CAPÍTULO 3

GENTINHA ATREVIDA

Com que sobreno

Melhor ir sain

Dou nem mais minu

To nem mais

Ainda tem a cora

Gentinha atrevi

Da cá sua vi

Da cá seu suin

Guilhotina?

(...)

(Los Hermanos, Cadê teu suin)

O celular tocou novamente. Ginny olhou de canto de olho para sua indesejável companheira que encarava desconfiada o motorista do táxi. Ele estava bastante empenhado em lançar desaforos na direção de alguém que começava a atrapalhar seu trabalho, ao perambular por entre os carros. Era um homem usando enormes sapatos, maquiagem chamativa, nariz vermelho e tudo mais que um palhaço costuma exibir nos circos.

Esse palhaço, porém, fazia do trânsito seu picadeiro particular, executando malabarismos amadoramente. O coitado até que tentava convencer, usando laranjas como malabares improvisados, mas — pesadas demais — as frutas acabavam obedecendo a lei da gravidade, causando ainda mais transtorno no já movimentado trânsito.

— Cai fora! Não dou dinheiro pra vagabundo! — gritava o taxista ao ver que o palhaço se aproximava a fim de demonstrar seus dotes circenses.

— Oh! — a velha surpreendeu-se com a aparição, começando a procurar por algo em sua bolsa encardida.

Ginny orou para que não fosse uma arma ou coisa parecida o que a velha tentava retirar dali. Distraída em meio aos suspeitos movimentos da acompanhante e o ruidoso toque do celular, não percebeu aquela face intrusa atravessar o espaço do vidro aberto do automóvel.

— Oi, gostosa! — disse o palhaço a ginny, crente que estava arrasando — que tal fazer uma contribuição ao Circo Independente da Cidade? — enfiou mais ainda a cabeçorra através do espaço vazio da janela, o nariz de cereja quase encostando no nariz da ruiva.

Assustada, Ginny deu um pulo no assento traseiro do táxi. Não queria correr o risco de levar um beijo daquela boca fedida, cheia de tinta ordinária.

— Que é isso, menina? você já está meio grandinha para ter medo de palhaços — repreendeu-lhe a velha.

Ginny fez uma careta, cuidando para não se encostar no invasor.

— Não ligue para isso, vovó — piscou o olho de maquiagem borrada. E virando-se outra vez para Ginny, disse: — mas ah! Uma ruiva dessas lá no meu picadeiro! eu ia gargalhar o dia inteiro!

Era só o que faltava. Depois de ser convidada para uma festa que provavelmente daria em nada e tendo ao seu lado no táxi uma velha doida — que mais parecia um encosto do qual não sabia como se livrar — ainda assim, Ginny Weasley recebia um arremedo de cantada de um palhaço, que mais parecia uma zombaria do que um elogio.

De qualquer maneira, resolveu ignorar a rima tosca do fedorento, afinal, o celular que havia dado uma pausa, voltava a rugir. Tal fato a fez lembrar do carinha das laranjas que, sem dúvida, era infinitamente mais interessante que aquela cara redonda, maquiada e suada que a encarava.

— alô — disse por fim, ao atender o telefonema, observando que o "encosto" de cabelos brancos enfim tirava algo da bolsa e entregava ao palhaço metido a conquistador.

— Pegue isso, meu filhinho — ofereceu dois chicletes amassados ao palhaço, um tom exageradamente caridoso na voz — não posso mascar por causa da dentadura. Imagine, levo semanas até conseguir desgrudar! — arreganhou os lábios, mostrando os dentes postiços, grandes demais para o tamanho de sua boquinha murcha.

— fora daqui, seu imprestável! — berrou o taxista assim que o sinal abriu.

Ginny só teve tempo de ver que o palhaço se afastava, resmungando, ao mesmo tempo que o taxista arrancava com o carro, pois uma voz feminina gritava-lhe ao celular:

— Alô, Harry! Alô! Alô!

Harry? Então era esse o nome dele. Mas quem era aquela mulher que queria falar com seu gatinho? "Seu gatinho?" Que maluquice! Melhor ficar atenta ao combate com a suposta rival.

— Sim... Quer dizer: não — respondeu, meio incerta sobre o que dizer.

— Quem é? — perguntou a mulher um tanto desconfiada.

