Capítulo II - Quando nossas convicções nos enganam...

Anteriormente em Não Olhe Pra Trás:

Qual é, Ed, não se lembra de uma velha amiga? – Ela sorriu mais abertamente e, com uma análise ligeiramente mais meticulosa, eu consegui reconhecer a velha Bella naquele rosto agora magro.

Então inconscientemente eu imitei a expressão de minha noiva, e minha mandíbula praticamente despencou no chão em choque.

Bella Swan não era mais gorda. Longe disso. Ela estava estranha e impressionantemente linda e... gostosa.


Bella continuava sorrindo para mim, aguardando alguma resposta ou reação da minha parte. Porém, o máximo que eu consegui me obrigar a fazer foi forçar um sorriso que deve ter saído mais falso que uma nota de $3,50. A questão é que eu não estava no clima para sorrisos, já que minha mente ainda tentava processar toda a surpresa. Eu estava tão convicto de que encontraria a mesma Bella obesa da época da escola, e agora lá estava ela, totalmente diferente do que eu jamais imaginei.

E eu apenas não conseguia parar de reparar. Reparar nela, em seu corpo magro, esbelto, com cada curva em seu devido lugar e proporção e em seus longos cabelos de um castanho brilhante que caíam em ondas e emolduravam seu rosto agora fino. Seu rosto... Nunca me chamara a atenção antes daquele exato momento. Aqueles grandes olhos cor de chocolate derretido que iluminavam o sorriso formado pelos seus lábios levemente carnudos e avermelhados. Lábios estes que se moveram, articulando palavras que eu não ouvi, preso em minha análise minuciosa.

Então eu senti uma pancada em minha costela direita, empregada com uma força ligeiramente maior que a necessária para me tirar do estranho transe. Olhei para o lado e vi Rose me fuzilando com os olhos.

– Vamos entrar, Edward? – Minha noiva disse entre os dentes, forjando um sorriso que tentava, sem sucesso, disfarçar sua aparente irritação.

– Sim... – Soei meio distraído, até que finalmente "peguei no tranco" – Claro! – Respondi desajeitado e sorrindo sem graça.

Bella abriu espaço para que pudéssemos entrar e nós o fizemos. Por algum motivo que eu desconhecia, Rose levou sua mão até a minha e a apertou com vigor. Alguma coisa naquele gesto me pareceu puramente possessivo, como se ela tentasse marcar seu território. Eu só esperava que daqui a pouco ela não resolvesse simplesmente urinar em mim.

Após passarmos pelo hall de entrada e depois por um corredor, fomos instruídos a nos acomodar em uma pequena mesa redonda situada em uma salinha que aparentava servir para o propósito da prova de bolos. Os talheres já estavam devidamente posicionados na superfície de mogno, assim como uma jarra transparente de água que fazia jogo com os dois copos ali colocados. Era tudo meio simples, mas ao mesmo tempo bastante requintado. Percebia-se que era apenas algo temporário, em fase de adaptação.

Bella nos pediu para aguardar um instante e se dirigiu até uma cômoda no canto da sala, se inclinando para abrir uma gaveta e procurar por algo ali dentro. Por mais pacato que eu fosse, meus instintos masculinos não estavam mortos e muito menos imunes a uma bela mulher com o traseiro empinado na minha direção. E, como eu já dissera antes, Bella tinha cada curva no lugar, formando um corpo perfeitamente delicado e apelativo aos meus olhos e ao meu desejo, por mais que essa última parte fosse difícil para eu aceitar e admitir.

Quando minha língua instintiva e inconscientemente se moveu para lamber meus lábios, um scarpin de salto agulha esmagou meu pobre pé direito.

Segurei um gemido agonizado de dor e olhei furioso para minha noiva. Pelo jeito ela também não estava muito contente comigo. Foi então que me toquei de que tinha acabado de secar o traseiro de outra mulher na frente dela. Realmente, nenhum homem presta. Dei um sorriso que meio que se desculpava pelo deslize, mas Rose continuou com a expressão carrancuda, parecendo que iria explodir a qualquer momento. Ela tinha um gênio nada fácil, e eu sabia que mais tarde eu teria que ralar para ser perdoado.

Rose simplesmente fingiu que eu não estava presente pelo resto do tempo que permanecemos ali. Toda vez que eu comentava sobre o sabor do bolo que acabávamos de provar, ela simplesmente ignorava e fazia seus próprios comentários estritamente dirigidos à Bella. Eu apenas fiquei na minha, falando e sorrindo somente quando necessário, e sempre – sempre – evitando sequer olhar para Bella. Ela, por outro lado, foi muito gentil e agradável conosco, sempre sorrindo com simpatia e se alegrando com nossos elogios ao seu trabalho.

