Capítulo 2
O professor perdido.
INGLATERRA --- NORUEGA
Noruega. Um dos países da chamada Península da Escandinávia.
Seu passado estava muito vinculado ao povo viking, época de intenso apogeu da cultura nórdica. Durante a Idade Média os noruegueses haviam se expandido por boa parte da Europa, fundando inclusive cidades na Bretanha, Irlanda, Islândia e Groenlândia. Suas embarcações teriam chegado até a singrar as costas da América muito tempo antes de Colombo. Esse período áureo, no entanto, cedera lugar ao domínio pela Dinamarca, que durara vários séculos, em seguida à união com a Suécia, durante quase cem anos, e, em 1940, à agressão vinda da Alemanha de Hitler, mesmo a nação tendo se declarado neutra no conflito. Estava até então ocupada pelas tropas nazistas e, apesar do esforço dos Aliados e da resistência local, ainda não seria libertada tão cedo.
Era na gélida e montanhosa porção norte do país que estaria vivendo, isolado num chalé inóspito, o professor Heinrich Kriegüer, cujos conhecimentos sobre a lenda de Vineta interessavam e muito aos alemães. Percorrendo o cenário coberto de neve com abundantes pinheiros pintados de branco, Indy, Mac e Sophia, em missão secreta, objetivavam encontrá-lo antes deles.
Estavam os três muito bem agasalhados para se protegerem do frio, trajando vestes de peles na cor cinza que lhes cobriam o corpo quase por completo. Apenas as cabeças ficavam expostas, estando a de Jones com seu inseparável chapéu, a do inglês aquecida por um gorro preto de lã e a mulher com uma discreta touca branca sobre os cabelos soltos.
Naquele momento seguiam por uma discreta trilha em meio à floresta, dirigindo-se até uma elevação logo à frente. O vento que os envolvia era frio e cortante, Mac não evitando bater os dentes ao sentir seus poros congelarem, mesmo resguardado pela roupa.
-- De acordo com o informe dos resistentes, a casa de Kriegüer deve estar localizada alguns metros depois desse monte! – informou Indy apontando adiante.
-- Não ficarei espantado se o tal professor estiver preso num bloco de gelo quando o encontrarmos! – afirmou o britânico, braços envolvendo o tórax na tentativa de preservar um pouco mais de calor junto a si. – Este lugar deve ser mais frio que o próprio inferno!
-- Mas o inferno não é quente? – estranhou Sophia.
-- Depende de qual inferno você estiver falando... – murmurou o arqueólogo. – O inferno nórdico é chamado "Niflheim" e é a terra do gelo e do frio. Governada, aliás, pela filha do deus Loki, chamada Hel. A palavra "Hell", que quer dizer "inferno" em inglês, tem sua origem no nome dela.
-- Eu só sei que a vida do Kriegüer vai se tornar um inferno bem real se os nazistas o encontrarem primeiro... – observou Mac.
Continuaram caminhando, suas botas afundando na neve e assim ocasionando alguns passos em falso. Logo atingiram o topo da elevação, permitindo uma visão mais ampla dos arredores. Tudo se resumia a pinheiros e mais pinheiros... Porém, a uma certa distância de onde estavam, direção nordeste, puderam identificar uma cabana de madeira, fumaça saindo pela pequena chaminé, o que indicava que alguém desfrutava de seu interior aquecido...
-- Bingo! – exclamou Indiana. – Parece que ele está em casa...
E, descobrindo também uma trilha paralela que parecia levar à área da morada, seguiram caminho através dela. A corrente de ar frio se intensificou, Mac esfregando as mãos enluvadas enquanto tremia. Jones, por sua vez, puxou conversa com Hapgood:
-- E então, o que você fez depois de... Atlântida?
-- Tenho iniciado novos estudos. Há diversos segmentos do conhecimento humano que me interessam, principalmente os menos difundidos... Eu diria até menosprezados.
-- Como qual? – Indy, sorrindo, já se preparou para ouvir algo inusitado.
-- Métodos para indução da mente. Mais precisamente hipnose.
-- Oh... Você acredita mesmo nessas coisas?
-- Você não muda! – ela cruzou os braços um pouco nervosa. – Saiba que é algo sério e que vem se desenvolvendo muito nos últimos anos. É que as pessoas em geral costumam ter uma visão distorcida a respeito do que se trata. Assim como muita gente não entende o que é arqueologia, doutor Jones!
-- Pare, isso não tem nada a ver com arqueologia! – protestou o professor. – Além do mais, eu nunca serei susceptível a qualquer forma de hipnose! É um absurdo acreditar que algo assim seja possível!
