Capítulo 3- A Viúva Laurent
Fabien Marchal estava se preparando para almoçar quando recebeu um carta lacrada. Hesitou se devia abri-la antes ou depois da refeição. Olhou a tigela de cozido fumegante e resolveu dar uma olhada na missiva. Não gostava de comida escaldando.
Qual não foi sua surpresa quando leu uma mensagem aparentemente inocente sobre a confeccão de uns arreios novos que ele pretensamente encomendara em Paris. Percebeu que a mensagem devia estava em código. Remexeu sua gaveta secreta na escrivaninha e tirou dela várias lâminas com pequenos furos. Experimentou várias delas e nenhuma parecia casar. Finalmente teve uma ideia banal, mas que era a única que lhe parecia possível. Aproximou o papel do fogo e na parte inferior, apareceram palavras marrons, produto da escrita com suco de limão.
Hôtel Desbordes - Boulevard du Temple
Viúva Laurent- 9h soir
Marchal fez uma bola e lançou o papel na lareira e esperou-o queimar. Olhou desamparado para o cozido que esfriava. Em seguida, restituiu as lâminas ao compartimento secreto. Pegou a espada, as pistolas. Vestiu a capa e o chapéu. Precisava partir imediatamente para descobrir onde ficava o tal Hôtel Desbordes e o que a Viúva Laurent queria com ele. Suspeitara inicialmente que se tratasse de Sophie, mas agora sabia que era algo ligado à sua família. A viúva de Laurent Marchal era a senhora sua mãe, que ele acreditava estar tranquila na Gasconha cuidando de seus afazeres domésticos.
Passou as orientações da noite para Boisrenard, o chefe do esquadrão de mosqueteiros em Versailles. Foi ao encontro de Bontemps. O valete pareceu surpreso em vê-lo com roupas de viagem.
-Por favor, avise ao rei que irei a Paris resolver um assunto de família. Volto assim que possível.
Bontemps pareceu preocupado. Sequer imaginara que Fabien Marchal pudesse ter parentes vivos.
-Pode deixar. Vá e tome cuidado com as estradas.
Fabien Marchal montou Minos le noir e saiu cavalgando sob o vento e o frio.
Chegou à Paris todo úmido, pois no caminho caíra uma chuvinha fina que picava como mil alfinetes. Rumou para o Louvre, lugar onde costumava ficar alojado quando pernoitava em Paris. Tinha um quarto e roupas secas no alojamento do pessoal do serviço real. Depois de se trocar e cear, pegou um cavalo descansado das estrebarias reais e partiu em direção ao Boulevard du Temple.
Precisou se informar com pelo menos três pessoas para descobrir o tal Hôtel Desbordes. Era um palacete antigo, precisando de reformas, cuja família proprietária reservara para si a parte principal da habitação e agora alugava as outras partes para fazer algum dinheiro naqueles tempos difíceis. Ao que tudo indicava, os apartamentos tinham entradas independentes. Foi recebido por uma criadinha bonita que indicou a habitação da Viúva Laurent como a pequena porta logo após o arco. Marchal estava incrédulo. Seria possível que a sua mãe tivesse atravessado a França e viesse dar o ar de sua graça em Paris? Ele mandava dinheiro para ela a cada trimestre, por intermédio de um velho notário. Duvidando que a sua mãe estivesse ali, Marchal segurou a pistola e andou cautelosamente até a porta indicada. Deu dois toques com o batedor de ferro da porta e ocultou-se na lateral da parede.
Um rapazola veio abrir. Espichou o pescoço para fora e deu com Marchal armado até os dentes. Não pareceu assustado, deu até um sorrisinho discreto. Era bem jovem, moreno, de estatura mediana, olhos cinzentos e muito bonito. Devia ter no máximo dezoito anos.
-Procuro a Viúva de Laurent Marchal.
-Entre por favor. - a voz aflautada do moço tinha um inconfundível sotaque estrangeiro.
Atravessaram um pequeno vestíbulo iluminado. Na sala contígua, em volta de uma mesa de jantar, estavam uma velha senhora de cabelos grisalhos e quatro homens na casa dos sessenta anos. Apesar de portarem espadas, não pareciam oferecer perigo. Fabien Marchal notou que a mulher estava vestida com um simples costume de merino negro, mas tinha mãos finas, belos anéis e aspecto aristocrático. A senhora estendeu-lhe a mão, cordialmente.
-É um prazer conhecê-lo. Estou em Paris há pouco tempo, preciso ser discreta. Sua mãe, Florence Marchal, gentilmente cedeu-me a sua identidade e escreveu essa carta de recomendação.- ela tirou uma carta muito dobrada e lacrada do bolso e entregou a ele.
Marchal reconheceu a letra da mãe sobre o papel grosso. Ela não tinha muito estudo e sua escrita não era nada boa. A velha senhora indicou o rapazinho que atendera a porta.
-Meu sobrinho, Alfonso. -ela indicou e o jovem fez uma ligeira inclinação com a cabeça em sinal de reconhecimento.
Ele continuava sem entender nada. Um dos senhores sorriu e indicou-lhe uma cadeira. Muito desconfiado, Fabien Marchal sentou-se e começou a escutar.
-Meu nome é Mercedes, sou a Marquesa de Beleret. Vim a Paris porque preciso da ajuda dos senhores. Foram-me recomendados por pessoas especiais.