— Eu... — disse, formalmente — Bem, sou ginny. com quem você gostaria de falar? — a pergunta era estúpida, mas ela sabia que não havia muito mais que pudesse ser dito naquela situação.

— Com meu filho: Harry. Essse número é dele. Você pode chamá-lo, por favor? — o tom gentil desarmou a ruiva.

Enquanto a velha mexia e remexia novamente na bolsa imunda, provocando um barulho infernal, Ginny tentava se concentrar. Já que era a mãe de Harry com quem conversava, podia ser um pouco mais simpática; apesar de as sogras — ou futuras sogras, como era o caso — serem consideradas as piores rivais de uma mulher.

— Harry não está aqui. Esqueceu o celular comigo.

— Tudo bem, ginny. é esse seu nome, não é mesmo?

— Sim.

— Sou Lily Potter, mãe dele. — as coisas estavam melhorando, pois o carinha das laranjas já tinha nome e sobrenome — Só liguei para saber se ele está bem. Harry trabalha muito, dorme pouco e não se alimenta direito. Você entende essas preocupações de mãe, não entende?

— Claro, Lily — disse meio sem jeito. Como é que ia entender aquelas benditas "preocupações de mãe", se sequer tinha filhos? Talvez quando tivesse seus próprios filhos com o filho de Lily, pudesse ser mais sincera naquele tipo de resposta.

— Obrigada, Ginny. Adorei falar com você. Venha jantar conosco aqui em casa qualquer dia desses. Já é hora de meu filho apresentá-la a mim e ao pai dele. Estamos ansiosos por conhecê-la — dizendo isso, desligou, deixando ginny confusa. Tudo bem que normalmente ela já era meio confusa, mas Harry Potter e sua mãe, que acabara de entrar na história, a estavam tratando como uma lunática ou coisa que o valha. Que gente mais esquisita! Será que era costume daquela família ficar convidando desconhecidos para festas, jantares ou coisas do tipo?

— E então, como é, chuchu? Vai ficar de blábláblá com as amigas a viagem toda, ou vai me informar para onde devo ir agora? — perguntou o taxista, virando-se para as passageiras, descansando o braço sobre o banco do carona.

A velha fez uma careta ameaçadora para o homem, que não lhe deu a mínima atenção.

Esquecendo-se por um momento de sua parceira e dos traumas dela com motoristas de taxi, Ginny indicou o caminho do prédio onde morava.

Minutos mais tarde, ao chegar ao seu destino, pagou a corrida e desceu rapidamente do automóvel, como uma fugitiva, orientando que o taxista levasse aquela amabilíssima senhora para onde ela desejasse ir. Todavia, sua tentativa foi inútil, pois o encosto com a bolsa encardida vinha em sua perseguição — as perninhas curtas e os passinhos ligeiros — enquanto o motorista arrancava o táxi.

— Por que a senhora não foi com ele? — indagou, bobamente, apontando para o nada.

— É que... Que eu... — a velha gaguejou de um jeito infantil, que Ginny quase sentiu pena, mas foi apenas quase; o olhar psicopata ainda causava-lhe arrepios.

— A senhora quer que eu avise alguém para vir buscá-la? — orgulhou-se da própria paciência — Quem sabe um filho ou uma filha, neto, sei lá?

— É que... Eu... Eu...

— A senhora o quê? Desembucha! — droga, não era tão paciente como imaginara.

— Não me sinto bem — pos a mão enrugada no peito, amassando os babadinhos do vestido — deve ser o coração. Você poderia me dar um copinho d'água, meu anjo? Só para eu tomar um comprimido. Sei que vou melhorar rapidinho.

Indecisa, ginny olhou de um lado para o outro. E se o encosto psicopata fizesse parte de uma quadrilha? E se estivesse tramando algo contra sua vida? Poderia invadir seu apartamento com os capangas, matá-la, esconder seu corpo — com aqueles quilinhos a mais —, cortando-o em pedaços e depois atirar braços, pernas e cabeça num rio poluído.

Nada disso! Estava ficando paranóica. A pobre psicopata devia mesmo estar se sentindo mal. Aquela seria sua boa ação do dia.

Com cordialidade, levaria a adoentada até seu apartamento; daria-lhe um copo d'água para que tomasse o bendito comprimido e depois a despacharia, nem que precisasse chamar algum familiar.

