Ai vai o três. Acho que o quarto será o final.
What's the matter, sweetheart? You'll come for me.
O amanhecer não apagou o que tinha acontecido na noite anterior, e quando Hermione se levantou e se vestiu, Rony a observava. Já estava vestido e faltava os sapatos, mas ele sentara na beirada da cama deles e tinha a expressão fechada. A morena esperava covardemente que pudesse adiar aquele momento, mas quando finalmente encarou Rony, viu que tinha que resolver aquilo agora, senão o perderia. Ela terminou os botões da camisa social, inspirou fundo e sentou-se ao lado dele, virada para o namorado. Nenhum dos dois falou por alguns segundos, até que Rony soltou um suspiro baixo.
- Quero saber o que está acontecendo. -
- Eu não sei... sinceramente, Rony. Não sei o que há de errado comigo. - Ela baixou os olhos, incapaz de continuar encarando-o, e ele bufou.
- Não é com você, Hermione. É comigo. - Ela ergueu a cabeça. - O problema é comigo, não é? - Rony pressionou.
- Não, não é com você. Seria com qualquer homem, Rony... - Percebeu no mesmo instante que tinha dito a coisa errada. Ele se levantou, os punhos fechados e os olhos em fúria.
- Qualquer homem? Você tem outro? - Esbravejou. Hermione abriu a boca para negar, mas ele a interrompeu jogando as mãos para o alto e virando de costas.
- Eu devia saber! Quando uma mulher começa a recusar sexo.. eu devia saber... - Ele estava fora de si, e Hermione aparentemente tinha perdido a fala. Se continuasse daquele jeito, a merda estaria feita para sempre. Tomando uma coragem que não era dela, se levantou e foi até ele, que ainda esbravejava. A morena se colocou na frente de Rony e tocou seus braços. Ele tentou se desvencilhar, mas Hermione foi firme e esperou até que ele a encarasse.
- Rony. Rony! Olhe pra mim. - Quando enfim teve sua atenção, ela suspirou. - Eu não estou com outro homem, eu nunca tive outro além de você. - Rony ainda inspirava pesadamente. - Acredite em mim. - Hermione pediu, segurando-lhe o rosto com as mãos firmes. O namorado encarou-a por mais uns segundos, então inspirou profundamente e assentiu levemente, pegando-a pelos ombros.
- Tudo bem. Mas então qual o problema? - Ela mordeu o lábio inferior; não queria dizer - aliás, diria o que? - mas a expressão de desconfiança voltando aos olhos azuis dele lhe fez falar.
- Olha, eu não sei explicar... é que, de uns dias pra cá, quando você começa a aumentar as carícias, eu tenho uma sensação horrivel... de medo, como se você fosse me machucar. É como se eu já tivesse passado por isso antes, mas nunca dormi com outro homem. - Hermione balançou a cabeça, sentindo-a latejar outra vez. Rony ouviu sem dizer nada por um momento, então a abraçou e a levou para a cama, onde se sentaram. Ela lhe contou o resto das visões, a sensação de náusea, o remédio para esquecer. E então sobre a cicatriz na orelha. Rony lhe dissera que ela perdera parte da orelha esquerda na guerra, quando fora capturada pelos Comensais e (com um tom doloroso nas palavras) torturada até que eles a encontrassem. Hermione se lembrava daquilo, de como eles a torturaram seguidamente por dias até que Harry e parte da Ordem viessem resgatá-la. Nessa parte, porém, ela notou que havia um grande branco em sua cabeça. Lembrava-se de Harry chegando, e depois somente alguns dias depois, quando já tinha saido do hospital e estava recuperada. Percebeu, portanto, que devia ser nesse intervalo que tinha machucado a orelha.
- O ferimento foi grande assim? - Perguntou a Rony. Ele franziu o cenho, tentando se lembrar.
- Lembro de você no hospital, com uma atadura gigante envolvendo a cabeça. Harry me disse na época que por pouco não tinha morrido. - Nessa hora a voz do namorado falhou; Rony não tinha ido no resgate, porque estava ferido na Toca com a perna quebrada, mas Hermione lembrava do quanto o garoto se culpava por não ter ido ajudar no salvamento. Ela assentiu, tocando a cicatriz mais uma vez. Então se despediu de Rony e disse que iria procurar Harry, para saber de mais detalhes.
Enquanto ia até o escritório do amigo, Hermione começou a pensar que, se tinha decidido esquecer o que acontecera nesse resgate, era porque algo de grave havia acontecido e ela devia deixar pra lá. Estivera tomando remédios para aquilo, então pra que abrir a ferida de novo? Mas o Dr. Connors só voltaria em dois dias e ela não podia ficar mais tempo sem saber o que tinha acontecido, precisava de respostas.
Harry não estava no escritório, estava a meio caminho de Azkaban quando ela o encontrou.
- Travis Montague foi condenado e vamos escoltá-lo até Azkaban. Você pode esperar? - Hermione parou, as mãos nos bolsos do sobretudo negro pra se proteger contra o frio cortante londrino. Ela mordeu o lábio inferior e assentiu com a cabeça; Não, não podia esperar, mas também não tinha intenção alguma de ir a a Azkaban. Harry, entretanto, percebeu que a amiga precisava dele e parou também.
