Tempestade

- Eu não vou morrer aqui. Eu não vou morrer aqui.

Era isso que Gina dizia insistentemente a si enquanto lutava com Harry Potter. Tinha ido muito longe para cair agora. No início do verão havia saído de Marossert e na chegada do outono já estava perto da Ala dos Granger. Não havia cruzado o mundo, mas para alguém que viajava sozinha tinha avançado bastante.

Mas ainda havia muitos obstáculos a serem vencidos, como provava aquele duelo. Conhecia os perigos do caminho desde o começo e agradecia seu pai por tê-la tratado como se fosse um de seus filhos homens, ensinando-a o mesmo que tinha ensinado aos seus irmãos. Se não fosse por isso, Fênix teria virado cinzas em Marossert tal como Gina Weasley virou.

- Voê é bom – Potter falou ao se desviar de um golpe -, mas eu sou melhor.

Mais uma vez ele avançou e ela fugiu de seu alcance. Harry Potter era maior e mais forte, porém ela era muito mais rápida. Além disso, ele lutava com armadura completa, o que o atrasava mais. Ela não tinha uma armadura para lutar e mesmo que tivesse, não a usaria. Nunca havia vestido aço e sabia que isso acabaria atrapalhando-a. Tudo que tinha para se proteger era uma cota de malha, um meio elmo e um escudo emprestados. Não se importaram em dar-lhe tais peças, pois todos no acampamento acreditavam que com ou sem elas, o pequeno rapaz chamado Fênix acabaria perdendo a luta.

Ela estava cansada. Nunca uma batalha havia durado tanto. A madrugada avançava sobre suas cabeças, mas a luta não. Hora Potter atacava e ela se esquivava, e quando ela atacava, só atingia metal. Sabia que a única chance que tinha de vencer era cansando-o. Ele mal conseguiria se mover e ela atingiria uma parte frágil – como a dobra do joelho ou do braço, onde a armadura não protegia tão bem. Ele já tinha arrancado o elmo para enxergar melhor, então também podia cortar a cabeça dele fora. Não era isso que queria, porém tinha de sobreviver. Mas algo lhe dizia... Lançou um breve olhar para os homens ao redor, centenas deles, que vibravam por Harry Potter, gritando seu nome e palavras cruéis para aquele que chamavam de Fênix. Algo lhe dizia que se matasse Harry Potter, o líder daquele Exército Alvo e que muitos pensavam ser O Escolhido para derrubar Voldemort, não sairia dali viva. Tinha de derrotá-lo, porém não matá-lo. Como fazer isso em um duelo de vida ou morte?

Voltou sua atenção para luta. Potter parecia dar sinais de cansaço também. Andava mais devagar, passos arrastados. Ela tentava não demonstrar que estava enfraquecendo. Se deixasse seu adversário ver isso, poderia abrir caminho para a vitória dele. Enquanto pudesse esconder, esconderia.

Como vencê-lo, como chegar a ele? Tentou se lembrar de tudo que sua família havia lhe dito. Tinha apenas nove primaveras quando o mais jovem de seus irmãos, Rony, partiu para a guerra. Mesmo ela tendo nove e ele quinze, duelavam. Ele lhe ensinava as posições, onde colocar os pés, como segurar adequadamente a espada, o melhor jeito de usar o escudo para poder se defender e atacar ao mesmo tempo. Ele ensinava Gina tal como seus irmãos mais velhos haviam ensinado a ele.

Mesmo antes da guerra, quando a casa ainda estava cheia, quando todos os irmãos estavam lá - desde quando ela conseguia se lembrar! -, sempre houve duelos em seu lar. Quando criança, os irmãos lutavam batalhas imaginárias contra grandes guerreiros ou dragões, transformando galhos em espadas mágicas. E também treinavam sob a orientação do pai. Era certo que famílias pobres deveriam mais se preocupar em plantar para comer do que preparar os filhos para manejar armas, porém eles eram Weasley.

- Os Weasley foram grandes e poderosos um dia – era sempre assim que Arthur começava a história da família.

