Era uma Vez em Veneza

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O palazzo, como chamavam o lugar onde eu agora morava, ficava em frente ao maior canal de Veneza, de onde eu podia vislumbrar, das janelas altas de meu quarto, a agitação da cidade, os caminhos labirínticos que a água fazia, e as gôndolas que por ali passeavam, sempre, incansáveis, como folhas deslizando sobre a superfície calma de um córrego.

Ali tudo era feito de grande beleza: canais cortados por pontes em arcos; igrejas altas, com vidrais coloridos e torres se projetando para o céu como se tentassem desafiar Deus com sua opulência; casas de arquitetura intrincada e harmoniosa, feitas de pedras pesadas que se mantinham unidas como se forças da natureza assim desejassem. A quantidade de pessoas andando pelas ruas – algumas com roupas de tecido agradável ao olhar, cheias de pequenos detalhes, como babados e broches com os quais eu não estava acostumado, e outras com não mais do que panos sujos e rasgados, os pés de fora. Eu sentia como se jamais pudesse acostumar-me a tantas cores e formas.

Quando acordei de meu vergonhoso desmaio, percebi-me deitado em uma cama enorme, maior do que todas as que eu já havia visto, e era macio e confortável, tanto, que eu desejei permanecer deitado para sempre, entre os travesseiros brancos de plumas e lençóis com cheiro de lavanda. O quarto onde eu estava era ainda mais magnífico: com tapeçarias nas paredes; um armário grande com portas de madeira cheias de entalhes intrincados e complexos; um espelho que mostrava todo meu corpo e cujas bordas talhadas a ouro branco pareciam reluzir em suas formas de anjos e flores quando a luz entrava através dos vitrais das janelas.

Percebi também que estava limpo e perfumado. Toquei meus cabelos e senti-os como seda em minhas mãos; toquei minha pele e era como tocar um pêssego maduro da estação. Sorri com isso. Já não aguentava mais o odor desagradável que se impregnara em meu corpo desde que fui raptado, muito pior do que o dos caçadores quando voltavam sujos de sangue de urso e enfurnavam-se nas tabernas, entupindo-se de álcool e gordura de carnes de ovelha e porco.

Havia uma senhora, de aparência idosa e roupas humildes, no quarto, e ela soltou um gritinho abafado ao ver-me acordado. Tomei um susto também, mas consegui manter-me impassível ao encará-la. Meus machucados não latejavam mais. Na verdade, não sentia mais dor alguma, e sorri novamente por isso, esquecido da mulher que, depois de falar algo que eu não entendi, saiu do quarto. Percebi também que estava vestido com um tecido fino e liso, tão resvaladio que lambia meu corpo com uma suavidade deliciosa.

Não demorou para que a porta abrisse de novo, e era o homem de olhos verdes que entrava no quarto, com a mesma senhora de antes em seu encalço. Ele parou a alguns passos da porta, encarando-me daquele jeito que parecia me despir a alma pela forma como seus olhos brilhavam. Desviei timidamente o olhar, mordendo o lábio inferior. Só naquele momento eu reparei nele mais nitidamente, agora que meus olhos não estavam inchados pelo choro e minha mente cansada demais para guardar os detalhes.

Ele vestia-se de veludo e linho bem cortado em tom de marrom e preto, um ar sóbrio. Era deslumbrantemente alto. Não tão alto quanto meu pai, mas de uma altura que impunha respeito, e fazia com que eu me lembrasse do meu tamanho miserável. Seu rosto era de um maxilar forte, lábios proporcionalmente cheios, que combinavam com o nariz reto e bonito. O rosto era grave e magnético.

Lembrei-me de meu pai, e de como ele ficaria furioso ao ver-me abaixando o olhar daquele jeito vulnerável e constrangido, então olhei novamente para o homem, com o queixo erguido e certa petulância em meus olhos cinzentos. Esperei que ele falasse, o que não demorou a acontecer. O homem sorriu como se não me levasse a sério.

"Você finalmente acordou. Já estava preocupado que permanecesse adormecido para todo sempre." Ele falou em grego, aproximando-se da cama e sentando-se de lado sobre o colchão, sem desgrudar os olhos de mim, escrutinando-me como se esperasse encontrar algo fora do lugar. Minhas bochechas latejaram com a avaliação minuciosa.

"Por quanto tempo eu dormi?" Perguntei com a voz engrolada e fraca pelo tempo sem uso. Minha garganta parecia repleta de areia e minha boca estava completamente seca. Poderia beber um galão inteiro de água naquele momento.