- Tudo bem, tenho dez minutos. O que aconteceu? - Ele era atencioso como sempre, e Hermione ficou com vontade apenas de se aconchegar nos braços dele e ser acolhida do frio que era seu corpo agora. Mas inspirou fundo e tomou coragem.
- Quero saber o que aconteceu quando vocês foram me resgatar depois de ter sido capturada pelos Comensais, durante a guerra. - A expressão de Harry endureceu. Nada que lembrasse daqueles tempos negros ele gostava de comentar.
- Porquê? - Então Hermione lhe contou das visões, do medo que estava sentindo de ser tocada, de como tinha parado de tomar os remédios. O amigo a escutou sem interromper e não queria lhe contar o que acontecera, mas a morena foi firme e disse que precisava daquilo, precisava saber. Depois de 9 meses se escondendo atrás de remedios, finalmente precisava descobrir o que tentara manter adormecido todo aquele tempo.
- Muito bem. Nós chegamos naquela noite para resgatá-la e tudo estava correndo bem, Lupin tinha curado seus ferimentos mais profundos e tinhamos recuperado sua varinha, estávamos quase fora do perímetro da mansão quando os comensais nos encurralaram. Inferioridade numérica de dois pra um, você sabe. - Hermione assentiu. Lembrava dessa parte, quando tinham sido atacados... mas era só.
- Então nos separamos e lutamos, foi a batalha mais sangrenta até então. - Harry fechou os olhos, e Hermione respeitou seu momento de silêncio. Muita gente tinha morrido naquele dia, inclusive outros prisioneiros. - Eu não vi você a luta inteira, Hermione. Quando tinhamos praticamente ganhado, restando um ou dois comensais, eu te encontrei. - Ele parou de narrar. Havia um quê de alerta em sua expressão, e o costumeiro arrepio horrível correu a espinha da garota. Ela inspirou fundo e pediu que ele continuasse.
- Você estava... resistindo. Coberta de sangue, e então você gritou... - Harry parou de novo, os lábios comprimidos e os olhos verdes ligeiramente mais escuros.
- Continue. - Hermione pediu, sentindo seu estômago se contorcer de um jeito estranho e angustiante.
- Eu queria matá-la. Por Deus, eu queria matá-la, fazer ela implorar pra morrer. Mas não consegui. Nós a tiramos de cima de você e eles a prenderam, mas você estava tão machucada... - Harry fechou os punhos e ergueu os olhos para Hermione. Ela tinha os lábios entreabertos e os olhos arregalados, a sensação de náusea em sua garganta.
- Ela quem? - Perguntou com a voz fraca, embora já soubesse a resposta.
- Bellatrix Lestrange. - O nome lhe causou outro arrepio, desta vez mais intenso e terrível, e Hermione cambaleou, levando instintivamente a mão a orelha esquerda. Sentira uma fisgada ali e perdera momentaneamente o equilíbrio, como se já tivesse passado por isso...
- Ela está em Azkaban? - Harry não respondeu, mas Hermione leu a resposta em seus olhos. - Vou com você.
O amigo tentou protestar, disse que não deixaria a amiga se aproximar daquela mulher de novo, mas Hermione precisava; tinha que saber o que a maldita Bellatrix Lestrange tinha feito com ela, senão sentia que morreria de agonia por não saber. Por fim, vendo que não teria alternativa, Harry concordou.
-.
A prisão de Azkaban não era um lugar agradável. Embora os dementadores tivessem sido expulsos como guardas da prisão e substituídos por bruxos, o lugar continuava sendo terrível. A atmosfera era quente e abafada, embora o lugar ficasse no meio de um oceano, e fedia a morte. Hermione passou com Harry pelas celas enferrujadas, encolhendo-se ainda mais ao sobretudo. Vários dos prisioneiros ficavam agarrados as grades, tentando toca-los enquanto eles passavam. Alguns apenas gemiam, enroscados como bolas nos cantos das celas, e outros simplesmente gargalhavam ou puxavam conversa, aqueles que ainda pareciam ter um resto de humanidade. O prisioneiro que Harry e outros Aurores escoltavam seria levado a uma das celas mais altas. O amigo olhou preocupado para Hermione quando eles chegaram em frente a cela de Bellatrix Lestrange. Ela disse que estava tudo bem e ele seguiu em frente, embora lançasse olhares incisivos para trás enquanto ia sumindo na escuridão. O guarda que havia ficado para acompanha-la encostou na grade com a ponta da varinha.
- Sra. Lestrange. – Chamou, mas não houve resposta. Ele deu mais uma batida na grade com a varinha, e um estranho sibilar emergiu da escuridão. Hermione sentiu aquele arrepio corroer sua coluna quando uma figura veio se arrastando; as diferenças entre um zumbi e Bellatrix eram difíceis de estipular.
