É, pessoas, depois de uma longa espera... Hoho! Voltamos! Divirtam-se! Kissus!

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Capítulo 3

A cafeteria parecia cheia demais até para meus parâmetros. Demoramos a encontrar uma mesa e poder sentar. Sakura estava cada vez mais vermelha e eu particularmente adorava o fato de ser o causador dessa reação.

- Desculpe, eu não devia…

- Não devia mesmo. Nós estávamos no elevador, não havia como nos verem. – usei meu tom casual meio aborrecido.

- Mas você mesmo se comprometeu… - a confusão em seu rosto me fez querer sorrir.

- Um encontro profissional, eu sei… - me mantive neutro – Mas fica difícil, ainda mais sabendo o que você estava pensando… – uma risada pra arrematar.

Agora era só esperar a presa cair.

- Você fez de novo! – ela ficara vermelha novamente. Bingo! – Eu não estava pensando, quer dizer, não nesse sentido... Ai, ai, ai... Você acaba me deixando confusa. – fez um bico leve, sem perceber que eu a observava com total atenção.

- E não era exatamente o que eu queria?

Já havia enlaçado-a pela cintura e aproximado o suficiente para não ser rejeitado como no elevador. A outra mão segurava o rosto de Sakura, segurança de que ela não me virasse o rosto. Estranhamente, ela parecia não querer rejeitar dessa vez. Beijei-a longamente, observando calmamente o lugar e todas as pessoas que nos olhavam. Larguei-a, rindo dos lábios ainda entreabertos que ela mostrava.

- Acho que estamos chamando atenção…

O rosto confuso dela apenas me deixava mais interessado no jogo de sedução que orquestrava. Você já é minha, ainda não percebeu Sakura? Hora de me aproveitar da falta de mamãe? Não seja mal, Syaoran, não seja mal... Espera, mas eu não estou sendo mal, apenas safado e, enfim, isso eu já sou mesmo.

É, acho que é sim hora de me aproveitar!

Ela olhava para os lados preocupada, e eu analisando as expressões que seu rosto fazia. Que mulher mais desconfiada!

-Sakura, ninguém aqui vai nos reconhecer – tentei chamar sua atenção para mim e nosso prematuro e inesperado caso.

Como se adiantasse alguma coisa falar. Ela permanecia com os olhos vidrados a sua volta, compenetrada demais em salvar a própria pele para perceber que eu a observava e analisava como qualquer bom predador em uma caça não premeditada. Ela era um enigma e eu pretendia usar das minhas melhores artimanhas para poder desvendá-lo.
-É melhor prevenir do que remediar… - ela arrumou a postura, algum pensamento terrível deve ter passado por sua mente – já pensou o circo que sua mãe vai armar se desconfiar que você está saindo com a ASSISTENTE? – ela gritou em tom baixo, aquilo parecia errado até entre seus ou meus maiores pecados.
- E se for com a assistente mais linda que eu já conheci? - Joguei a típica cantada que todas se borram.
Mal terminei a frase e o esperado efeito surgiu, corando as faces dela.
Syaoran, Syaoran… Você não presta mesmo!

Tive vontade de rir e ao contrário do que fazia junto a outras garotas com as quais me controlava, senti que podia simplesmente sorrir e o fiz.

-Ah! – ela encolheu os ombros e se abaixou um pouco, apertando a bolsa contra seu corpo com mais força que antes, quando procurava avidamente por alguma espécie de espião – Isso não foi nada engraçado – me olhou de canto e não percebeu que um leve biquinho aborrecido se formava.

Sou o maior adorador de reações involuntárias como aquelas que Sakura expressava tão bem, elas são… tentadoras.

Mais uma vez, não me contive.

Roubei-lhe os lábios, mantendo preso seu queixo entre meus dedos. Era delicioso aquele jogo de gato e rato. Ela não tentava fugir, mas ela não se mantinha totalmente conectada ao momento. Parecia sofrer uma terrível briga interna.

Pensei em praticar aquele lance da indiferença, mas talvez fosse perca de tempo com alguém como ela. A faria ficar aborrecida e triste e essas eram características que eu não queria causar-lhe.

-Claro que teve graça – afastei meu rosto, deixando-a com vontade de mais – Não foi exatamente uma piada, mas, admita, você também achou engraçado – olhei para o café que esfriava sobre nossas mesas – Será que temos tempo para mais uma rodada?