De tanto ouvir da boca do pai, Gina sabia aquela história de cor. Os Weasley foram grandes e poderosos um dia, tiveram castelos e terras, vilas e povoados sob sua proteção. Era uma família nobre e boa, que acreditava no amor e isso os fez cair. Enquanto as outras famílias faziam casamentos vantajosos, os Weasley eram livres para escolher quem seriam seus maridos e esposas. Isso os fez se casaram com gente pobre, sem poder ou posses. Aos poucos a família foi perdendo terras e vassalos. Um ramo prosperou: os Black. Uma Weasley que ainda era rica e tinha propriedades se casou com um Black pobre e ambicioso. Nos anos seguintes, os Black se ergueram enquanto os Weasley caíam. Por fim só restou Arthur e a espada que havia sido da família.

- Nenhum poder ou riqueza – assim Arthur costumava encerrar a história -, mas um pedaço de terra e muito amor. Somos mais abençoados do que muita família rica e poderosa!

A queda dos Weasley nunca fez Arthur ou seus antepassados esquecerem as raízes nobres. E todo bom nobre sabia lutar, ler e escrever. Por isso, além de plantar e cuidar da terra, os Weasley dedicavam tempo à espada e ao pergaminho. A mãe de Gina, Molly, ficou um pouco contrariada quando Arthur deu à menina uma espada de madeira – como tinha feito com os filhos homens –, porém deixou passar. Enquanto ela crescia e se interessava cada vez mais por armas e histórias de batalhas do que por bordados e canções de amor, o aborrecimento da mãe se tornou uma preocupação.

- Como vai arranjar um marido assim? - Molly perguntava sempre que Gina aprontava algo, como chegar em casa imunda e com as vestes rasgadas ou cheia de arranhões por brincar de duelo com os meninos da vila.

- Eu não vou me casar! Vou me crescer e me tornar um cavaleiro!

- Nós somos pobres, Gina, e pobres raramente se tornam cavaleiros. Além do mais, você é mulher. Mulheres nunca se tornam cavaleiros. Mas elas podem se tornar senhoras de castelos e grandes damas. Você é tão bonita! Poderia arranjar um bom marido se se comportasse.

Que se fodessem os maridos que a mãe queria lhe arranjar! Ela queria mesmo era ir para a guerra como seus irmãos! Arthur era mais compreensivo, a entendia. Gina era a primeira mulher a nascer na família Weasley em várias gerações, então talvez o pai estivesse desacostumado às mulheres, por isso a travava de igual para igual. Contudo, ela gostava disso. Não achava certo seus irmãos terem mais direitos ou liberdades apenas porque tinham nascido com um pau. Ela era tão digna de qualquer coisa quanto eles ou qualquer outro homem!

Foi com essa ideia que cresceu: todos são iguais - ricos e pobres, poderosos ou fracos, homens e mulheres, alvos e negros. Todos sangravam e morriam da mesma forma frente a uma lâmina. Todos vivam e no fim caíam, alguns mais cedo e outros mais tarde.

Ela sabia que as pessoas não pensavam como ela, mas não ligava. O pai não se importava com as ideias de Gina, mas a mãe se preocupava um pouco. A garota sabia que as repreensões intermináveis por parte de Molly eram apenas porque ela se preocupava com o futuro da filha, por isso tentava não se aborrecer. Cresceu assim, entre sermões, o pai de um lado e a mãe de outro, entre os irmãos, batalhas de espadas, aprendendo a duelar, a manejar um arco e até foi obrigada a aprender a bordar. No fim das contas ela sobreviveu, mesmo que os pais e seus irmãos não estivessem ali para testemunhar isso. Se tivessem visto como ela lutou bravamente em Marossert e como duelava com Potter, a família teria orgulho dela. Podia ser o último Weasley vivo, por isso não cairia. Não diante de Harry Potter e o Exército Alvo.

- Eu não vou morrer aqui. Eu não vou morrer hoje.

Ela se desviou de mais um golpe e girou, atacando Potter pelas costas. A espada atingiria a cabeça dele se o homem não tivesse usado o escudo para parar o golpe. Um raio cortou o céu, seguido por um trovão. Mais um golpe bloqueado. Outro movimento inútil. Eles tentavam, mas não acertavam um ao outro.

