Second Annotation
- Ondina -
Wish
Conforme a chuva ia parando, algumas crianças saiam para brincar nas pequenas poças d'água. As nuvens iam dissipando-se aos poucos, revelando a luminosidade da lua nova e de pequenas estrelas. Mas nada se comparava ao brilho no olhar gentil de Biospark. De fato, aquele olhar poderia estar falando mil coisas, mas a garota não conseguia entendê-las. Não sabia se estava assustada, surpresa, curiosa. O silêncio dominou por algum tempo, até que um barulho despertou-os.
– Atchim! – Ayashii abaixou a cabeça, tapando gentilmente a boca com sua mão.
– É melhor você ir para casa e descansar.
– Mas o que você quis dizer com aquil...
– Calma...! – ele pousou o dedo indicador sobre os lábios vivos da moça, interrompendo-a. – Vamos nos encontrar novamente amanhã, na frente da academia. Todas as suas dúvidas serão respondidas. Apenas vá para casa e se cuide.
– E-está bem! – corou, sentindo um arrepio na espinha.
– A gente se vê amanhã!
Ela sorriu e despediu-se, seguindo a oeste numa trilha. Ainda podia sentir seu coração aos pulos, mas não sabia se era por todo o ocorrido ou pelo gesto do rapaz. Fitou o céu e soltou um longo suspiro. Com a temperatura alcançando doze graus e suas roupas frias, a garota tremia e espirrava a cada minuto. O dia fora bastante cansativo, tudo o que desejava era dormir.
O garoto não pensava de forma diferente. Apesar de se manter forte, também havia pego um leve resfriado. Pousou a mão sobre os cabelos, arrumando algumas mechas que atrapalhavam sua visão. Ao observar o céu estrelado, seus pensamentos permaneceram fixos na moça de orbes esmeralda, e, mesmo sem entender, ele corou suavemente. Voltou à realidade quando avistou a nave naquele velho aeroporto e, encostado nela, um vulto de olhos amarelados esperava calmamente sua volta.
– Está atrasado. – disse, encarando-o.
– Você não é minha babá. – replicou, impaciente.
– Se te conheço bem, você foi atrás daquela garota. – suspirou.
– Desde quando você me conhece bem?
– Não seja tão imaturo, isso não é uma discussão.
– Apenas me deixe em paz, estou cansado. – disse, adentrando o lugar.
Não falou mais nada e dirigiu-se ao quarto, retirando seus coturnos e atirando-se na cama, não custando a adormecer. A madrugada passava da mesma forma em que os flocos de neve caíam, lenta e fria. A manhã tardava a chegar, ou era isso que Biospark pensava. Quando sonhamos com algo, perdemos completamente a noção do tempo.
Fora algo que havia acontecido em sua infância. Um lugar escuro, um grande círculo, um vulto de olhar demoníaco. Sentiu seu coração apertar, como se garras estivessem pressionado-o. Um forte ardor percorria seus braços e tórax, ameaçando queimá-los. Engoliu seco, fitando aquele par de olhos cinzas, amedrontado. Com grilhões aos seus pés, era impossível realizar movimentos bruscos. E, no meio daquela tortura, um grito ecoou na profundeza da sua mente. Quanto mais tentava esquecer, mais aquilo vinha à tona.
– Biospark...!
O garoto acordou depressa, assustado. Seu rosto estava mais pálido que o normal e seus braços e torso estavam paralisados. Com algum esforço, apalpou os lençóis em busca de algo. Encostado à porta, Meta observava tudo. Seus olhos, brilhando vermelho como sangue, detectaram algum tipo de ameaça. Ao perceber que tudo havia voltado ao normal, adentrou o quarto com um ar sério. A primeira coisa que fez foi apontar um relógio em forma de gatinho na parede lateral.
– São 15:30. – ao perceber a expressão assustada do outro, logo complementou sua frase. – Mandei a Ribbon trazê-la para cá, não se preocupe.
– Ainda bem. – disse enquanto levantava-se, arrumando a cama.
– Você está bem...? Parece pior do que ontem. – comentou.
– Algo nesse planeta está me incomodando. Quero ir embora daqui.
– Precisamos convencer a Daiki antes, não se esqueça!
O rapaz de orbes lilás assentou com a cabeça, apressando-se para tomar banho e comer algo. O moreno retirou-se, receoso, após ver o amigo esconder uma pequena caixa nos bolsos. Resolveu não comentar nada sobre aquilo, acabariam discutindo novamente. Foi de encontro à grande janela próxima ao painel, fitando a paisagem coberta por um punhado de neve. O lugar era bastante pacato para se viver. Havia campos de plantações, uma cidadezinha humilde e moradores animados.
– Agora já sei por que você foi escondida aqui, Daiki.
Não muito longe dali, a garota de cabelos rosados ainda estava à espera do amigo. Devido ao clima, usava um casaco branco com enfeites de plumas cinza e botas claras. Ela visava o céu, suspirando a cada momento, pois milhares de coisas passavam pela sua cabeça. Aquilo tudo poderia ser apenas uma brincadeira de mau gosto ou uma peça que suas colegas tinham tramado. Bufou, chutando uma pedra que estava no caminho.
