Demons & Wizards
- Cara, não é melhor esperar o apoio?
- Até eles chegarem o pior já pode ter acontecido.
Bater repetidas vezes o ombro contra a porta é dolorido, mas Heitor Sacramento estava obstinado demais para ligar para a dor.
Heitor estava acompanhado somente de seu parceiro e melhor amigo do trabalho, o policial Rogério. Os dois estavam investigando uma denuncia anônima.
A atendente da delegacia chegou a pensar que fosse algum tipo de trote doentio, mas Heitor conseguiu convencê-la de que o caso poderia ser sério e pediu para que a denuncia fosse levada adiante. A chamada envolvia palavras como "magia negra" e "feitiçaria". Seria essa a oportunidade que Heitor tanto esperava? Será que o famigerado Marcos Mignola tinha deixado cair sua máscara? A denuncia não fazia nenhuma menção ao sensitivo que Heitor tanto amava odiar, mas como sabia que o seu "rival" tinha uma propensão a gostar daquele tipo de coisa não faria mal investigar.
Depois da quarta ou quinta tentativa a tranca sede e a porta abre em um rompante. O esforço, porém, cobrou seu preço. Heitor acabou ferindo sua mão. Estava tão eufórico com a descoberta que nem prestou atenção no corte e no sangue que escorria dele.
O apartamento ficava em um prédio abandonado que havia sido invadido por algumas famílias de sem teto. As condições de higiene eram péssimas. As paredes eram cobertas por mofo e já tinham algumas rachaduras. O lugar fedia a mijo, podridão e, principalmente, descaso. Ao entrar no apartamento suspeito Heitor não deixou de notar um outro odor. Um odor incomodo que lembrava ovo podre.
Ou seria enxofre?
O apartamento era a visão mais sinistra que Rogério e Heitor já tinham posto os olhos. O lugar era escuro e lembrava algum cenário de filme de terror. O piso estava repleto de velas espalhadas. As paredes eram cobertas por fotos de pessoas e por frases escritas em um idioma que os policiais não compreendiam. Para completar havia um desenho esquisito pintado no chão. Um circulo contendo uma forma geométrica cheia de detalhes.
Heitor se aproximou do desenho no chão, sem que percebesse uma gota do seu próprio sangue escorreu de sua mão e pingou no interior do círculo.
- AH MEU DEUS! - Gritou Rogério.
O desenho no chão começou a brilhar em uma luz roxa. Heitor teve que proteger a vista com as mãos. Quando o show bizarro passou e o apartamento voltou ao "normal" Heitor pôde voltar a enxergar e notou que seu amigo já não estava com ele. Havia fugido. Heitor ficou possesso.
- Porra, Rogério, deixa de ser tão frouxo!
Truques de palco. Heitor sabia que com o conhecimento certo dava para criar efeitos impressionantes e fingir um evento paranormal "incontestável". Incontestável para aqueles que eram propensos a acreditar em tudo e não conseguiam ver mais do que o superficial. Não era o caso de Heitor. O policial se agacha e põe o rosto bem perto do desenho. Não tinha medo, apenas curiosidade.
- Filho da puta! Como você conseguiu fazer isso?
Heitor passa o dedo pelo desenho. A tinta parecia normal, mas podia conter algum tipo de reagente químico que respondesse a entrada de oxigênio na sala. Haveria outras opções também.
- O andar de baixo!
Heitor desce um lance de escadas de modo tão rápido que quase tropeça nas próprias pernas. Ele finalmente chega ao andar inferior e começa a procurar pelo apartamento que ficava logo abaixo do apartamento suspeito. Ele esperava encontrar um maquinario ou um equipamento cheio de lampadas. Ao invés disso encontrou só salas vazias.
- Puxa, mas esse picareta é dos bons!
Concentrado no seu raciocínio, Heitor demora a perceber a presença de uma figura sorrateira. Que andava fazendo o mínimo de barulho possível.
- Hei, amigo. Dá o fora, estou no meio de uma investigação policial.
