Hermione
desceu sozinha para o café da manhã no dia seguinte. Pela primeira
vez estava sem as crianças. Já havia feito as malas e Pansy Malfoy,
com ar muito sério, lhe comunicara que tinha reserva no vôo da uma
hora para Londres.
-
Nós mesmos vamos olhar as crianças esta manhã, por mais
inconveniente que seja - dissera Pansy, e Hermione se conteve para
não dizer o que achava de mães que consideravam inconveniente tomar
o café da manhã com os próprios filhos.
Ficou
ansiosa ao entrar no belo jardim onde havia mesas para o café. Viu
Ronald Weasley sozinho em uma mesa pequena para dois, ele acenou e a
chamou. Hesitando, Hermione praguejou baixinho contra o modo como seu
coração batia. Não havia motivo para isso. Devia ignorá-lo? Ou
apenas acenar de volta e sentar-se em outra mesa? Ele a chamou outra
vez, agora com mais urgência. Teria de falar com ele, nem que fosse
por um segundo.
-
Você quer me dizer alguma coisa? - perguntou ela com uma voz não
muito calorosa e olhos frios; mais frios do que ela realmente se
sentia.
Ronald
vestia uma camisa creme com colarinho desabo¬toado, criando uma
imagem muito máscula e atraente. "E aposto que ele sabe como é
sexy", pensou ela tratando de não demonstrar qualquer reação.
-
Onde estão as crianças esta manhã?
-
Virão mais tarde, com os pais - explicou ela, respirando fundo - Eu
vou embora de Veneza hoje. Assim que tomar o café da manhã.
-
Você vai embora? Achei que ia ficar até o final da semana. Vocês
todos estão indo?
-
Não, só eu fui despedida.
-
Oh. Aplicou uma cantada no marido, não é? - disse ele,
apressando-se em acrescentar - É brincadeira.
-
Você se importa se eu for pegar meu café da manhã? Tenho de ir
embora logo.
-
Desculpe. Por que você não pega cereais e um suco de laranja e
senta-se comigo? Seria besteira ficarmos cada um em uma mesa quando
estamos os dois sozinhos, além disso, eu quero conversar com
você.
"Bem,
mas eu não quero conversar com você, disseram os olhos dela", mas
a educação a fez conter as palavras e retornar para a mesa dele
pouco depois. Seria tolice sen¬tar-se sozinha agora que o
conhecia.
-
Você disse que queria conversar comigo? Sobre o quê?
-
Também estou deixando Veneza hoje. Estarei no vôo da BA da uma
hora. Em que vôo você irá?
-
Nesse mesmo – "Não haveria modo de se livrar dele?"
-
Ah... Ótimo você ainda não chamou um táxi aquático, não é?
-
Não vou usar um táxi. Vou pegar o ônibus aquático e o trem.
-
Não precisa fazer isso, chamei um táxi que chegará aqui às onze e
meia, podemos ir juntos.
-
Obrigada, mas... Prefiro ir sozinha - dividir o preço do táxi
estava totalmente fora das possibilidades de seu orçamento. Tinha
que cuidar de cada centavo agora.
-
Você prefere lutar com sua bagagem em um ônibus aquático e depois
seguir numa viagem tediosa de trem até o aeroporto quando estou lhe
oferecendo uma carona em um táxi aquático que estará vazio, exceto
por mim, e levará menos de meia hora? Você está sendo
boba.
Hermione
se sentiu ofendida, mas percebeu, ao mesmo tempo, que seria mesmo
bobagem recusar. Especialmente se ele estava pagando.
-
Está bem obrigada. - Assim teria mais algumas horas em Veneza. Um
tempo para andar sozinha e ver coisas que não pudera ver com as
crianças. Como as magníficas pinturas da Accademia, ou a vista de
tirar o fôlego do alto da Campanile, na Praça de São Marcos.
-
Bem... - Rony apoiou-se na mesa, mexendo o café. - Imagino que
esteja feliz agora, por poder voltar para a Austrália um pouco antes
do planejado?
A
pergunta foi como um balde de água fria.
-
Não vou voltar para a Austrália, pelo menos não agora – "Graças
a Draco Malfoy!" Ela pensou na irmã, grávida, doente e com
dívidas, e xingou mentalmente todos os homens ingleses.
-
Mesmo? E por que essa mudança repentina de idéia?
-
Não mudei de idéia eu... Não posso pagar a passagem, pelo menos
não agora, de qualquer maneira - ela o olhou com intensidade. Aquele
homem não devia entender o que significava não poder pagar por
alguma coisa.