No momento em que outro raio iluminou o céu, Gina ergueu a espada para atacar Potter. Ele bloqueou o golpe com o escudo mais uma vez. Tinha dificuldades nos movimentos pelo peso da armadura e pela chuva forte que começou a cair. Esses dois elementos ajudaram Gina, que viu uma oportunidade. Rápida como era, partiu para cima dele, derrubando-o no chão enlameado. Conseguiu se desvencilhar antes que o homem pudesse carregá-la junto na queda.

Depois aconteceu tudo muito rápido. Potter soltou a espada ao cair, e Gina a chutou para longe. Ela pisou no braço em que ele levada o escudo e ouviu um estalo. O homem gritou, mas ela não se importou. A lâmina estava no pescoço dele.

Conseguiu ouvir as exclamações de surpresa e até gritos de terror daqueles que a cercavam. Sentiu mais do que viu o círculo ao redor dela e de Potter diminuir enquanto os homens se aproximavam. Se deu ao luxo de erguer os olhos por um instante e encarou a descrença nos olhos de todos. Não esperavam que ela vencesse. Esperavam sua morte.

Mas aqueles homens não interessavam, só Potter. Na sombra da noite e na chuva, os olhos deles a encaravam com seriedade. Ela podia dizer que ele também não esperava por aquilo, mas sim pela vitória.

Ela não queria matá-lo, porém assim o faria se fosse necessário. Esperava não precisar chegar a esse ponto. Potter era um guerreiro valente e, pelas histórias que ouviu, um líder competente e um homem justo. Essas qualidades eram raras em Garwosth para serem desperdiçadas.

Além disso, ela havia simpatizado com ele. Desde o momento em que Harry Potter se negou a duelar com ela, dizendo que seria uma luta injusta, ela o achou digno. E aqueles olhos... Pareciam atravessá-la até a alma. Como ela podia matar alguém com um olhar como aquele?

- Renda-se – ela teve de gritar para ser ouvida através da chuva. As gotas grossas caíam sob ela encharcando-a até os ossos.

- Rendição significa derrota.

Gina apertou a espada contra o pescoço do homem, e um filete de sangue surgiu.

- Derrota ou morte. Você escolhe.

A tempestade era forte, tal como o barulho dos trovões. Raios iluminavam os rostos dos homens que esperavam para saber o fim daquele episódio.

Renda-se, ela pensava. Renda-se ou terei de te matar.

A rendição veio por fim, após um longo momento de espera. Quando Potter pediu por rendição, ela colocou a espada de lado e saiu de cima dele. O braço do homem, ainda preso ao escudo, estava em um ângulo estranho, porém ela não pôde ter certeza se estava quebrado. Parte da multidão se aglomerou ao redor de Harry Potter, ajudando-o a se erguer e levando-o para longe.

Gina se desfez do escudo, elmo e cota de malha. Tinha vencido. Poderia ir em paz, sem ninguém segui-la ou ameaçá-la. Contudo, no seu caminho havia muitos e muitos homens, que encaravam-na com surpresa ou ódio. Não gostaram de ver o líder deles perder, principalmente para um rapazote jovem como Fênix.

O melhor a fazer era partir logo. Havia vencido, portanto era livre. Abriu espaço entre o Exército Alvo sem pensar duas vezes.

- Onde pensa que vai? - a voz de Sirus Black ecoou através da chuva.

- Para o lugar de onde saí: a floresta – ela não se deu ao trabalho de parar para respondê-lo, mas teve que interromper a caminhada quando o escudeiro chamado Colin se colocou à sua frente.

Ele segurava uma espada, mas parecia tão patético com a arma que ela teve vontade de rir. Ele realmente achava que poderia impedi-la?

- Sai da minha frente.

- Você ganhou o duelo por pura sorte. Não tem o direito de ir.

- Sorte? - ela havia lutado bravamente, como ele ousava dizer aquilo?!

- Sorte – Black repetiu – Traga ele, Colin.

