Escórpio desviou os olhos novamente da garota à sua frente.
Tinha planejado esse momento por dias, desde quando seus companheiros de quarto haviam descoberto que ele nunca beijara ninguém.
A vítima: Amélia Fawley. Mesmo ano que Escórpio, da Sonserina; uma das poucas garotas que tinham coragem de conversar por mais de dois minutos que ele à exceção da grudenta da sua prima Elinor e da esquisita Rosa Weasley.
Fizera tudo direito. Inventara uma mentira pra tirar a garota da Sala Comunal, mas agora que os dois estavam sozinhos no corredor do terceiro andar, não conseguia pensar em nada pra dizer.
– Eu preciso terminar meu trabalho de transfiguração, Escórpio. – Disse Amélia com impaciência.
Ele voltou a encará-la. A garota não era feia, muito pelo contrário. Muito embora ele não sentisse nenhuma atração especial por Amélia, admirava sua cascata de cabelos loiros e olhos castanhos, com cílios longos um tanto sensuais.
Escórpio sabia o que fazer. Tinha ensaiado diversas vezes: fingir descontração, então se aproximar de mansinho, encostar os lábios nos dela, e dar o fora dali e nunca mais olhar para a garota.
Todos os garotos eram de opinião que prolongar um relacionamento era perigoso. Um deslize e as meninas tomavam conta de tudo, exigindo coisas que você não queria fazer, como andar de mãos dadas ou ir a Casa de chá de Madame Pudiffot. Os poucos que caíam nessa armadilha eram severamente debochados.
Escórpio tomou coragem e avançou um passo. No nervosismo, ele quase tropeçou no próprio uniforme e Amélia sorriu, corando. Ele sentiu um calor nas próprias bochechas, mas avançou um pouco mais, encostando seu nariz no dela. Amélia tinha um perfume bom, o cheiro que uma garota deve ter.
Mas, então, ele sentiu outro aroma no ar; um toque de amêndoas e rosas, que lhe era muito familiar. Num instante eles ouviram passos, e se afastaram um pouco abruptamente, um segundo antes de Rosa Weasley aparecer na borda do corredor.
Ela parou, olhando para ambos, um pouco constrangida.
Escórpio ficou extremamente aborrecido, principalmente por ter sido Rosa, mais uma vez, que acabara com seu momento. Encarou a garota, esperando que ela desse o fora dali.
Rosa, como sempre, encarou de volta com determinação.
– Anh... eu preciso mesmo ir. – insistiu Amélia, olhando de Escórpio para Rosa. Com um sorriso triste, ela se afastou pelo corredor.
Sentindo uma onda de raiva e adrenalina percorrer o corpo, Escórpio voltou a atenção para Rosa.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou, mal humorado.
– Os corredores são públicos, Malfoy. – retrucou.
– Está tarde! – insistiu, azedo.
– Então o que você está fazendo aqui?
Escórpio bufou, se sentindo extremamente miserável. Não bastasse ser o único garoto de quatorze anos da sua casa que nunca beijara ninguém, sequer conseguia ficar a sós com uma garota tempo suficiente para colocar seu plano em ação.
Tomando uma decisão inesperada, com a frustração atingindo o auge, ele avançou e beijou a garota à sua frente, pegando-a completamente desprevenida.
Ela resistiu, afastando-se com as bochechas muito coradas.
Escórpio continuou a encarando, a respiração entrecortada, enquanto sentia o coração bater rapidamente debaixo do peito. Ele esperou que ela o azarasse ou até mesmo lhe desse um tapa, mas com um suspiro abafado ela correu de volta pelo corredor, sumindo das vistas dele. Bem feito, pensou ele, por ser tão intrometida.
Ele ficou alguns minutos em estado de choque, pensando na loucura cometida e lembrando dos doces lábios da garota. Ele nunca imaginou que beijar fosse tão bom, e fez uma anotação mental para encurralar Amélia na próxima oportunidade.
Mais tarde, no quarto, dormiu pensando na sua futura conquista, mas o perfume gravado em sua mente tinha cheiro de rosas.
