Capítulo Três

Uno Soijiro

Jikara estava andando pensativo pelos corredores do Palácio Hokage, sem prestar atenção no caminho, avançando automaticamente pelos complexos corredores. Ele seguiu seu caminho para fora do Palácio e avançou na direção oposta à academia, que o levava a um campo de grama baixa próximo às áreas de treino da vila. Ele se aproximou de uma grande lápide com o escrito "Memorial". Ali estavam gravados os nomes de vários shinobis mortos em missões pela vila. Ele focou um único nome e se encostou em uma árvore próxima.

— Jikara-san?

Jikara virou rapidamente e viu quem havia falado. Era Kare Hinara. Ela tinha uma expressão séria e mirava o chão. Jikara sabia porque. Ninguém ficara mais afetado com a morte de Kimasu do que Hinara. Ela era uma ninja médica, especializada em ferimentos de guerra, e, como foi no campo de batalha que Kimasu havia morrido, ela se culpara muito. Kare Hinara era emotiva demais para um shinobi, e se apegava facilmente às pessoas. Jikara só podia imaginar como ela esteve quando soube da notícia.

— Hinara, o que você...?

— Não foi nada... Eu só vi você aqui e resolvi aparecer.

— Só vim aqui me preparar. Eu vou treinar Genins a partir de hoje.

— Mas o que Genins têm a ver com...

— O irmão dele.

— Kimasu-san...

A expressão no rosto dela pareceu piorar. Fazia doze anos desde o fim da guerra, a morte dele não era um fato que se possa chamar de recente. Jikara começou a achar um pouco exagerada a reação de Hinara.

— Eu só achei que ele ficaria feliz em saber que eu vou treinar o irmão dele. Só isso.

— Tivemos baixas no hospital hoje. Eu só achei que deveria vir aqui pra me motivar.

Jikara conhecia umas dúzias de shinobis que só não tiveram seus nomes escritos nesse memorial por causa dela, mesmo assim ela ainda se afetava bastante com qualquer paciente que não conseguia salvar.

— Hinara, você é nossa melhor ninja médica desde a Quinta Hokage. As pessoas morrem, não pode salvar todos. Você não pode... Eu não posso...

Jikara se virou em direção às ruas da vila e começou a andar. Ele sabia que Hinara estava em um mau dia, mas ele tinha coisas a fazer, não podia deixar os Genins esperando. Ela já era uma Jounin formada.

Quando Jikara chegou à porta da academia, sentindo algum remorso por ter deixado Hinara daquela forma, seguiu à sala número oito, onde encontraria seus Genins. A porta estava fechada. Ele respirou fundo e abriu a porta.

— Têm que encarar seus demônios um dia...

Os três Genins se encontravam nas bancadas da sala, em locais relativamente separados, e pareciam não ter se falado desde que chegaram. Havia um relógio no alto do quadro na parede, que mostrava o atraso de quase uma hora. Ele sabia que devia desculpas aos Genins, mas deixaria isso pra uma outra ocasião. Ele caminhou até o centro do quadro e encarou os novatos.

No canto esquerdo estava um garoto de cabelos curtos e negros, mirando o chão, distraído. No meio achava-se uma garota com longos cabelos vermelhos, olhando fixamente para Jikara, o que fez desde que ele entou na sala. No canto direito, mais isolado achava-se quem ele tinha certeza ser Uno Soijiro. Usava um casaco azul sobre uma camisa branca e uma bermuda preta que cobria os joelhos. "Exatamente igual ao Kimasu que eu conheci..." pensou.

— Muito bem. Eu sou Hinai Jikara, seu Joinin instrutor. Como eu não conheço vocês eu queria que se apresentassem antes de começarmos os treinos.

A garota foi a primeira a falar, abrindo a boca no mesmo instante em que Jikara terminou sua frase.

— Meu nome é Kurosai Amane.