O escudeiro agarrou Gina pelas vestes e levou-a dali. A mão dela voou para o punho da espada.

- Eu venci, senhor. Você disse que me daria liberdade se eu vencesse.

- É verdade, eu disse que lhe daria a liberdade – Sirius Black tinha um sorriso presunçoso – Só não disse quando a daria.

Foi fácil se libertar do escudeiro e puxar a espada. Porém havia inimigos demais ali. Logo ela se viu no chão, coberta de lama e sem arma, com homens a cercando por todos os lados. Eles a ergueram e Black se aproximou. A espada dela estava nas mãos dele.

- Você é um ladrãozinho mentiroso. Reconheci essa lâmina no momento em que a vi, ela é antiga e rara. Há séculos atrás, sete armas foram forjadas, uma para cada grande família da época. Essa estava no poder dos Weasley; Arthur nunca iria se desfazer dela. Ele e a família morreram em Marossert, que por coincidência é de onde você veio. Que curioso! - o homem se aproximou mais de Gina e a encarou fixamente por um longo instante. Então ela estava novamente no chão, com a boca cheia de sangue – Você roubou essa espada antes ou depois do ataque a Marossert?

- Não roubei, senhor.

O chute em seu estômago lhe tirou o fôlego.

- Disse que não roubei! - ela gritou - Peguei de um morto, como disse antes.

- Se realmente você a pegou de um Weasley morto, sobreviveu à investida a Marossert, mas disse que saiu de lá antes do ataque. Isso faz de você um mentiroso. Tsc, tsc... Não tenho pena de traidores mentirosos.

Quando ela foi arrastada para dentro de uma tenda, enfim se abrigando da forte tempestade, estava toda dolorida. Sabia que teria hematomas em breve pela surra que tinha acabado de levar.

O chão em que foi jogada era mais gentil do que as mãos que a guiavam. Ergueu os olhos o suficiente para lançar um segundo olhar para o local onde se encontrava, notando que a tenda era digna de um rei. Caberia ali cem homens, mas naquele momento não havia mais do que duas dúzias. À frente dela, sentado no colchão de palha de uma cama improvisada, estava Harry Potter. Uma mulher estava imobilizando o braço dele, usando uma tira de tecido para amarrar um pedaço de madeira. A mulher tinha cabelos ruivos como os de Gina, mas eram de um vermelho forte, mais escuro do que o vinho, enquanto os da jovem eram alaranjados. Quando ela a encarou, viu dois olhos azuis claros como água. O coração de Gina disparou subitamente. Olhos de bruxa.

- Você quebrou meu braço. Ele já estava meio podre do meu último duelo, para dizer a verdade – Potter bebia um líquido claro de uma taça que cheirava a ervas – O que aconteceu com você? Estou vendo coisas ou levou uma surra? Há tanta lama que mal consigo lhe enxergar!

- Estou bem, senhor.

- Sirius, você bateu nele?

Black lançou um breve olhar a Gina antes de responder.

- Ele é um ladrãozinho mentiroso. Mereceu. A espada que carregava foi roubada dos Weasley.

- Eu não roubei – Gina se dirigia a Potter -, senhor. Peguei de um morto.

- Só se for um morto que matou – Black insistiu – Ele não merece a liberdade, Harry, não é uma pessoa honesta. Mate-o.

- Ele venceu o duelo, Sirius, merece a liberdade. Foi esse o trato. Mesmo que ele tenha vencido por pura sorte, ele venceu.

- Sorte? - a palavra pulou dos lábios da jovem, já estava cheia de ouvi-la – Mereci a vitória, senhor, lutei bravamente.

- Se eu não tivesse escorregado por causa da chuva, você não teria vencido.

- O que não aconteceu não se pode saber, porém acredito que venceria de qualquer forma. Senhor.

Um sorriso se formou nos lábios de Potter.

- Você é muito confiante para um menino.

- Não sou um menino, senhor.

- Ah, sim. É um homem, certo? - o sorriso de Potter se abriu – Foi uma boa luta e é difícil ter boas lutas por aqui. Obrigado.

