"Deus salve a Rainha". Eu nunca entendi o sentido disso. Ok, a rainha é importante, mas não é tão importante assim para só ela ser abeençoada por Deus. Não que eu acredite em Deus, na verdade eu não acredito, mas se ele existe mesmo... Porque se preocuparia apenas com a Rainha? Todos somos importantes, e não é só porque uma velha tem uma coroa que ela é especial.

Devia ser "Deus salve a Humanidade". Seria melhor.

Só acho.

18: 32 - 27 Victoria St – Starbucks – Só sei que aqui vende café

-Você tem o costume de se vestir de oceano poluído?

Eu estava definitivamente assustada. Não é todo o dia que você foge de casa, encontra um cara super gato e vai tomar café com ele. Um café terrível, para falar a verdade. James Potter acabara de voltar do banheiro, onde ele tirara a maior parte do óleo de seu corpo. Vendo ele assim, vestido e se comportando como um ser humano normal, até que ele parece legal.

Ele riu.

-Não. Só fiz isso para aquele protesto. Dorcas implorou...

-A loira assassina?

-Essa mesma. Ela implorou, e se eu não fizesse o que ela pedia, podia acabar assim como você.

Tá, ele está me zoando. Não é minha culpa se aquela maníaca maneja pesadas placas sem o devido cuidado. E não fui eu que escolhi o band-aid da Pucca que agora está em minha testa. Ficamos alguns segundos em um silêncio desconfortável.

-Entãão – Ele começou – Você é mesmo americana? - concordei com a cabeça – E veio fazer o que aqui? Intercâmbio? Passeio em família?

Me questionei por um instante se devia contar para ele. O máximo que esse garoto estranho poderia fazer era me denunciar para meus pais. Não estou muito certa se queria que isso acontecesse.

-Viagem a passeio – respondi, olhando em volta para procurar alguma dica do que dizer. Não sou muito inteligente para contar mentiras – Presente de aniversário. Vim sozinha, na verdade. Queria ir a um show, mas meus pais não deixaram.

-Hum... Show de quem?

-Éé – tentei desesperadamente me lembrar de algumas bandas. Nada além de The Beatles veio à minha cabeça, mas que eu saiba a metade deles estão mortos – The White Stripes.

James Pottes se engasgou com seu café. No primeiro momento pensei que ele tinha achado o gosto repugnante, assim como eu, mas quando ele me encarou com uma expressão estranha, percebi que tinha falado merda.

-The White Stripes não existe mais.

Dei um tapinha na mesa.

-Deve ser por isso que eles não me deixaram ir ao show.

O garoto riu e se levantou.

-Vem, vou te mostrar uma coisa.

19:40 - 7-14 Covery Street – HMV – Ainda não entendi como funciona esse negócio de ruas

O sotaque britânico é muito estranho. Parece que todos falam como se estivessem com maçãs presas na boca. E o pior que James não entende algumas de minhas gírias, e quando eu disse que certo CD era muito "lecal", ele não entendeu.

-Tô dizendo, ouve isso – eu o tentava persuardir a escutar uma música. Devido à hora (e talvez ao pouco interesse do resto dos habitantes da área) a loja de músicas estava vazia. Vários fones esperavam para serem ligados à CDs, e depois de ouvirmos um quadrilhão de músicas, resolvi mostrar uma música do meu celular para ele – É bem legal.

Prendi o fone em sua cabeça e antes que ele pudesse reclamar, dei Play. Seu protesto parou na metade, e logo sua cabeça começou a se mover no ritmo.

-Isso é demais! - gritou – Que banda é essa?

-Não grite – respondi – É The Desert Punk Penguins, a banda de... um amigo.

Ok. É a banda de Charles. Essa música foi gravada pouco antes do acidente. Nós dois havíamos combinado de mandar para uma gravadora no dia seguinte, mas... Meio que não deu. Ele estava ocupado quase morrendo e eu estava ocupada fugindo.

-Acho que vou levar esse – falei, pegando o CD de uma banda que nunca tinha ouvido antes, My Chemical Romance. Fui até o caixa e passei mu cartão de crédito.

Meus pais me dão mesada de cerca de cinquenta dólares por mês, e como eu não gasto nada desde um pacote de jujubas no ano passado, tenho uma pequena fortuna acumulada.

-Negado.

-O que?

-Seu cartão foi negado.

James, que estava do meu lado, até tentou argumentar, mas eu sabia exatamente qual era o problema.