-- Pois é isso que iremos ver... – Sophia falou de modo bastante enigmático.
-- Primeiro se comunicar com reis da Antigüidade, agora isso! – resmungou o cético aventureiro.
Logo se aproximaram do chalé, vencendo mais uma pequena subida para poderem visualizar sua entrada. Assim que ficaram diante dela, já notaram algo errado: a porta estava escancarada, as dobradiças ligeiramente danificadas. Jones, que seguia à frente, ergueu um dos braços como sinal para que os companheiros se detivessem por um momento. Teriam de usar de extrema cautela.
Indy avançou devagar, encarando a parte de dentro da cabana com olhos atentos, a mão direita pronta para sacar sua pistola ao mínimo indício de ameaça. Nenhum movimento aparente, assim como total silêncio. O estado da residência, no entanto, era preocupante: tudo se encontrava revirado, desde os móveis, com cadeiras, mesas e armários fora do lugar e tombados, objetos quebrados, roupas e pertences espalhados pelo chão, livros abertos com a clara impressão de que páginas haviam sido removidas a rasgos...
Os três recém-chegados entraram lentamente em meio à bagunça, temendo o pior. Foi então que se lembraram da fumaça avistada do lado de fora, voltando-se para a lareira... E eis que nela, envolvidos por um fogo agitado, consumiam-se vários papéis, entre os quais cartas, cadernos, anotações de diversos tipos... Tudo, todavia, perdido para sempre pela fúria das chamas.
-- Essa não! – constatou um desolado Indiana.
Mac vistoriou rapidamente os cômodos da casa. Estavam igualmente desarrumados, mas sem nenhum sinal de Kriegüer. Tinham de reconhecer a amarga verdade: haviam chegado tarde demais.
-- Eles o levaram! – afirmou Jones.
-- Como? – indagou Sophia, aturdida.
-- Invadiram o chalé, capturaram Heinrich e levaram com ele o material que acharam necessário. O resto queimaram na lareira para ninguém mais ter conhecimento. Os desgraçados sabiam que nós viríamos!
-- E agora, Jonesinho? – o inglês perguntou.
-- Pelo visto isso não ocorreu há muito tempo... Eu diria no máximo alguns minutos. Talvez ainda possamos alcançá-los.
-- Mas de que maneira?
Abaixando-se diante do fogo e dos papéis destruídos, o arqueólogo, coçando o queixo, pôs-se a rapidamente pensar em algo...
Ele mal conseguia manter-se em pé devido à fraqueza e ao frio. Era conduzido por alguém que puxava seus braços com força, provavelmente dois soldados brutamontes. A venda em seu rosto impedia que enxergasse seus algozes. Por fim foi jogado de joelhos sobre a neve, trêmulo e confuso. Os mesmos que o haviam arrastado até ali removeram o obstáculo de seus olhos, sua visão agora desobstruída.
A primeira coisa que suas pupilas miraram foi uma figura agasalhada, porte imponente. Apesar das grossas vestes brancas, seus contornos femininos eram bem perceptíveis. O rosto, belo e ao mesmo tempo rígido, talvez até ameaçador, uma viseira de proteção resguardando-lhe os olhos da baixa temperatura. Os cabelos loiros soltos lhe caíam até a altura dos ombros. E, próximo do pescoço, destacava-se preso ao uniforme um broche com a suástica, denunciando a quem servia e quais eram suas prováveis intenções.
-- Fräulein, eu gostaria de... – o prisioneiro começou a falar.
No entanto, foi interrompido pela mulher que, sem mais nem menos, aproximou-se de si e desferiu-lhe um tremendo tapa no rosto. Enquanto mantinha a cabeça baixa até conseguir se recobrar do golpe, ouviu-a dizer em tom extremamente autoritário:
-- É tenente-coronel para você, seu traidor! Der Oberstleutnant!
-- Ja, doch! – ele assentiu resignado. – Ja, doch!
Quem diabos seria aquela jovem? Voltando a erguer a face, viu cerca de dez ou doze combatentes nazistas circulando pela área. Não seria nada fácil escapar das garras deles! Se houvesse ao menos sido um pouco mais cauteloso, talvez não acabasse capturado pela facção que mais detestava no mundo...
Nisso, um dos soldados chamou a tenente-coronel, fazendo-a se afastar do prisioneiro a passos rápidos. Ele bateu continência para a superiora antes de informar:
-- Befehlshaber! Os espiões inimigos já chegaram à casa do professor!
-- Ótimo. Ataquem-nos imediatamente!
-- Entendido!