Já havia esperado demais, então resolveu voltar para casa. No final das contas, sentiu-se como uma idiota. Caminhou vagarosamente por um tempo, o suficiente para avistar um pontinho rosa flutuando e pousando sob o cachecol escarlate que levava em suas mãos. Aquilo possuía quatro asas e lembrava uma borboleta. A garota tentou tocar naquele pequeno ser de cores suaves, mas foi interrompida por uma voz vindo do mesmo.
– Você é a Ayashii, não é?
– Exatamente. – sorriu, fazendo uma expressão confusa.
– Ribbon. – pausou. – O Meta me mandou buscá-la.
– Nem pensar...! Não vou cair nessa brincadeira novamente.
– Brincadeira ou não, você precisa devolver o cachecol do Biospark.
– Verdade...! – falou num murmúrio, suspirando logo em seguida.
As duas seguiram caminho ao encontro dos outros. Neste período de tempo, a pequena fada contava as aventuras que tinha passado junto aos garotos. Comentou sobre Ripple Star, seu planeta natal. Ele possuía um grande cristal azulado, maior e mais cobiçado tesouro da galáxia. Seu poder, apesar de limitado, era fantástico. Mas logo soube que era apenas um fragmento e por isso estava ali, em busca do resto.
Ayashii havia entendido parte daquilo, mas ainda não sabia por que estava sendo envolvida nesta história. Avistou a grande nave coberta de neve e, a sua frente, o rapaz de armadura observava os pequenos flocos de neve que voltavam a cair. Seus olhos foram tomados por um brilho verde, que, ao perceber a presença dela, voltaram a cor original, dourados como ouro. A fada deslocou-se até o ombro de Biospark, que acabava de sair.
– Boa tarde! – a moça cumprimentou, sorrindo.
– Er... B-bem, boa tarde. – o rapaz apoiava uma das mãos sobre a nuca, envergonhado.
– Você está bem? Até fiquei preocupada por você não ter aparecido.
– Ele fica muito frágil quando o clima está frio. – brincou o moreno.
– Frágil o escambau! – resmungou, envergonhado.
– Da última vez você ficou resfriado por quase uma semana. – e começava a apertar as bochechas do amigo, como se fosse um bebê.
– Foram apenas três dias! – bufou, estapeando as mãos que o beliscava.
A garota riu de uma forma fofa, interrompendo o barulho dos dois. Sentaram-se em escombros perto dali e, finalmente, Meta concluiria tudo que o amigo havia dito no dia anterior.
Há alguns anos, uma ameaça surgiu no universo, confrontando os que buscavam justiça e espalhando a discórdia por onde passava. Apesar de ter sido destruído na presença de um Guerreiro Estelar, tudo indicava que Nightmare não havia sumido. Junto a ele, quatro líderes formaram uma aliança, apressando a destruição de tudo. Nenhum deles tinha paradeiro manifesto, pois conseguiam fazer atrocidades sem deixar rastros. Aos poucos foi descoberta a existência de uma energia limitada, que, ao ser convertida em um puro cristal turquesa, servia como amplificador de poderes. Sua origem era totalmente desconhecida e, mesmo com Ribbon para detectá-los, sua quantidade era incalculável. Tal força ainda é desconhecida por muitos.
– Então corro perigo ao ter parentesco com Guerreiros Estelares?
– Exatamente. – respondia Meta. – Você devia vir com a gente.
– E quem me garante que com vocês estarei mais segura?
– Não há garantias. Foi apenas um pedido de seus pais... – sussurrou o moreno.
– Eles estão vivos? – perguntou numa expressão surpresa.
– Sim.
Ao ouvir tal resposta, Ayashii se alegrou. Finalmente teria uma chance de conhecer seus pais legítimos e havia tantas coisas que queria perguntar. No final das contas, resolveu partir com aquele grupo. Estava distraída para perceber a repentina mudança de humor do rapaz de madeixas alvas, que encarava o amigo com um ar sério e o outro desdenhava desviando seus olhos para o céu e fechando-os lentamente.
– Em todo caso, nossa apresentação não foi formal. – comentou Meta, jogando sua capa para trás. – Da segunda geração de Guerreiros Estelares, cavaleiro Meta.
– Da terceira geração de Guerreiros Estelares, ninja Biospark. – apontou para si mesmo, convencido.
– Companheira de lacinho, como me chamam, Ribbon.
– Vejamos... – começou. - Último ano na academia de magia Hiraki, maga e alquimista Ayashii. Espero me dar bem com todos! – e sorriu de maneira simples, mas meiga.
Não custaram a arrumar os últimos preparativos, tomando conhecimento da nova rota que fariam. Eles levavam a esperança em seus corações, com um sorriso estampando nos rostos. Era só uma questão de tempo para a garota começar uma nova vida.