Eles finalmente sentiram minha falta. E agora bloquearam meu cartão, com a intenção de me manter no local onde eu estou. Sabia que devia ter retirado todo o dinheiro ainda nos EUA, mas meu otimismo acreditou que não iriram perceber minha falta tão cedo.

Sai da loja, com James aos meus calcanhares.

-Calma aí, Rachel! Deve ter sido um problema com a máquina, não se preocupe – dizia ele, me seguindo. Eu não fazia ideia de onde estava indo, mas talvez pudesse afastar os problemas saindo de perto daquela loja – Ou estão fazendo manutenção nos sistemas, ás vezes isso acontece...

-Não foi isso, James! - falei, me voltando para ele – Meus pais bloquearam minha conta, foi isso que aconteceu.

Voltei a andar.

-Mas... Eles te mandaram em uma viagem para longe e bloquearam sua conta?

-Esquisito, não? - murmurrei. O sol começava a se por, e eu, como sempre, não fazia ideia do que faria a seguir.

-Você vai precisar de algum lugar para dormir – falou.

-Vou procurar um hotel.

-Com cartão bloqueado? Isso sim que é esperteza...

-Vou dormir em baixo da ponte então.

-O único "em baixo da ponte" que tem por aqui é meio... Molhado demais – ele riu. Comecei a me irritar.

-O que quer que eu faça, então? Me diz?

-Você... Poderia... Dormir lá em casa – falou, corando. O encarei, pasma – Não tem problema, você pode ficar até conseguir se organizar. Correndo pelas ruas à uma hora dessas não vai ajudar em nada.

-Mas... Eu acabei de te conhecer! - exclamei.

-Mas é uma das pessoas mais legais que já conheci. Vamos, poderemos ficar vendo House of Wolves até tarde, comer doces...

-Você gosta de House of Wolves? - perguntei, no que ele assentiu – Acho que estou começando a mudar de ideia.

22:13 – Casa dos Potter – Em um pijama de ursinho

-Eu não acredito! - exclamei, enquanto via a série – Não pode ser!

-Eu avisei – disse James rindo – Desde o primeiro episódio eu sabia.

-Mas ela é a mocinha! - continuei, me esticando por cima das almofadas e esticando os braços para a televisão, tentando em vão espancar a personagem – Ela não pode ter matado Kelly!

James atirou pipoca em mim.

-Admita, eu estava certo!

-Nunca! - pegamos lápis gigantes de pelúcia e começamos a duelar, reencenando Star Wars.

01:00 – Sem vontade de dormir

-James.

-Hum?

-Você acha que um dia poderemos alcançá-las? - perguntei. Ele abriu lentamente os olhos e olhou em direção à janela, por onde eu espiava - Com tantas estrelas, não parecemos minúsculos?

-Mas somos minúsculos – ele resmungou.

-Nem parece que somos importantes...

-O que?

-Nada não...

03:24 – Na cozinha, assaltando a geladeira

-Quer Nutella? - ofereceu James, mas eu neguei. Se eu enfiasse mais uma grama de comida para dentro do meu corpo, explodiria. E James teria que raspar pedaços de Marlene da parede – Então, essa MeryPiper... Esse é o nome dela?

-É.

-Que estranho.

-É melhor do que Marlene – disse, distraída. Ele me olhou confuso, e eu percebi meu erro.

-Quem é Marlene?

-Hum... Minha irmã.

-Ah.

Ficamos um tempo em silêncio.

-Então, o que planeja para o futuro? - perguntou James.

-Eu queria escrever um livro.

-Um livro? - ele riu – Sobre o quê?

-Sei lá. Talvez alguma coisa inspiradora. Sabe, que faça as pessoas repensarem suas vidas e se perguntarem se fizeram a escolha certa.

-Hum, esse é um desafio e tanto.

-Na verdade eu só acho que quero ser conhecida – falei, pensativa – Sempre vivi na sobra das minhas irmãs, e acho que gostaria de fazer alguma coisa que fizesse as pessoas... Sentirem orgulho de mim.

Ok, esse é um sonho bobo. E estranho, vendo a situação que eu me encontro. Acho que não estou fazendo as pessoas ficarem orgulhosas de mim, muito pelo contrário.

Mas eu estava desesperada. Não é todo o dia que temos o peso do mundo em nossas costas, e acho que foi demais para mim.

Se fiz a coisa certa fugindo?

Isso só vou descobrir no final.

Temos uma longa jornada pela frente.