Louco Amor
Capítulo 2
O fogo crepitava com estardalhaço, um quente brilho alaranjado contra uma negridão sem fim. Nem as estrelas estavam visíveis.
- Nada mau – conformou-se Sakura.
Sasuke deu de ombros.
- Já fui escoteiro – informou, seco.
A poucos passos, estava o abrigo tosco, porém sólido, que ele construíra a parti de galhos de árvores e folhagem, usando apenas seu canivete e as miniferramentas de Sakura. Cuidara de guardar certa distância da orla marítima, de modo a ficarem seguros mesmo na maré alta.
Sentada na areia de pernas cruzadas ao estilo indígena, a moça contemplava as chamas.
- Ei, duquesa? – provocou o piloto, em tom amigável. – Fiz o serviço pesado, montando a fogueira e nossa casinha. Que tal agora você preparar o jantar?
Sakura estreitou o olhar, porém levantou. O tornozelo já estava melhor, mas ela continuava poupando o pé esquerdo. Atirou no colo do piloto biscoito de água e sal.
- É só pôr o queijo em cima – instruiu, estendendo o ingrediente.
- Por hoje, tudo bem – replicou Sasuke, mordiscando um biscoito. – Por acaso não é pescadora de mão cheia, é?
- Receio que não – declarou Sakura. – E você?
- Vou descobrir amanhã – replicou o piloto, bem-humorado. – Mas... Fale-me de seu trabalho, srta. Haruno.
Ela deu de ombros.
- Não há muito o que contar. Sou designer de jóias. Comecei como estilista e continuo na área, criando principalmente modelos de noite. Mas o que me tomas mais tempo agora são as jóias.
Sasuke se deu conta, então, de que já lera alguns artigos a respeito da jovem. Não era só uma designer. Muitos a consideravam a rainha da moda contemporânea. Algumas das jóias, ela criara especialmente para complementar os vestidos glamourosos que confeccionava.
Sabia também que ela não era casada. Havia quatro anos, mantinha relacionamento com um produtor da Broadway.
- Quer dizer que estava em Sidney a negócios? – especulou mais um pouco, saboreando o biscoito com queijo.
- Sim... E não – retrucou Sakura, evasiva. – É que minha cunhada mora em Sidney.
- E seu irmão?
- Ele morreu – informou, sucinta, engolindo o nó na garganta. – Vou a Sidney com freqüência comprar ouro, e aproveito para ver Yuki.
- Sempre solidária, não é mesmo?
Sakura o fitou muda, estarrecida diante do sarcasmo, da insensibilidade.
- Duvido que conheça o significado da palavra "solidariedade", Sasuke. De qualquer forma, pouco me importa sua opinião a respeito do que quer que seja, e com certeza não continuarei na companhia de um homem que não conheço e que não sabe absolutamente nada sobre mim.
Encolhida sobre a areia num dos cantos da barraca, Sakura acabou adormecendo, embalada pelo som das ondas morrendo na praia e da brisa por entre a vegetação. Sonhou com o irmão gêmeo já em agonia, decidindo abrir mão do tratamento...
Sakura despertou chei de preguiça, mas logo se animou, ao sentir um cheiro delicioso de... peixe assado! Ora, o piloto se descobrira pescador, também? Deixando o abrigo, apreciou o desjejum que se tostava sobre as brasas e olhou ao redor, cogitando onde estaria Sasuke.
Localizou-o entre as ondas espumosas, tomando um delicioso banho de mar... Completamente nu!
Parecendo revigorado, ele correu ao seu encontro, alisando para trás o cabelo ensopado.
Estupefata, Sakura criticou:
- Você não tem vergonha não? Sou mulher, caso não tenha percebido.
O piloto pôs as mãos na cintura.
- Qual o problema, srta. Haruno? Não está gostando do que vê? Ou será que está gostando demais?
Assim desafiada, Sakura disfarçou o embaraço e o fitou nos olhos.
Fingindo indiferença, apreciou-o da cabeça aos pés, prestando mais atenção ao peito e às coxas.
Sasuke não perdera um pingo da audácia.
- Quer que eu me vire?
Ela fez um gesto vão, expressando enfado.
- Por gentileza.
O piloto deu uma volta completa, bem devagar, e parou encarando-a.
- Que tal?
Espantada por estar representando tão bem, Sakura finalizou com um bocejo.
- Nada demais, traseiro interessante.
Sasuke lançou a cabeça para trás, dando um sorriso, e vestiu a cueca e a calça.
- Quanta frieza, dona! Estou admirado. Mas devia tomar um banho de mar, também, para melhorar esse humor.
- Talvez mais tarde.
- Na verdade, pensei que você fosse dormir mais.
Sakura se aproximou da fogueira.
- O que temos aqui?
O piloto grunhiu.
- O que acha? Peixe, é claro.
