabilidades e coisa e tal... Mas quer saber? Agora eu daria qualquer coisa para você abrir seus olhos e falar comigo, nem que fosse para me dar uma bronca ou reclamar por alguma coisa que eu tenha deixado de fazer... – Joseph sentia-se pequeno e solitário _ Eu nunca disse isso a você e acho que essa não seja a melhor hora... mas se nós... se nós não sobrevivermos a isso, eu queria que soubesse que eu amo você, meu irmão. Eu tenho muito orgulho de ter sido criado por um homem como você e, se eu não fiz uma besteira enorme com a minha vida até hoje, acho que também devo isso, pelo menos em parte, ao seu bom senso e insistência em me manter na linha - Joe sentia seus braços fraquejarem e os olhos pesarem pelo cansaço _ Meu estômago dói. Você também está com sede? Eu acho que sim... Um belo copo de água fresca seria uma boa pedida, não acha, mano velho? Está certo, está certo, vou mudar de assunto... Falar em água não está me ajudando muito também.

Joseph Cartwright estava no limite de suas forças. Respirar estava se tornando um fardo e ele não sabia se a dor que sentia dentro do peito era em função do peso que o corpo de Adam exercia sobre ele ou se algo pior poderia estar acontecendo. Um lampejo passou por sua mente a respeito da possibilidade de estarem ficando sem ar para respirar. Sacudiu a cabeça, espantando aquele pensamento agourento, mas o fato é que colocar ar dentro de seus pulmões estava se tornando uma tarefa difícil. Aos poucos, o sono o tomou por completo e suas pálpebras pesaram mais do que era capaz de suportar. Adormeceu ainda com Adam em seus braços.

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As carroças trazendo os voluntários de Virgínia pararam no pátio da mina fazendo um grande alarido. Os homens saltaram apressados e organizaram-se em grupos ao comando de Hoss, como tinha sido orientado pelo mineiro Tomás. Não havia espaço para todos dentro do túnel que haviam cavado até aquele momento, então, formaram uma longa fila para agilizar a retirada da terra de dentro da montanha. Os baldes carregados passavam rapidamente de mão em mão e eram despejados do lado de fora, voltando sem demora pela outra fila que se estabelecia ao lado da primeira.

_ Hoss, como estamos, filho?

_ Estamos avançando, pai – Hoss olhou o céu alaranjado, do lado de fora da mina _ Mas vai anoitecer logo e tudo fica mais complicado à noite.

_ Nós trouxemos todos os lampiões que pudemos encontrar na cidade – Ben puxou o filho pelo braço, indicando-lhe a carroça carregada _ e muito querosene também. Poderemos trabalhar a noite toda.

_ Está certo, pai – Eric demonstrava cansaço _ Nós trabalharemos sem parar até que Joe e Adam esteja a salvo, eu prometo.

_ Ben, Hoss – o Doutor Martin desceu de sua carruagem e aproximou-se apressado dos Cartwright _ Em que posso ajudar?

_ Olá, doutor – Hoss cumprimentou o médico _ Não há nada para o senhor lá agora, mas precisaremos dos seus serviços quando chegarmos a eles, com certeza.

_ Martin, eu agradeço por ter vindo.

_ Eu não poderia deixar de vir, Ben- o médico depositou a mão sobre o ombro do amigo _ Joe e Adam estão lá embaixo há muitas horas, Ben, tanto eles como os outros mineiros poderão sofrer com a hipotermia e a desidratação. Precisamos fazer chegar até eles um condutor para o ar e para água.

_ Hoss? – Benjamin voltou-se para o filho do meio.

_ Já estamos providenciando, pai. Tomás está acostumado com o trabalho e está perfurando uma passagem menor para uma mangueira levar o ar para dentro.

_ Ótimo, filho – o homem sorriu um pouco _ Nós vamos conseguir, eu sei.

_ É claro que vamos, pai – Hoss aproximou-se do pai e segurou firme em suas mãos _ Por que o senhor não fica aqui com o doutor e ajuda a controlar a situação? Preciso voltar lá para dentro e ficaria mais tranqüilo se tivesse o senhor por aqui para ficar de olho em tudo.

_ Eu ficarei, filho.

_ Pode deixar que tomaremos todas as providências, Hoss – Martin piscou para o moço _ Vá, rapaz e traga seus irmãos e aqueles homens para fora. Nós montaremos um hospital de campanha naquele pátio para socorrê-los mais rapidamente, certo?

Hoss concordou com um aceno e voltou para dentro do túnel onde os homens trabalhavam em ritmo frenético. As vozes masculinas ecoavam, misturadas, provocando um incômodo no Cartwright corpulento que tanto apreciava o silêncio das matas de Ponderosa.

De volta ao pátio da mina, alguns homens montavam uma grande tenda trazida pelo doutor Martin e descarregavam alguns caixotes de madeira. Ben sentiu a visão nublar quando percebeu as macas sendo montadas e a mesa cirúrgica sendo arrumada ao lado delas. Em seu coração pesou a imagem de seus filhos sobre aquelas camas improvisadas e de seus corpos feridos. Por pouco não cedeu ao falsear de suas pernas. Não poderia jamais conceber a possibilidade de perder qualquer um de seus filhos. Em sua sabedoria, isso não representava a ordem natural das coisas. Nenhum pai deveria ser testemunha da morte de um filho e esse pensamento dilacerava suas entranhas.

Dentro da mina, a luz escasseava à medida que o sol se punha. Era cada vez mais difícil manter o ritmo do trabalho com a falta da luminosidade.

_ Hoss, teremos que parar de trabalhar quando anoitecer por completo – Tomás declarou.