Na pressa para terminar logo com aquela situação, jogou o celular na sacola, num gesto automático. De braços dados com a mais nova amiga adentrou o prédio onde morava.

Cerca de uma hora depois, as duas já se sentiam hambientadas uma com a outra, ou mais ou menos isso. Ginny aprendera a auxiliar a nova amiga com a medicação sob a lingua e a "prestativa" senhora, refeita do mal estar, costurava o vestido que a ruiva iria usar na festa, alargando-o alguns centímetros na cintura.

Harry não havia demorado a ligar, e fora um fofo tentando convencê-la a aceitar o convite. Capaz que ela, Ginny Weasley, facilitaria as coisas para ele; não depois de uma tarde como aquela. Após tanta insistência por vê-la, não havia argumentos para recusar os apelos dele.

Feliz, Ginny deixou que a velhinha permanecesse em seu apartamento até a hora da festa. Nesse clima, tomou banho, arrumou o cabelo, caprichou na maquiagem. Antes de colocar o vestido, porém, tratou de apertar-se um pouco com uma cinta, a fim de disfarçar as formas arredondadas do corpo.

— vamos, dona Genoveva — aquele havia sido o nome que a velhinha dissera ser o seu.

— claro, querida — sorriu, apanhando a bolsa suja — preciso encontrar depressa minha netinha. Você sabe onde ela está?

— Quem? — procurando o papel em que anotara o endereço de seu pretendente, Ginny não prestou direito a atenção ao que a visitante falava.

— A minha netinha. Você sabe onde está minha netinha?

— Não. Por acaso ela também estava no supermercado? — quis saber, desistindo de encontrar o famigerado papel. Por sorte sua memória era ótima e ela decorara o endereço de Harry Potter.

— Oh! Eu já havia me esquecido disso! Vou até lá buscá-la! A pobrezinha deve estar com tanto medo!

— Quantos anos sua neta tem? — preocupou-se a ruiva, imaginando a menininha apavorada, chorando, sem ninguém ao seu lado.

— Eu não sei. — a velhinha disse, simplesmente. — Não costumamos comemorar aniversários em nossa família. Isso acelera demais o tempo. Ficamos velhas antes da hora.

— Ah, claro. — encerrou a conversa, abrindo enfim a porta e fazendo sinal para sua visitante desaparecer.

Cheia de pressa, Genoveva saiu do apartamento, os mesmos passinhos curtos e ligeiros de quando chegara ali.

Ginny rememorou pela milésima vez o endereço que havia decorado, antes de apertar o interfone. Estava um tanto atrasada.

— Pode subir! — a voz gritou do outro lado, sem sequer perguntar quem era. Devia ser algum amigo de Harry, pois a voz não era a dele.

E seguindo a orientação da voz que vinha do interfone, foi o que ela fez. Depois de tentar o elevador e nada, resolveu subir os seis andares que a afastavam do possível grande-amor-de-sua-vida. Recuperando o fôlego, conferiu o visual num espelho do corredor, ajeitou os longos fios rubros, retocou o gloss, achando-se extremamente sexy. Curtindo a sensação de ser a bolachinha mais recheada do pacote, apertou a campanhia.

— Ginny! Que bom que você veio!

O rosto sorridente de Harry apareceu, no mesmo instante em que alguém descia do elevador, chegando por trás de Ginny e, com uma mão intrusa, se apoderava da cintura dela.

— como é, gostosa? — a mesma mão deu um tapa em seu traseiro — vamos entrar? — viu o nariz de cereja outra vez quase colado ao seu.

A fisionomia de Harry não se mostrou nada amistosa e a de Ginny menos ainda. Pior que perder o possível grande-amor-de-sua-vida, pensava a ruiva, era chegar a festa dele acompanhada do palhaço tarado, que pelo jeito era amigo de Harry. Ou seria ex-amigo?

N/A:

Aí está mais um capítulo! Espero que gostem.

Não queria demorar com as postagens, mas estou elaborando uma nova história, bem diferente de "ANORMAL", e se der tudo certo pretendo transformá-la numa fanfic. Daí, como devem imaginar, as idéias estão borbulhando, mil possibilidades surgindo e eu tendo que escolher quais tornar realidade (na ficção, claro).

Agradeço a todos que acompanham a fic; e agradeço especialmente a todos que leem e comentam. É por e para vocês que a fic continua.

Beijos...

MICA.