As Areias do Tempo
Poeira, silêncio e vazio.
Só os mortos conhecem o fim da guerra. ¹
Meados de Novembro de 1998.
Aquelas paredes, tão conhecidas, pareciam lhe sussurrar grandes segredos, centenas de vozes contando os mistérios daquele lugar. Ela deslizou seus dedos pelas pedras gélidas sentindo a melancolia que agora emanava requên-la por completo. Asfixiá-la.
Inexplicavelmente, incoerentemente algo havia se quebrado dentro de si. Hogwarts agora não parecia mais como o santuário de conhecimento que outrora fora, ao menos para ela.
Era somente um castelo imensamente frio, grande e imponente, recoberto dos mais doces e impuros segredos.
Ela encarava as paredes de pedra, os archotes bruxuleantes, estátuas que por tanto tempo estiveram marcando seu caminho, quadros, tapeçarias, fantasmas perolados...
Em tudo ela via sangue. Em cada fresta ela via escuridão. Cada sussurro do vento gritava em sua cabeça.
A Grande Batalha de Hogwarts – posteriormente é como os livros a chamariam, mas agora, para ela, apesar da vitória, eram somente lembranças doloridas demais para serem revividas.
_ Boa tarde Hermione... – uma Minerva McGonagall visivelmente cansada a cumprimentou de sua escrivaninha na diretoria de Hogwarts.
_ Boa tarde professora, obrigada por me receber... – Hermione adentrou o antigo escritório de Dumbledore, e de Snape, sentindo toda a melancolia que aquele lugar agora emanava.
_ Por favor, sente-se. Chá...? Biscoitos? – a senhora ofereceu de uma lata cuja tampa era decorada com tecido escocês os mesmos biscoitos que ela um dia oferecera a Harry. Obviamente que eram seus favoritos.
_ Não obrigada. – ela analisou a mulher a sua frente e esta parecia algumas dezenas de anos mais velha – Desculpe me intrometer, mas está tudo bem com a senhora?
_ Na medida do possível. Estou somente um pouco cansada... Acho que isso tudo não é mais para mim. Esses garotos chegaram com fôlego renovado esse ano! – ela olhou carinhosamente para Hermione – Ainda me lembro perfeitamente do dia em que você chegou...
_ Como se eu também pudesse esquecer. Hogwarts é meu segundo lar... A senhora está pensando em se aposentar?
_ Talvez sim... Talvez não. Eu não sei exatamente como levar a minha vida fora desse castelo, foram mais de quarenta anos lecionando, mas acho que preciso de uma folga. Curtir minha velhice.
_ Hogwarts jamais será a mesma sem a senhora, professora.
_ Do mesmo modo que não é a mesma sem Dumbledore.
Ou sem o professor Snape – Hermione completou mentalmente, apertando a bolsa em suas mãos.
Minerva enxugou discretamente uma lágrima fujona e sorriu corajosa e bondosamente para sua ex-aluna.
_ Me diga o que a trás aqui, não seria para completar a sua educação, seria...? Isso seria até mesmo esperado vindo de você.
Uma sabe-tudo insuportável – ela tornou a completar.
_ Na realidade não, depois de tudo o que aconteceu no último ano eu acho que já está na hora de me dedicar a outras coisas. Eu sempre amarei Hogwarts, mas eu não posso simplesmente voltar para cá e fingir que não existe nada além a ser feito.
_ Como o que, por exemplo? Se me permite perguntar.
_ Era exatamente sobre isso que eu gostaria de conversar com a senhora. Eu preciso de um favor.
_ No que eu puder ajudar...
_ Bem... Eu soube que a senhora permitiu que Rita Skeeter tivesse acesso aos pertences do professor Snape.
_ Sim. Bem, ela me jurou que estaria desenvolvendo um trabalho sério em relação a isso, embora o resultado não tenha sido o que eu esperava. Ela distorceu praticamente tudo o que conseguiu sobre o Severo.
_ Eu sei. – ela disse desanimada – Eu também li. Foi horrível, ela o pintou como um masoquista psicótico depressivo... Ela fez a mesma coisa com o livro sobre o professor Dumbledore.
_ Eu gostaria de não ter permitido, mas ela havia conseguido Merlin sabe onde um mandato Ministerial para ter acesso ao material, eu imaginei que Shacklebolt pudesse tomar alguma atitude em relação a isso.
_ Ele deve estar muito ocupado ainda, das poucas vezes que estive no ministério ele parecia uma bagunça. Harry tem reclamado bastante também... Toda essa caça aos Comensais, os interrogatórios... O Ministro certamente tem suas prioridades.
_ Obviamente, mas aonde a senhorita quer chegar com isso?
_ Eu gostaria de ter acesso a esse material professora, digo aos pertences do professor Snape.
Minerva a analisou cuidadosamente antes de responder.
_ Por que?