-Mais uma? – ela encarou o liquido preto que repousava intacto dentro do copo plástico – Mas, nem terminamos de tomar esse – ela arregalou os olhos surpresa comigo.

Durante aquele intervalo em que ela se prendia observando e assimilando os fatos, virei a minha bebida como se fosse tequila, pronto para uma nova sessão de disputa de copinhos.

'E tragam o limão, o sal já está na língua!', tive vontade de gritar bem alto, batendo o copo sobre a mesa de maneira animada.

Observei a reação dela, ainda bem que não havia aprendido a ler mentes. Certamente não adivinharia o que estava pensando, mas saberia que não era nada muito produtivo.

-E então? – prestei atenção em suas mãos, que agora seguravam de modo apreensivo o copo – Eu chamaria isso de desperdício – apontei para o que ela segurava – ou de sovinice – relaxei os ombros.

Ela começou a tomar, não sei como não engasgou. Para deixá-la menos confortável ainda, ficava observando-a totalmente conectado a todos os seus movimentos e gestos.

Vez ou outra nossos olhares se cruzavam deixando-a mais desconfortável e eu mais feliz.

Mal Sakura afastava o copo da boca, já o colocava no lugar novamente, como se estivesse com medo de levar uma bronca dos pais por não comer toda a comida. Sua infância deve ter sido interessante.

-Ter irmãos Srta Kimonoto? – coloquei um ar profissional entre nós, apenas para confundi-la.

-Quer saber sobre minha família Sr Li? – ela me olhou com brilho no olhar, parecia contente pelo repentino interesse, mesmo que distante.

Eu não queria desapontá-la, estava gostando de vê-la satisfeita e mais a vontade, mesmo aquilo não fazendo parte dos meus planos para nosso joguinho regrado de café.

-Diga-me sobre sua família – aproximei-me dela, prestando atenção.

- É uma família pequena e sem luxos, senhor Li, nada que o senhor esteja acostumado...

Aquilo não fora bom, ela se acanhara de repente... Algo que não gostava na família? Talvez problemas com os pais... Era melhor mudar a tática e fazer as descobertas de outra maneira.

- E a que você acha que estou acostumado? – era hora da tática filhinho abandonado – Não tenho lá uma família muito unida, senhorita Kinomoto...

- Mas você é o filho de... Yelan Li – ela disse o nome de mamãe baixinho... Medo de invocá-la, como num passe de mágica? – Qualquer um com sua sorte tem uma vida e uma família melhor que a da maioria...

- Sua família não é boa? – ataque quando ela estiver desprotegida, 100% de aproveitamento.

- Minha família é perfeita, senhor Li. Meu pai e meu irmão são amorosos e cuidam de mim mesmo estando longe... Tia Sonomi e Tomoyo sempre me visitam e trazem os vídeos antigos, a Tomoyo sempre gostou de me filmar... – as últimas palavras saíram tão fracas que eu tive de me esforçar pra ouvir.

"Por que eu estou falando isso pra ele?" era o que estava escrito no rosto dela. Minha gargalhada fez com que alguns rostos se virassem para nós e que ela se afundasse um pouco na cadeira, puxando a bolsa pra cima.

- Você sabia que queria me contar, não fique tão envergonhada...

- Você está lendo minha mente de novo! Você tinha prometido não fazer de novo!

Eu me odeio! Como eu sou tão... bom! Fatality! Finish her!

- Mas eu não ouvi nada sobre sua mãe...

- Minha mãe... - Ela começou com a voz embargada. - Minha mãe é um anjo que zela por mim, de longe.

Anjo... Zela de longe... Morta!

Fiquei sem reação por um tempo, deveria comentar alguma coisa, mas exatamente o quê?

- Hum… então teremos de ir até um templo, devo agradecer a minha sogrinha por você ser quem é – tive de me chutar mentalmente, sabia que não era um comentário muito delicado, mas eu não havia sido treinado para momentos como aquele.

- Se não voltarmos para o trabalho nesse minutinho, não será necessário irmos a um templo – Sakura olhou o relógio em meu pulso assustada – Perdemos um tempo precioso conversando sobre assuntos desnecessários, vamos logo Senhor Li! – Sakura se ergueu, ela não me olhou.

Fiquei me questionando se aquele era o efeito do meu comentário.

Sei bem que se ficasse calado, ela teria se sentido ofendida, se dissesse alguma brincadeira sem graça, ela também se sentiria ofendida… aquilo foi o melhor que pude fazer e… SIM!