— Amane-kun, você tem algum foco como ninja?

— Foco?

— Sim. Se você pretende se especializar em técnicas médicas, ou em Ninjutsu, Taijutsu, etc...

— Sim, sou especialista em Taijutsu e, um dia, minhas habilidades vão ser tão conhecidas quanto às do lendário Maito Gai.

Ele via um certo brilho de determinação nos olhos da Genin que o fez perceber que ela realmente acreditava nessas palavras.

— Gai-sensei é uma boa inspiração. Não se vê muitas garotas praticantes de Taijutsu. Isso está começando a ficar interessante.

Jikara virou-se para o garoto à sua esquerda e lançou um pedaço de giz, para chamar a atenção dele.

— Você. Sua vez.

O garoto se levantou. Ele começou a falar olhando fixamente para Jikara, de modo a tentar evitar outro susto com giz.

— Eu sou Amatsu Koba. Minha especialidade é o Fuuton (Chakra do elemento Vento).

— Fuuton? Você já é capaz de executar jutsus de Fuuton?

Agora Jikara estava ficando empolgado com seu grupo. A nova geração o surpreendia mais quanto mais ele ouvia.

— O Fuuton no Kunai (Kunai de vento) é uma técnica que é sempre ensinada no meu clã.

— Mesmo assim você deveria ser no mínimo um Chuunin para dominar esse Jutsu.

Jikara deixara Soijiro para o final propositalmente, se ele for tão talentoso quanto seu irmão, isso vai valer à pena.

— Agora só falta você aí no canto.

O garoto se levantou e pôs as mãos no bolso do casaco.

— Uno Soijiro.

— Só isso? Fale mais alguma coisa. Habilidades, metas.

— Eu não tenho habilidades e nem uma meta.

— Como assim?

Jikara agora não conseguia entender nada. Alguma coisa estava definitivamente errada. A não ser pela aparência ele não parecia em nada com Kimasu.

— É claro que você tem alguma habilidade.

— Eu vivo à sombra de um grande clã, mas sou uma ovelha negra.

Jikara respirou fundo. Esse time ia lhe dar trabalho. Ele decidiu não estender essa conversa agora. Em uma outra ocasião talvez.

— Bem. Cada um de vocês me surpreendeu de uma forma diferente e eu queria testar isso num lugar mais apropriado. Me encontrem amanhã às nove no campo de treinamento sete.

Jikara então se dirigiu para fora da sala. Estava novamente andando errante pela vila quando viu Uno Soijiro num banco da academia. Uno Kimasu era exatamente o oposto do que ele via em Soijiro, sempre gritando que não era inferior a ninguém, sempre se dedicando em superar todos os seus companheiros.

Ele então se sentou no banco ao lado de Soijiro.

— Sabia que eu conheci o seu irmão?

Soijiro fez uma expressão de surpresa. Jikara continuou.

— Ele era do meu esquadrão. Um grande shinobi. Eu estava lá no dia em que ele...

— Eu não sou como ele. Ele é um herói para a vila. Eu não sou ninguém.

— Quando meu irmão desenvolveu o doujutsu secreto do clã Hinai, todo meu vilarejo só tinha olhos para ele. Eu virei ninguém, como você. Mas hoje eu posso dizer que eu virei alguém, e não foi chorando que eu fiz isso.

— O que você quer dizer, Sensei?

— Que não é o clã e nem a vila que define o shinobi. É o shinobi que se define.

— Então eu...

— E você quer saber? Meu irmão se tornou repugnante. Não havia um shinobi nos países da Água e do Fogo que não soubesse o seu nome. E mesmo assim isso não me parou. Quer saber quem ele é?

— Quem?

— Hinai Rishoumaru. O responsável pela Quarta Guerra.

Jikara se levantou e seguiu em direção à sua casa. Ele agora deveria aproveitar ao máximo seus descansos pois tinha três shinobis pra se preocupar.