_ Eu estou trabalhando numa pesquisa sobre o professor Snape também e por isso eu preciso ter acesso a esse material, eu já falei com o Harry e ele intercedeu junto ao Ministro para que ele me libere a ficha que o professor tinha junto ao Ministério e eu já obtive acesso a casa dele em Spinner's End, apesar dela continuar interditada. Estou tentando alguns contatos em St. Mungus também, para obter sua ficha clinica, mas está sendo um pouco difícil por eu não ter credenciais como a Skeeter e por não ter os mesmos contatos lá dentro que ela. Eu tinha esperança que a senhora, ao menos, me permitisse isso.
_ E se você não conseguir autorização de St. Mungus?
_ Bom... eu estou contando que eu consiga isso, porque caso contrário eu jamais conseguirei concluir essa pesquisa e teremos todos nós que nos contentar com o que aquela mulher escreveu, mas mesmo assim eu ainda gostaria de ver o que tem dele aqui em Hogwarts. Eu suponho que ele tenha passado muito tempo da vida dele aqui, mais do que em qualquer outro lugar, seria interessante de qualquer maneira.
_ Sim, a vida de Severo praticamente foi toda dentro dessas paredes.
E a morte também.
_ Ele certamente odiaria as pessoas remexendo as suas coisas, mas eu realmente acredito que você irá fazer um trabalho melhor que o da Skeeter, eu suponho que você tencione publicar a sua pesquisa não?
_ Claro, esse é o meu objetivo final, embora nem só por isso eu tenha me dedicado. Eu recuperei as memórias que ele deixou para o Harry, a casa dele também foi algo com o qual eu me surpreendi, muitíssimo interessante, como ele mesmo de fato.
_Interessante? Não sei se isso combina perfeitamente com Severo... Talvez algo como mal humorado o descreva melhor. – a senhora forçou um sorriso.
Só porque não foi a senhora que sofreu de um amor platônico a vida inteira.
_ Talvez... – Hermione também sorriu falsamente – Então...?
_ Claro que eu vou dar-lhe acesso as coisas dele. Eu suponho que ele lamentava que você fosse grifinória, mas ele teria preferido você a Skeeter remexendo sua vida, eu posso garantir. Ele nunca assumiria isso publicamente, mas ele admirava você Hermione, o seu intelecto.
Por algum motivo o sorriso dela alargou-se mais
Silenciosamente Minerva a conduziu às masmorras, levando-a até os antigos aposentos de Severo.
Todo o mobiliário estava coberto com lençóis brancos, a essa altura levemente amarelados pela poeira, tornando todo o ambiente ainda mais desolador.
_ Severo ocupou esse quarto por quase vinte anos, o único ano em que ele não o residiu foi esse último já que ele era diretor, mas de qualquer maneira ele estava trancado também durante todo aquele ano. Os pertences dele que haviam sido transferidos para a diretoria estão todos guardados naquelas caixas ali no canto, o resto permaneceu exatamente como ele os deixou. Eu desconfio que ele viesse aqui regularmente, mesmo não o estando ocupando mais. Eu tenho outros compromissos Hermione, eu suponho que você não se importará de ficar aqui sozinha?
_ De maneira alguma, eu não quero tirar mais do seu tempo diretora.
_ Excelente. Você pode ficar a vontade, mas tente não mudar muito as coisas de lugar, isso tem permanecido exatamente como Severo deixou, eu sinto que ele gostaria que continuasse assim, ele era um homem muito metódico. Eu fiquei com vergonha quando fui desocupar o guarda-roupa dele.
_ Obrigada professora, eu prometo que tomarei o maior cuidado possível.
_ Eu sei que sim. Pode ficar o tempo que achar necessário. Qualquer coisa você pode me chamar pela lareira ou chamar qualquer elfo doméstico, não se esqueça de comer nos horários corretos.
_ Tentarei me lembrar.
_ Até mais tarde, com licença.
_ A vontade diretora, até mais tarde.
A porta fechou-se levemente atrás de si e Hermione encostou-se a ela, respirando profundamente. Havia um pouco de poeira, cheirava a abandono. Talvez os elfos não viessem ali com requência.
Uma sacudidela de varinha e os lençóis voaram uniformente pela sala, dobrando-se no processo e descansando graciosamente no sofá.
Era uma sala ampla e fria, como qualquer cômodo nas masmorras ela não tinha janelas, sendo que toda a luz provinha unicamente das dezenas de velas estrategicamente posicionadas.
Algumas tapeçarias. Uma lareira enorme. Sofás verde musgo. Uma estante que ia do chão ao teto, preenchida com um solitário livro que provavelmente fora esquecido. Um pequeno bar a um canto, algumas garrafas vazias em seu interior.
Ela estivera na casa dele em Spinner's End, mas aqui, aqui, apesar de todas essas coisas, ou mesmo por causa delas, ela quase podia sentir a presença de Snape.