Praticamente gritei dentro de mim, levei as mãos a cabeça, senti-me zonzo com minha esperteza. Palavra tão simples seria capaz de salvar o meu desastroso abismo sem fim durante um percurso de queda.

-Desculpe – fingi timidez e a olhei de canto de olho – Eu não… - Sakura me olhou, engoli as palavras antes mesmo que meu cérebro pudesse processá-las.

-Tudo bem Syaoran – Ela perdeu totalmente a expressão de seu rosto, parecia ter alguma espécie de assombração atrás de mim.

Me contive um tempo, imaginando se seria seguro olhar para trás, já havia invocado os mortos, não seria nada educado confronta-los naquele momento.

Fingi tomar meu café, apenas para tentar ver se havia alguma coisa atrás pelo reflexo negro, mas foi impossível. Tive meus olhos tapados e meu nariz lotou-se por um perfume forte e enjoativo.

-Adivinha quem é – uma risada assustadoramente estridente.

Levei as mãos de imediato por sobre as que me impediam a visão, tive uma leve lembrança de quem poderia ser a dona delas, mas meu cérebro se recusava a aceitar.

-Olá querida… - sorri começando a me virar para fitar a ruiva atrás de mim.

-Ah! – ela se exibiu por cima de meu rosto, com toda sua cabeleira bem produzida e um sotaque estrangeiro, apesar de ser japonesa – Você é bem espertinho, hein? – levei um tapa no peito e logo ela sentou-se ao nosso lado.

Quando a encarei por um tempo a mais, percebi, em seu sorriso, que estava em sérios apuros.

-Como vai? – tentei desviar a atenção do que poderia vir à frente.

-Melhor agora senhor Gravata Borboleta – ela fez um biquinho insinuante.

Não sei o que exatamente deu em mim, mas não tive vontade de puxá-la para dar-lhe um bem merecido beijo, apenas fiquei imaginando o quanto o bico que Sakura fazia era infinitamente mais provocante e sedutor, mesmo essa não sendo a intenção.

Olhei-a, já estava silenciosa há muito tempo, comecei a me preocupar com seu bem estar.

-Olá – Sakura me notou e como reação, cumprimentou-a e estendeu a mão para a mulher se sentara à mesa conosco.

-Hum… - ela encarou a mão insegura de Sakura por um tempo – Olá! – pareceu desinteressada, mas a cumprimentou com um sorriso indagador – De volta – ela piscou para Sakura não percebendo reação alguma e aproveitou-se para voltar sua atenção a mim – Quando vamos repetir a dose? – me deu um doloroso beliscão na barriga.

Engoli a seco com a pergunta, eu mal conseguia lembrar daquela mulher, estava fingindo e torcendo para que surgisse uma brecha que me permitisse simplesmente desaparecer dali. Ela havia estragado o jogo que eu construí com cuidado e quando Sakura já estava prestes a cair na rede, ela surge e arruína meus planos.

Que raios de mulher era aquela?

Tenho de passar a ser mais criterioso com as mulheres que me envolvo.

-Ei! – Sakura percebeu minha ansiedade, talvez estivesse começando a pegar a manha de ler a mente – Posso colocar na agenda do Senhor Li esse encontro, apenas me diga seu nome e, - ela deu uma risadinha leve – para sua sorte, estamos com a semana bem vagaaa… - parecia satisfeita.

Tive vontade de lhe punir por mau comportamento, mas o olhar ameaçador que a intrusa lançou sobre Sakura foi o suficiente para ela tremer nas bases, mas logo depois, o olhar de amizade e cumplicidade me deixou desentendido.

-Sabe - ela falou para sua mais nova aliada – aquele lance de noites inesquecíveis – apontou para mim – o que tivemos há duas semanas atrás superou qualquer expectativa, né?

-Bem… - não que eu estivesse entrando naquela onda que ela estava criando, mas, eu era realmente bom de cama, fazer o que, tinha apenas de concordar e… - se você ficou satisfeita…

-Ah! – ela me puxou para mais perto e inclinou-se sobre a mesa – Deixe de ser bonzinho, não combina com você. – afastou-se – Ele colocou uma gravata borboleta vermelha, assim como eu tanto queria e em seguida eu liguei o som para tocar o hino nacional – suspirou imaginando a cena, possivelmente – Então, o mais delicioso – fez um movimento rápido com a boca – em seu abdômen, um círculo vermelho feito de cobertura de sorvete de morango e… - ela deu um suspiro e um gritinho nada discreto.