Harry Potter ergueu a mão direita e sã, oferecendo-a a Gina. Ela olhou ao redor. Alguns homens cochichavam, olhando dela para o líder deles.

A garota se ergueu e deu passos inseguros. A mão de Potter era forte e grande contra a pequena dela.

- Você está livre para ir.

- Verdade?

- Sim. Só lhe chamei aqui para lhe agradecer pela boa luta.

- E minha espada?

- Ela fica – foi Black quem respondeu – Não é sua, pertence aos Weasley. O mais próximo de um Weasley aqui sou eu.

Ele estava errado. Ah, como ela queria lhe dizer como estava errado!

- Eu mereci a espada, senhor. É minha.

- É dos Weasley.

- Mas você é um Black. Senhor.

- Um Black foi um Weasley. Você, ao contrário, nunca foi nada além de um órfão e um mentiroso.

- Está pronto, Harry – a mulher que cuidava do braço de Potter interrompeu a discussão. Os olhos delas se voltaram para Gina.

Era impressão ou havia algo de divertido naquele olhar?

- Obrigado, Carice. Pode ir, se quiser.

- Gostaria de ficar para ver o fim desse impasse, Harry, se não se importa.

- À vontade – o braço quebrado o incomodava, isso era visível quando Potter se levantou – Se a espada pertence à família Weasley, tem de ficar com um Weasley. Vamos entregá-la a Rony quando passarmos pela Ala dos Granger.

Mais uma vez naquela noite, o coração de Gina disparou. Ele havia falado sobre Rony. Seu irmão estaria vivo?

- Rony Weasley está vivo, senhor?

- Vivo e com boa saúde. O conhece?

Gina Weasley conhecia Rony muito bem. Ela havia nascido quando ele tinha seis primaveras. Eles cresceram juntos até que, com 15 primaveras, ele foi para a guerra, tal como os irmãos haviam feito. Ele mandava corujas para casa falando das batalhas e da situação de Garwosth, porém fazia seis estações que não tinha notícias de Rony. Nesse um ano e meio de silêncio, ela ainda mantinha esperanças de encontrá-lo vivo, mesmo que achasse que eram ínfimas. Mas agora tinha certeza que ele estava vivo. Poderia chorar de alegria!

- O conhece ou não?

Gina Weasley conhecia Rony muito bem. Fênix nem tanto.

- Sei pouco dele – ela reprimiu um sorriso - Convivi mais com a irmã. A família achava que ele estava morto.

- Então você conheceu os Weasley?

Ela assentiu.

- Rony é um grande amigo – Potter continuou - Falava muito da família. Tenho certeza que ficou arrasado quando soube do que aconteceu em Marossert. Ele planejava tirar a família de lá, sabe? Pena que não deu tempo...

- É mesmo uma lástima, senhor. O povo de lá era boa gente.

- Ele deve ter roubado essa espada de Arthur em meio ao ataque dos negros – Black havia se servido de vinho, que engolia como se fosse água – Afanou e arma e escapou de lá antes que tudo virasse cinzas.

Ela queria gritar com aquele Sirius Black prepotente e indigno. Ela havia escapado sim, porém lutou com coragem. Tinha feito de tudo para levar os guerreiros para longe de sua casa, onde os pais estavam, e os atraiu para um bosque. Lá duelou com meia dúzia de homens e derrubou cinco. O sexto, selvagem como uma fera, havia lhe ferido na costela. O machucado fez mais sangue do que dano, mas foi suficiente para ela se distrair e acabar levando um golpe na cabeça. Quando acordou, a vila era toda cinzas e sangue. Só tinha lhe restado a sede de justiça e a espada.

A arma, aliás, estava nas mãos de Potter agora. Ele e Black conversavam em um tom baixo, e os homens ao redor a observavam desconfiados, cochichando aqui e ali. Ela reconheceu o tal Alastor Moody, que a capturou, falando com a mulher chamada Carice, que a fitava com um sorriso discreto. Era certo que havia divertimento naqueles olhos azuis... Olhos perturbadores, tão claros que Gina não suportou encará-los por muito tempo. Desviou a atenção para o pão e a carne sobre a mesa onde Black e outros homens se serviam de vinho. Fazia tempo que ela não comia e seu estômago roncava...