Ela o via sentado em frente à lareira acesa, uma taça do bom vinho dos elfos na mão, sorvendo calmamente. Um livro empoleirado em seu joelho. Ou uma redação.
Hermione passou a mão pelo sofá, sentindo o tecido macio sob seus dedos.
Uma cama de colunas dominava o espaço do quarto, a madeira negra mal divisada na escuridão. Lençóis de linho. Um guarda roupas espaçoso e bem dividido. Um único pé de meia perdido em uma das gavetas. Um cabide torto.
Alguns baús num dos cantos. Vestes negras. Infindáveis botões. Um lenço verde sonserina. Leve odor de... café?
Sem pensar muito na cena que estava criando Hermione aproximou lentamente a longa capa de Snape que estava em suas mãos de seu rosto. Surpreendentemente macia.
_ Sim... café. – ele murmurou para si mesma. Havia aquele cheiro inconfundível de roupa guardada ali também, mas havia café. Café e algo mais.
Sândalo, almíscar... – ela notou – Especiarias... Alguma coisa doce... feminina. Café por toda a parte.
Ele deveria cheirar bem...muito bem.
Seus dedos desenharam os entalhes da cabeceira da cama, galhos de rosas que se enroscavam.
O banheiro era claro e arejado, tons claros de verde. Uma banheira gigantesca. Espelhos ovais e emoldurados acima do lavabo. Frescor. Uma lâmina de barbear jogada num dos cantos de um armário pequeno. Um fio negro e longo ressaltando-se a clareza dos azulejos. Perdido. Um rótulo do que parecia ser um shampoo para cabelos oleosos, as letras apagadas pelo tempo e umidade. Desaparecendo.
Algumas centenas de livros, periódicos sobre Poções. Arte das Trevas. Um caderno de anotações.
Letra miúda. Ela sorriu.
Eu pensei que fosse letra de mulher. Ele teria me matado se soubesse.
Arquivos escolares. Alguns testes. Textos. Sua própria letra se destacando de um pergaminho qualquer.
Uma seleção de frases monótonas e repetitivas, deveria se poupar o trabalho senhorita Granger e mandar-me de uma vez uma cópia das páginas dos livros de onde retirou isso, eu tenho certeza que não faria muita diferença.
Tinta vermelha para os comentários.
Preta para a nota.
9,75.
Sabe-tudo insuportável. – o silêncio gritou na voz de Severo Snape.
Vergonha, humilhação.
Ele está morto, de que adianta pensar nisso agora? Ele provavelmente jamais se arrependeu do modo com me tratou. Por que? Por que?
Seus olhos vagaram sem rumo pelas paredes, marejados ainda com as lágrimas que ela refreou na presença dele. Ela deveria perdoá-lo agora somente porque ele estava morto?
Isso valia como uma justificativa? Ela o teria feito se ele ainda estivesse entre eles?
Não. Até que haja um porque.
O livro. Solitário. Esquecido. Perdido na imensidão vazia da estante. Empoeirado.
Hermione se ergueu da pequena muralha de papel e couro e pergaminho onde estava enterrada. Snape deliberadamente deixara aquele livro para trás? Inútil? Desinteressante?
Um diário. Somente uma assinatura meio apagada na primeira página.
Não muito antigo.
Mas não era a mesma letra. Essa definitivamente era uma letra de mulher. Não seria dele?
Ar...ne G...ass.
Impossível dizer o nome do dono. Ou dona.
Ela folheou as páginas imaculadamente limpas, amareladas também. Tudo parecia de desvanecer agora.
Sem a presença dele. Tudo. Absolutamente.
Uma corrente dourada marcava uma das páginas. Hermione tomou-a entre as mãos, curiosa.
Era somente uma corrente, mas pesava para baixo, como se houvesse alguma coisa presa na ponta.
Mas não existe ponta. – ela concluiu assombrada.
A corrente parecia surgir da própria folha, enterrada nas profundezas daquele estranho diário.
Pegue. Isso lhe pertence. – Um sussurro no vazio.
Ela olhou assustada por sobre os ombros, mas continuava sozinha.
Isso é seu. Está ai esperando por você. Pegue. Agora
Uma ordem. Ela obedeceu.
Um vira tempo. Quebrado.
¹ - essa é uma das frases que ficam rodando na minha cabeça. Sei que pertence a alguém e sei que essa pessoa não sou eu. Não me lembro onde eu li e não confio muito no google, portanto, se alguém souber a fonte e puder informar, por gentileza. :)
N/A: Meus agradecimentos a Thayz Phoenix, Any Drachemberg e Mr. Mordred, esses que agradecidamente se compadeceram de uma pobre autora.
O capitulo veio e com ele mais perguntas que respostas, creio eu. Até a próxima att.
Revisem por favor.