"Vinte e cinco dias." Ele disse suavemente e estendeu a mão em direção ao meu rosto. Encolhi-me sobressaltado, esperando por um tapa. "Calma." Ele disse sorrindo novamente, mas havia uma ruga de preocupação em sua testa parcialmente escondida por alguns fios rebeldes que lhe caíam sobre os olhos. "Não vou machucá-lo, só quero ver se não está febril. Você delirou de febre por dias."

Ele tocou minha testa, e eu soube que não estava com febre, porque a pele dele pareceu queimar sobre a minha, tão quente era sua mão. Mordi o lábio inferior de novo, ousando olhar para as orbes verdes enquanto ele mantinha um olhar atento para um ponto acima de meus olhos. Eram olhos lindos os dele. Havia um círculo verde-escuro ao redor das íris, que clareavam em dégradé – feixes verdes de todas as tonalidades que pareciam fios de joias preciosas fundidas – até os pontos negros como vácuo no centro delas. Eu nunca havia visto olhos tão densos e hipnotizantes.

"Você estava empapado de suor ontem quando a febre cedeu, então mandei que lhe dessem um banho. O médico falou que você deveria acordar em breve." A mão que estava em minha testa deslizou gentilmente e afastou alguns fios de cabelo de meu rosto, colocando-os atrás de minha orelha. Estremeci com o toque tão suave. Há quanto tempo alguém não me tocava assim, com carinho? Acho que a única pessoa a fazer isso foi minha mãe, e ela já estava morta há anos.

"Obrigado." Falei, esquecendo-me de minha petulância. Eu não sabia o que esperar do homem que me salvara e que agora olhava dentro dos meus olhos de modo tão preocupado. Quis saber o que ele estaria pensando e o que planejava para mim. Eu estava agarrando-me debilmente à possibilidade de que ele quisesse apenas me ajudar.

"Você vai ficar aqui, nesta casa." Ele disse em um tom firme e decidido, e eu arregalei um pouco os olhos. "Quando estiver totalmente recuperado, poderemos conversar sobre o seu futuro e o que você deseja fazer. Mas por hora, você precisa recuperar suas forças. Deve estar faminto."

"E com muita sede." Admiti torcendo o lençol da cama entre meus dedos. Falar em voz alta pareceu intensificar ainda mais minha fraqueza e minha sede, e meu estômago rugiu insatisfeito pelo tempo sem uso. O homem soltou uma risada e se levantou.

"Vou mandar que lhe tragam algo para comer." Ele disse, fazendo algum sinal para a senhora que continuara parada perto da porta segurando as mãos em frente ao corpo, a expressão ansiosa e preocupada. "Depois voltarei aqui para ver como você está, mas preciso sair no momento. A Sra. Pomfrey vai cuidar de você enquanto isso."

A Sra. Pomfrey saiu do quarto antes, e imaginei que ela havia ido buscar comida e água. Antes que o homem saísse, contudo, chamei-o com uma voz ansiosa:

"Espera!" Ele se voltou para mim novamente, ainda segurando a maçaneta da porta enorme de carvalho. "Eu ainda não sei o seu nome."

"Harry Potter." Ele me encarou detidamente. "Mas pode me chamar apenas de Harry."

Ele saiu do quarto fechando a porta com um baque suave, e eu voltei a deitar na cama, encarando o teto de dossel, branco como a neve das distantes estepes geladas. As cortinas grossas e pesadas ficavam presas a cada duas das quatro colunas da cama, em uma armação que me fazia sentir entre nuvens felpudas. Talvez do inferno, eu houvesse ascendido ao paraíso.

XxX

"Não beba tão rápido! Vai se engasgar, criança!" Sra. Pomfrey repreendeu duramente. Ou pelo menos foi o que seu tom de voz me deu a entender, já que eu não entendia absolutamente nada do que ela falava. Era uma senhora baixinha e gordinha, de aspecto severo, porém gentil. Havia rugas nos cantos de seus olhos e linhas de expressão ao lado dos lábios e na testa, que parecia sempre franzida. A pele das mãos também era enrugada, com algumas manchas claras, mas eram mãos tão firmes quanto às de qualquer jovem.