Ela sorriu, algo maligno instigando seu humor. Será que conseguiria levar a cabo sua vingança de forma tão simples? Afinal, fora uma grande dádiva do destino encontrar seu alvo ao mesmo tempo em que cuidava da busca por Vineta. Chegava até a ficar um pouco desapontada. No entanto, não podia perder quaisquer oportunidades.
O doutor Jones tinha de morrer.
Indy, Mac e Sophia deixaram o interior do chalé, o primeiro olhando ao redor na tentativa de deduzir para qual direção os alemães haviam se esvaído com Kriegüer. Logo descobriu perto da morada um declive extenso, que descia por entre árvores e rochas muitos metros até o que parecia ser uma série de clareiras em seu término. Teve a forte sensação de que esse fora o caminho tomado pelos nazistas.
-- E então, Jonesinho? – inquiriu o agente do MI6. – O que faremos?
O arqueólogo foi impedido de responder devido à repentina rajada de balas que cortou o ar gelado na direção deles. Esquivaram-se agilmente, buscando abrigo atrás da cabana, ao mesmo tempo em que o som de motores se aproximando tornava-se nítido. Mais tiros vieram, perfurando as tábuas da casa e lançando estilhaços, por pouco não atingindo o trio. Seguiram-se gritos na língua germana. Era inegável: haviam caído em uma armadilha.
Indiana, já com sua pistola Colt em mãos, projetou brevemente a cabeça para fora do refúgio, tentando visualizar os inimigos. Para sua surpresa, eles se encontravam a bordo de snowmobiles, veículos para neve que consistiam numa espécie de trenó montado sobre dois pares de esquis, movido através de um motor de avião. Havia dois soldados em cada um deles, aquele sentado à frente manejando uma metralhadora. O pior era que tais máquinas nem eram alemãs: lembrando-se de uma missão com Mac em que estivera nos arredores de Stalingrado, pôde identificá-las como RF-8s russos, provavelmente surrupiados das forças soviéticas quando de suas ofensivas em território norueguês.
-- Isso não é bom! – afirmou.
Havia quatro snowmobiles, roncando de forma ameaçadora enquanto aos poucos cercavam a posição dos agentes. Tentar fugir a pé seria suicídio. Pensando velozmente em alguma solução, os olhos de Indy acabaram se detendo sobre um trenó de madeira junto aos fundos do chalé que até então passara despercebido. Era grande o suficiente para carregar duas pessoas. O inglês e a ruiva não entenderam de início quando Jones correu na direção dele, mas, assim que o apanhou, compreenderam que devia se tratar de um plano desesperado proveniente da cabeça do arqueólogo.
-- Vou tentar algo para desviar a atenção deles e ao mesmo tempo encontrar Heinrich! – revelou. – Preciso de um voluntário!
-- Estou um tanto acima do peso... – murmurou Mac. – Acabaria prejudicando a velocidade do trenó.
-- O pior é que você tem razão...
O aventureiro se voltou então para Hapgood.
-- Ah, não, nem pense nisso! – discordou ela. – Esse esquema não vai funcionar!
-- Ora, Sophia... Nunca desceu uma colina de trenó quando era criança?
-- Sim, mas não havia um bando de gente tentando atirar em mim enquanto fazia isso!
Mais alguns disparos dos nazistas os lembraram de que deveriam se apressar. Jones agarrou o braço direito da jovem e a arrastou na direção do declive, com a outra mão empurrando o trenó. Dirigiu-se uma última vez ao amigo:
-- Você pode ficar aqui, Mac?
-- Sem problema, Jonesinho. Estarei de olho caso alguém volte.
-- Certo!
Indy impeliu o improvisado veículo com maior força, e já estavam expostos ao fogo inimigo quando, à beira da descida, saltaram sobre o trenó, o professor à frente e Sophia, desajeitada, sentada às suas costas, braços envolvendo o abdômen deste para que não caísse. Jones chegou a sentir uma ponta de entusiasmo devido àquele contato físico com a moça, mas sabia que ela na verdade apenas não queria sair rolando para fora do transporte. Atrás deles, os snowmobiles também já encaravam o trajeto, suas armas cuspindo balas na direção dos fugitivos.
Como podia, Indiana manejava o trenó para lá e para cá, procurando tanto evitar os projéteis quanto desviar dos obstáculos que começavam a surgir. Ganhavam cada vez mais velocidade, temendo que num certo momento não conseguissem mais controlar para onde iam. Hapgood segurou-se ainda mais forte ao guia quando este os atirou na direção esquerda com o intuito de não se chocarem de frente com um grande pinheiro. Um dos veículos perseguidores, no entanto, não teve a mesma sorte: conseguiu evitar a colisão somente no último instante e, devido à proximidade com o tronco, os dois esquis do lado direito se estilhaçaram neste, fazendo o snowmobile tombar com violência, seus ocupantes voando para fora ao mesmo tempo em que a carcaça pegava fogo.