E por falar nisso, os bolos que ela confeitava - pelo menos todos os que eu provei – eram maravilhosos, esplêndidos, deliciosos! Fiquei contente que Rosalie também tivesse apreciado e comido cada pedaço com gosto, já que a dose extra de açúcar em seu organismo seria muito útil para melhorar seu humor. E pelas expressões que eu vi em seu rosto, ela estava bastante satisfeita com o que experimentara, e eu tinha quase certeza – se eu bem conhecia minha noiva – que Bella já estava contratada. O que, pelo menos para mim, não era lá uma ótima notícia. Não se Rose continuasse com ciúmes.

Mas eu tinha meus argumentos bem organizados em minha cabeça e estava pronto para usá-los na nossa provável futura discussão. Rose não pronunciou nenhuma palavra durante a ida para o seu apartamento, e eu também não disse nada, já que não queria começar aquela conversa – mesmo que eu tivesse certeza que ela chegaria, mais cedo ou mais tarde.

E, assim como eu previ, foi só eu fechar a porta da entrada do apartamento que a bomba detonou.

– Mas você não vale nem uma balinha Chita, hein? – Ela disse após bufar e largar sua bolsa sobre a mesinha de centro, virando-se para mim com as mãos na cintura e uma expressão irritada.

– E lá vamos nós... – Eu disse mais para mim mesmo, apenas constatando que havia começado a discussão.

– Sim, lá vamos nós. Ou você acha que eu iria ter essa conversa na frente da moça? Eu posso até ser uma vadia ciumenta, mas com certeza não sou de fazer barraco em público.

Eu me esqueci de mencionar o quão doce e delicada minha noiva ficava quando estava nervosa. Era incrível como toda sua classe desaparecia e seu palavreado simplesmente baixava o nível. Rose sempre fora assim, e toda vez que brigávamos, eu tinha que me controlar para não rir da sua perda de compostura e de todos aqueles xingamentos que ela soltava.

- Eu sei, Rose, eu sei. Eu apenas já sabia que essa conversa chegaria, então manda ver. – Eu disse em tom entediado.

- É, eu vou mandar ver, sim. – Ela disse num tom um pouco mais alto do que o realmente necessário e estreitou seus olhos, me encarando – Que tipo de filho da puta fica secando o traseiro de outra mulher na frente da noiva? NA FRENTE DA NOIVA?

Pensa rápido, pensa direito, pensa bem...

- Você tá louca? Eu não estava sequer olhando pra Bella, eu estava apenas curioso sobre o que ela procurava naquela gaveta. – Respondi com a maior cara de pau que um homem pode ter usado na vida.

Pude ver suas narinas incharem quando ela puxou o ar pesadamente, seus olhos brilhando e queimando em fúria.

- Não. faça. isso. – Ela disse de forma pontuada, enfatizando cada palavra. – Não tente me fazer de boba, quando você sabe muito bem que eu não sou, não tente se fazer de vítima quando você sabe muito bem que não é e não prolongue essa porra de conversa quando você sabe muito bem que eu também não estou gostando de tê-la.

Ela falou com tanta raiva e tanta convicção que meus olhos se arregalaram e então eu suspirei em derrota. Porque Rose era assim, esperta e convicta do que dizia. Nunca, desde que eu a conhecera, eu havia visto alguém lhe enganar ou fazê-la de boba. E eu certamente não seria o primeiro, já que ela me conhecia como a palma de sua mão.

– Ok, eu... – Comecei, sem realmente saber como prosseguir – eu sinto muito... Me... desculpe?

Me desculpe? Isso é o melhor que você tem a dizer? Nem você tá botando fé no que diz! – Minhas palavras pareciam apenas tê-la irritado ainda mais – Você tem tanta sorte de eu ter gostado do trabalho da moça e tê-la achado muito simpática, porque caso contrário, seria você quem teria que procurar um raio de confeiteira pro nosso casamento! – Rose gritou enquanto apontava freneticamente o dedo para a minha cara.

– Vejamos... – Fingi uma expressão pensativa, quando na verdade já tinha tudo exatamente planejado na minha cabeça – Você diz que não está gostando de ter essa discussão, certo?

– Mas é claro que não! Estou odiando, pra te ser sincera.

– E você está brava desse jeito porque supostamente me viu olhando mais do que deveria pra Bella? – Usei o mesmo tom que tinha usado antes, fazendo da pergunta uma constatação.