Ela voltou para o quarto um pouco depois com uma bandeja na qual havia frutas, pão fresco, leite gelado e carne seca. Olhei maravilhado para aquilo, como se nunca houvesse visto nada tão delicioso na minha frente. Ataquei o leite sem pensar duas vezes, sem nem esperar que ela me servisse. Apenas peguei o jarro e levei aos lábios, afoito. Minhas mãos tremeram e boa parte do leite acabou escorrendo pelas laterais da minha boca, sujando minhas vestes e parte dos lençóis. Eu acabei engasgado como punição pela minha afobação.

Sra. Pomfrey olhou-me severamente antes de tirar o jarro de minhas mãos e servir o leite em um copo, estendendo-o então para mim e ralhando novamente naquela língua estranha e suave como algodão. Bebi timidamente dessa vez, segurando o copo com ambas as mãos e sorvendo aos golinhos enquanto meus olhos espiavam de esguelha a senhora parada em pé ao lado da cama. Ela pareceu aprovar minha nova conduta.

Assim que me dei por satisfeito, depois de três copos cheios de leite, olhei para o pão, e do pão para potinhos cheios de pastas coloridas que eu nunca havia visto na vida. Mirei aquilo abismado, pegando os potinhos e os analisando atentamente. Cheirei cada um deles, torcendo o nariz e franzindo a testa e olhando-os de novo. Até que a senhora Pomfrey soltou um suspiro exasperado, pegou uma faca esquisita – pequena e sem cerdas –, enfiou-a em um dos potes, com uma pasta dourada, e passou-a no pão, para então empurrá-lo para mim.

Olhei desconfiado para aquilo, mas a fome me venceu. A pasta era doce e derreteu-se contra minha língua, e eu arregalei os olhos, antes de suspirar e enfiar tudo na boca. Logo eu já estava passando todos os tipos de pasta nos pães de forma atrapalhada e irrequieta, mal engolindo um antes de colocar outro pedaço de pão na boca. Senhora Pomfrey não ficou nada feliz com isso.

"Isso é mel." Ela apontou para o potinho de vidro com a pasta dourada. "E esses outros são geleias. Tem de morango, uva, pêssego, figo."

"Mel." Eu repeti, assentindo, apesar de não ter muita ideia do que era o tal mel, mas fora a única palavra que eu guardara. Eu estava encantado. Nunca havia experimentado nada doce daquele jeito. Só conhecia o doce das frutas que cultivávamos nos pomares nos curtos meses em que o inverno cedia e a neve derretia. Minha terra natal não era um lugar de coisas doces.

Depois do pão, arrisquei-me em um pouco de carne, mas não comi muito. Meu estômago nunca foi muito difícil de saciar, e toda aquela mistura me deixou entorpecido. Sra. Pomfrey pareceu entender e tirou a travessa de perto de mim. Ela saiu do quarto, porém eu não queria voltara dormir. Minhas pernas latejavam pelo tempo em que permaneceram ociosas. Esgueirei-me tentativamente para fora da cama, porém tudo que consegui foi cair como fruta podre no chão assim que tentei me firmar sobre meus pés. Olhei indignado para minhas pernas inúteis.

Só com muito esforço consegui me erguer, obrigando minhas pernas magrelas a voltarem a funcionar. Quando senhora Pomfrey voltou para o quarto, eu estava debruçado numa das janelas olhando completamente embasbacado e maravilhado para o mundo lá fora.

"Veneza." Senhora Pomfrey falou ao se aproximar, parando ao meu lado.

"Veneza." Repeti.

Era a primeira vez que eu via Veneza.

XxX

Senhora Pomfrey partiu assim que me julgou completamente recuperado, três dias depois de eu acordar. Eu diria que ela se apegou a mim, apesar de não conseguirmos nos comunicar, e eu também a ela. Mas ela era enfermeira, descobriria depois, e só esteve ali para cuidar de mim durante o tempo em que estive enfermo. Mas nesses três dias, foi ela quem cuidou de mim.

Vestiu-me pacientemente com roupas de veludo, seda e linho, com babados, rendas, broches e botões. No primeiro dia, escolheu roupas brancas com detalhes em dourado. Quando me olhei no longo espelho, senti-me com um fantasma, ou como as imagens de anjos que eu pintava para os monges.

Minha pele estava ainda mais branca do que eu lembrava, e meus cabelos mudaram do dourado pra o platinado em questão de dias, como se os fios houvessem adormecido junto comigo e ainda não houvessem despertado. A roupa parecia parte de meu corpo, continuação de minha pele. Meu rosto estava pálido, ossudo e fino, mas minhas bochechas, coradas devido à complicada tarefa de vestir aqueles tecidos.