-
Você está dizendo que os seus patrões a despediram sem lhe pagar
nada? E que agora você não tem dinheiro bastante para comprar a
passagem de volta para a Austrá¬lia? - Ele parecia tão
inconformado quanto ela se sentia.
-
Sim, foi algo assim.
Tinha
usado parte do que economizara em Londres no tra¬balho com Vitor
para pagar algumas das contas da irmã, débitos que o inútil do
marido dela, como sempre, não conseguia pagar. A pobre Nicole estava
desesperada de preocupação, saben¬do que o telefone e a luz
estavam para ser cortados e sem ter esperança de ganhar o dinheiro
sozinha. Também tinha enjôos matinais e não podia continuar com
seu trabalho como modelo, que era o que os estava sustentando desde o
casamento, um ano antes. Nicole telefonara para Hermione
de¬sesperada, pedindo ajuda, o que sempre se recusara a aceitar no
passado.
E
agora vinha a última gota. O marido de Nicole queria que ela tirasse
o bebê! Hermione afastou o prato de cereais e pegou o café. Nicole
precisava dela. A irmã admitira isso, o que era muito di¬ferente de
seis meses antes, quando chegara quase ao ponto de dizer à irmã
mais velha que cuidasse da própria vida. E agora, graças a Draco
Malfoy, não podia ir para casa ajudar Nicole em um momento difícil.
Pelo menos não poderia ir enquanto não economizasse o bastante para
comprar a passagem. E, quando voltasse a Melbourne, teria de
encon¬trar outro trabalho. Não poderia apoiar Nicole com dinheiro
enquanto não tivesse um salário, um bom salário.
"Maldito
Dino!", xingou ela mentalmente. Nicole merecia coisa melhor.
-
Escute, eu tenho uma proposta – disse Ronald.
Hermione
retornou à realidade. Uma proposta? Seus olhos de¬monstraram a
suspeita que sentia. "Aposto que tem", imaginou ela, ainda
pensando em Dino Thomas e em como ele fizera a corte à irmã um ano
antes. Com presentes extravagantes e com mentiras sobre sua família
e passado. Não que Nicole soubesse sobre as mentiras... ainda.
Hermione descobrira a verdade quando estava em Londres e não
conseguira contar à irmã pelo telefone não podia fazer isso a
distância.
-
Esqueça - disse ela. - Não estou interessada.
-
Você está me entendendo mal, Hermione. Estou lhe ofe¬recendo um
emprego. Outro emprego relativo a crianças.
-
Crianças?
-
Não crianças, mas criança. Meu filho de três anos.
-
Você tem um filho? - perguntou ela surpresa. Imaginara que ele fosse
totalmente livre, sem ligações ou responsabilidades. E então se
lembrou de Draco, pai daqueles dois anjinhos. Este homem poderia ser
outro Draco. Ter um filho não o tornava confiável. Quem mais o
estaria esperando em casa? Uma esposa? Uma esposa ciumenta?
-
O nome dele é David, está em Londres com minha mãe. A última babá
dele... Bem, vamos dizer apenas que ela demonstrou não ser
satisfatória.
Não
foi satisfatória? Hermione o olhou com intensidade aqui¬lo era o
que Draco Malfoy diria sobre ela. O maldito conquis¬tador barato.
Todos os ingleses seriam iguais? Os lábios dele quase formaram um
sorriso quando com¬preendeu o que ela pensava.
-
Relaxe... Eu não dei em cima dela, se é nisso que está pensando.
Não tive nada a ver com isso. Ela simplesmente não conseguia lidar
com um menino de três anos hiperativo. Minha mãe esteve
entrevistando babás durante esta semana, mas eu darei a palavra
final quando voltar.
Ele
ainda não falara nada sobre a esposa. Estariam se¬parados?
Divorciados? Ou sua esposa era uma mulher com um emprego que tomava
todo seu tempo, como Pansy Malfoy?
-
Você vai deixar seu filho em casa com uma babá quando for para a
Austrália? Uma babá nova no emprego? Sua mãe não pode cuidar
dele? Ou sua esposa?
-
Estou vendo que você já está se preocupando com meu filho. Vi
ontem que sabe lidar com crianças.
Hermione
calculou que ele já devia ter a intenção de lhe oferecer um
emprego desde o dia anterior. Aliás, teria sido por isso que se
aproximara? Ele saberia todo o tempo que não era mãe das crianças,
mas a babá? Teria sido fácil descobrir isto junto ao pessoal do
hotel.
