Titulo: O Legado de Perdido – Capítulo Dois
Autor: BeeHime
Sumário: Algo de errado aconteceu quando Severus activou uma portkey ao escapar do castelo de Lucius desaparecendo num mar de chamas.
Acordou. Acima dele a gélida manhã brotara da escuridão da noite, acariciando o seu corpo entorpecido velando silenciosamente por ele. A névoa que reinava na sua mente mantinha-o imóvel sobre o manto de Arda que ressoava alegremente por o ter de volta; podia sentir Wenya na sua mão pulsar em simpatia, resplandecendo de vida e enchendo o chão em seu redor de flores, e despertando as árvores adormecidas. Ele podia ouvi-las de novo, como outrora! Suspirando fundo tomou controlo da sua relíquia tal como dos seus pensamentos, pondo um pouco de ordem na turbulência da sua alma.
Recordava grande parte da sua longa memória, embora pedaços da sua história se encontrarem fragmentados ou esbatidos pelo tempo! Todavia, havia um evento que estava ainda demasiado nítido, fora gravado no seu ser com cada reincarnação mortal; depois do seu corpo original desaparecer deste mundo e os Valar negarem à sua a mutilada alma a obscuridade que tanto desejava! Foi assim, com a sua adquirida mortalidade que a sua alma foi reforjada de novo; esquecendo quem realmente fora, possibilitando que o seu frágil ser sarasse o que podia ser sanado. Contudo, nem sempre o que se perde pode ser recriado, e as cicatrizes da sua alma não desapareceram; apesar de milénios terem passado, a ele muito pouco lhe parecia!
Sentou-se; o seu corpo fora envolvido cuidadosamente num roupão élfico finamente bordado, da mesma cor do tecido, os seus negros cabelos que anteriormente não passavam dos seus ombros agora deslizavam pelas suas costas e tórax banhando a sua cintura e enleando-se pelas suas vestes opalinas submergindo na negrura do pano.
Este corpo era diferente do que possuíra anteriormente como Severus. Severus! Pensou, será que ainda poderia reclamar esse nome como seu? Aqui?! Interrogou-se, ou deveria usar o seu nome original, Celebrimbor. Não... ele já não era esse ingénuo elfo! Contudo, também não podia dizer que era Severus na sua totalidade, a memória do mago não abrangia séculos de existência imortal. Porém, ambos eram intrínsecas partes do seu ser que não podiam ser postas de lado!
Fechou os olhos ao esfregar as mãos delicadas pelo seu rosto exausto, estava na hora de descobrir quem era! Por isso, ergueu-se tremulamente da sua cama de folhas secas que parecia reclamar da sua ausência; o círculo de árvores a sua volta parecia ter despertado da sonolência de inverno cobrindo-se de verde, para além delas o élfico mago distinguiu um bosque sombrio e tristonho acentuado pela luminosidade que o cercava.
'Wenya!' Pensou suspirando com resignação, o anel de turmalina, envolto em mithril e ouro que repousava inocentemente na sua mão esquerda era responsável por devolver a vida aquele lugar. Não sabia quanto tempo repousara naquele sítio remoto, só desejava que isto não se tornasse num problema, ou manter a pequena jóia escondida seria complicado!
Pois, nunca o vira tão activo desde que o criara, foi como se a sua chegada o acordasse e quisesse recuperar o tempo perdido. E ele podia sentir a vontade de Wenya de quer expandir a sua influencia para além das fronteiras do circulo de árvores e expulsar a escuridão do bosque. Havia, algo de podre, fétido e perverso escondido muito longe dali a sul daquela desconhecida terra que corrompera o que outrora fora belo, mas, o élfico mago fez valer a seu intento sobre o anel que se submeteu sem problema, diminuindo aos poucos a sua influência na natureza que o circundava. Era perigoso atrair atenção desnecessária!
Guiado pelo canto das árvores, que se rebelavam contra a sua sonolência, encontrou perto dali um ribeiro e com as suas últimas forças ajoelhou-se à sua beira, espreitando o seu reflexo na água corrente. O seu rosto era semelhante ao de Severus, mas os traços ásperos que possuíra anteriormente foram atenuados, e o seu nariz adunco que antes se imponha sobre a sua estreita face aparecia agora em harmonia com as dimensões do seu rosto rematando a simples beleza dum elfo.
O seu criador devolvera-lhe a imortalidade, resgatando-o da vida triste que tivera! Não sabia se aprovava a ideia de ter o eterno como destino. Sentia-se cansado, pelo menos enquanto mortal não tinha lembrança de memórias que preferia não recordar, apesar de transportar no seu cerne uma mágoa que nunca tivera explicação! Não sabia o que fazer!
Olhando, para cima viu o céu diurno brinda-lo com um sorriso por entre as luminosas clarabóias rendilhadas das copas das árvores, todavia, o elfo podia sentir o negrume regressar de mansinho àquele tristonho lugar, velando o mundo a sua volta.
"Soren." Disse num suspiro mirando o diminuto firmamento azul que escondia as estrelas. Era esse o nome que escolheu para si, do qual o seu nome - Severus - derivava mas que neste mundo pouco significado tinha!
Então, enquanto contemplava o que fazer, o silêncio abafado em seu redor, foi rasgado pelo som de guinchos estridente, sobressaltando Soren. Alarmado ergueu-se rapidamente manchando a sua visão de negro. Aferrolhando os seus escuros olhos, cobriu a sua boca com as mãos tentando controlar a náusea e as tonturas que se elevaram dentro do seu ser o melhor que pode, no entanto, as vertigens que o assolavam e faziam estremecer obrigaram-no cair de joelhos. Lágrimas brotaram no canto dos seus olhos, felizmente não perdeu a luta com o seu estômago mas demorou demasiado tempo a se recompor, e quando deu por isso estava cercado por quatro gigantescas aranhas que rivalizavam em tamanho com a Aragog de Hagrid.
Fintando os terrores a sua frente, o indefeso elfo, preparou-se para enfrentar as bestas. Fechou os olhos concentrando-se na torrente indómita da sua magia que parecia ter aumentado de grandeza, preenchendo a sua alma com o seu calor. Sentindo-se afortunado, por não se achar de todo desfavorecido; então o élfico mago colocou ambas as mãos no chão lamacento da beira do riacho, apelando ao seu criador que lhe desse as forças que tanto necessitava para realizar a tarefa a sua frente. Nesse preciso momento, Wenya no seu dedo anelar, acordou ressoando com o seu poder, enchendo a clareira de luz.
Quase simultaneamente em seu redor profundas trincheiras abriram-se com um estrondo, sob os pés da praga que se aproximava dele, esmagando-as por entre guinchos estridentes os seus corpos sujos quando a terra se abateu sobre si sem deixar rasto do que acontecera. Porém, o uso de tanto poder esgotou Soren que perdeu a consciência não se apercebendo da chegada de vários indivíduos que caçavam esses mesmos monstros e se depararam com a estranha figura caída.
Nota: Para quem não sabe, ou já não se recorda Aragog é uma acrumantula (uma gigantesca aranha preta) que Hagrid criou enquanto andava na escola antes de ser expulso por algo que não fez. Harry e Ron encontraram Aragog e as suas crias anos depois quando tentavam ilibar Hagrid no segundo volume da série - Harry Potter e a Câmara dos Segredos.