"Vamos. Vou levá-lo para conhecer o palazzo antes que o Sr. Potter volte. Ele me avisou que gostaria da sua companhia no jantar desta noite." Sra. Pomfrey falou. Encarei-a com as sobrancelhas franzidas, e ela riu por um breve momento, talvez se lembrando de que suas palavras não me diziam nada. Pensei que deveria aprender logo o novo idioma.

Ela me guiou para fora do quarto e eu a segui ansiosamente. Meu coração disparou conforme avançávamos por aquele casarão estupendo, passando por corredores repletos de pinturas cheias de vida, por portas duplas e arredondadas perto do teto, atravessando cômodos com móveis de textura lisa, polidos até que brilhassem. E havia tapetes espalhados por quase todo o chão, com lindos e complexos mosaicos coloridos, e lamparinas por todos os lados, esperando a noite para serem acesas, pois por hora a luz que entrava pelas inúmeras janelas altas e quadrangulares banhava cada cômodo com uma claridade ofuscante.

Fomos à cozinha, onde fui apresentado a alguns dos empregados e pude me deliciar com os aromas dos temperos que seriam usados no preparo do jantar. As moças me olharam surpresas e tocaram meus cabelos, apertaram minhas bochechas, deram risadinhas e beijinhos em minhas bochechas. Olhei-as completamente aparvalhado e envergonhado.

"Ele é uma gracinha!"

"Parece um anjinho!"

"E esses cabelos! Que inveja!"

Quando chegamos a um cômodo onde havia uma harpa, prendi a respiração. Caminhei até o instrumento e toquei-o com admiração, a ponta de meus dedos deslizando pela madeira talhada a ouro e pelos fios que ondulavam e tremeluziam ao mais suave dos toques. Senti-me tremer junto. A harpa que eu tinha era velha, puída e com algumas cordas arrebentadas. Era herança de família; minha mãe costumava tocar e cantar para mim quando eu era pequeno. Tocar lembrava-me dela e de sua voz doce e carinhosa.

Sentei-me sem nem ao menos pedir permissão e abracei a harpa, aspirando o aroma de madeira nova enquanto minhas mãos experimentavam seus fios delgados. Eu não conseguiria tocar tão bem naquela harpa. Ela era grande, e meus braços pequenos, mas mesmo assim arrisquei-me, começando a dedilhá-la com carinho, como se fôssemos amigos de longa data. Ela soltou lamúrias tímidas a princípio, mas então tomei coragem e entreguei-me totalmente àquilo.

Senhora Pomfrey sentou-se em uma das poltronas do salão e ficou em silêncio, escutando, um sorriso quase imperceptível suavizando suas linhas de expressão. Sorri para ela, embriagado pela música. Sentia-me em paz quando tocava. Costumava viajar para lugares distantes enquanto dedilhava a harpa que fora de minha mãe, porém agora eu me via pregado ao chão. Estranhamente, não queria ir a lugar nenhum. Fechei os olhos e perdi a noção do tempo.

O problema foi quando voltei a abri-los e vi Harry parado à porta, com um dos ombros encostado à batente, os braços cruzados, enquanto me observava tocar com uma expressão indecifrável. Imediatamente perdi o controle das mãos e arranquei barulhos desafinados e desagradáveis da harpa. Parei e me levantei, os olhos baixos, sentindo-me culpado e constrangido por tocar sem saber se tinha permissão. Meu pai sempre rosnava que eu deveria procurar atividades menos inúteis para fazer, e quase esperei que Harry dissesse-me o mesmo.

"Você toca muito bem." Ele disse, porém, e eu ergui o olhar para ele.

Senhora Pomfrey pegara no sono na poltrona, e agora ressonava baixinho e ritmadamente. Perguntei-me se ela havia dormido adequadamente no tempo em que cuidou de mim enquanto estive desacordado, e cheguei à conclusão que não. Estranhei. O sol já estava baixo e pouca luz entrava pelas janelas. Não achei que havia tocado por tanto tempo.

"Aprendeu a tocar com quem?" Harry quis saber.

"Com minha mãe. Tínhamos uma harpa..." Disse meio distante. Não gostava de falar sobre minha mãe com outras pessoas. Era um sentimento estranho esse. Pensava que, não falando sobre ela com mais ninguém, eu a guardaria apenas para mim, em minhas lembranças.