-
Não. Não vou deixar meu filho com uma babá, nem com minha mãe,
nem com mais ninguém. Ele irá para a Austrália comigo desde que eu
encontre alguém para cuidar dele nos próximos três meses... Ou
talvez mais.
-
Oh. Mas sua mãe não pode ir com você? - Descubra o que puder sobre
ele antes de sequer começar a pensar em aceitar a proposta.
-
Infelizmente, não! Ela odeia aviões, recusa-se a voar e de qualquer
modo, ela tem a fazenda para cuidar. Está ansiosa para voltar para
lá.
-
Uma fazenda? Você quer dizer... Ela não mora em Londres?
-
Não. Ela está passando a semana em meu apartamento de Londres
enquanto entrevista as babás e prepara David para a viagem para a
Austrália. Ela mora na fazenda da família perto de Ottery St.
Catchpole. Está me ajudando a cuidar de David desde... Desde que
minha esposa morreu. Com a ajuda de várias babás.
Hermione
respirou fundo. Então ele era viúvo. Seu coração amoleceu um
tanto.
-
Você está dizendo que David esteve vivendo em uma fazenda em Ottery
St Catchpole com sua mãe, enquanto você vivia e trabalhava em
Londres? - ela não conseguiu se impedir de usar um tom de censura.
-
Eu tento dividir meu tempo entre os dois lugares. David é uma
criança muito ativa e para ele é muito melhor estar na fazenda que
na cidade. Eu passo tanto tempo lá quanto é possível.
Mas
ele não estava lá todo o tempo. Pobre David, sem mãe... E com um
pai que aparecia só de vez em quando. Ao menos Ronald planejava
levar o filho para a Austrália com ele.
-
E o que exatamente você quer de mim?
Ele
baixou a xícara e sorriu. Era um homem complacente demais para o
gosto dela.
-
Parece que nós dois temos algo a oferecer ao outro. Eu lhe ofereço
um vôo de graça de volta para a Austrália, espero que nos próximos
dois dias, e um trabalho muito bem pago perto de Melbourne pelos
próximos três meses ou mais. Pagarei parte do seu salário
adiantado para provar minhas boas intenções. Em troca, você vai me
ajudar a cuidar do David durante o vôo e depois em minha fazenda de
ovelhas, em Victoria. E já que sei que você é uma contadora
qualificada , e que pretende continuar trabalhando com isso, por isso
vou pedir para que cuide da contabilidade da fazenda para mim, e
possivelmente você terá de fazer alguma auditoria. O que você
acha?
Ela
passou a língua pelo lábio, pensativa.
-
Há apenas uma coisa. – Hermione hesitou. Na verdade, havia uma
série de coisas mas uma delas era mais importante que as outras.
-
O que é?
-
A razão por que estou tão ansiosa para retornar para Melbourne...
-
Você tem... Alguém esperando por você em Melbourne?
-
Não, de forma alguma! Eu não tenho ligação alguma. E não
pretendo ter. Nunca mais.
Em
vez de parecer chocado ou surpreso, ou de dizer que um dia ela
encontraria alguém que a faria mudar de idéia, ele sorriu, quase
aprovando.
-
Você está cansada de amor e de todas essas coisas? - perguntou ele,
parecendo mais curioso que preocupado.
Ela
desviou os olhos antes de responder.
-
Posso viver sem outro homem em minha vida.
A
traição de Vitor, e a miséria que Dino Thomas fazia sua irmã
sofrer tinham sido mais que o necessário para que ela jurasse nunca
mais se envolver com outro homem enquanto vivesse. Especialmente
ingleses. O amor deixa as pessoas fracas e vulneráveis, à mercê de
suas emoções. Hermione nunca imaginara perder o controle sobre sua
vida e emoções como estava acon¬tecendo com a pobre Nicole.
Chegara perto disso com Vitor e não pretendia passar pela mesma
situação novamente.
-
Então, se não é um homem, por que está tão ansiosa para voltar
para casa?
Ela
suspirou.
-
É a minha irmã.
-
Sua irmã? - dessa vez ele ficou surpreso.
-
Minha irmã não está bem. Está grávida. E ela fica tão enjoada
que teve de deixar o trabalho como modelo. E... E o marido dela não
ajuda em nada. Seja financeiramente, seja de qualquer outro modo. -
Depois de ter começado, continuou falando até terminar a história
- Dino, o marido dela, está desempregado. Ele se envolve em esquemas
malucos que nunca dão certo. Quando ganha algum dinheiro, geralmente
no cassino ou nas corridas, ele aposta tudo novamente. Então eles
estão sempre lutando para pagar as contas. E agora ele quer que ela
tire o bebê. É tão... Tão injusto! Tudo o que Nicole sempre
desejou foi uma vida normal e feliz. Um marido, uma casa e filhos.