Foi então, que finalmente lembrei da ruiva. Foi a pior de todas as minhas aventuras, tudo por que me deixei levar pela conversa mole de um amigo que a recompensa da mulher que tem suas fantasias realizadas é a melhor experiência.

Jamais devo dar ouvidos para esse tipo de conversa fiada novamente…

-Sabe como é – a conversa continuava em torno de mim – Intimidade, intimidade – colocou o indicador sobre os lábios pedindo segredo – mas quem é você mesmo amiga? Precisamos negociar esse horário na agenda – ela atirou-se sobre a mesa, pensei que fosse devorar a pobre e assustada Sakura.

-Eu… - ela estava em choque – gostava de cobertura de morango – ela me olhou, enquanto a mulher ria satisfeita.

-Ops! – risadinhas pausadas – Temos uma assistente puritana por aqui… Senhor Li – imitando a voz de Sakura, ela atirou-se sobre mim – Ela até que é bem bonitinha, me surpreende seus inquietos hormônios ainda não terem devorado a pobre tadinha.

O olhar que ela lançava sobre mim era venenoso. Ao menos o foco da atenção estava sendo eu e não Sakura.

-Ela é… - fui interrompido pela voz falsamente calma da 'assistente puritana'.

-Namorada dele, certo Senhor Li? – ela me sorriu e eu apenas confirmei devolvendo-lhe o sorriso, aquilo deve ter soado meio bobo, mas eu não tava nem ai, tinha preocupações maiores – e quanto a cobertura, bem original… mas dá próxima vez, se eu fosse você, tentaria com chocolate com pimenta – ela desviou o olhar para a intrusa – Torna tudo bem mais… hum – colocou o indicador sobre os lábios, aquele tipo de coisa é o que a denunciava, era realmente uma tola puritana tentando usar de pele de lobo – interessante e ousado – acrescentou, parecia satisfeita consigo mesma.

Permiti-me sorrir por um tempo, sem ao menos pensar que poderia estar sendo analisado. Namorados sorriem um com o outro ou um do outro, sem ter de dar satisfações à terceiro. Estava começando a gostar de me envolver naquela bolha da monogamia, pelo menos uma monogamia de mentirinha. Me permitia fazer coisas sem preocupar-me.

-Relacionamento aberto? – Sakura me olhou ansiosa após a pergunta.

-Sim! – ouvi sua voz.

-Não! – acabamos falando em uníssono.

A bolha havia sido estourada pela falta de encenação. Péssimos atores.

Acabei gargalhando novamente.

-Começo de namoro, pelo visto… - a mulher parecia aborrecida, cruzou os braços em sinal de impaciência e sua linguagem corporal evidenciava uma busca por compreensão.

-Não tão no inicio – comuniquei-a – mas estamos tentando passar do muito liberal para o mais convencional.

-Entendo – ela olhou no relógio por um tempo, tive a impressão de que estava analisando sua aparência ao invés de olhar as horas – Tenho de ir… muito serviço – ela piscou – Se permanecerem no aberto, dá uma passada lá em casa benzinho, tenho outras surpresinhas para você – ela beijou-me o rosto de modo convidativo e se afastou, dando um breve sorriso e aceno de cabeça para Sakura.

-Adorável! – ela comentou rabugenta começando a se erguer da cadeira.

-Também achou…?!- sorri, era divertido vê-la chateada.

Me senti meio bobo com aqueles pensamentos, mas aquela não era uma característica que gostava de manter por muito tempo, ainda mais quando sabia que estava sendo analisado por meu alvo. Caminhei até o balcão, evitando olhar para a pequena mulher que me acompanhava e planejando internamente, um próximo passo para o nosso joguinho.

Nada de novas interrupções. Não sou do tipo que gosta de tréguas antes de eu haver levado a melhor na primeira rodada.

-Tem alguma dúvida? – ouvi sua voz iniciando um novo diálogo, tirei o dinheiro do bolso e estiquei para o caixa.

Talvez, se fosse uma mulher que fosse responsável por aquele departamento, eu teria me sentido mais confortável, mas o homem de bigodinho ruivo parecia quebrar toda a minha química sempre que me olhava com indiferença. Ele queria o que tinha no meu bolso e não meu telefone, tipos de números bem diferentes…

-Dúvida? – tentei parecer desligado da conversa.

-Sobre o trabalho Sr Li – ela estava mantendo a distância e eu estava perdendo o território já conquistado.