Harry olhou-me levemente preocupado, ou talvez fosse minha imaginação, pois logo seu semblante jovem desanuviara. Só então reparei em como ele era jovem. Não deveria estar nem ao menos perto do trinta anos, mas, ainda assim, sua postura e suas maneiras eram de alguém maduro e confiante. Ao menos eu me sentia um ser pequeno e tolo perto dele. Sempre.

"O que acha de deixarmos Senhora Pomfrey descansar e irmos jantar?" Ele perguntou olhando de relance para a senhora adormecida, um brilho divertido em seus olhos verdes quando ela soltou alguns murmúrios desconexos sob a respiração cansada. "Ela ficou noite e dia ao seu lado enquanto você dormia."

"Eu gostaria de poder falar com ela." Admiti. Sentia falta de conversar. Há um bom tempo, na verdade. Eu costumava conversar com as mulheres do meu povoado. Mas até elas me desprezavam silenciosamente e, sempre que podiam, falavam de seus maridos e filhos ou irmãos, sobre seus feitos, sobre as caçadas. Tenho certeza que era apenas para me rebaixar, porque eu não tinha histórias minhas para contar. Poderia falar sobre meu pai, mas que honra haveria nisso?

Então eu não tinha amigos. Nunca tive, na verdade. Era estranho, mas comovente, que aqueles desconhecidos se preocupassem tanto comigo. Desejei poder compreendê-los.

"Você poderá, em breve, assim que começar a falar o italiano." Harry garantiu e caminhou até mim. Senti uma suave fisgada nas entranhas com a aproximação, e reconheci que ainda não confiava plenamente nele. Ele parou à minha frente e prendi a respiração quando ele estendeu a mão e tocou minha bochecha. "Você parece bem melhor agora: limpo e bem vestido. Branco cai bem em você."

"O-obrigado." Balbuciei vacilante. Harry sorriu como se achasse graça de minhas bochechas coradas.

"Venha, vamos para a sala de jantar. Temos muito que conversar." Ele demandou, tirando a mão de meu rosto e levando-a às minhas costas. Deixei que ele me guiasse.

Eu ainda demoraria a decorar os caminhos daquele enorme palazzo.

XxX

Eu não entendia por que uma mesa tão enorme se apenas Harry – além dos empregados, que eu duvidava que fizessem suas refeições ali – parecia morar naquela casa. Depois pensei que o lugar, como um todo, era enorme. Era apenas natural que a mesa, de madeira escura e polida, com inúmeras cadeiras uma de cada lado, e uma em cada ponta, também o fosse. Harry sentou-se em uma das cadeiras da ponta, e eu na mais próxima a ele.

Olhei receoso para os montes de talheres ao lado do meu prato. Eu não fazia ideia do que fazer com aquilo. Também estava mais interessado no banquete sobre a mesa. Nem mesmo uma dezena de homens robustos e esfomeados daria conta de tudo aquilo. Ouvi Harry suspirar exasperado.

"Eles sempre exageram, por mais que eu diga para que maneirem na dose." Ele olhou-me. "Devem estar ansiosos por agradá-lo, Draco." Havia um princípio de sorriso em seus lábios. Meu coração saltitou no peito com isso, mas eu me esforcei para não parecer muito exultante. Tenho certeza que fracassei miseravelmente.

"Eu nunca sequer havia visto essas coisas antes." Falei admirado enquanto uma das empregadas nos servia humildemente.

Harry começou a citar o que havia na mesa, mas eu me perdi depois de um tempo. De entrada comemos tomates em formato de cereja, recheados com queijo de cabra, alho, manjericão e pimenta. Havia damascos, champignons, azeitonas, torradas e pães variados. O prato principal era carne de peixe e frutos do mar, como camarões no risoto e estranhas bolinhas pretas que, Harry me explicou, chamava-se caviar.

"Obrigado, Srta. Abbot." Harry ofereceu um sorriso à moça que nos servia. O rosto dela tornou-se vermelho berrante e ela voltou rapidamente para a cozinha, com a cabeça baixa. Franzi a testa, perguntando-me que poder era esse que Harry Potter possuía em deixar as pessoas vermelhas.

Depois ele se voltou para mim e apoiou um cotovelo na mesa, enquanto me observava com aqueles densos olhos verdes. Minhas maçãs do rosto também queimaram, mas preferi imaginar que não estava tão vermelho quanto a Srta. Abbot.

"Está gostando?" Ele perguntou.

"Não é nada mal." Levei o caviar à boca, mas torci os lábios e não evitei uma careta. "Mas não gosto de caviar."

Harry riu.

"Eu não gostava também, a princípio, mas é algo que a gente aprende a apreciar."