Uma mão agarrou um pedaço de pão e o olhar dela alcançou o dono daquele braço. Harry Potter a fitava também.

- Vocês podem se retirar, o espetáculo acabou – Potter falou para seus homens sem afastar os olhos dos dela - O menino é livre para ir; a espada fica. Boa noite.

De má vontade, as pessoas começaram a arrastar o pé para fora. Gina permaneceu onde estava, enquanto Potter se sentava à mesa, gesto que foi acompanhado por Black e depois pelo escudeiro Colin.

- No que está pensando? - Potter perguntou quando seus homens saíram. Ele mastigava calmamente o naco de pão.

- Que para uma tenda de guerra, este lugar é muito luxuoso, senhor. Belos tapetes cobrem o chão – na verdade, ela questionava-se sobre o que seria dela.

- O líder merece o melhor – Black parecia contrariado. Provavelmente queria a morte de Gina, não sua liberdade – Harry disse que pode ir. Desapareça, menino.

- Não sem minha espada – a arma era tudo que restava da família dela e seu caminho até Rony.

- Ela fica – Potter afirmou -, será entregue a Rony Weasley.

- Se ela será dada a um Weasley, faço questão de entregá-la. Posso guardá-la até lá, senhor.

Black riu alto, cuspindo vinho.

- Ele quer fugir com a lâmina, isso sim! Provavelmente quer vendê-la para conseguir algum ouro.

Por um longo momento, Potter apenas a encarou. Ela manteve o olhar preso ao dele por mais difícil que isso fosse. Sentiu as bochechas coraram; nunca ninguém a havia fitado com tanta intensidade.

- Diga a verdade sobre como conseguiu a espada – ele pediu.

- Arthur me deu no ataque à vila. Ele manejava a arma bem, mas por causa da perna ruim não era ágil nos movimentos. Tentei proteger – ela quase disse minha família – a família dele, mas não pude.

- Todos morreram? Arthur, Molly e Gina?

Como ele sabia os nomes, como os conhecia? Ela desejou questioná-lo. O quanto Rony havia falado sobre sua família? Seriam ele e Potter amigos próximos? O irmão nunca havia mencionado Harry Potter em suas mensagens, que sempre se reduziam a poucas linhas. Devia ser difícil escrever em meio a uma guerra.

- Todos, senhor. Até onde sei, fui o único a sobreviver.

- Rony vai lamentar profundamente. Ele costumava falar da família quando lutamos juntos... Disse que tinha uma irmã travessa que queria se tornar cavaleiro! - um sorriso se fez no rosto dele, mas logo se apagou – Quanta tristeza meu amigo terá de enfrentar!

- Não mais do que o povo de Garwosth enfrenta – o tom de Black era impassível.

- Não seja cruel, padrinho.

- Só falo a verdade.

- Enquanto bebe do meu vinho. Tenho certeza que se lembra da regra que existe nos quatro cantos de sempre ser gentil na mesa alheia.

- Tenho certeza que se lembra de que não sou homem de ser ameaçado.

- Não é uma ameaça, é um lembrete. Que humor o seu! Só porque o rapaz não morreu ou o vinho já lhe subiu à cabeça?

Black não respondeu com palavras, mas com um gesto. Ele saiu pisando firme e levando uma jarra de vinho.

- Perdoe-me os modos de meu padrinho, ele não suporta perder. Menino... Fênix, não? Sente-se. Sente-se e coma. Estou cansado de ouvir sua barriga roncar com o cheiro da comida.

Ela não precisou de um segundo convite. Ocupou o lugar onde antes estava Black e tentou enfiar tudo goela abaixo ao mesmo tempo: pão, carne e vinho. Se deu conta que agia como uma selvagem na frente de um nobre quando notou Potter e o escudeiro encarando-a.

- Depois você diz que eu tenho modos ruins, milorde – comentou o escudeiro.

- Me perdoe os modos, senhor – ela tentou engolir antes de falar, mas a boca estava muito cheia para isso.