- Sei que é peixe – rosnou Sakura, em tom condescendente, embora não tivesse tanta certeza assim. – Mas qual peixe?
- Olho-de-boi.
Ela se ajoelhou na areia e arregaçou as mangas da blusa, já superaquecida ao sol matinal.
- Como o pegou?
- Com uma lança, que eu mesmo fiz – relatou o piloto, orgulhoso. – Não sei quem ficou mais surpreso, se eu ou a vítima.
Sakura reprimiu o riso.
- Bom, meus parabéns! Já não está na hora de virar?
- Bem lembrado. – Sasuke virou o espeto com o peixe. – Coloquei meio alto para tentar defumar.
- Humm... – Ela procurava disfarçar a ignorância, visto que cozinhar não era o seu forte. Sorriu ao mestre cuca. – Não é que você serve para alguma coisa?
O piloto se curvou.
- Obrigado pela parte que me toca, srta. Haruno. – Sentou-se a seu lado. – Saiba que terá a oportunidade de exibir seus talentos também, hoje.
Sakura franziu o cenho.
- Como?
Sasuke explicou?
- Já deve ter percebido que aqui faz muito calor durante o dia e esfria a noite. Pensei em transformar minha calça em bermuda, de modo que você possa emendar os retalhos com o pano das nossas jaquetas, improvisando cobertas.
A estilista ouviu atenta, e então replicou:
- Fala com se fôssemos passar muito tempo nessa ilha.
O piloto pesou bem as palavras. Não queria que a moça ficasse deprimida, mas tão pouco podia lhe dar falsas esperanças.
- Como é difícil prever o tempo que as equipes de busca levarão para nos encontrar, voto por nos acomodarmos com o máximo de conforto possível. Além disso, ocupar o temppo de maneira útil contribui para preservar a sanidade mental. O tédio leva a depressão. E a brigas sem motivo.
Sakura acabou concordando.
- O peixe já não está pronto? Estou morrendo de fome.
- Quase. Por que não providencia algo para bebermos, enquanto espera?
Resignada, ela foi colher cocos verdes. Ainda não se acostumara com o sabor da água contida na fruta, mas, sedenta como estava, beberia qualquer coisa que não fosse água salgada.
Dali a pouco, os sobreviventes se refestelavam com filé de peixe e água de coco fresquinho.
- Que tal? – indagou Sasuke.
Sakura torceu o nariz.
- Prefiro ovo com toicinho defumado.
- É o que costuma ter no desjejum com seu noivo?
Ela não disfarçou o espanto. Então, o piloto a conhecia, provavelmente das reportagens que publicavam a seu respeito em jornais e revistas. O que não lhe dava o direito de bisbilhotar em sua vida particular!
- Não é da sua conta.
- Por que ainda não se casaram?
Sakura analisou a situação. Por que ainda não haviam se casado? Ela já adiara várias vezes, por causa da doença do irmão, e depois para superar a dor da perda. Mas iriam se casar, claro! Sai era bonito, inteligente, bem-sucedido. Tinham tanto em comum, respeitavam um ao outro, admiravam um ao outro...
- Não se dão bem na cama? – pressionou Sasuke.
Ela ficou rubra.
- Não seja ridículo! Nós nos damos muito bem... – Interrompeu-se, percebendo que caía no jogo dele.
- É isso – concluiu sasuke, convencido. – Não se dão bem na cama.
Ela não se dignou mais a responder.
Dando de ombros, o piloto terminou a refeição, acendeu um cigarro e contemplou o mar.
Incapaz de dar o assunto por encerrado, Sakura alfinetou:
- Pelo jeito, todos os seus relacionamentos são perfeitos.
- Não, muito ao contrário.
- Ora, por que será? – ironizou ela. – Um homem tão perfeito quanto você...
Sasuke se voltou para ela incentivado.
- Acha mesmo?
Sakura se enrijeceu.
- Fisicamente com certeza. Não sou cega.
O piloto deu um meio sorriso, meneando a cabeça. Então levantou-se e espanou a areia da calça.
- Muito bem, hora de trabalhar, companheira!
Com um suspiro profundo, ela tirou a tesoura do kit de costura.
- Não vai despir a calça?
Sasuke ergueu o sobrolho.
- Quer mesmo?
Sakura enrubesceu.
- Não... Não precisa. – De joelhos na areia, posicionou a tesoura sobre o tecido que cobria as coxas musculosas. – De que comprimento quer a bermuda?
- Bem curta! – Sasuke riu, ciente do constrangimento da jovem.
Ela aprofundou a carranca.
- Fique quieto. Detestaria ferir... seu orgulho.
O piloto riu novamente, rouco e sensual.
- É muito corajosa srta. Haruno, mas não a esse ponto, quero crer. Não seria tão insensata...
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Kissus.