"Por que se esforçar a comer e aprender a gostar de algo ruim? É mais fácil comer só o que tem gosto bom e não essas coisas com gosto de..." Me calei ao ver o sorriso divertido de volta aos lábios dele, de novo achando graça de mim, tive certeza.

Senti-me ligeiramente indignado, e encarei meu prato como se ele fosse o culpado.

"Você tem alguma ideia de onde você está?" Ele perguntou em um tom gentil depois de alguns minutos de silêncio. Mirei-o desconfiado. "Chama-se Veneza, essa cidade. É uma das cidades mais prósperas da Europa, devido ao comércio entre nós e o Oriente. Ela fica na península itálica entre os rios Ádige, ao Sul, e o Piave, ao Norte. O mar que você vê estender-se pela janela até o horizonte chama-se Adriático."

Ele estava deixando-me confuso com tanta informação de uma única vez.

"Sabe se Veneza está próxima de onde você mora?" Ele perguntou suavemente, e então entendi aonde ele queria chegar. Foi uma boa estratégia. Eu estava tão desnorteado pensando onde raios ficaria a tal península itálica que a pergunta não me atingira como uma adaga no peito como da última vez.

Respirei fundo.

"Eu morava em uma terra coberta por neve a maior parte do ano. Havia um rio que cortava o povoado, mas o mar era apenas uma promessa distante. As montanhas e estepes estavam sempre cobertas de gelo e lobos gigantes e famintos." Comecei a falar, minha voz estranhamente opaca e monocórdia enquanto eu brincava com um camarão com a ponta de meu garfo. "Eu nunca havia experimentado um ar tão quente como esse de Veneza, e nunca havia visto nada como essa casa, ou as outras lá fora. Eu só conhecia casas de chão batido e madeira mofada." Admiti envergonhado. Harry me escutava atentamente.

"E a viagem até aqui... prefiro nem lembrar." Estremeci. "Mas foi longa. Primeiro a cavalo, pelo continente, e eu passei desacordado a maior parte do tempo. Chegamos a um porto apinhado de pessoas e animais, e então eu fui jogado no porão de um navio, até que chegássemos em outra cidade, com prédios escuros e azulados que se amontoavam em falésias, descendo até alcançarem o porto." Eu começava a me lembrar dos detalhes só agora. "Os homens usavam turbantes e todos tinham longas barbas. Fui vendido para eles. Me avaliaram e... e me tocaram." Minha mão tremeu e o garfo caiu um tilintar lamentoso sobre o prato de cerâmica.

Harry estendeu a mão e envolveu a minha, impedindo-me de tremer tanto. Sua testa estava enrugada de preocupação e seus olhos pareciam queimar em uma fúria contida. Sua mão era quente contra a minha.

"Depois fui colocado novamente em um navio. Eu... desmaiei depois de me surrarem quando escapei do porão por pura teimosia. Quando acordei, estava... estava onde você me encontrou." Eu estava lutando para não chorar novamente. Não iria chorar. Não iria. Ordenei a meus olhos que se mantivessem secos e eles me obedeceram, por hora.

"Você vai ficar aqui." Ele disse então, e sua voz era uma carícia em meu corpo trêmulo. Mordi o lábio inferior, entendendo o que havia por trás dessas palavras: não havia mais volta. Eu não tinha para onde voltar. E, sinceramente, eu queria voltar? O passado já não mais me pertencia.

"Vou contratar professores, e você terá aulas de italiano. Aprenderá a ler e escrever. Também terá aulas de pintura, música, esgrima. Tudo que puder aprender. Cuidarei da sua educação e, quando tiver idade suficiente, poderá escolher o que quer fazer de sua vida. Você é livre, Draco. E estará sob minha proteção a partir de hoje." Ele falou decidido e gentil, seu polegar fazendo círculos lentos em minha mão.

Olhei-o longamente, reparando outra vez em todos os detalhes de seu rosto jovem e audacioso, tentando entender por que ele faria aquilo. Por que me ajudaria quando poderia simplesmente jogar-me na rua e livrar-se desse fardo. Senti que poderia amá-lo por sua bondade, e então as lágrimas desceram como cascata por minhas bochechas.

"Obrigado." Disse-lhe pela terceira vez naquele dia. Mas agradecimentos nunca seriam suficientes.

XxX

NA: Essa fanfic não tem betagem... Perdoem os possíveis erros. Avisem se virem algum. :)

E obrigada a todos que comentaram!