- Não vamos nos desculpar, afinal não estamos no salão de um castelo, mas em um acampamento de guerra. Bons modos não são necessários como bons guerreiros. Você, Fênix, é um bom guerreiro. Por mais que meu orgulho esteja ferido, tenho de reconhecer isso.

- Ele só teve sorte – o escudeiro parecia enciumado pelo elogio feito pelo mestre.

- Também acho isso, Colin – Potter sorriu, lembrando da derrota com humor - Você pode se tornar um grande espadachim, Fênix. Em alguns anos você será um homem e até lá pode aprender. Se juntar-se ao nosso exército, vai aprender com os melhores.

- Ele é só um menino, milorde – o escudeiro protestou.

- Meninos crescem, Colin, tal como nós crescemos. Você tem quase 16 primaveras, está ficando velho para ser escudeiro. Quer ser ordenado cavaleiro, não quer? Em breve isso pode acontecer e eu vou precisar de outra pessoa para me servir – os olhos de Potter se voltaram para Gina – Você é pequeno e fraco, mas podemos te deixar grande e forte. Se crescer e melhorar, será quase imbatível quanto tiver a idade de Colin!

- Já tenho 15 primaveras – Gina insistiu, perguntando-se em seguida se não estava sendo imprudente. Podia ter o tamanho adequado para uma mulher com 15, mas era pequena demais para um homem dessa idade – Acho que não vou crescer muito, senhor.

- Talvez ele seja um anão – o escudeiro provocou, enchendo a taça dele e de Potter.

- Ou talvez só esteja mentindo a idade – Potter retrucou – Mesmo que tenha quebrado meu braço fui com a sua cara. Seu tamanho e velocidade me surpreenderam, Fênix, e se quer mesmo entregar a espada a Rony Weasley, deve aceitar minha proposta. Junte-se ao Exército Alvo.

Lá fora, um raio cortou o céu e um trovão soou. A tempestade parecia estar longe de acabar.


Nota da autora: Aqui estou dez dias após a última atualização. Demorei um pouco mais dessa vez para atualizar porque realmente estive ocupada. Além do mais, os capítulos estão ficando maiores do que eu planejava inicialmente, portanto vocês têm atualizações menos frequentes, mas capítulos maiores.
Espero que tenham gostado desse! Sei que não mostrou muita coisa e não avançamos no tempo, porém em breve isso vai acontecer. E o Rony, bem, está vivo! Algumas pessoas me perguntaram sobre ele. Eventualmente o veremos, mas sejam um pouco paciente. Quem veremos muito, muito em breve é um certo loiro de olhos azuis que é do lado negro... Alguma aposta sobre de quem estamos falando?
Agradeço de coração a quem comentou, afinal essa é a única forma de saber o que estão achando da história. Quem lê e não comenta, peço que mande reviews, nem que seja com uma palavra. Elas me incentivam a escrever! E falando em críticas, vamos às respostas:

ooo Kiss Potter: Agradeço as palavras, gentis como sempre. Se você está amando ler esta história, imagine como estou amando escrevê-la! E ainda tem tanta, tanta coisa para acontecer... Espero ter tempo para compartilhar tudo com vocês em breve!

ooo Lella Sartori: Tenho que concordar com você, quase nenhuma fic boa é escrita hoje em dia. Também sinto falta dos tempos de ouro das fics, rs. Mas se depender de mim, você terá muito para ler! Esta história mal começou!

ooo Bia Siqueira: Ah, também adoro mulheres guerreiras! Ainda não deu para ver tanto disso, mas essa Gina é bem feminista. Claro, vive em um mundo dominado pelos homens e vai sofrer um pouco por isso, porém ela é forte, vai sobreviver! E sim, ela vai encontrar Rony, mas... Bem, espere pelo que virá!

ooo Ana Carolina Potter: Você imaginava que a Gina ganharia o duelo? Ela é uma mulher poderosa! Guerreira com G maiúsculo, ao menos nessa história! E ainda há tanto para acontecer com ela...

Beijo, gente! Espero dar as caras novamente em breve!
Lanni