O homem era incrivelmente magro, parecia não ter uma grama de gordura. Seu rosto era ossudo, suas costelas eram aparentes e sua boca desdentada. Um viciado em crack provavelmente.
- Some, porra! Tá surdo?!
De repente os olhos do mendigo mudam. Ficando completamente negros. Heitor não sabia dizer se os olhos mudaram ou se estavam assim desde sempre e ele é que não tinha percebido.
- Essas lentes de contato são para dar medo, é? Nossa, estou impressionado.
O mendigo respondeu a ironia do policial abrindo sua boca. O som que emitia era ininteligível. Sua voz encheu a sala com um grunhido gutural e estridente.
- Tá certo, já chega. Mãos na parede, você esta preso!
O mendigo ri, como se tivesse ouvido uma piada muito engraçada.
- Diabos! O que foi que você tomou?
- "Diabos"?! - Repetiu o mendigo em seu tom gutural.
O policial pega o braço do mendigo na tentativa de o imobilizar. Porém não obtêm sucesso. Com uma força impressionante a alguém com feições tão abatidas, o mendigo arremessa Heitor na parede. O choque de suas costas contra o concreto foi dolorido, mas nada tão incomodo assim. Heitor estava acostumado a apanhar.
- Você pediu.
Heitor tira seu revólver do coldre e dá um disparo. O tiro acerta o peito do mendigo, mas ele não caiu. Continuou em direção ao policial como se um zumbi fosse. Uma segunda bala é disparada. E uma terceira. Mesmo com um balaço no meio da testa o mendigo se recusava a morrer. Pela primeira vez em muito tempo Heitor ficou assustado.
- Ai Jesus!
Quando o mendigo ficou próximo o bastante Heitor meio que cai em resignação e fecha os olhos. Como se aceitasse o fato de que não havia mais nada o que ser feito. Como se tivessem atendido suas preces, de súbito, o mendigo sofre um choque. É atingido por uma força invisível e cai duro no chão. Heitor volta a abrir os olhos. Somente para contemplar seu algoz tombado. Finalmente morto.
O coração do policial estava batendo como um tambor, respondendo ao fluxo de adrenalina que corria pelo seu sangue.
- Não vá surtar agora, Heitor. - Disse o policial a si mesmo. - Nunca se esqueça que há sempre uma explicação lógica para tudo.
Passado o susto inicial, Heitor olha para a porta do apartamento e vê um rosto familiar. - Desgraça! Sabia que tinha um dedo seu nisso!
Marcos olhava para Heitor com um sorriso sínico, como se constatar a raiva que provocava no policial fosse para ele um prazer.
- Mãos na parede! - Heitor não conseguiu manter a ameaça, ao se levantar rápido demais algumas costelas reclamaram. Elas haviam sofrido com o impacto contra a parede momentos antes.
Poucos segundos de distração era tudo o que aquele feiticeiro precisava para sumir de vista. Quando Heitor volta a olhar para a entrada do apartamento constata que Marcos havia sumido. Para aumentar ainda mais o seu espanto o corpo do mendigo também.
- Mas é claro! - Exclamou o policial, sentindo o alivio que aquela revelação trazia. - Isso foi um delírio! Foi tudo um delírio! A tinta! - Heitor olhou para os dedos melados com a tinta do círculo pseudo-arcano. Será que elas continham alguma substância tóxica? Um alucinógeno? Heitor lembrou do motivo que o levou até lá. Lembrou da denuncia anônima. ANÔNIMA! Teria sido Marcos?
Heitor seca a testa suada convencido da verdade que havia escolhido para o ocorrido. - Marcos, seu grande filho da puta! - Ainda dolorido o policial foi embora. Esperou que o reforço chegasse e omitiu seu confronto com o mendigo de olhos pretos que ele julgava ter sido imaginário.
Aquela noite Heitor não iria conseguir dormir.
Seu sono seria atormentado por um demônio.
Esse demônio se chamava duvida.