Ainda havia três no páreo. O mais perto do trenó disparava incessantemente contra o casal, Sophia gritando em meio àquela perseguição frenética e mortal. Aturdido, Indy conseguiu pegar sua pistola com uma das mãos e, estendendo-a à ruiva, ordenou de imediato, parafraseando sem perceber um de seus antigos inimigos:
-- Atire neles! Atire nos dois!
Ela teve de contorcer o corpo de uma forma que julgara nunca ser capaz para poder se manter em cima do trenó e mirar de modo razoável na direção do snowmobile próximo. Pressionou o gatilho uma vez, a bala atingindo o bico metálico do transporte e liberando faíscas, porém sem afetar nenhum dos dois alemães. Mordendo os lábios, Hapgood em seguida abaixou-se junto com Jones para escapar de mais uma rajada, e disparou novamente. Desta vez teve sucesso, o soldado na metralhadora desfalecendo com a testa e o visor nos olhos embebidos em sangue. O outro, entretanto, mantinha-se vivo e atento, o veículo ainda no encalço dos norte-americanos.
Para não deixar de atacá-los, o soldado remanescente no snowmobile manteve uma mão junto aos controles e com a outra sacou uma Luger, atirando duas vezes contra os oponentes. Errou em ambas, e seu esforço logo se mostrou fatal, pois, devido à distração, viu tarde demais a grande pedra no meio do caminho, para a qual rumava em cheio. Sem tempo para qualquer tentativa de desvio, colidiu de frente, homem e máquina explodindo devido à intensidade do impacto.
Dois a menos. Restavam outros dois.
Um outro snowmobilediminuiu a distância entre si e seu alvo, a metralhadora já agindo novamente. Indy continuava traçando a rota do trenó em zigue-zague para evitar as balas, porém realmente estava cada vez mais difícil manobrar, por pouco o meio de fuga não virando de todo e atirando seus ocupantes sobre a neve. Perguntavam-se quando aquela descida terminaria.
Sophia tentou mais uma vez contra-atacar, a pistola quase escorregando para fora de sua mão. Seu primeiro disparou passou bem longe do veículo perseguidor. Já o segundo, que deveria atingir o nazista manejando a arma, acabou na verdade destruindo um dos esquis frontais, tirando o equilíbrio do transporte. Sua estrutura rebaixou-se para frente assim como um carro desprovido de um dos pneus, a máquina em seguida girando sem controle até finalmente parar, a dupla de alemães berrando frustrada enquanto ficava para trás.
O último snowmobile ativo teve então sua vez de obter sucesso na tarefa em que os demais haviam falhado, os alemães a bordo, o primeiro por meio da metralhadora e o segundo utilizando um revólver, procurando eliminar os inimigos a qualquer custo. Tanto os perseguidos quanto os perseguidores adentraram uma área abundante em árvores que obstruíam o declive, a situação exigindo movimentos e reflexos ágeis para que não se chocassem com os pinheiros. Estes acabaram servindo também como proteção a Jones e Hapgood, já que muitos dos tiros que os visavam acabavam sendo detidos pelos troncos. Logo ambos os veículos retornaram ao ambiente aberto, os nazistas quase colados ao casal e os disparos cada vez mais ameaçadores.
-- Indy! – bradou a ruiva ao constatar o quadro altamente preocupante.
-- Eu sei, eu sei!
Abaixaram-se para escapar de uma nova rajada quando, ao término dela, notaram que os agressores haviam ficado sem balas e teriam de re-carregar. Era o que o aventureiro precisava. Usando as pernas, pressionou-as contra a neve para diminuir a velocidade do trenó, as botas por pouco não lhe saindo dos pés. De início Sophia não compreendeu a ação, crendo até que esta os prejudicava, porém logo deduziu o plano de Jones: ele desejava ficar lado a lado com o snowmobile, o que conseguiu, o veículo surgindo à direita deles com os alemães ainda terminando de botar mais munição em suas armas. Uma grande chance de terminar ali aquela perseguição.
Vendo-se bem próximo do soldado na traseira, Indy aplicou sem demora um soco em sua face, desacordando-o. Seu colega à frente, aturdido, não sabia se terminava de colocar mais projéteis na metralhadora ou se sacava a pistola que trazia consigo, sua cabeça voltando-se ora para o caminho adiante, ora para o trenó traiçoeiro. Por fim, num esforço desesperado, o nazista tentou abandonar o veículo saltando sobre os oponentes, mas o arqueólogo afastou-se a tempo, abrindo distância em relação ao adversário e fazendo com que este pousasse de cara no solo, rolando com os braços esticados enquanto o snowmobile, desgovernado, espatifava-se junto a uma rocha.