- Ora, ora, ora. – Ela vinha arrastando os pés descalços pela cela imunda, mas seus olhos continuavam negros (Negros!) Nesse momento, Hermione fechou os olhos e sentiu uma dor forte na têmpora esquerda. Sim, tinha certeza que aquele negro que vira antes eram dos olhos da comensal. – Veio se juntar a ralé, querida? – Bellatrix murmurou, agarrando as grades com as mãos descarnadas. Hermione recuou instintivamente dois passos, suas narinas se inflamando. O estado da mulher era deplorável, mas ela ainda ostentava um sorriso arrogante típico dos Black nos lábios secos. O guarda encarou Hermione com um olhar questionador. Ela lhe respondeu que estava tudo bem e o ouviu se afastar alguns passos em direção a outra cela. A morena enfim voltou os olhos para Bellatrix.
- Pensei que estivesse morta. – Bellatrix comentou com displicência, as mãos firmemente agarradas nas grades como se a qualquer momento ela pudesse desabar. Hermione a encarou com nojo e raiva; agora que estava ali, não sabia como começar. A comensal lhe causava arrepios.
- Quero saber o que aconteceu em novembro, 1997, na mansão Malfoy. Quando a Ordem foi me resgatar. – Sua voz tremeu levemente ao dizer aquilo, mas ela continuou com os olhos firmes nos negros de Bellatrix. Hermione tirou a varinha das vestes e conjurou uma cadeira de madeira, de espaldar alto, e sentou-se na frente da comensal, alguns metros longes. Se a mulher esticasse o braço por entre as grades, não conseguiria toca-la. Bellatrix estudou o rosto dela com uma pontada de curiosidade, seu rosto inclinado para o lado e os orbes negros fixos. Então um sorriso lento e horrível desenhou seus lábios, que causou mais arrepios de horror em Hermione.
- Aaaaaaaaah. – Ela suspirou, deliciando-se. – Foi uma noite deliciosa, não? Nos divertimos bastante. – Bellatrix estalou os lábios em deleite, fazendo o sangue de Hermione ferver. Antes que percebesse, ela tinha se sentado na ponta da cadeira e seus punhos estavam fechados.
- O que aconteceu? – Rosnou, a voz ameaçadora. Bellatrix não se intimidou; do contrário, parecia cada vez mais curiosa, e estava se divertindo. Os dedos sujos da comensal agarraram a grade com mais força e ela endireitou o corpo, para que pudesse olhar Hermione de cima. A arrogância continuava exposta em rosto.
- Você não se lembra? – Bellatrix entreabriu os lábios, fingindo surpresa. Então começou a gargalhar terrivelmente, completamente louca, e sem pensar Hermione estava com as mãos nos ouvidos, tentando não ouvir. Era a gargalhada de Lestrange que ouvira nas alucinações, eram seus olhos negros que pareciam fazê-la queimar... aquela maldita mulher tinha estragado sua vida de algum jeito, e estava se deliciando com aquilo. Ela parou de rir; agora seus olhos tinham se estreitado maliciosamente, duas fendas negras prontas para destilar seu veneno.
- Você se esqueceu de como nos divertimos, Granger? Ou não quer admitir que aconteceu? – Bellatrix fez um biquinho, e a paciência de Hermione se esgotou. Ela se levantou com violência da cadeira e agarrou o vestido sujo que a comensal usava por entre as grades, trazendo seu corpo para a frente bruscamente. Mulher e garota estavam cara a cara agora; Bellatrix surpresa, Hermione explodindo de raiva. Eram praticamente do mesmo tamanho, já que o tempo fizera Bella se curvar e a grifinória estava de saltos.
- O que você fez comigo?! – Ela gritou, seu rosto a centímetros do da comensal. A varinha tremia na outra mão e Hermione estava prestes a azará-la, não importava se o guarda a repreenderia, aquela mulher era uma criminosa desgraçada e merecia...
- Hermione! – Ouviu a voz de Harry do fim do corredor, mas não soltou Bellatrix. Ela parecia extremamente satisfeita agora; passou a língua nos lábios secos e encarou a garota com uma malicia muito diferente da qual Hermione estava acostumada.
- Eu tirei sua inocência. – Ela falou suavemente, quase displicente, e Hermione finalmente a soltou, os olhos arregalados de terror. Não queria ouvir aquilo, não sabia o que Bellatrix queria dizer, precisava ir embora, precisava correr dali e voltar pra Rony... dois braços firmes a agarraram e a viraram; ela se deparou com os olhos muito verdes de Harry encarando-a por trás das lentes grossas e seu mundo voltou ao foco. Ela piscou, assustada, e começou a sentir frio.
- Vamos sair daqui. – Harry lançou um olhar de profundo desagrado a Bellatrix, que tinha se afastado da grade, mas observava a cena ainda de pé. Hermione começou a andar de volta pra saída, sem olhar para a comensal, mas estacou quando ela voltou a falar.
- Você vai voltar aqui, quando se lembrar. E eu estarei esperando. – A morena se virou no exato momento para ver o sorriso de Bellatrix se alargar, e então ela sumiu na escuridão da cela. Sentindo que ia desabar a qualquer momento, Hermione deixou Harry conduzi-la para fora de Azkaban, e quando voltou a prestar atenção, já estava em casa.
Gostaram? Me deixem saber.