_ Não! – o Cartwright protestou indignado _ Nada disso! Ninguém vai parar coisa nenhuma até que os encontremos!

_ Mas Hoss, não temos como trabalhar nesse ritmo do escuro e logo não haverá qualquer luz aqui dentro – o mineiro ponderou _ Estamos bem adiantados.

_ O pai trouxe um monte de lampiões.

_ Esqueceu-se de que não podemos trazer lampiões? – Tomás levou o indicador até a ponta do nariz e fungou _ O gás, está lembrado?

_ Oh, droga... – Hoss levou as duas mãos ao alto da cabeça, em desespero _ Mas não podemos parar, Tomás. Não podemos abandoná-los à própria sorte.

_ Meu amigo, será muita sorte se qualquer um deles ainda estiver vivo a essa altura, então, eu continuarei a cavar com você, se assim preferir, pela noite a dentro, mas não podemos exigir isso dos trabalhadores. Precisamos dizer-lhes em que condições teremos que cavar e dar-lhes a oportunidade de escolher se querem continuar conosco ou esperar o raiar do dia.

Eric e Tomás fizeram uma breve reunião com os homens que trabalhavam dentro do túnel para explicar a situação. Alguns deixaram suas pás caírem no chão e se retiraram, mais muitos permaneceram, apesar da escuridão quase total e as escavações continuaram por dentro da noite, quebrando o silêncio da madrugada.

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Suas pernas estavam dormentes e formigavam terrivelmente. Por um instante, não conseguiu encontrar o ar para respirar e tossiu com força, sacudindo todo o seu corpo e o daquele que estava sobre o seu. Estava com frio e a boca aberta, tinha uma secura quase insuportável. Espasmos musculares percorriam seus braços e costas, provocando uma dor aguda.

Por um instante Joe desejou estar apenas acordando de um pesadelo em sua cama na casa grande de Ponderosa, mas ele sabia muito bem que não era um sonho ruim que vivia,mas a dura realidade de estar diante da morte com seu irmão mais velho.

A cabeça de Adam tombou para o lado, assustando-o. Joseph forçou o braço direito até alcançar a frente do rosto do irmão e seu coração falhou uma batida quando seus dedos não puderam sentir o arfar da respiração do mais velho. Todas as imagens de sua curta vida se passaram diante de seus olhos e em todas elas, estava Adam. Seus irmãos e seu pai eram parte dele, sua família funcionava como um organismo vivo e a falta de um mataria um pouco de todos.

_ Adam, não faça isso, irmão... – Joe abraçou mais forte o irmão e o sacudiu levemente _ Você tem que lutar, está me ouvindo? – as lágrimas desciam sobre seu rosto sujo de pó _ Eu não vou suportar passar por isso sozinho e você prometeu que não ia desistir, lembra? – Sacudiu-o mais uma vez _ Ande, Adam, reaja! Pelo amor de Deus, Adam... Por favor...

Joe deixou sua cabeça tombar para frente, permitindo-se descansá-la sobre o ombro de seu irmão, enquanto o embalava em seu colo. Já não conseguia mais conter as lágrimas e seus soluços ecoavam dentro do espaço reduzido em que se encontravam. Parecia que aquilo era mesmo o fim.

_ Jo...- um sussuro _ Joe... – novamente, um fio de voz.

_ Adam?

_ Joe... pa...

_ Adam, o que? – o coração do rapaz se encheu de esperança_ Você está vivo...

_ Par...e...de...ba...lançar... Joe...

_ Oh, me desculpe, Adam – Joseph não sabia agora se chora de dor ou alegria, mas era muito bom ouvir a voz de seu irmão.

_ Dói...- a voz fraca e rouca reclamou.

_ Eu sei, irmão, eu sei. Perdoe-me, mas é que... eu pensei que você...

_ Não seja tolo... – Adam esforçou-se para dizer _ Não... vou a lugar... algum...

_ Graças a Deus – Joe respirou aliviado _ Não sabe o quão assustado eu fiquei.

_ Joe... – Adam buscava forças onde nem sabia que possuía _ Você... como... está?

_ Não se preocupe comigo. Estou melhor do que você.

_ Metido... – o jovem rapaz podia sentir a respiração forçada do mais velho sob seus braços.

_ É bom ouvir sua voz novamente, mano.

_ É... Quanto tempo...

_ Eu não sei ao certo, mas já deve ser noite a essa altura. Está mais frio.

_ Estou... gelado... – Adam engoliu um gemido de dor quando Joe tossiu atrás de si, agitando seu corpo fragilizado.

_ Eu vou mantê-lo aquecido, mas não posso fazer muito mais – Joseph esfregou suas mãos nos braços de Adam _ Procure não se mexer. Eu não pude tirar essa coisa das suas costelas e um movimento de mau jeito poderá fazer um estrago danado.

_ Já percebi... – Adam tentava não pensar no ponto que latejava impiedosamente na lateral de seu corpo _ Essa tosse... Você está doente...

_ Ah, que nada – o rapaz disfarçava o incômodo que seu corpo sentia _ É só a poeira. Basta um bom bocado de ar puro e tudo ficará bem.

_ Joe... – A voz de Adam pareceu assustadoramente distante ao jovem Cartwright _ Acho que deveríamos... – a faltou ar para terminar a sentença _ dormir um pouco...

_ Não, Adam. Precisamos ficar acordados ou não vamos conseguir – Joseph insistiu _ Preciso que converse comigo, está entendendo? Se você dormir e me deixar sozinho outra vez eu vou enlouquecer aqui dentro. Fique comigo, Adam!

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CONTINUA