Simultaneamente ao término da caçada, o trenó chegava ao final do declive, adentrando uma clareira plana e aos poucos ficando mais lento, até que, com o auxílio dos pés de Indy e Sophia, parou por completo. Eles o deixaram e, depois de darem alguns poucos passos no novo território, ouviram vozes em alemão. Jones efetuou um gesto para a jovem ao mesmo tempo em que dizia:
-- Eles estão por aqui. Tome cuidado!
Mal se puseram a identificar a origem dos sons e talvez resgatar o professor Kriegüer quando mais tiros vieram por suas costas. Indiana puxou rapidamente a moça para algumas árvores próximas para que pudessem se proteger atrás delas, olhando de relance para o declive: cerca de quatro combatentes inimigos surgiam em seus uniformes brancos e viseiras nos rostos, agora com pares de esquis sob os pés. Empunhavam Lugers numa mão e com a outra o bastão para poderem empreender a descida. Indy concluiu que eram os nazistas remanescentes dos snowmobiles destruídos. Será que aqueles malditos poderiam ser mais persistentes?
As balas continuavam sendo disparadas contra os norte-americanos, Sophia entregando a Colt de volta ao parceiro na certeza de que ele sabia utilizá-la melhor do que ela. Jones de imediato provou que sim: expondo-se brevemente, derrubou o primeiro dos alemães com dois tiros no peito, sangue manchando sua roupa e a neve. Os outros se apressaram rumo aos alvos, porém se esqueceram de que os esquis lhe incutiam certa desvantagem em terreno plano. Assim, sem dificuldade, o agente da OSS liquidou mais dois, cada um com apenas um projétil. O único restante apontou sua arma para ele e o teria acertado ao menos de raspão se uma rajada atrás de si não o houvesse pegado de surpresa, aniquilando-o de imediato. Intrigados, Indy e Hapgood deixaram o abrigo para ver quem fora o autor do ataque, deparando-se com um outro trenó que acabava de chegar derrapando pelo declive, a pessoa em cima dele portando uma Thompson... Mac, entrando em cena um pouco esbaforido.
-- Cheguei na hora, Jonesinho? – perguntou ao amigo assim que deixou o improvisado veículo.
-- Com certeza. Onde encontrou isto?
-- Havia outro dentro da cabana. Resolvi usá-lo para seguir vocês. Mas percebo que cheguei tarde para a festa!
-- Talvez não... – sorriu Sophia. – Heinrich deve estar aqui perto. Nós íamos justamente procurá-lo agora.
-- Contem comigo.
E, tornando a ouvir vozes, avançaram cautelosamente pelo cenário gelado rumo à direção de onde pareciam provir. O que encontrariam pela frente? Apenas seus próximos passos naquela insana corrida contra os exércitos de Hitler poderiam esclarecer.
Glossário – Capítulo 2:
Loki: Deus da mitologia nórdica. Pode assumir várias formas, como a de um salmão ou a de uma égua. Possui relações ambíguas com os outros deuses: às vezes os auxilia, outras vezes os prejudica. Por isso geralmente é retratado como traiçoeiro e indigno de confiança. Na cultura pop, é conhecido como arquiinimigo do personagem da Marvel e também deus nórdico Thor, além de estar relacionado ao artefato do filme "O Máscara" (com Jim Carrey), justamente devido a também ser retratado como um deus zombeteiro.
Hipnose: Estado mental ou série de atitudes geralmente induzidos por meio de um processo denominado "indução hipnótica", composto de um conjunto de instruções ou sugestões prévias. O hipnotismo pode ser usado com fins terapêuticos através da chamada "hipnoterapia". Ao contrário do que se pensa, a hipnose não consiste num estado de inconsciência ou sono, e trata-se sim de um estado consciente de atenção focada e acrescida sugestibilidade.
Stalingrado: Atual cidade de Volgogrado, na Rússia. Antes chamada de Tsaritsyn (de 1589 a 1925) e Stalingrado (de 1925 a 1961). Durante a Segunda Guerra Mundial, foi palco, entre 1942 e 1943, da "Batalha de Stalingrado", um dos confrontos mais decisivos e que mudou o curso do conflito a favor dos Aliados.
RF-8: Ou GAZ-98, snowmobile usado pela União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Armado com uma metralhadora de 7.62mm e capaz de alcançar velocidade de até 50 quilômetros por hora.
Continua...