-Não, você explicou tudo que eu precisava saber nessas nossas poucas horas Srta. Kinomoto – olhei-a e sorri – É uma excelente funcionária, se eu tiver alguma dúvida, chamo você no escritório para uma conversinha particular – me aproximei de seu ouvido – tenho certeza de que ninguém irá nos interromper, sou um chefe muito rigoroso… - sussurrei e não mais a olhei.

Conseguia imaginar suas feições. Pálida, mão gélida, corada em seguida, tremulações pelo corpo e… ela havia parado?

Virei-me atrás da pequena.

-O quê…? – não tive tempo de completar a pergunta, ela estava me fazendo perder as seqüências da minha própria fala.

-O episódio de hoje já não foi o suficiente para o senhor? – sua voz era transtornada – Eu prezo meu trabalho, me considerava extremamente profissional e competente e olha só agora – apertou com força as mãos e depois levantou o dedo em minha direção – vou me ferrar por conta do filhinho da chefona! – seus olhos era o vulcão em erupção.

-Não questiono suas qualificações e nem te faço menos digna – tentei sair por cima, não havia gostado dos insultos, ninguém me insultava.

Estou acostumado com as pessoas implorando para servirem de tapetes para que eu não pise no chão, o que era aquilo agora? Que língua mais afiada!

-Lamento então ter passado minhas qualificações erradas para o senhor – ela cruzou os braços e me encarou bufando – mas não estou mais disponível para esse tipo de coisa… - voltou a andar, desviou de mim com um pequeno esforço e seguiu.

Virei para vê-la seguir com pesados passos para o escritório. Estava realmente muito furiosa, mas se a fizesse ficar furiosa mais algumas vezes, mesmo ouvindo coisas que acho que não merecia ter ouvido, me proporcionaria aquela visão perturbadora da minha pequena andando de costas pra mim… aceitaria que ela despejasse toda sua fúria em mim.

Era um preço barato para uma visão daquela magnitude!

Mas o mais importante agora era não perder o foco: pelas regras femininas, um bom homem era aquele que fazia de tudo para se desculpar, mesmo que na maioria das vezes nós não saibamos o real motivo da briga... Enfim, a mente feminina nunca me pareceu algo para ser entendido, e tenho vivido muito bem assim. O que fazer então?

Devia ir falar com ela? De mãos abanando, nunca! Flores? Ok, flores são algo muito manjado. Bombons? Depois do copinho de café que ela mal tomou, acho que cafeína não é bem a praia dela... Pense, Syoran, pense... Claro! Como não tinha pensado nisso antes?

Quando passei por ela no corredor do escritório, Sakura desviou seu olhar do meu. Péssimo sinal, meu caro... Agora mais do que nunca era investir pesado. Esse joguinho de gato e ratinha teimosa é mais divertido do que eu havia imaginado...

- Senhorita Kinomoto, por favor venha à minha sala.

- Em um minuto, senhor Li. – a voz dela não podia ser mais fria que aquela.

Ouvi claramente os burburinhos das outras meninas do escritório, por que eu nunca me canso dos elogios? Assim que percebi que Sakura seguia atrás de mim, diminuí o passo, para ficar ao lado dela.

- Não fique brava comigo, por favor...

- Não posso ficar brava com o senhor, afinal é meu chefe e eu não devo ter sentimentos pelo senhor.

Ela não sabe como eu adoro mulher difícil!

- Não fale assim, magoa meu coração... – fiz uma carinha que mamãe me ensinara quando pequeno, pra pedir coisas ao meu pai. Sempre funcionava... – Eu sou seu namorado agora. Pra todos os efeitos e principalmente pra minha mãe, somos namorados...

Não sabia exatamente se o rostinho ou a menção do nome de mamãe a havia feito prestar uma atenção súbita no que dizia. Creio seriamente que fora Yelan...

- Aliás, sobre essa história de a senhora Li achar que somos namorados...

Brecha! Peguei sua cintura e, antes que ela pudesse reclamar, dei-lhe um beijo caloroso. Ela relutou de início, mas logo estava molinha em meus braços. Afrouxei o braço em torno dela, que repentinamente perdeu o equilíbrio.

- Eu deixo suas pernas bambas, hein?

- Ora seu! E me larga logo! – aquele empurrão doeu, nunca pensei que ela tinha aquela força toda – Já disse que entre nós há uma relação profissional!