– Você é burro, só está fingindo ou realmente não ouviu porra nenhuma do que eu acabei de falar? – Rose disse em tom de stress misturado com impaciência.

– Calma, querida, só quero ter certeza de tudo. Então é isso mesmo, certo?

Sua resposta foi apenas um olhar afirmativo que parecia dizer "Duh! Mas é lógico, sua anta de galocha!"

– Hum... – Com a mão no queixo eu novamente fingi estar pensando. Então encontrei seu olhar e não pude conter um meio sorriso convencido, daqueles que a gente dá quando tem certeza de que iremos fazer algo que funcionará – Então quer dizer que nós teríamos que brigar desse jeito que você tanto odeia toda vez que eu te vejo secar aquele seu assistente faz-tudo?

Meu sorriso cresceu quando vi sua reação. Seus olhos se arregalaram e sua boca se abriu levemente antes que ela tentasse recompor sua expressão para uma que a fizesse parecer totalmente alheia ao que eu estava dizendo. Bem, ela falhou. Eu podia ver claramente o nervosismo em sua face.

– O quê? – Rose perguntou simplesmente.

– É isso mesmo que a senhorita ouviu, dona Rosalie Hale. Ou você realmente pensa que ninguém percebe você comendo o pobre homem com os olhos? – Ela abriu a boca algumas vezes para falar algo, mas voltou a fechá-la, sem saber o que dizer – Claro, o cara é absurdamente musculoso e tal, mas você bem que podia disfarçar um pouco, não acha?

– Eu não sei do que você está falando – Ela ergueu o queixo enquanto levantava a mão para analisar as unhas, batendo um pé no chão. Típica pose de uma madame mentirosa.

– Ah, jura? Então quer dizer que você nunca, nunquinha mesmo, deu uma olhadinha sequer no... Como é mesmo o nome dele?

– Em... – Ela pronunciou o começo do nome meio que por reflexo, mas quando percebeu o que tinha feito, logo fechou a boca com os olhos arregalados – Não sei a quem você está se referindo – Disse com a feição recomposta e o queixo novamente erguido de forma arrogante.

– Ok, acho que é a minha vez de te dizer para simplesmente não tentar me fazer de idiota, não é? Ou você quer que eu repita todo o seu discurso? – Fingi uma irritação inexistente, pois já tinha previsto toda essa situação: o que eu diria e como Rosalie reagiria.

Ela suspirou em derrota e abaixou o olhar para as mãos que agora brincavam com a barra de sua blusa.

– Tá, tudo bem, eu admito que existam algumas vezes, raríssimas vezes em que o físico dele me chama a atenção, mas são lapsos tão aleatórios... Eu prometo que não cairei mais em tentação – Ela disse timidamente, porém ainda com um traço de arrogância.

Tive que dar uma curta risada porque isso era tão típico da minha noiva; se sentir culpada por algo tão estúpido e normal, mas ainda assim não perder a pose de "a certa da situação".

– Rose, querida, eu só quis te mostrar meu ponto de vista. Não estou dizendo que eu estava certo ao olhar para... ahm... para o... para a... – como dizer que eu estava secando o traseiro da mulher sem soar meio... canalha? – para o corpo da Bella, ainda mais na sua frente, mas eu só quis te mostrar que isso é normal e que acontece com todo mundo. Afinal, não é porque estamos comprometidos que nossos olhos criaram cercas.

– Tá, mas você poderia não ter feito aquilo na minha frente, né? – Ao voltar seus olhos para mim ela percebeu o ar de insinuação que meu olhar carregava, já que sua acusação poderia ser facilmente dirigida a ela também. Com uma bufada ela se jogou no sofá, agora totalmente derrotada – Ok, já percebi que estou sendo a suja falando do mal lavado.

– Sim, você está – Falei oferecendo-lhe um sorriso condescendente.

Depois de fazermos uma promessa mútua de policiarmos melhor nossos olhos, principalmente na presença um do outro, a fim de evitar futuros desentendimentos, nos dirigimos até o quarto e começamos a nos preparar para deitar, afinal já era tarde da noite e ambos trabalharíamos no dia seguinte. Foi enquanto eu desfazia o nó da minha gravata que minha mente masculina e dominada pela testosterona teve uma idéia meio... audaciosa. Rose ainda estava tirando os sapatos quando eu me virei para ela com um olhar cheio de segundas intenções.