Ela está realmente mal.
Hermione
ficou vermelha ao parar para respirar, certa de que agora Ronald
devia estar arrependido de ter lhe oferecido um emprego.
-
E você se sente responsável por ela? - Em vez de recuar, ele
parecia disposto a continuar avançando. - E quanto ao resto da sua
família? Seus pais? Algum outro membro da família?
-
Somos apenas Nicole e eu - ela o fitou, considerando o olhar de
Ronald desconcertante. Para evitá-lo ela se concentrou nos lábios
dele, que eram fortes e sensuais. Outro erro. Hermione desviou os
olhos e pegou a xícara, apesar de estar vazia.
-
Então não há ninguém?
-
Não. Nossa mãe morreu quando Nicole estava com três anos, e eu com
oito. Nossa avó ajudou papai a nos criar, mas a vovó morreu antes
de Nicole fazer dez anos. Nosso pai morreu quando Nicole estava no
último ano da escola... Eu estava na faculdade. Então eu realmente
fui mãe para Nicole pela maior parte da vida dela, e fui a única
responsável por ela desde que papai morreu.
-
E continua se sentindo responsável, mesmo depois de ela ter se
casado?
-
Tentei não interferir, mas foi difícil depois que vi o que o marido
estava fazendo com ela. Ele entrou na vida dela como um cavaleiro de
armadura reluzente e ofereceu-se para ficar lá aos pés dela. Ele
tinha dinheiro nessa época, de uma grande aposta no cassino, eu
acho, mas de fato. - Ela se deteve no que estava fazendo. Falando de
seus problemas, ou ainda pior, falando dos problemas particula¬res
de sua irmã com um homem que pelo que sabia podia ser igual a Dino
ou Vitor?
Mas
havia uma grande diferença. Este homem estava lhe oferecendo a
chance de retornar à Austrália em alguns dias, além de um emprego
com bom salário em Victoria por pelo menos três meses. Ela seria
louca se deixasse uma oportunidade assim passar.
-
Eu... Eu vou precisar de alguns dias em Melbourne com minha irmã. -
disse ela, desejando ser honesta, mesmo que isso pudesse significar
perder o emprego. - Quero me assegurar de que ela está bem e fazer o
que for possível para ajudá-la a se levantar novamente.
Dizendo
isso, Hermione ergueu os olhos cheios de expectativa para ele.
-
Não tem problema. Eu vou mesmo ter de passar alguns dias em
Melbourne antes desse casamento ao qual tenho que ir e quero dar uma
olhada no centro de informações tec¬nológicas que criei em
Melbourne no ano passado. Ele é dirigido por australianos, e está
indo muito bem. Eu tra¬balho com eletrônica - explicou ele - com
meu cunhado, Harry, que tem base em Londres. Nosso negócio tem sido
lucrativo o bastante para ajudar a financiar nosso interesse por
fazendas. Por isso, Hermione...
Os
olhos azuis dele eram persuasivos ao fitar os dela.
-
Três dias em Melbourne seria o bastante para acertar as coisas com
sua irmã? E lembre-se, este lugar para onde você irá, estará a
apenas um telefonema de distância dela e a menos de três horas de
Melbourne de carro. Não é como se você estivesse indo para o meio
do deserto.
Ela
respirou fundo novamente. Estava sendo louca de sequer considerar a
hipótese de trabalhar para aquele ho¬mem? Este homem perigosamente
sensual e atraente? E ainda por cima, inglês? E como o tal "filho
hiperativo" a aceitaria? E ela a ele? Havia apenas um jeito de
descobrir.
-
Sim, três dias com minha irmã será o bastante. - decidiu ela.
Nicole bem podia mandá-la cuidar da própria vida no primeiro dia,
não seria a primeira vez. Ou talvez Dino fizesse isso. Ele devia ter
uma boa idéia do que Hermione pensava dele, já que jamais
conseguira esconder.
-
Então... Você vai aceitar o trabalho? - perguntou Ronald antes de
ela poder mencionar suas regras e condições. Ele já estava se
recostando na cadeira, tão seguro de si, enfiando os polegares nos
bolsos da calça. Ela o deixou esperando por três segundos
inteiros.
-
Estou preparada para conhecer seu filho. - disse ela com cautela. - E
sua mãe. – "Para ter certeza de que eles existem de verdade",
completaram seus olhos. - Dou minha resposta definitiva depois
disso.
-
Parece-me ótimo! - concordou ele com um sorriso
aberto