- Diz isso pras suas colegas de trabalho. Estão todas boquiabertas de você ter saído com o filho da chefe e ainda ter a coragem de beijá-lo no meio do escritório... Tsc tsc tsc... – falei o mais alto que pude. Podia ver o rosto dela mudar do vermelho de raiva pro vermelho de vergonha, mais intenso e localizado nas bochechas. Ela conseguia ficar mais linda ainda... Foco, Syoran, foco! – Agora ou você vira minha namorada oficialmente ou mamãe vai andar sabendo disso por boquinhas invejosas e você sabe como a senhora Yelan pode ser brava quando quer...

O rosto dela agora ficara branco. Caramba, ela tem medo da mamãe! Olhou em volta, se dando conta de que todas as outras pessoas do andar olhavam para ela. São 4 ases agora, baby!

- Vem aqui. – me puxava pra sala de mamãe.

- Adoro quando você me puxa pro cantinho... – rosto mais vermelho igual a pensamento safado – E pare de pensar essas coisas, eu sou um rapaz de família!

- É você que fica falando essas besteiras... Quer dizer... Eu não estava pensando nada, eu... – e é ponto! – Por que você não pára de ler o que eu penso? E de família você só tem o sobrenome, não é, senhor "cobertura de morango na barriga"...

- Minha garota tá com ciúmes? – abracei-a, pra que ela não pudesse sequer se mover – Se você quiser eu faço isso com você também, até mudo o sabor se você não gostar de morango...

A coloração novamente tomava conta seu delicado rosto, adora ver como podia mexer assim com ela. Ela tentou se recompor, mas sua voz fraca e falha a denunciou. - Ciúmes...? - Agora ela parecia irritada. - Ousa me comparar com aquele tipinho de mulher? Ora, fracamente, Syoran!

Eu sorri, não contento minha empolgação em provocá-la, ela tornava isso tão fácil. - Voltamos aos primeiros nomes, então? - Ela pareceu confusa e precisou de alguns segundos para compreender, sua face mudando para outro tom, de novo.

- Confesso que, você causa uma certa, interferência...Nos meus pensamentos. Não consigo me manter brava, como negar o que você pede chorando...Você já não pode viver sem mim, Syoran! - Que pretensão! Essa pequena criatura, frágil e indefesa, está tentando jogar o meu jogo? Ganhar usando minhas regras? Ora, ora, parece que eu a subestimei, Sakura. E isso só torna as coisas, mais interessantes.

- Então se considera pronta para sair pelo escritório, anunciando que dormiu com o chefe? - Provoquei-a, mas pareceu não funcionar. Ela apenas acenou com a cabeça, aproximando-se e me encurralando na parede. Que mulher!

-Você ainda não conseguiu chegar tão longe, amor – ela sussurrou em meu ouvido, me pressionando ainda mais contra a parede, me puxando para baixo e ficando na pontinha de seus pés.

Senti uma de suas pernas empurrar as minhas e ela deslizar os braços por meu paletó. Seus olhos não desviavam dos meus, como um felino atento as minhas reações. Envolvi meus braços por seu corpo e passei minhas mãos por suas costas, começando a me animar com aquele carinho. Meu rosto foi aproximando do dela, atraído pelo imã de seus lábios, que mesmo fechado, parecia conversar com os meus.

Antes do contato de nossas bocas, ela afastou, quebrando todo o clima que nos envolvia. Pela primeira vez senti meu corpo gelado, ausente do calor humano, de um calor que estranhamente me fazia sentir… algo inexplicável. Não era só corporal.

-Não fique com essa cara – ela sorriu e esticou a mão para mim.

Depois da nossa "reunião particular", saímos de mãos dadas, prontos para nos exibir como um casal. Eu, Syoran Li, um homem comprometido. Nunca pensei que usaria meu nome e essa palavra na mesma frase. Ela parecia estar numa crise interna e me agonizei por concluir que eu era o causador, estava me apegando muito a ela. Mau sinal.

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N.: Olá fanfictianos! Depois de uma longa espera as Yamashinas trazem à vocês mais um capítulo dessa nossa aventura com as devidas humildes desculpas pelo atraso da atualização, e com a esperança que todos tenham gostado dos rumos que traçamos para nossos protagonistas. Lembrando que reviews são sempre bem-vindas, eu encerro aqui, aproveitando para cumprimentar minhas irmazinhas pelo execelente trabalho com os ajustes, e agradecendo todo apoio familiar.

Xoxo

Bru-chan