– Hey, baby – Seu olhar questionador veio de encontro ao meu, enquanto ela descalçava o scarpin de um dos pés – Pensando melhor sobre aquela discussão, sabe o que me faria olhar bem, mas bem menos pra outras mulheres? – Eu tinha um sorriso maroto no rosto que traía totalmente minhas intenções. Apesar disso, ela deve ter pensado que eu estava tentando recomeçar a briga, então revirou os olhos e me olhou com uma expressão de chateação, esperando que eu continuasse – Se você, minha linda noiva, me mostrasse um pouco do seu corpinho gostoso. O que você me diz?

Sua expressão se suavizou um pouco e um sorriso leve atravessou seu rosto.

– Fala sério, Edward, você vê meu suposto corpo gostoso todos os dias, e isso nunca te impediu de olhar pra nenhuma vadia por aí. – Seu tom não era sério; era leve e demonstrava fazer parte de uma conversa tranquila.

– Sim, mas digamos que você nunca me mostra do jeito... mais legal. – Sorri sugestivamente, querendo deixar as semânticas subentendidas.

Ela pareceu ter pegado o sentido de toda aquela nova conversa e seu sorriso espelhou o meu, com todo aquele ar de audácia e intenções subentendidas. Com um olhar quase malvado no rosto, Rose se aproximou de mim, agora já descalça, como um felino que chega sorrateiramente até sua presa. Seus quadris presos na saia social justa, balançando de um lado para o outro enquanto ela rebolava ao andar.

– Você está sugerindo que eu faça um... strip-tease? – A última palavra foi dita com uma de suas sobrancelhas erguidas de um modo muito sensual.

– Não sei... Você teria uma tendência a uma opinião positiva quanto a fazer isso?

Com um movimento súbito e inesperado, Rose me virou de costas pra cama e me empurrou, fazendo-me cair sentado no colchão. Aquilo apenas fez meu sorriso ficar impossivelmente mais malicioso.

– Não sei... Você teria uma tendência a uma opinião positiva quanto a assistir isso? – Sua expressão estava ainda mais maldosa - num bom sentido -, enquanto ela falava.

– Aah, minhas tendências são bem, bem positivas, acredite.


Rose já havia caído em sono profundo ao meu lado após toda a nossa... brincadeirinha. Eu, pelo contrário, não conseguia, de forma alguma, encontrar o tão desejado e necessitado sono. Só o que eu conseguia fazer era imergir em meus pensamentos, que sempre tomavam um rumo indesejado. Mas, mesmo contra a minha aparente vontade, lá estava eu pensando em ninguém mais, ninguém menos que... Bella. Era errado e condenável, e um monte de outras coisas ruins pensar em outra mulher depois de transar com a noiva. Deitado ao lado dela. Na casa dela.

Mas o modo como Bella havia mudado tão drasticamente me intrigava de alguma forma que eu não entendia. Mas mais intrigante ainda era a beleza que eu só viera a perceber naquele dia, depois de tanto tempo. Ela tinha aquele tipo de beleza angelical, pura e inocente. E, por mais censurável que fosse isso, o meu instinto e minha vontade era de simplesmente arrancar aquela inocência dela. De um modo nada casto. E bem interessante. E definitivamente errado, considerando a aliança que em breve estaria em minha mão esquerda.

O resto da noite decorreu dessa maneira, até que o sol raiou, a hora de levantar chegou e eu tive que ir para o trabalho com enormes olheiras pairando sob meus olhos. E ainda pensando em Bella.

Ótimo, apenas... ótimo.


Com o passar dos dias, dizer que minha pequena e leve obsessão por Bella havia se esvaído seria mentir na maior cara dura. Apenas piorou. Eu não entendia como nem por que, mas ela simplesmente não saía mais da minha cabeça.

E então eu comecei a sonhar com ela. Em alguns sonhos ela surgia com sua antiga aparência, quando tínhamos nossos treze, quatorze anos. Mas esses estavam mais pra pesadelos, pois eram sempre cenas em que eu a humilhava. Eu concluí que era apenas minha consciência pesando depois de tantos anos.

Em outros casos, porém, ela aparecia como estava agora, impressionantemente linda. Às vezes eram apenas sonhos comuns, muitos sem sentido, mas em outras ocasiões... Bom, apesar de acordar feliz e animado, não eram sonhos que me deixavam muito orgulhoso de tê-los, se é que estou sendo claro.

E depois de quase duas semanas passadas dessa forma, eu me peguei tomando uma decisão no mínimo imprudente. Do nada, minha mente resolveu perder o filtro da consciência e decidiu que eu a procuraria de alguma maneira.

E isso não poderia terminar bem.